
Variable Geometry Orquestra na ZDB - Sáb. 3/12
«A música produzida pela Orquestra da Geometria Variável resulta do jogo do material acústico versus o electrónico, numa contínua busca de pequenos detalhes e significados - o som rompe do silêncio para nele voltar a megulhar...
Com esta organização formal do caos, tenta-se aplicar novos conceitos de indeterminação e composição instantânea, através da erupção assimetricamente alternada de momentos de som e silêncio (ausência de som identificável) com predominância para estes últimos, seja pela emissão de sons de características subliminares e psico-acústicas, seja pela completa ausência de sons, permitindo assim aos músicos recuperar o seu ritmo natural de respiração e sentido aleatório de pulsação, bem como escutar toda a espécie de acontecimentos sonoros que estejam a ocorrer nesse preciso momento no espaço envolvente, ou então “simplesmente” escutar o que outro músico tenha começado, entretanto, a fazer, sem a preocupação de responder imediatamente e assim encher de forma inútil o espaço sonoro».
Ernesto Rodrigues - violino, viola, direcção de orquestra
Pedro Costa - violino
Guilherme Rodrigues - violoncelo
Hernâni Faustino - contrabaixo
Sei Miguel - trompete
Marco Franco - saxofone soprano
Nuno Torres - saxofone alto
Helena Ornelas - saxofone tenor
Rui Horta Santos - saxofone tenor
Bruno Parrinha - clarinete, clarinete alto
Manuel Mota - guitarra eléctrica
Ivan Cabral - didgeridoo
Carlos Santos - electrónica
João Silva - gravações de campo, caixa de ruído
Plan - gira-discos
Jorge Travassos - fita magnética
Miguel Martins - vibrafone
César Burago - percussão
José Oliveira - bateria, guitarra acústica
Ernesto Rodrigues (direcção)
Violinista / violista de formação clássica e interesses que vão da música contemporânea (é um habitual frequentador dos seminários de Emmanuel Nunes) ao free jazz e à livre-improvisação, Ernesto Rodrigues tem protagonizado uma abordagem reducionista e de «near silence» em que a nota é substituída pelo som puro (ou pelo ruído) e a estrutura pelas texturas, com deflagração dos fraseados em elementos atomizados, quase total desaparição dos três factores essenciais da musicalidade convencional (melodia, harmonia e ritmo) e utilização de microtons ou total atonalidade.
ZDB, Sábado, 3 de Dezembro, 23h00

Partindo do princípio de que o Bruno Santos (BS) que me escreveu um e-mail é o mesmo que toca guitarra em Debut, disco recente do Filipe Melo Trio, aqui criticado, mandam as regras da deontologia publicar o comentário que se segue, reservando-me o direito de comentar também:
«Pois é, há muita mediocridade neste País e garantidamente não é o caso deste Trio. Há algo que irei fazer mais cedo ou mais tarde que é montar um projecto pseudo-intelectual e tocar todos os instrumentos que não sei tocar, mandar alta onda, dar umas entrevistas a dizer que tenho uma luz especial e que sou original e aposto que há muito crítico ou analista que vai considerar uma altíssima cena. De facto já se chegou a um ponto em que toda a gente comenta sobre aquilo que lhe apetece. No meu blogue faço uns comentários sobre comentários de comentadores, sobre agricultura e sobre escovas de cabelo. Apeteceu-me! Falo ainda desta coisa de ser original à força. Sou diferente mesmo que não goste. O preconceito está aí. Gostar de algo que não gostaria normalmente para ser diferente. Se a música é boa e bem tocada só presta se os músicos derem uns tiros para o ar que é o que muito boa gente que se pensa original e criativa limita-se a fazer. A crítica ao disco é vergonhosa e vai além do simples facto de gostar ou não da música. Ressabianço puro, é preciso relaxar. Façam como eu, vejam uns bons jogos de Bola e joguem à bola com os vossos amigos, caso os tenham. Bebam um bom vinho, etc. O azedo desaparece logo. A mediocridade impera mas o mundo não está perdido.
Bem Haja, Bruno Santos».
Passando ao lado da dissertação sobre o gosto e o objecto dos comentários de BS no blogue a que faz referência, cujo desconheço, atenho-me à parte final da carta, aquela onde BS diz que “A crítica ao disco é vergonhosa e vai além do simples facto de gostar ou não da música”. Em que ficamos? Deve ou não o texto crítico “ir além do simples facto de gostar ou não da música”? Eu penso que sim, e efectivamente não me fiquei pelo simples “gosto ou não gosto”. No texto alinhei sumariamente as razões pelas quais pessoalmente considero Debut um mau disco de jazz. Não está em causa, como observei, que os músicos saibam tocar, o que me parece óbvio e evidente. A questão é essencialmente estética e emocional, e nesse ponto Debut é chuva miudinha no molhado. Não adiantando nada, atrasa.
Não é preciso “dar tiros para o ar”, nem quaisquer efeitos pirotécnicos, como BS ironicamente aponta. Bastaria ter instilado uma boa dose de espontaneidade, frescura e emotividade no corpo convencional pelo qual optaram. Nada tenho contra o convencional, adianto já. Agora, se é para repisar, que se faça o gesto com alma e coração, e não apenas tocar à maneira de. Pessoalmente, em lugar de ouvir imitações suaves de Oscar Peterson, Wynton Kelly ou outros, prefiro os originais.
“Ressabiamento puro”, diz BS. Bom, no sentido de “farto de”, “saturado”, “desgostoso” que lhe dão os dicionários da Língua Portuguesa, concordo. Sobretudo desgostoso, pela oportunidade perdida – e são tão poucas as hipóteses de músicos portugueses gravarem discos de jazz! O que só lhes aumenta a responsabilidade quanto à qualidade do produto final. Neste caso, mantenho, não chega cumprir obediente e reverentemente as regras estilísticas traçadas por outros. Isso, o ar prematuramente decadente, a falta de identidade própria e o défice emocional – a música está emocionalmente morta – fazem de Debut um mono à nascença.
Devo observar que, pese embora o que escrevi sobre as impressões que o disco me causou, não manietei o masoquista que há em mim e castiguei-me ouvindo Debut mais um par de vezes, após alguns dias de conveniente distância profilática. Confesso que a experiência me recordou as aulas de ciências naturais no laboratório do Liceu, e os frascos de formol contendo várias espécies da fauna nacional e de outras paragens. Lembro-me da curiosidade que me despertavam, e de como ela ficava sempre muito aquém da imaginação e do desejo de ver aqueles animais vivos e em estado natural. Daí o meu putativo ressabiamento, o qual seguramente não seria para aqui chamado se em lugar de zurzir tivesse ovacionado o debutante fonograma. Mas a vida é assim, feita de flops e de sucessos. Quem anda à chuva molha-se e quem coloca um produto artístico no mercado fica sujeito ao escrutínio dos cidadãos livres. Uns apupam, outros aplaudem, aos demais é indiferente. Saudável, além do vinho e do futebol, caro BS, é saber conviver com a diversidade de atitudes e opiniões críticas. Pela oportunidade, que agradeço, bem-haja também.
Eduardo Chagas
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Resposta de Bruno Santos, em 01.12.2005:
«Se você acha que a sua crítica é puramente se o disco presta ou não, muito bem. Releia a crítica. Os comentários são abusivos e ofensivos. Quem anda à chuva molha-se e como músico profissional aguento as críticas mas não as ofensas. Mas a pura verdade é que toda a gente, nesta altura do campeonato, tem um blogue e diz o que lhe apetece. Coisas da tecnologia. Espero honestamente nunca me cruzar com vossa excelência. Faz mal à música. Tenha um pouco de >respeito por quem faz música por prazer e profissão. Será o seu um desses casos? E fico-me por aqui porque não gosto de alimentar polémicas, nem de peixeiradas (que parece o caso)».
Cumprimentos,
Bruno Santos
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Resposta, na mesma data (01.12.2005):
Caro Bruno Santos,
Rejeito em absoluto que tenha ofendido a sua pessoa, que não conheço, mas respeito enquanto tal. Jamais me passaria pela cabeça entrar por esssa via. Não há uma palavra ofensiva para si ou para terceiros nos textos que escrevi. Critico a obra, esse objecto "formolizado", e a atitude auto-indulgente e complacente dos músicos protagonistas, não as pessoas nem as profissões. Por isso, não vale a pena gastar tempo a armar-se em virgem ofendida, que isso não colhe nem tem cabimento num debate de ideias, que julgava poder ser franco e leal, mesmo quando divergente, duro e incisivo. Mas o que observo é o seu remoque destemperado, que lamento. Afinal, o ressabiamento era mesmo seu...
Não fazia tenções de me cruzar consigo, mas, pelos vistos, estou livre disso. Pena, porque até poderia ser um prazer continuar o debate sobre música face a face, já que matéria não falta: você toca guitarra há décadas, eu ouço jazz e estudo o assunto há décadas; você acha que eu faço mal à música (que bizarria, eu fazer mal à música, homessa... atribuir-me uma importância que não tenho, nem reclamo); eu acho que você, artisticamente, é capaz do melhor e do pior, como tenho vindo a notar. Como vê, não nos faltariam bons pontos de partida ou de chegada para uma acalorada e profícua discussão.
Na armadilha da ofensa é que não me apanharia, mesmo que você estivesse interessado em continuar a baixar o nível e a tentar imputar-me a montagem de uma "peixeirada", estilo que não é seguramente o meu. E o respeitinho de que fala, ham, ficou obnubilado?
Fico ciente de que não quer mais conversa, o que para mim, vistos os termos, acaba por ser assaz conveniente. Será da sua parte falta de cabedal e de capacidade argumentativa, disfarçados sob a capa de birra de alguém que não suporta ler, fundamentadamente, que o disco que gravou é fraquinho e sem graça? Seja como for, passe muito bem. E cá estaremos para falar do segundo disco do trio, que espero não demore muito e seja melhor que esta farsa, digo, falsa partida. Não será difícil, vai ver. E se assim for, terei muito gosto em, fundamentadamente, registar o facto e dele dar público e reconhecido louvor.
Viva a Restauração!
Tenha um Feliz Natal.
Cumprimentos,
Eduardo Chagas
Como líder, conhecia Joe Fiedler de dois contextos: um, mais antigo, do trio que gravou 110 Bridge Street para a CIMP em 1998, disco com o soprador Ben Koen e o baterista Ed Ware. Composições mínimas com o máximo de improvisação. Um sucesso artístico, que revelou um jovem trombonista com um som quente e moderno, partilhando o palco com um Ben Koen da mesma categoria, ambos sintéticos e concentrados no modo de dizer, tocando com verve e empatia, puxando pelos aspectos mais cooperativos da criação musical. 110 Bridge Street é um disco que revisito amiúde e que encontro sempre fresco, em parte pelas características que referi, noutra parte, pela ausência de piano e contrabaixo, o que faz sobressair os sons do metal e das palhetas. O outro momento em que me reencontrei com Joe Fiedler foi em 13 de Agosto passado, aquando do concerto que o Fast’N’Bulbous deu no Jazz em Agosto/200
5, que me há-de ficar duradouramente na memória.Eis que este mês Fiedler regressou aos discos e imagine-se, pela mão da portuguesa Clean Feed. Com o contrabaixista John Hebert e o baterista Mark Ferber, Joe Fiedler gravou um excelente disco de homenagem ao trombonista alemão Albert Mangelsdorff, recentemente desaparecido. De Plays the Music of Albert Mangelsdorff falarei mais em pormenor no próximo número da JAZZ.PT.

Mais um belo par de edições da minha querida Pax Recordings:
Stephen Flinn/Noah Phillips Duo - Square Circle
The debut release from the Stephen Flinn/ Noah Phillips Duo and trio with Tim Perkis is a collection of adventurous spontaneous improvisations. Stephen Flinn (drums, junk percussion) Noah Phillips (electric guitar) Tim Perkis (electronics).
Poetiks - Gypsy Thrift
Based in San Francisco, Poetiks music is dark-pop with roots in folk songwriting. Moments of psychedelic display and simple rock motifs surround sing-songy lyrics with undertones of critical social dismay that's coated with lyrical idealism. They are: Marina Lazzara (lead vocals, rhythm guitar), Claudia Lehan (drums, vocals), Roberto Zimmerman (bass vocals), & Raven (viola, vocals).
Atenção, atenção (o caso não é para menos)! O IMI Kollektief vai tocar na Sociedade Harmonia Eborense (Praça do Giraldo, nº 72 - Évora), no próximo dia 3 de Dezembro, quando soarem as 23 badaladas.

Sem exagero, diria assim: Expansion, do Dave Burrell Full-Blown Trio [Dave Burrell, piano; William Parker, contrabaixo; Andrew Cyrille, bateria. Brooklyn, 12/2003. Ed. 6/2004, High Two] foi o melhor disco de piano trio que ouvi nos últimos tempos. Na verdade, não ouvi assim tantos trios neste formato, que foi chão que deu uvas e a fórmula tem andado um bocadinho ruminada e maçadora. No Brad Meldhau e similares não me apanham, que disso já ouvi de sobra, mas lembro-me assim de repente do Live at the Village Vanguard que Uri Caine publicou há pouco tempo na Winter & Winter, que saiu muito bem, sim senhor, embora o conceito seja aparentado a muita da literatura do género. Em Expansion o caso muda completamente de figura. São 40 minutos extraordinários, muito variados em termos de intensidade, cor e textura, em que se reconfiguram diversas tonalidades piano-jazz, incluindo o velhinho stride. Burrell coloca o seu lirismo e swing muito particulares em permanente sedução com as cordas de William Parker e bateria Andrew Cyrille, soltando-se os três em encontros, desencontros e erupções magníficas ao longo de todo o disco. They Say It's Wonderful, o clássico de Erving Berlin, recebeu um tratamento a solo que por si só valeria uma visita. Expansion é Burrell a todo o vapor, sem carregar demasiado nos pedais e nas tintas (o uso intensivo das dissonâncias e algum caos harmónico controlado, típico da sua produção, podem deixar um gosto inicialmente estranho a quem se habituou ao piano trio clássico, mais macio por natureza) - é a receita de Dave Burrell, o mesmo que em finais de 60, quando guru do free jazz, gravou o famoso e monumental Echo para a editora francesa BYG/Actuel. Em 2004, o regresso de Dave Burrel à liderança de um projecto musical foi uma excelente notícia, tanto mais que se trata de um dos pianistas menos valorizados e um mestre ainda em actividade. Vem aí um segundo volume deste Full-Blown Trio, ao que ouço dizer. Já tarda.
Herb Robertson NY Downtown Allstars - Elaboration
Quando, em Junho passado, na primeira parte do Jazz ao Centro, em Coimbra, perguntei a Lou Grassi o porquê da opção por Herb Roberston para preencher o lugar de trompetista no seu quarteto Avanti Galoppi, recebi por resposta «simplesmente, porque ele é o melhor», fiquei a pensar que de alguma maneira isso era óbvio e estava implícito na própria música, não apenas daquele quarteto em particular, mas de muitos outros contextos musicais em que o trompetista intervém.Efectivamente, no jazz actual poucos são os trompetistas (haverá algum?!) com a versatilidade de Herb Roberson, com o mesmo à vontade e qualidade de resposta tanto em contextos mais straight, como em ambientes de pura abstracção. É neste sentido que interpreto as palavras de Grassi, o mesmo que encontro na audição de Elaboration.
Muitos são os pontos de interesse deste disco, verdadeiro motivo de celebração, como assinala Robert Iannapollo nas notas que o acompanham. Desde logo, pela capacidade de atrair a presença de quatro dos maiores improvisadores da Downtown novaiorquina actual. Dizer que este é um quinteto de luxo, mais que lugar comum, é redundante. E nem vale a pena elaborar sobre os curricula dos intervenientes, cuja obra é certamente conhecida de quem tem um interesse minimamente sério neste tipo de música.
Mais interesse terá dizer que Elaboration, peça única de 48’26’’, é uma moldura escrita por Robertson, estrutura que o quinteto preenche livremente, interagindo ao sabor do momento. Organizada sob a forma de suite, a peça inicia-se com uma chamada colectiva à junção de esforços para levar o navio a bom porto. Tim Berne dá o tom e elabora alguns esquiços antes de surgirem as primeiras efervescências do piano e as chispas metálicas da trompete. Distribuídos os papéis, a música clama com ardor, injectada pelas ondas de Berne, que a um quarto do caminho já dançam com as pinceladas luminosas de Herb Robertson, entrelaçadas com as cordas de Sylvie Courvoisier. Mark Dresser e Tom Rainey regulam a intensidade e as mudanças de tempo, hábeis gestores do equilíbrio entre abrandamentos reflexivos e vigorosos retornos ao calor da fogueira. Cruzam-se solos, duos e outras combinações instrumentais neste imenso poliedro de variação rítmica e complexa estruturação orquestral.
Elaboration é um grande acontecimento musical. Tocar, editar e ouvir este disco, são actos de inteligência que só dignificam quem os pratica. Que cada um faça a sua parte - a melhor forma de fazer justiça à excepcional arte destes magníficos improvisadores.
Herb Robertson NY Downtown Allstars - Elaboration (Clean Feed)

Haverá quem ainda não tenha deitado a mão aos discos que Sun Ra e Albert Ayler gravaram para a ESP-Disk? Se for esse o caso, há agora uma oportunidade soberana de preencher a lacuna, porque a ESP vai publicar duas caixas, cada uma com os quatro discos que os artistas gravaram para a editora de Bernard Stollman.
Sun Ra - The Complete ESP-DISK' Recordings
"Sun Ra's peak period is represented in these four documents recorded for ESP-Disk' during the free jazz revolution, his music transcends the realm of jazz and indeed defies definition. Includes: 'The Heliocentric Worlds of Sun Ra Vol. 1&2', considered to be among Ra's quintessential mid '60s recordings; the astounding 'Nothing Is', recorded during his 1966 tour of NY state colleges; and 1973's 'Concert For The Comet Kohoutek', featuring Ra on synthesizer while his group chants in astral worship, as if demanding the comet to take them back to their alternate universe"
CD1 (The Heliocentric World Of Sun Ra Vol.1): 1. Heliocentric 2. Outer Nothingness 3. Other Worlds 4. The Cosmos 5. Of Heavenly Things 6. Nebulae 7. Dancing In The Sun
CD2 (The Heliocentric World Of Sun Ra Vol.2): 1. The Sun Myth 2. A House Of Beauty 3. Cosmic Chaos
CD3 (Nothing Is.): 1. Dancing Shadows 2. Imagination 3. Exotic Forest 4. Sun Ra And His Band From Outer Space 5. Shadow World 6. Theme Of The Stargazers 7. Outer Spaceways Incorporated 8. Next Stop Mars
CD4 (Concert For The Comet Kohoutek): 1. Kohoutek Intro 2. Astro Black 3. Variations Of Kohoutek Themes 4. Journey Through The Outer Darkness 5. Enlightement 6. Unknown Kohoutek 7. Discipline 8. Outer Space E.M. 9. Space Is The Place.
Albert Ayler - 'The Complete ESP-DISK Recordings'
"Not only did these four recordings define the ethos of ESP as the quintessential free-music label of the '60s and '70s, but they also represented (and still remain) some of the most devastating and profound expressions in avant-garde jazz, making history for Albert Ayler and ESP-Disk' as a vital and influential part of American free music. Includes: Spiritual Unity , Ayler's beyond essential 1964 debut release for ESP-Disk'; Bells, Ayler's 20 min revolution in jazz recorded live in NYC 1965; New York Ear And Eye Control (ESP1016), an improvised soundtrack to filmmaker Michael Snow's 1964 film; and Spirits Rejoice, a challenging free-wailing document featuring a stellar line-up and recorded in NYC in Sept. 1965"
CD1 (Spiritual Unity): 1. Ghosts (first variation) 2. The Wizard 3. Spirits 4. Ghosts (second variation)
CD2 (Bells): 1. Bells
CD3 (New York Eye And Ear Control): 1. Dons Dawn 2. AY 3. ITT
CD4 (Spirits Rejoice): 1. Spirits Rejoice 2. Holy Family 3. D.C. 4. Angels 5. Prophet.
Lançamento previsto para 12 de Dezembro próximo.

Na All About Jazz, entrevista com Bernard Stollman, o advogado que em 1964 fundou a ESP-Disk. Foram 10 anos de aventuras que só termiram porque a falência económica do projecto a isso obrigou. A editora estreou com Spiritual Unity, do trio de Albert Ayler, com Gary Peacock e Sunny Murray.
Bernard Stollman: The ESP-Disk Story

Abre hoje, 26 de Novembro, às 23h30, o Sabotage Club, Praça da Ribeira, Cais-do-Sodré, Lisboa. Inaugura com a Festa da Oxigénio (102.6 FM, Lisboa). Depois de uma primeira saída à rua, em Abril, com dois projectos portugueses, Cool Hipnoise e 1Uik Project, a Oxigénio volta a andar à solta em Lisboa. Isilda Sanches, Jorge Évora, Rita Moreira, Rui Portulez, Tiago Santos e Rui Murka, são so DJ´s que descolam a segunda festa da modorra inicial. Logo a seguir atacam ao vivo Jackson and His Computer Band, o electro-punk-funk dos dinamarqueses WhoMadeWho e aquele que para a Oxigénio é o homem do mmomento: Jamie Lidell. Até ao romper da aurora há Oxigénio à Solta no Cais-do-Sodré. Tudo isto por uns bem gastos € 20. Local: Rua D. Luís I, 5.
Jamie Lidell: «o cientista louco da electrónica que revelou a soul que tinha dentro de si em "Multiply", segundo álbum em nome próprio e um dos discos mais entusiasmantes de 2005. Ao vivo, Jamie Lidell é imprevisível e arrebatador».
Who Made Who: «O nome vem de um disco dos AC/DC (que é uma banda sonora de um filme de Stephen King) e isso já diz alguma coisa do humor deste trio norueguês. Os Who Made Who são uma mistura explosiva de pop electrónica, punk-funk e várias outras coisas, entre as quais um groove infalível».
Jackson And His Computer Band: «Mathew Herbert, Matmos, Ricardo Villalobos e Trevor Jackson recomendam-no, a revista britânica Wire não lhe poupa os elogios e a Warp, sua editora, situa-o num espectro que vai de Aphex Twin a Jimi Hendrix, dos Boards Of Canada a David Bowie. Jackson Fourgeoud é francês e "Smash", o álbum de estreia, é um dos discos mais desafiantes de 2005. Ao vivo, não promete ser menos do que isso».

Vale a pena prestar atenção ao que anda a fazer a netlabel eDogm, fundada por Johann Bourquenez e Eric Pailhé, em Toulouse, França. Ontem mesmo, publicou mais uma peça, a quinta, do seu mais que interessante catálogo: Kepler's Laws Of Planetary Motion. Prossegue o labor de dar a conhecer aos espíritos curiosos e inquietos as realizações de novos artistas das áreas do free jazz e da electrónica contemporânea. Entretanto, nos dias 17, 20, 21, 22 e 23 de Dezembro, em Toulouse: improvisação livre, electro-dub, free jazz, drum'n'bass, video e emissões radiofónicas, no festival CONSTRUCT. 

Do cartaz do London Jazz Festival deste ano, que tem estado a decorrer, Jezz Nelson seleccionou para a emissão de hoje do Jazz on 3 um concerto do World Saxophone Quartet, de David Murray, Oliver Lake, Hamiett Bluiett e Bruce Williams, fundado em 1976, com Julius Hemphill no lugar actualmente ocupado por Williams. No programa do concerto, a interpretação de novos arranjos do quarteto para as composições de Jimi Hendrix. Ao WSQ, neste empreendimento arriscado, juntam-se o trombonista Craig Harris, o contrabaixista Jamaaladeen Tacuma, da Prime Time Band de Ornette Coleman, e o baterista Lee Pearson. «WSQ: The most original and important group to emerge since Miles Davis, Ornette Coleman and John Coltrane redefined group improvisation in the late 1950s» (The New York Times).
Pharoah Sanders, Elevation
Na longa série de gravações que o grande Pharoah Sanders realizou para a Impulse! entre 1966 e 1974 – Tauhid (1966), Karma (1969), Jewels of Thought (1969) Deaf Dumb Blind (1970), Thembi (1970), Village of the Pharoahs (1971), Black Unity (1971), Live at the East (1971), Wisdom Through Music (1972) e Love In Us All (1974) – Elevation (1973), gravado ao vivo no clube Ash Grove, em Los Angeles, é o penúltimo disco da sequência e um dos melhores de toda a carreira de Farrell Sanders, nascido em Little Rock, Arkansas, perto de Hope, terra de outro famoso saxofonista norte-americano, Bill Clinton.Tudo o que constitui a persona musical deste valoroso servidor da causa da Fire Music, coadjutor de John Coltrane no seu último período, e que passou com brilho pelas hostes de Sun Ra, está maravilhosamente presente nesta obra de grande elevação: o som arranhado, característico e inconfundível do seu saxofone tenor, metafísica e espiritualidade, a dialética entre tranquilidade e turbulência, e o ritualismo oriental e afro-tribal, para que concorrem os coros que Sanders e os músicos cantam durante parte do disco. Elevation, obra felizmente datada, preservou, contudo, uma frescura e uma actualidade tais que lhe permite agradar tanto aos noviços como aos mais antigos apreciadores desta atractiva síntese cósmica de free-jazz, orientalismo e música africana. Pessoalmente, é do melhor Pharoah que ouvi. Está disponível em reedição pela Verve/Universal. Pela minha cópia paguei 10 euros, na Trem Azul.
Breve conversa com Charles Gayle

Hernâni Faustino - No concerto de Coimbra ouvi um Charles Gayle diferente, menos sónico e muito mais melódico. Procuras actualmente uma nova forma de expressão para a tua música?
Charle Gayle - A música que toco actualmente é diferente....tento fazer com que seja mais melódica do que era e conseguir atingir diferentes vias de expressão.....hoje em dia já não sinto interesse em produzir sonoridades sónicas....preciso de mudar....a situação estava a tornar-se insuportável, foram anos a fio a tocar sempre da mesma forma...senti que já não era um processo genuíno, mas sim algo artificial. No entanto, a minha alma continua livre, permitindo a continuidade da procura através de outras formas de expressão.
HF - A tua música é muito espiritual. Qual a importância da religião na tua vida?
CG - A fé e o acreditar em Deus (Pai, Filho, e Espirito Santo) é a única verdade para mim....tudo o que faço é em nome de Jesus Cristo. A religião é o que de mais importante existe na minha vida, na minha música, e em todas as outras coisas.
Toda a minha música é dedicada a Deus.
HF - Muitas das tuas composições têm uma forte ligação à Bíblia. A Sagrada Escritura é a tua principal fonte de inspiração?
CG - A Bíblia é uma fonte de inspiração, Deus é uma fonte de inspiração....é através da Bíblia que a palavra e o coração de Deus chega até nós. Continuo a usar nomes e expressões da Bíblia para as minhas composições.
HF - Li numa entrevista tua que não sabias o que é o free jazz. Como é que defines a tua música?
CG - A minha música não tem nome....apenas me considero um músico de jazz, porque passei a maior parte da vida envolvido no jazz....no entanto a música de igreja exerceu em mim uma enorme influência...
HF - Continuas a tocar nas ruas de Nova Iorque?
CG - Sim, continuo a tocar nas ruas e no metro.
HF - Qual é a relação que existe entre o palhaço “Streets” e o Charles Gayle?
CG - O “Streets” é um personagem que me permite explorar diferentes abordagens. Através dele consigo criar uma espécie de pantomina nas varias situações e questões da vida. De vez enquanto necessito de recorrer ao “Streets”...por vezes a música não é suficiente para me expressar....através do “Streets” consigo obter uma grande liberdade interior, que me permite participar de maneira mais clara e directa sobra a vida.
HF - Achas que a vinda para a Europa foi importante para o teu desenvolvimento como músico?
CG - Sem dúvida, a minha vinda para cá ajudou-me imenso.....sempre.....seja como for contínuo a sentir que tenho que tocar como “Streets” para me sentir mais em contacto.
HF - Qual é a tua opinião sobre o panorama actual do jazz?
CG - Hoje em dia as coisas são muito diferentes....longe vão os dias das ideias frescas e dos novos inovadores. Existem muitas razões para que isto aconteça, acho que é mais psicológico do que qualquer outra coisa....mas este é apenas um tópico que requer mais tempo e espaço, para que de forma respeitadora se possa discutir o jazz e os músicos da actualidade.
HF - Tocas quase sempre com um trio de contrabaixo e bateria. Porque não uma formação diferente?
CG - Toco em trio porque não consigo fazer dinheiro suficiente para tocar em quarteto ou um quinteto.
HF - Sei que tens uma “marching band”, como é que nasceu o teu interesse por uma banda com estas características?
HF - O principal objectivo desta banda é tocar música para as pessoas que circulam nas ruas e de uma forma esperançosa trazer-lhes alguma alegria e sorrisos...a música da banda tem uma forte componente edificante e cheia de swing.....adaptado ao nosso estilo.
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Hernâni Faustino conversou com Charles Gayle em Lisboa, 2003 (foto de Tony Rogers)
Jazz aos Quadradinhos #2
Other Dimensions in Music (CD AUM 006)
Tears for the Boy Wonder (for Winton Marsalis)
O trompete de Roy Campbell, fúnebre
e a pantomina bass, de William Parker…
Jazz music has to be played sweet? Sweet & dead?
Swing ou sweet?
Dor ou riso, essas lágrimas?
Funerais com Jazz à la New Orleans
de onde é Marsalis,
Funerais ao Jazz,
Bodies die, Spirits live
Other dimensions? Na música, ao menos! João Henriques (foto e texto)

Acabo de ouvir o disco de estreia do Filipe Melo Trio. Irritantemente arrumadinho, o que causa os maiores engulhos é esta incómoda e permanente sensação de dejá vu requentado. Caramba, terão estes rapazes ouvido Monk, o mesmo que citam de Bright Mississippi?! Ou outros pianistas em que habite vida, pulsante, palpitante, com sangue, suor e lágrimas, e não esta palidez anémica de quem, na flor da idade, já arrasta os pés e toca como se estivesse com eles para a cova. De todas as versões que conheço de I Got Rythm, a de Debut é das que voa (?) mais baixinho; a bossa nova não é nova; o Isn’t She Lovely, de Stevie Wonder, que no original é um tema excitante, aqui aparece exangue e ressequido, teso como um bacalhau seco. O Bud Powell saiu sem ânimo... . Será assim tão difícil de perceber que não bastam boas intenções nem tocar by the book para fazer um bom disco de jazz? Lamento o acto falhado, todo este tempo perdido e esta música aborrecida, redundante e de máxima previsibilidade, que resulta na antítese do que poderia (ou deveria?) ser o jazz hoje, no Séc. XXI, algo muito diferente deste conservadorismo serôdio, em que tudo o que havia para dizer já foi dito por outros, e melhor, se me dão licença. Desculpem, mas isto contagia e por este andar eu já não aguento uma terceira (audição). Para tal seria preciso algo mais que aqui não há. Ouça-se e descubra-se esse je ne sais quoi. Uma sugestão para se perceberem as diferenças: Monks Casino (Intakt), o triplo CD com a integral das composições de Thelonious Monk, rearranjadas por Alexander von Schlippenbach, Rudi Mahall e Axel Dörner, para quinteto. Aqui sim, há vida. Real, não é imitação.
Manifesto Neo Futurista da Música Portuguesa, J. Lima Barreto
«Situação da ideologia da música portuguesa de hoje – é como abrir o ovo ofegante do sapo, bola translúcida peganhenta institucional, fluido ranhoso conservatório e de escarro neo universitário premiado, a envolver um feto fétido clonado de sapinho star… propaganda mediática sine sapore, projecto anacoico condecorado.
Viva a nova música portuguesa viva!!!
MANIFESTO NEO FUTURISTA DA MÚSICA PORTUGUESA
No que respeita à Música Portuguesa de Hoje, a inventio, o experimentalismo, as novas concepções tecnosociocomunicativas, i.e. a abertura a futuros horizontes, são preteridos e desviadas por técnicas mercantis espectaculares, subjugadas à ideologia museomórfica, ampliadas no regime de alienação cultural nos mass media, especialmente na TV, com quedas para o abismo perfunctório - sincronicamente há, no entanto, o imune duma maravilhosa criatividade interveniente e construtiva da História da Música Portuguesa (historicamente ilustrada por Carlos Seixas, Viana da Mota, Luís de Freitas Branco, Lopes Graça, Peixinho, Filipe Pires, Emmanuel Nunes, Pinho Vargas, J.P. Oliveira, e.a.) ...
A Nova Música dos compositores, dos compositores-intérpretes e dos intérpretes portugueses é sufragada pelo poder dos musoburocratas e circunscrita aos arranjinhos dos operadores culturais.
Os laboratórios para a investigação electroacústica e cibernética da Música são inexistentes, ou tímidos e privados focos de resistência com pálida imagem económico-financeira, ilustres desconhecidos lá fora e esmolando alvíssaras cá dentro.
O Governo é o maior responsável pela afirmação da Cultura Portuguesa, o garante das suas identidade e independência; porém…a guerra esteticamente autofágica - alternativa entre os partidos políticos e seus aliados de ocasião, ao ignorar o situacionismo da Música, é culpada da sua decadência; a política cultural, pontificada por um ministério intelectual e artisticamente irrelevante, sem saber, bombardeia e censura o livre devir da Arte dos Sons, com efeitos colaterais irreparáveis.
Muitos músicos, talentos da criação interarte e com provas dadas internacionalmente, apenas por estrita sobrevivência individual e/ou social, funcionalizam a sua actividade profissional ao gosto, na maior parte das vezes fútil, de encenadores, coreógrafos, cineastas ou capatazes do espectáculo; uma aventura alegadamente pós-moderna, limiar que põe em risco a autonomia da Arte.
Os aparelhos ideológicos votam a arte musical ao isolamento; a política do liberalismo, dita "cultural", elege em sórdidos escrutínios, a galhofa, a bricolagem e a falsa sumptuosidade; a parasitose empresarial e industrial, caucionada pelo Governo, exorciza a criatividade não- rentável.
O projecto terrorista da globalização insinua-se nos médias (rádio, disco, TV) injectando subprodutos da propaganda audiovisual, reduz a música à sua própria publicidade, esbate-se o brio nacional; o rosário de genuflexões dos operadores culturais portugueses ao que é estrangeiro denuncia a eleição do aparato, desculpada pela gratificação do ego americanizado…
Uma estratégia tentacular consolida-se nos palanques da festa multinacional, no sururu dos lobbies, na aparência do regionalismo e do nacionalismo; obsoleta e alienada das verdadeiras necessidades dos músicos portugueses de hoje (compositores e/ou intérpretes), superintende pequenas prestações musicográficas, rede historicista e tarefeira ampliada em jornais, dicionários & outras publicações.
O rito das músicas planetárias é manipulado por uma teoria tecnocrática com laivos de mixórdia cultural - assim se passa na discoteca, altar da hipnose aeróbica, habitat da alienação, da demissão social e da megalomania do ego transviado.
Consequentemente, músicos e operadores culturais com espírito independente, que pretendem prosseguir na invenção tecnológica, na originalidade técnica e na genuinidade estética não encontram apoios económicos e afectivos, necessários à concretização da sua arte.
A cumplicidade de editores, divulgadores e organizadores dependentes dos senhores da banca e dos media, coisifica a arte musical portuguesa - faz-lhe um aceno hipócrita, mas, impõe em grande escala o consumismo compulsivo do pseudoartístico, destila a permanente inovação das músicas do mundo e a proliferação de encontros epifânicos da música portuguesa com as mais variadas tipologias, da salsa à electrónica…o reino da mescla.
A invenção musical é esganada pelos interesses das multinacionais do disco, na rádio e na TV, diluída no miasma da NET, e assombrada por uma obsoleta musicologia de gabinete, que decreta o desaparecimento da identidade da Música Portuguesa, como ousou sonegar os Lusíadas, Eça,… (fomenta uma falsa luta pelo tradicional, para gáudio capitalista no share de audiências; dispensa a preservação da espécie ou recupera-a como uma falácia, degradação cultural epitomisada no espectáculo Beetoyven: A Severa, Amália, Menano, Marceneiro, Zeca, Paredes…).
Subsidiam-se os observadores da criação musical ad lib - viagens, bolsas, salários chorudos para administradores, mais-valia das vedetas do corriqueiro, de descarada conotação politiqueira, e.a., sonegando a criatividade, a necessária interacção artística nacional e internacional. Os eventos musicais via TV, na sua maioria, não têm qualquer originalidade, são modelos, pacotes empresariais, ruminações estéticas, olhares retrospectivos, liberalismo licencioso a aparentar o erudito; o jornalismo musical (imprensa, rádio e TV) é na generalidade rebarbativo, traditor, comprometido no seu pequeno mundo de vaidade e interesse súbdito multinacional; a Música Portuguesa de Hoje é nas diversas vertentes mal protegida, tida como zona demarcada minoritária e sem rentabilidade; impondo-se o mercado estúpido de massa, a musicologia e a praxis estão minadas pela presunção e o pasmo, sobretudo cúmplices dum processo comercialóide.
Como alegadamente vivemos em democracia, o cantor de protesto, promiscuído no estocástico tacho, não encontra razões para resinar - berloque trasladado para a lufa-lufa do biscate nos media, de preferência com rhythm section do "jazz".
Os impostos (IRS, IVA, CIA, autárquicos, S. S., i.e. segurança social, a taxa sobre instrumentos, livros, discos, partituras, vídeos, e outras leviandades do fisco) pesam impiedosamente sobre os autores, músicos, cidadãos que vivem o quotidiano - há a ter em máxima consideração as simples questões de alimentação, alojamento, acrescido dos custos nunca remunerados de trabalho criativo (e.g. compor, tocar, ensaiar, escrever, ler, estudar; adquirir hardware para o seu trabalho) – enquanto as vedetas da "estupidez em dó maior" (ápodo atribuído por Jorge Peixinho) e os seus padrinhos ostentam sumarentas contas bancárias, tipo lux-vivenda & chofer & iate & avioneta, e pluma sintética de avestruz, surda cabeça enterrada na areia; embargo sem o mínimo conhecimento e /ou audição de música decente; idolatria de religião feiticista / peep show; o kitsch, o socialmente imoral e o artisticamente ignóbil.
A indústria da cultura aventada como um valor de troca capitalista visita as catacumbas do irrisório, no limiar da pornofonia; funcionaliza a música ad extremis, em passarela da moda, telenovela, talk show, ou decoração desportiva; esgar terceiro-mundista ressuma a catinga, faz-se vedeta virtual, mostra a face do senso comum, protege a aparência da criatividade; é papona e paranóica ao regurgitar a música aparvalhada.
A ópera é para o contribuinte um dispendioso mamute que se destina ao yuppie e ao espavento bilheteiro e mecenático da classe média e/ou da pseudo- aristocrática, de consequência eruditona. O conservatório reitera a conserva; a programação clássica espectacular é sectária, nivela o anódino e o genial; o catálogo confunde o simulacro com o ícone.
Comecemos pelo que nos é dado ouvir, em disco e/ou ao vivo:
Não querendo fazer uma compilação de questões de rescaldo do final do século anterior, pensamos ser oportuna uma pequena observação sobre o situacionismo da música em Portugal, especialmente referenciando a sua divulgação e o seu regime de criatividade.
O nível dos nossos festivais é no critério estético, deveras coerente tendo em conta a exiguidade de meios financeiros e estratégicos para o levantamento de acontecimentos culturais de tal monta. Concertos episódicos de artistas portugueses e internacionais magnificaram as programações de algumas instituições. Vulgarmente, um discurso estereotipado é extrapolado por alegorias nacional-regionalistas, ou então miscelânea epigonal relativa à lusofonia, o dejá vu etno-promocional desfraldando a bandeira da "música portuguesa".
Sabemos muito bem que Portugal é a única nação europeia onde a Música não faz parte das disciplinas do ensino primário e secundário. Na escolástica, os tirocinantes são predestinados na generalidade dos casos à servidão na TV e escarrados na música ligeira; em departamentos da musicologia oficial, a criação é produto ideológico, conceito etnomusical espúrio, incumbência de aprendizes, tratado sem consciência estético-cultural, serve quando muito para preparar operadores e críticos nos media, sem grandes perspectivas neste campo praxiológica, histórico e sóciomusical.
Em Portugal, na imprensa na rádio e na TV, fundamentalmente nos espectáculos ao vivo, a divulgação da Música de Arte foi progressivamente massmediatizada e conheceu conspícuos produtores, independentemente da incontornável polémica.
Na imprensa há um bom punhado de críticos; a bibliografia é escassa.
A pedagogia é tepidamente administrada por alguns peripatéticos, mentores classicistas, neomodernistas e in extremis vanguardistas; fulcros da perpetuação do conhecimento para-lógico da música; sentido persistente da educação e preparação de compositores e intérpretes - o Ministério da Cultura, que tem obrigação de apostar neste tópico musical não procede para favorecer o seu progresso, não implementa o curriculum interactivo internacional - pelo contrário, dá alento à mais-valia pimba, contra-reforma piscando o olho à populaça e benzendo a corruptela "cultural" nos media.
Ignorando o Mundo da Música, exulta-se a infracultura; barbaridades género touros de morte, cumplicidade com assassinos de massa, TV shows, sionismo, derrames de crude, mafia, rebarbativa mea culpa colonial, cóboiada, militarismo made in USA, logos piroso e terrorista, tonitruante míssil genocida.
A produção dos músicos portugueses é esteticamente irregular. Com abrasonadas edições ao vivo ou em disco, despontou uma nova e generosa geração de compositores/ intérpretes a qual sobrevive à míngua da institucionalização político-administrativa da música, nas sombras da mendicância e da incompreensão; o laudatório inter pares distrai a necessidade duma luta contínua pela Arte musical, impedida na sua sociocomunicação, arredada pela mediocracia, enganada por estratégias meritocráticas, censurada pelo convencional e execrada na sua possibilidade de realização prática; sancionada estatalmente pelo alibi da exiguidade de meios financeiros, aventada por um regime cultural perdulário votado ao provinciano e à rememoração festivaleira de santinhos & 25 de Abril; no que respeita ao Jazz, a classe política é uma fasquia vistosa da pequena burguesia populista a penhorar a "antiga senhora", sem fazer nada de melhor - safadas musoarcanos, portas fechadas à criatividade musical num tempo inopinado - a acção de compositores, intérpretes e compositores/intérpretes, (interarte, considerando a privilegiada relação da Música e a poesia portuguesa) - reivindica a Música Portuguesa Viva e o conceito prospectivo como Obra Aberta é um projecto futurista e triunfal. Em Portugal, a Música está, como no título do filme de Pierre Brasseur, em "situação desesperada mas não grave" .
A Arte Musical está sempre avançada à artimanha política - a sua pluralidade espectacular e imaginária é a superação do senso comum totalitário e globalizante; utopista, realiza na própria beleza a verdadeira democracia; reúne todos os povos no prazer universal; inventa um enlevo dialéctico e sentimental com a tecnologia; dissipa qualquer preconceito racista, nacionalista ou imperialista - sobretudo, MÚSICA é significado de PAZ e AMOR».
JORGE LIMA BARRETO

Continuam as cenas dos próximos capítulos da saga de The Cellar Door Sessions 1970, a caixa com 6 CDs que a Columbia vai editar, contendo a totalidade das gravações que Miles Davis realizou ao vivo no clube Cellar Door (Washington DC) em Dezembro de 1970, com o grupo que o acompanhava naquela época: John McLaughlin, Keith Jarrett, Jack DeJohnette, Airto Moreira, Gary Bartz e Michael Henderson. Inicialmente prevista para 20 e picos de Setembro, a data de nascimento foi sendo sucessivamente adiada, sendo que, actualmente, a data apontada para a saída da tão aguardada caixa é agora 27 de Dezembro, embora ainda sem confirmação por parte da Sony/Columbia. É que, veio-se a descobrir, há problemas relacionados com a herança de Miles, designadamente com um tal sobrinho, Vince Wilburn, que ainda não está pelos ajustes para largar a caixinha e deixar os outros meninos brincarem também um bocadinho. Segundo o romance à volta da cobiçada peça, o dito sobrinho anda a insistir com a editora para alterar um pormenor deveras importante: onde, nos créditos, está projectado que se venha a ler produced by Adam Holzman e Bob Belden, insiste o parente que se deva antes ler compiled by. Questões semânticas à parte, a Sony há já muito que anda a espumar com as birras do herdeiro, porque, convenhamos, o negócio é de milhões e, ao que parece, o senhor Wilburn nem ouve nem sai de cima, e já lá vão cinco anos que o pessoal da Legacy anda às voltas com a preciosidade. "Nem o pai (o sobrinho, neste caso) morre, nem a gente almoça" - disse há dias o Presidente da PME Sony/Columbia aos jornalistas. É que o papel de Holzman e Bob Belden, quer eles se tenham ocupado da produção ou da compilação, está desde há muito definido na prática e no papel, o que faz toda a gente desconfiar que a história por detrás do finca-pé do rebento colateral de Miles, ou é inventada, ou tem a ver com tudo menos com particularismos semânticos. Seja como for, se eu fosse da Sony/Columbia esfregava as mãos de contentamento (exactamente o que eles devem estar a fazer por esta altura), porque a edição vai nascer sob o signo da polémica e da controvérsia, o que vem a calhar às mil maravilhas para a Sony, para o sobrinho e para os jornais, à mingua de assunto (até para os blogues…). As pré-encomendas online devem-se já contar pelos dedos de várias mãos, a multiplicar por mil. Afixai lá depressa o autocolante com o compiled by, que a gente está à espera, ó senhores! Aguardemos pacientemente por mais um mês, mesmo aqueles de nós que não têm nada para ouvir. Entretanto, para fazer tempo, travemos conhecimento com o resto da odisseia de Cellar Door, na instrutiva página de Miles Beyond.

Que vão fazer Daniel Lanois, Bill Frisell, Jorma Kaukonen, Vernon Reid, Taj Mahal, Pepe Romero, Eliot Fisk, Toshi Reagon, Sonny Landreth, Rory Block, Cindy Cashdollar, Jesse Harris, David Tronzo, Bill Morrissey, Laura Cantrell, Brandon Ross, Gary Lucas, Chocolate Genius, Alvin Youngblood Hart, The National, Mark Eitzel, e mais de um quarteirão de outros nomes das seis e mais cordas, todos juntos?
Resposta: Vão tocar na sexta edição do épico e electrizante (é o termo!) NEW YORK GUITAR FESTIVAL, entre 14 de Janeiro e 8 de Fevereiro de 2006. Durante 3 semanas, serão 20 os concertos, montados em 7 salas diferentes. Dirigido por David Spelman, o NYGF visa alargar audiências para as inúmeras e diferentes abordagens do instrumento mais popular do rock e de algum jazz, e dar a conhecer os novos talentos que constantemente despontam na Big Apple. Toda a informação relevante, aqui.

A Puta da Subjectividade, webzine com a qual colaborei durante um ano, está de volta à vida com novo design, novos colaboradores e saída à quarta-feira. Nesta primeira semana de trotoir, a rapaziada critica discos dos Animal Collective, Loosers, Steffen Basho-Junghans e Wooden Wand, entre outros, e entrevista os Magik Markers. É lá que trabalham Pedro "Caveira" Gomes, André Santos, Gonçalo Pina, Manuel Poças, Luís Miranda, Pedro Marques, Pedro Sena Marcos, Ana Patrícia Silva, Matilde Diogo de Sousa, Joana de Deus e Diogo Marques. Abraços e farta clientela.

Chris Scofield, em Portland, Oregon, já vai no quinto ano de trabalho com a Strange Attractors Audio House (Oscillating Perspectives in Modern Music), editora fundada a partir de Stange Attractors, programa de rádio da Kaos Community Radio. Chris Scofield interessa-se por uma grande variedade de géneros “out”, como os experimentalismos rock, folk, space/psychedelia/acid, free jazz, drone/ambient, freaky techno, minimalismo, noise e outras doideiras sob a forma de som organizado. Último lançamento da Strange Attractors Audio House: Immolation/Immersion - Nels Cline/Wally Shoup/Chris Corsano. Pura fúria e filigrana.
In The Tradition. Dois volumes de A. Braxton, dentro e fora da tradição. Tete Montoliu, NHOP e Albert "Tootie" Heath. Copenhaga, Maio de 1974.
Sugestionado pela notícia chegada por mail, que anuncia uma próxima e eventual reedição de Relayer, álbum dos YES, apeteceu-me voltar a 1974 e a esse clássico do rock progressivo britânico. Na ressaca de Tales From Topographic Oceans, que em 1973 levou uma corrida da imprensa britânica, os rapazes baixaram um pouco a grimpa e talvez por isso tenham regressado a um formato mais terra-a-terra, imediato e agressivo, no sentido Yes do termo, bem entendido.Lembro-me do impacto que Relayer causou em 1975, quando a ele tive acesso daquela maneira quase clandestina como se obtinham certos discos em Portugal: amigo que ia a Londres ou Paris era cravado para regressar com as últimas novidades, as mesmas que só apareciam muito tempo mais tarde na Discoteca Roma ou na Discoteca do Carmo, em Lisboa. A primeira encerrou há semanas; a segunda transformou-se há anos num carro de fantasia que vende discos de fado a camones passeantes p
ela Rua do Carmo. Como a realidade é dinâmica! Com novo teclista a bordo, Patrick Moraz, que substituiu Rick Wakeman, o som dos Yes ficou temporareamente a ganhar: Moraz toca menos, melhor e mais recuado na fotografia que Wakeman. O baixista Chris “Fish” Squire sustenta o groove e dá um balanço impressionante quando a temperatura sobe e ameaça entornar a fervura. Alan White, bateria, foi talhado para estas aventuras em que a brusca mudança de intensidade e de ritmo é uma constante. Steve Howe esfalfa-se em contorcionismo guitarrístico, com rapidez e bom gosto, e a voz de Jon Anderson consegue meter-se por entre os espaços instrumentais, o que é uma originalidade estética dos Yes. A esta distância temporal até a sacarina de Soon, a peça que encerra o épico vintage The Gates of Delirium (21'55), inspirado em Guerra e Paz de Tolstoi, se diliui bastante. Talvez eu esteja 30 anos mais paciente, ou suficientemente velho para me deixar adoçar assim de mansinho. Sound Chaser (9'25), arranha a improvisação e prima por ser o melhor momento do disco, a arena em que se desenrola o combate duro entre guitarras e teclados, excursionando juntos pelo jazz-rock adentro. To Be Over (9'08), justamente a fechar o disco, é uma grande canção de prog rock. Na capa, contracapa e interior, representa-se o estranho mundo gráfico de Roger Dean, pintado de desfiladeiros cavados na rocha, paisagens desoladoras com serpentes, grutas e pedras nuas. Por tudo isto, Relayer, o mais experimental e cósmico dos discos dos Yes, merece reaudição. Ainda hoje se ouve muito bem.

Falar de Tortoise, Isotope 217 (Rob Mazurek e Jeff Parker, estão cá) ou de Electric Miles, na acepção mais espacial e experimental do(s) conceito(s), a respeito do Chicago Underground Trio, e, em particular, deste Possible Cube, faz todo o sentido. Tal como de Lester Bowie e os Art Ensemble of Chicago, cujos fantasmas habitam a casa. Rob Mazurek, corneta e electrónica; Noel Kupersmith, contrabaixo e vibrafone; e Chad Taylor, bateria e vibrafone; aumentados com Jeff Parker em guitarra e órgão, fazem um trabalho de se lhe tirar o chapéu. Actualmente, Rob Mazurek reside em Brasília, Chad Taylor vive em Nova Iorque, Jeff Parker em Chicago, e Noel Kupersmith em Bordéus. E continuam a tocar por aí. Gravado de 1998, este segundo álbum do trio + 1 foi editado pela Delmark.

..: AGUSTÍ FERNÁNDEZ: ESCUCHANDO A UN PIONERO
Joe McPhee vs. The Thing

Sobre o trio Escandinavo, The Thing, o veterano multi-instrumentista Joe McPhee disse há dias ao jornal norte-americano Houston Chronical: "Something like a garage punk Albert Ayler meets Led Zeppelin".
Ainda sobre Joe McPhee, prossegue o Houston Chronicle: «For all this outsider cred, the music McPhee makes isn't undigestible in the least. A strong blues feel runs through it, and even at its most dissonant, it remains passionate and authentic. But few labels create cultural cold shoulders like "free jazz" does. 
"I do think there is a great deal of prejudgment to the kind of labels, categorization and commercial value placed on everything today," McPhee says.
“Not that this is a particularly new concept, it just makes it easier for the leisure class not to have to bother with individual thought. (Legendary jazz drummer) Max Roach once said, 'The purpose of art is to make us feel something. We can love it or hate it, but we cannot be indifferent to it”.
McPhee's background was traditional enough. He was born in Florida, did a stint in a R&B band and moved toward traditional jazz. But his musical psyche was rearranged, as many are, by the new musical directions initiated by the likes of Ornette Coleman, Cecil Taylor, Eric Dolphy and Albert Ayler.
From that point forward, McPhee was removed from any mainstream jazz movement, no big loss as the era was a low point of lightweight fusion and burgeoning neotraditionalism that continues to reheat a vintage (and admittedly marvelous) sound.
McPhee, who's made more than 40 recordings as a session leader, created his improvisational approach based on the work of philosopher Edward de Bono; he called it "Po Mus
ic". It's based on a type of lateral thinking that would require substantial space for McPhee to sufficiently explain: In a nutshell, it puts a premium on provocation.
"Jazz is a difficult term that means different things to different people," he says. "There can be great composition — Duke Ellington was a complex composer. But I'm more interested in pure improvisation; it feels more dangerous, more interesting to me. Mostly it's about telling stories"». (Transcrito do artigo de Andrew Dansby).
Abrem-se as portas do estabelecimento com o Trio X - Joe McPhee, Dominic Duval e Jay Rosen: Journey (CIMP 283). Pura improvisação. Enquanto não chega o novo Moods: Playing with the Elements.
Sexteto de Cordas, dirigido por Ernesto Rodrigues

A Trem Azul, prosseguindo a bem-aventurada série de concertos que tem vindo a promover ao fim da tarde (19h30) na sua Jazz Store, em Lisboa, acolheu desta vez a estreia mundial do Sexteto de Cordas, dirigido Ernesto Rodrigues. Além do violista e director, a formação inclui Manuel Mota, guitarra acústica; Pedro Costa, violino; Hernâni Faustino, contrabaixo; Eduardo Raum, harpa; e Guilherme Rodrigues, violoncelo. Durante pouco mais de meia hora, o Sexteto executou duas peças de música delicadamente pontilhística, livremente improvisada, expressas num idioma que, se não totalmente familiar a todos os executantes, se apresentou de modo a fazer com que as diferentes partes se integrassem plenamente na progressão colectiva. Contrastes, dinâmicas vivas e boa gestão de intensidades, criaram uma interessante tapeçaria sonora de tonalidades escuras, como um drone que ia perdendo e adquirindo carga na sua sinuosa e elegante
evolução. Todavia, o mais cativante da performance foi a forma gentil e graciosa como se entrelaçaram as texturas criadas pelos diferentes cordofones, seguindo uma pulsão rítmica interna, irregular e assimétrica, tecida por uma infinidade de fragmentos melódicos, poalha recolhida e reposta em jogo pelo trabalho de sustentação da harpa e do contrabaixo. O resto foi o extravasar da enorme riqueza tímbrica das cordas, num set de música de câmara com muitas arestas, oscilações e inflexões de guitarra, violino, viola, violoncelo e contrabaixo, ligados entre si por uma corrente de energia criativa, para a qual contribuiram os protagonistas com o que têm: ideias próprias para o colectivo e instantâneo desenvolvimento musical.
Apesar da boa qualidade artística, vezes houve em que se notou algum desinvestimento na direcção musical, com os músicos ocasionalmente “aos papéis”, facto que é, simultaneamente, o mais difícil e o mais fácil de acontecer na improvisação livre – um género em que não há “papéis” e em que “andar aos papéis” é um dos riscos inerentes à prática musical sem rede –, controlo imediatamente retomado no ciclo seguinte, muito porque estes músicos souberam fazer uso do sentido de oportunidade, ouviram-se entre si e comunicaram quando sentiram que o momento era propício.
Pena é que o público do jazz não se interesse, despreze ou não esteja preparado para dar ouvidos a esta música, que é de muito boa vizinhança e interpenetração com aquele género, do qual não é, seguramente, nem degeneração nem abastardamento. Diferentes entre si, têm convivido pacificamente ao longo de décadas, com benefício estético para ambas as linguagens. Mas essas são contas de outro rosário. O que para aqui releva é que o Sexteto de Cordas apresentou ao público uma boa proposta musical, eloquente nos detalhes e delicada nas intersecções espontaneamente geradas. Ideal para apurar o ouvido e despertar a fantasia.

London Jazz Festival, de 11 a 20 de Novembro. Hoje, 18, às 11 horas de Londres, a BBC Radio 3 (Jazz on 3) emite um concerto do s COSMOSAMATICS, quarteto de free jazz fundado por Sonny Simmons, o histórico saxofonista alto que tocou com Eric Dolphy, corriam os anos 60. Uma antiguidade moderna, já se vê. Simmons andou muito tempo afastado do público e dos estúdios, até que há uns anos ressurgiu com este grupo, um dos mais interessantes dentro do estilo, logrando actualizar procedimentos de há 40 anos e investir fortemente na inovação. Gravou uma série de discos com o parceiro soprador Michael Marcus, multi-instrumentista de renome, que, entre outros discos, publicou um na Black Saint que é de ir às lágrimas de contentamento: Here At!, de 1994. Hoje à noite a formação do cosmossamático quarteto, que tem vindo a sofrer sucessivas entradas e saídas de pessoal (permanecem fixos apenas Simmons e Marcus), alinha com o contrabaixista japonês Masa Kamaguchi e o veterano baterista norte-americano Clifford Barbaro, o mesmo que trabalhou com a Arkestra de Sun Ra, Steve Lacy, Betty Carter ou Lionel Hampton, o que dá uma ideia da abrangência estética e versatilidade do grande Barbaro.
Será este o conteúdo da emissão do Jazz on 3 de hoje. Cosmosamatics ao vivo no London jazz Festival, a tocar Charlie Parker. Ham? Isso, Simmons toca Parker... Diria que é um programa deveras aliciante. A estratégia do Jazz on 3 é gravar o concerto e tratar de o emitir em diferido esta mesma noite, às 11 horas. Suponho que, em webcast, poderá o mesmo episódio ser ouvido durante toda a semana, mas sobre isso só o pessoal da BBC poderá responder com certeza.
À babugem

O camarada Gross, amigo de há muito, teve o gesto amável e generoso de incluir o Jazz e Arredores no curto rol de blogues que lhe caíram bem no ano de 2005. Um abraço ao Ricardo, cujas voltosferas sigo a par e passo. Não faço topes, mas o Babugem inclui-se nos meus hábitos regulares de leitura e revisão. Com gosto e interesse. Parabéns pelos dois anos de embasbacamento "perante tamanha Babugem". Dedico-te a audição do mais recente Thomas Buckner, Contexts. Disco de improvisações em barítono solo (voz), duos com Borah Bergman (piano) e David Darling (violoncelo), e uma peça em quarteto, com Gustavo Aguilar (percussão), Earl Howard (electrónica) e Wu Man (pipa). Haverias de gostar.
17 e 24 de Novembro, às 22h30
Lisboa Bar - Rua da Trindade, 7
SEI MIGUEL ALL-STARS
sei miguel_trompete de bolso
fala mariam_trombone alto
rafael toral_oscilador de eléctrodos
manuel mota_guitarra eléctrica
pedro lourenço_baixo eléctrico
césar burago_percussão
Sirone, Live

A capa de Sirone - Live, reproduz uma pintura/colagem de Morris Barazani (Untitled, 1952), cedida pela galeria de arte norte-americana Corbett vs. Dempsey, de John Corbett e Jim Dempsey, casa especializada em arte americana de meados do Séc. XX, com especial ênfase nos pintores de Chicago. Dempsey é um activista ligado ao cinema e à pintura. John Corbett é mais conhecido pelo seu envolvimento com as coisas da música, da escrita, à edição e à leccionação. Desde 2001 que tem vindo a dirigir a Unheard Music Series, um intensivo programa de reedições (ou primeiras edições) de material esgotado ou nunca editado, esteticamente próximo do free jazz ou da improvisação livre, que constitui uma importante sector da actividade editorial da norte‑americana Atavistic. Este Live, do contrabaixista Sirone, o homem do Revolutionary Ensemble dos anos 70, foi originalmente editado em 1981 (Serious Music). Reproduz a gravação ao vivo do trio de Sirone no Public Theatre, de Nova Iorque, em 11 de Julho de 1980. Com Claude Lawrence, saxofone alto, e Denis Charles, bateria. Embora no disco não estejam creditados quaisquer sons de trombone para além da flauta de madeira e de saxofone, presumo que o tr
ombonista fantasma não seja outro que não Sirone. O disco desenvolve-se todo ele numa toada tranquila, sem correrias nem explosões. Abre com um longo solo de flauta (Flute Song), de cerca de 10 minutos, a que Sirone confere um interessante efeito de encantador de serpentes, sublinhado, perto do fim, pelos tambores afro do grande Denis Charles, cujo som se identifica logo às primeiras notas. Denis (com um n e não com os dois como habitualmente se vê grafado) Charles estabelece o padrão rítmico e faz a ponte para a entrada de Claude Lawrence, no seu melhor estilo pós‑ornettiano. Lawrence enuncia a melodia do segundo tema (Eyes of the Wind), deixando espaço para uma exposição a solo de Charles, que passa a trio de meio até final, com solos expressivos dos três músicos, sucessivas entradas e saídas de cena, que estabelecem a equilíbrio certo entre da capacidade de improvisação a solo e a trio. É esta dupla característica, melhor exemplificada no tema de encerramento (Vision), que faz de Live um disco com imenso potencial para surpreender tanto os ouvintes que vêm do tempo do Revolutionary Ensemble, como os que apenas agora passem a conhecer a inventividade de Sirone, Charles e Lawrence.
A semanada do Leonel

«O destaque da semana vai inevitavelmente para a segunda semana do Guimarães Jazz , para onde todos os olhares estão postos.
A cabeça de cartaz é, pois claro, a orquestra todinha de Maria Schneider (a genuína, a americana), no sábado, absolutamente obrigatório. Mas gostaria de chamar a atenção para a minha outra grande aposta, o concerto do histórico Dave Liebman que demonstrou no Coliseu de Lisboa há dois anos, ao lado de Michael Brecker e Joe Lovano, estar em perfeita forma. Aliás, em minha opinião, ele foi mesmo o responsável pela melhor prestação dos três grandes saxofonistas. O concerto de Lindner/ McHenry/ Avital/ Freedman é de certa forma uma incógnita, mas assistimos no Seixal a uma auspiciosa apresentação de Omer Avital (integrado no grupo de Kurt Rosenwinkel), o que nos leva a aguardar com expectativa também este concerto.
Da mesma forma também não conheço a cantora Katrine Madsen, mas a Danish Radio Orchestra é uma das mais prestigiadas da Europa e é uma garantia de qualidade. A Big Band da ESMAE será outro dos concertos a ter em atenção, atendendo até aos excelentes músicos que de lá vêm saindo.
Fora de Guimarães, na Casa da Música, no Porto, toca no Domingo 20 o trio de Ernst Reijseger, um exuberante e irreverente "cellista" (que curiosamente também já tocou em Guimarães).
A sul a atenção dirige-se para o "Canções e Fugas" de Mário Laginha na Culturgest. Incursão do pianista na música clássica, regresso às origens, música de fusão ou simplesmente música? De um dos nomes maiores da música portuguesa a fasquia é com certeza atirada para muito alto. Imperdível.
O Trio de Nuno Ferreira no Hot Club e o Quinteto de Laurent Filipe merecem também a deslocação e curioso, no mínimo, pode ser o sexteto de cordas liderado por Ernesto Rodrigues, na Trem Azul, a atirar para fora do jazz com certeza (no que Ernesto chama pomposamente de "Novas Músicas Improvisadas") e que conta com duas surpresas na formação.
Lamento, lamento mesmo não ter ido a Guimarães assistir ao concerto de um dos mais interessantes pianistas da nova geração, Jason Moran nem ao seu afronto com Ralph Alessi e ainda ao renovado Art Ensemble Of Chicago. Mas assisti na Culturgest ao concerto da New Art Orchestra de Bob Brookmeyer (que tinha tocado no dia anterior no Guimarães Jazz) que nos ofereceu um belíssimo espectáculo de Cool Jazz. Mas desenganou-se quem estava à espera de uma noite calma: as paisagens que a música de Brookmeyer desenha são verdadeiras paisagens feitas de vales e montanhas e árvores e pessoas e todo o tipo de acidentes das paisagens. Música bela mas enérgica, rigorosa, onde a escrita e a improvisação se interpenetram em absoluto, de forma natural (se pode ser natural uma música feita de artifícios). Solistas de grande calibre, a desmentir a origem europeia, onde destaco além de Dick Oates (creio que o único norte-americano além do líder e do baterista), o gigante Ruud Breuls em trompete, o excelente saxofonista/ clarinetista Oliver Eicht e as baquetas de John Holenbeck, verdadeira âncora da orquestra, sensível e enérgico». - Leonel Santos
Só um burro não assina. Ou dois. Ena Pá!
>17NOV05, 19h30, na Trem Azul
SEXTETO DE CORDAS (liderado por Ernesto Rodrigues)
Manuel Mota_guitarra
Ernesto Rodrigues_viola
Pedro Costa_violino
Hernâni Faustino_contrabaixo
Eduardo Raum_Harpa
Guilherme Rodrigues_violoncelo

Pândega Big Band ao vivo no Seixal - 27.10.2005: Hernâni Faustino, Alípio Carvalho Neto, Abdul Moimême, Rui Neves, Paulo Massas, Eduardo Chagas, Rodrigo Amado, Cris, João Henriques, Lizuarte Borges, Pedro Costa e Travassos. Que som!

A mesma formação, sem Travassos.

Ornette Coleman ao vivo em 1968! Com o baterista Ed Blackwell e a dupla de contrabaixistas Charlie Haden e David Izenzon. Bem diferente dos Blue Note contemporâneos, é claro, talvez mais próximo da fase Golden Circle, de 1965. O primeiro disco deste conjunto de dois discos abrange o concerto de Roma, de 8 de Fevereiro. O segundo regista o célebre concerto do Teatro Lirico de Milão, a 5 do mesmo mês. Ambos incluem material anteriormente publicado em diversas edições avulso (ver nota abaixo), aqui compilado sob o título «The Love Revolution (Complete 1968 Italian Tour)». Àparte a importância histórica destes concertos, que é enorme, só a versão de Lonely Woman, extensa e ritmicamente reformulada, vale a aquisição deste lançamento da reeditora espanhola Gambit Records. O rapaz da foto é Denardo Coleman, filho de Ornette.
Assim, de acordo com a Ornette Coleman Discography:
Ornette Coleman Quartet
Ornette Coleman (as) Charlie Haden, David Izenzon (b) Ed Blackwell (d)
"Teatro Lirico", Milan, Italy, February 5, 1968
Tutti Jazz Up (It) JU 310; Moon (It) MCD 044-2
Three Wisemen and the Saint
New York
* Ornette Coleman Live in Milano 1968 (Jazz Up (It) JU 310)
* Languages (Moon (It) MCD 044-2)
Ornette Coleman Quartet
Ornette Coleman (as, tp, shanai) Charlie Haden, David Izenzon (b) Ed Blackwell (d)
Rome, Italy, February 8, 1968
Lonely Woman Lotus Passport (It) LPPS11 116
Mousieur le Prince
Forgotten Children
Buddah Blues
The Unprecedented Music of Ornette Coleman (Lotus Passport (It) LPPS11 116; Joker (J) UPS 2061)
Sound On Survival, American Roadwork
Marco Eneidi, saxofonista da Bay Area de S. Francisco, reside actualmente na Europa. Na década de 80, estudou durante algum tempo com Jimmy Lyons. Com ele desenvolveu uma certa articulação e uma maneira característica de expor o freaseado, de deixar a frase em suspenso durante um curto intervalo e agarrá-la outra vez. Eneidi tem em comum com Lyons e com Sonny Simmons, outro mestre, além da rapidez e da tonalidade, o facto de contribuir para alargar o vocabulário do velho bop em direcção a formas de expressão e invenção menos idiomaticamente subsumíveis às linguagens daquele estilo. Tal como aprendeu uma certa espiritualidade com Glenn Spearman, antigo companheiro da G-force, Creative Music Orchestra, American Jungle Orchestra, e outras formações da Califórnia. E, claro, com o mestre da ger
ação precedente, Ornette Coleman. Merece ainda comparação com outro grande artista do saxofone alto, Jemeel Moondoc, cujo som, aos meus ouvidos, tem mais em comum com o de Eneidi do que com qualquer outro do mesmo ofício.Uma das mais recentes aparições de Marco Eneidi em disco, American Roadwork, com o trio Sound on Survival (Lisle Ellis, contrabaixo, e Peter Valsamis, bateria), encontra o saxofonista na sala de estar da família Rusch – a Spririt Room – no rancho de Bob Rusch, em Redwood, Nova Iorque, local onde é gravada a maioria das edições do catálogo Creative Improvised Music Projects (CIMP). American Roadwork, gravação datada de Maio de 2004, é um disco intenso e imediato, que inclui uma série de títulos com a terminação blues, que, bem ouvidos, se revelam dessa natureza, embora mais no espírito e no balanço, que na forma. O trio Sound on Survival, rodado o mais que podia estar na altura (o produtor Rusch menciona o facto de, aos vinte e tantos dias precedentes ter correspondido um número idêntico de concertos; segundo Eneidi, a digre
ssão compreendeu 32 concertos em 40 dias, percorrendo 16.000 quilómetros, o que é obra num estilo de jazz que está longe de motivar mais do que um punhado de gente em cada cidade). O que deu num entrosamento e numa fluidez impressionantes, e um nervo pouco frequente neste tipo de projectos de sopro e ritmo. O característico som seco da CIMP contribui para acentuar uma certa aspereza natural da tonalidade de Eneidi, característica que bem combina com o estilo melódico de Lisle Ellis e a percussão precisa e rendilhada de Peter Valsamis. Sound on Survival é um excelente trio, que eu muito gostaria de ver actuar em Portugal. E American Roadwork é um discaço de todo o tamanho. Marco Eneidi vive actualmente em Nickelsdorf, cidade que fica a escassos 60 Kms de Viena, Áustria, a curta distância da frionteira com a Hungria. Um saltinho até Portugal talvez não fosse mal pensado, oportunidade para deixar de ser quase totalmente ignorado aqui no rectângulo. Para isso também pode contribuir a oportuna entrevista que Eneidi deu a Taran Sing, incansável divulgador europeu do free jazz, a ler em Francês ou em Inglês, respectivamente no Citizen Jazz e no All About Jazz.
Karlheinz Stockhausen em Lisboa
Domingo, 13 de Novembro, no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, ouviram-se as peças Wednesday Greeting e Kontakte, de Karlheinz Stockhausen. Da segunda, uma das obras mais famosas do compositor e de toda a música electrónica, o compositor escolheu a versão exclusivamente electrónica. Esta resultou das experiências de projecção espacial realizadas em Colónia, nos anos 50, base a partir da qual Stockhausen se constituiu pioneiro de muitas dos principais avanços musicais surgidos no pós-Guerra, com especial incidência na música electrónica, na estatística musical e na música aleatória, trabalhando de forma inovadora sobre a projecção musical no espaço. Do serialismo de Webern e Messien, à música electrónica, passando pela música aleatória e, por fim, pela música de
natureza mística, que marca sua produção desde a década de 70. Altura, desenvolvimento de escalas de timbres, tempo e intensidade do som, sofreram progressos e novas formulações às mãos do grande compositor alemão. Mais de 300 obras, inúmeros estudos musicais (entre eles, os afamados 10 volumes de escritos sobre música) e um amplo catálogo discográfico estão aí para testemunhar a importância de Stockhausen no desenvolvimento de novas formas e abordagens da música do Século XX.Wednestaday Greeting (1998) e Kontakte (1959-60) são trabalhos da actividade criativa do compositor alemão com electrónica de estúdio em estado puro (não há qualquer ins
trumentação acústica, excepto voz de soprano na primeira das composições), que o compositor apresentou em ambiente escuro (de luz, apenas uma pequena "lua" projectada ao fundo do auditório) e sem intérpretes ao vivo, em que as sonoridades concretas e electrónicas puras formam uma tessitura sonora que compatibiliza técnica e esteticamente as duas tendências. Em ambas as obras Stockhausen explora timbres, intervalos e velocidades, e a forma como o som se organiza no espaço, a partir das múltiplas trajectórias possíveis entre quatro pontos. Para melhor percepcionar estes efeitos, os espectactores foram convidados pelo compositor a sentarem-se ao centro da sala e a ouvir a música de olhos fechados, interagindo com os movimentos espaciais quadrifónicos, numa sensacional experiência auditiva geradora de atmosferas cósmicas e de fantásticas imagens abstractas.
Da esquerda para a direita: John Cage, Henk Badings, Mauricio Kagel, Earle Brown, Henri Pousseur, Luciano Berio, Marina Scriabine, Luc Ferrari, Pierre Schaeffer. Sentado: Karlheinz Stockhausen - Brussels World Fair, 1958.
Ao sábado à noite, entre as 20h00 e as 22h00, sempre que posso não perco o "Planeta Jazz". Na Oxigénio (102.6 FM), «o Jazz conjugado no passado, presente e futuro, um programa para amantes do género e simples curiosos, que percorre os múltiplos caminhos do jazz, desde a génese à transfiguração actual». As escolhas e combinações sonoras são de Tiago Santos (dos Spaceboys Soundsystem, dupla de DJ's que actuou há dias nos Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra).Mas na Oxigénio há good vibrations a todas as horas, desde que se goste de funk, soul, dub, chill-out e lounge em diferentes formatos, derivações e cruzamentos do pop com a música negra.
"Oxigénio, música para respirar". Emite na antiga frequência da Rádio Comercial da Linha, para a Grande Lisboa. Pena é que não chegue a todo o lado e em perfeitas condições. Um aumento de potência daria uma grande ajuda. A futura emissão através da nova página web, também.

One for the road. Depois de muito escolher e voltar atrás, decido-me por Charles Tolliver & Music Inc, Live in Tokyo, 1974. Stanley Cowell, piano, Clint Houston, contrabaixo, e Clifford Barbaro, bateria. Ouvir Tolliver a solar em trompete é sempre um programa especial. Live in Tokyo é uma preciosidade da Strata East, editora de Tolliver, reeditada pela britânica Charly. Post-bop em estilo livre e ritmicamente assanhado.

Wednesday Greeting é uma obra para coro, voz de baixo com receptor de ondas curtas, flauta, cor de basset, trompete, trombone, sintetizador, banda magnética, 2 bailarinos e projeccionista de som, articulados através de uma consola que controla 4 alto-falantes distribuídos pela sala.
Kontakte, foi composta em duas versões em épocas distintas, sendo a primeira para electrónica, emissões de rádio e gramofone, em dois canais, e a segunda para electrónica, piano e percussão, em quatro canais.
Lá estarei.

Nunca ouvi tal disco, mas parece que é Sun Ra do melhor. Acaba de ser publicado pela britânica Art Yard, exclusivamente em lp.
«On Jupiter is near ideal as an introduction to the musical worlds of Sun Ra. It has a magical mix of colours from Sun Ra's varied palette. Beneath its compelling surface lie many layers of musical detail, and numerous hints as to where Sun Ra was coming from and where he was heading. It combines real depth with beauty and hits you the first time you hear it. On Jupiter represents Sun Ra's closest encounter with the world of disco. In the late 1970s he made other albums that also gesture in this direction -- Lanquidity has a jazz-rock feel while remaining firmly part of the Ra omniverse, this is true too of Disco 3000 despite its title. On Jupiter really has only one track which fits the 'disco' tag -- 'UFO' -- but this piece is such a strong statement that it becomes the centre of gravity of the album. The title track, 'On Jupiter,' features Marshall Allen's oboe and Sun Ra's piano, along with guitars and bass and multi-layered percussion. This is the first appearance on record of this piece, afterwards to remain a frequently performed item in the Arkestra's book. Sun Ra would reportedly rehearse his band to the point of exhaustion, but in the studio his was usually a one-take approach, close to a concert performance. This did not necessarily mean that every album appeared in the form it was recorded. On Jupiter, like Lanquidity (but unlike Disco 3000, essentially a live recording) owes a lot of its final sound to post-production. The album was mixed by Michael Ray, who layered in prerecorded material with that produced in the studio -- Sun Ra sent Ray back to the Arkestra base during the mixing session, and Ray returned with 'a handful of tapes.' Close listening would suggest that some of the guitar and percussion and possibly some vocals were added in this way». - Chris Trent.
Braxton at 60

Prosseguem os festejos de homenagem à grande figura da música do Séc. XX, Anthony Braxton, no ano em que celebra o seu 60º aniversário. Depois de uma intensa primeira parte, que decorreu em
Setembro na Wesleyan University, em Middletown, EUA, retomam-se as actividades a partir de 16 e até 20 deste mês, com quatro concertos em que será abordada a obra integral de Braxton para piano solo. Interpreta a pianista belga Genevieve Foccroulle. Local: Wesleyan Memorial Chapel. Programa:
> 1st Concert of Complete Piano Works Cycle
> 2nd Concert of Complete Piano Works Cycle
> Composition 171 for piano and Constructed Environment
> 3rd Concert of Complete Piano Works Cycle

Grande Novidade para os devotos de Saturno!Informa o amigo Roberto "Puro Jazz" Barahona, no jazz_sp (grupo de discussão sobre jazz em Espanhol), que vai disponibilizar 4 DVD’s contendo 45 lp’s El Saturn de Sun Ra. "Son 4 DVDs originales, pero como el cuarto es muy pequenyo, lo he juntado con el primero". Roberto, que iguaria!Mais informa Roberto Barahona no JazzVines: “Each of the four vine discs bears a full-color label with graphics and a listing of contents. Ra'sters note: This set includes only those tunes on OOP Saturn titles that are not currently available elsewhere. These discs do not contain the entire contents of 45 LPs, but MOST of the LPs represented here ARE complete".Entretanto, vale bem uma visita a este arquivo de imagens de Sun Ra.
DVD1
1. Secrets of the Sun
2. Invisible Shield
3. Strange Strings
4. Monorails & Satellites
5. My Brother the Wind, Vol. 1
6. Space Probe
7. Sun Ra and his Arkestra
8. Space Probe
9. Horizon 
10. Universe in Blue
11. What's New
12. Featuring Pharoah Sanders
13. Continuation
14. Night of the Purple Moon
15. Dark Myth Equation - Visitation
16. Nidhamu
DVD2
Discipline 27-II
The Antique Blacks
Somewhere Over the Rainbow
The Soul Vibrations of Man
Media Dream
Sound Mirror
Out Beyond the Kingdom Of
Sub-Underground
Some Blues But Not the Kind That's Blue
Taking a Chance on Chances
Disco 3000
Song of the Stargazers
DVD3 
Omniverse
Trio
On Jupiter
Sleeping Beauty
I, Pharoah
Voice of the Eternal Tomorrow
Beyond the Purple Star Zone
Dance of Innocent Passion
A Fireside Chat With Lucifer
Celestial Love
Just Friends
Ra to the Rescue
When Spaceships Appear
Stars the Shine Darkly, Vol. 1
Stars the Shine Darkly, Vol. 2
Aurora Borealis
Oblique Parallax
Hidden Fire One
Hidden Fire Two
Happy Medium Disco, Chicago 9-25-78

DVD4
The Horo albums.
New Steps
Other Voices, Other Blues
Unity
Fredrik Nordström Quintet

Sábado, dia 5 de Novembro, no âmbito dos Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra/2005, a decorrer no Teatro Académico Gil Vicente, o Fredrik Nordström Quintet deu um concerto de belo efeito, visto numa perspectiva macro. Ou seja, ao nível das composições e dos arranjos, o trabalho dos suecos foi realmente dos melhores que se podem ouvir no panorama do jazz actual, muito rico e variado harmónica e ritmicamente. Fredrik Nordström sabe administrar os ecos que lhe chegam do jazz dos anos 60, e os elementos da sua própria lavra, fazendo com que a composição seja inquestionavelmente um ponto muito forte a seu favor, em virtude de possuir uma especial habilidade para gerir o espaço dentro da música. Por outro lado, como solista, Nordström tem muito que contar com o seu som de tenor cheio e robusto, de tonalidades clássicas e fraseado moderno, que combina os diversos vocabulários do instrumento.
Porém, nos detalhes, os tais onde o diabo se esconde, é que a realização ficou aquém das expectativas. Persistiu o sentimento de que Nordström por vezes apertou tal maneira a malha dos temas, que acabou por limitar os movimentos aos improvisadores, permitindo-lhes apenas alguns breves devaneios dentro de determinada circunscrição espacial pré-definida. Daqui resultou o ar excessivamente arrumado que se foi criando à volta da música, do qual, a espaços, apenas se afastavam trombone, contrabaixo e bateria. Estes acabaram por funcionar como um trio que logrou conquistar um relativo grau de autonomia dentro do quinteto, sustentando maior eficácia e liberdade de movimentos justamente nas alturas em que, sintomaticamente, quer o líder, quer o vibrafonista Mattias Ståhl – discreto, descolorido e a deixar-se ultrapassar pelos acontecimentos durante quase toda a actuação – ficavam de fora das operações, dando assim lugar aos melhores momentos de todo o concerto. 
Fredrik Rundqvist, baterista possuidor de um swing impressionante, emparelhou bem com o excelente contrabaixista Torbjörn Zetterberg, criando o melhor sustentáculo possível para este tipo de música. Mas a grande estrela, a maior supresa da noite acabou por ser o trombonista Mats Äleklint, que, inconformado, teimou em injectar adrenalina num corpo colectivo que, sem ele, não passaria do nível bem comportado, intervindo à revelia Nordström, que se esforçava for arrefecer os ânimos e levar o barco a bom porto, eventualmente mais preocupado com os promenores da estruturação formal e em contar a sua história tintim por tintim. Em suma, apesar do bom gosto generalizado e da elevada competência individual, esta versão do Fredrik Nordström Quintet, diferente da que se ouve nos discos já gravados (não veio Ingebrigt Håker Flaten, nem Magnus Broo), mostrou possuir mais potencial que elevado rendimento efectivo, apesar de um ou outro pico de maior vibração e efervescência.
De qualquer modo, Nordström mantém intacto o capital de confiança que granjeou enquanto protagonista do processo de rejuvenescimento em curso no jazz, de tal modo que, sem renegar parte da herança afro‑americana recebida das suas influências além‑Atlântico, se tem vindo a afirmar cada vez mais como uma voz singular e personalizada na música improvisada europeia, que por isso mesmo importa acompanhar. Haverá muito para ouvir nos tempos mais próximos.

Para ler e coleccionar, a entrevista, agora completa, de Dennis González a Jesse Goin, publicada pela webzine de jazz e música improvisada One Final Note. Duas partes, Outubro e Novembro de 2005.
Amado & The Boys, no Barbès
- «Bela foto que o Ken me mandou. Não percebo como foi tirada. A sala estava quase às escuras....» - Rodrigo Amado
- Talvez estivesses a tocar de olhos fechados, digo eu... ;-)
(Da esquerda para a direita, Herb Robertson, Ken Filiano, Lou Grassi e Rodrigo Amado, ao vivo no Barbès, Brooklyn, Setembro/2005)

Live in the World
Nova Música Improvisada
«Ao musicólogo interessam todas as espécies de música existentes (oral, escrita, virtuais) e tudo o que possa esclarecer o contexto humano em que essas músicas se situa
m. Aventou-se então o ramo distintivo da "musicologia da nova improvisação", cujo objecto é a concepção individual e súbita de estruturas ordenadas, implementação de processos imediatistas, outras oportunidades para a percepção.
Há uma tendência alegadamente musicológica para, vagamente up to date, incluir o étimo "improvisação" subsumido pelo genérico "experimental"; mas, o facto coloca-nos o problema da Música assumida como experimental, desde os meados do Século XX, por compositores e executantes clássicos contemporâneos - esta de carácter laboratorial, à semelhança da disciplina científica apodada de "Física Experimental", no cerne da invenção hipertecnológica e a decorrer nos procénios e nos circuitos de difusão e edição da música autoproclamada erudita.
Não é opinado abrir uma dicotomia entre "experimentalismo racionalista", discurso afluente do classicismo e do consciente, e "experimentalismo empiricista", conectado com o manifesto da espontaneidade e do inconsciente; ou sequer se pode detectar uma influência de génese deste em relação ao outro; o termo "improvisação", em si mesmo, exibe um discurso desterritorializado e de obra aberta, compreensivo do lógico e do intuitivo.
Ao preferirmos o enunciado "nova música improvisada", porém, não excluimos, antes procuramos honrar, qualquer criação musical contemporânea de qualquer quadrante estético/cultural e do foro experimentalista.
Improvisar é criar no instante e livremente, um trabalho musical, acústico, electroacústico ou virtual, de preferência maravilhante, como no acto do ilusionista» - Jorge Lima Barreto
Desde Single Piece Flow (1997), e à medida que foram saindo, fui adquirindo todos os discos do Vandermak 5, incluindo a recente caixa contendo a integral das gravações de Cracóvia, editadas pela polaca NotTwo Records (Alchemia). Admito que, depois de tão lauto manjar (12 discos gravados ao vivo), e ante tamanha exposição discográfica em estúdio, receava o esgotamento da famosa fórmula V5. Por isso hesitei quanto a este novo The Color of Memory, que ainda por cima se apresenta em formato de cd duplo. Entretanto, informei-me e fiquei a saber que o disco, o oitavo da discografia oficial de estúdio, abrange material composto por Ken Vandermark durante a semana polaca de Março de 2004, tendo algumas dessas composições sido incluídas no programa extensivamente tocado e registado no palco do Alchemia Bar.Associando o interesse em ouvir as composições re-arranjadas para gravação em estúdio, ao anúncio de que The Color of Memory seria o último disco em que participaria o trombonista Jeb Bishop, substituído, para o futuro, pelo violoncelista Fred Lonberg-Holm (está confirmado pela editora, a Atavistic), digamos que as expectativas, baixas de início, passaram a ser consideravelmente mais altas. E não foram desfeiteadas, pelo que já ouvi deste disco, capaz de agradar tanto aos admiradores de antigamente, como aos que só agora queiram abeirar-se do trabalho de uma das working bands mais marcantes dos últimos anos, composta por Ken Vandermark, Jeb Bishop, Dave Rempis, Kent Kessler e Tim Daisy. Não se espere nada de muito diferente do que já se conhecia de obras anteriores, embora na verdade continue a soar muito bem esta mistura de alto rendimento, feita à base de groove e free bop swingante, arranjos à maneira west coast e jazz com secções de free improv - uma síntese da moderna música improvisada nascida e criada em Chicago nos dias de hoje.
Pode ser sugestão, mas quer-me parecer que Jeb Bishop deu tudo o que tinha para dar neste disco. Que é muito. Ouço Chance, o tema que fecha o disco 1, e rejubilo com a improvisação do ex-guitarrista e agora ex-trombonista. Não sei porque saiu, contam-se histórias e mexericos, mas sei que a paisagem sonora vai mudar substancialmente sem a sua paixão. Ken Vandermark é um líder que tem sabido encontrar boas soluções para problemas novos. E nunca é demais conhecer novas peças saídas da sua imensa veia criativa. Por isso vou já ouvir o que me reserva o segundo tomo. Depois falamos.
Borah

Entrevista de Borah Bergman à All About Jazz. Borah Bergman: You Must Judge A Man By The Work of His Hands. Este homem é um piano.
«AAJ: What was your background as you were coming into this approach?
BB: Bebop. "Free" came into my playing a little later on... I don't know if I would call myself a "free" pianist because I can also play bebop. I was influenced strongly by Ornette Coleman... I was also very influenced by chamber music and Bach and Dixieland or New Orleans, where all of the instruments were playing contrapuntally and polyphonically. So I figured I'd like to do it myself. The left hand was a perfect vehicle for me. Also, I get these impulses. In order for my impulses to come out, I need a recovery act and the left hand would always recover quickly and make things correct... I take a lot of chances and if you take a lot of chances you could fall on your face, but the left hand would always come and help me out. You can be disorganized, but if you can organize your disorganization, then you're organized [laughs] ... organized chaos».
Howard Rumsey presents…

Descontando a publicidade enganosa que abunda neste tipo de edições, que se aceita e acaba por relevar à conta da oportunidade que nos é concedida de ouvir música que, a não ser assim, estaria provavelmente votada ao esquecimento, há bastos motivos de contentamento ante este novo produto do trabalho de pesquisa e reedição laboriosamente levado a cabo pela editora espanhola Lone Hill Jazz, distribuída pela Disconforme, de Andorra.
A tal pequena batota tem apenas a ver com o facto de, em Howard Rumsey presents…Conte Candoli & Max Roach, - Jazz Structures, o trompetista não liderar qualquer dos dois Lp’s aqui emparelhados, como a capa da edição parece sugerir; e, hélas!, Max Roach nem sequer toca em Jazz Structures, título do álbum de 1960 da famosa formação da Costa Oeste, o Lighthouse All-Stars, onde efectivamente militou o trompetista Conte Candoli (1927-2001). Dirigido pelo contrabaixista Howard Rumsey, gerente do Lighthouse Café, de Hermosa Beach, o Lighthouse All-Stars funcionou ao longo dos anos como uma plataforma giratória por onde passaram os mais importantes improvisadores daquelas paragens, que se apresentavam ao público em batalhas musicais, míticas jam sessions que chegavam a durar 12 horas seguidas, e que ocasionalmente eram visitadas por convidados especiais, como Chet Baker ou Miles Davis.
Pelo lado dos músicos intervenientes há de facto uma ligação forte dos dois Lp’s desta edição conjunta, Drummin’ the Blues e Jazz Structures, à Lighthouse All-Stars. Uma das curiosidades do primeiro Lp, Drummin’ the Blues, de 1957, é que ele inclui o trabalho dos bateristas Max Roach e Stan Levey, alternando tema-a-tema e evidenciando diferenças de estilo na abordagem do instrumento; um, claramente mais cool e talhado no formato west coast; o outro, a puxar para o hard bop, embora ambos pareçam tentar convergir para um denominador comum: o swing, puro e duro.
Na secção dos sopros, o trompetista Candoli pica sistematicamente o trombonista Frank Rubolino, jogando ambos com o tenor de Bill Perkins, músico que alterna com Bob Cooper em alguns dos temas. A secção rítmica, rigorosa como sempre usa ser neste tipo de combos, conta, além do líder Rumsey Lewis, com o pianista Dick Shreve. Uma boa sessão de arranjos originais para blues compostos e executados num estilo ligeiro, misto de cool e bop temperado.
O outro Lp agregado, Jazz Structures, de 1960, contém dez temas compostos e arranjados pelo saxofonista tenor Bob Cooper, gravados num estúdio de Los Angeles sob o nome Lighthouse All-Stars. Conte Candoli reincide em trompete, Buddy Colette e Bud Shank, ambos em saxofone alto e flauta, Frank Rosolino, de novo em trombone, Victor Feldman, vibrafone e percussão, e Stan Levey, bateria. Comparativamente com a sessão anterior, a atmosfera de Jazz Structures é porventura mais quente e descontraída, com laivos soul, latino e tropical bem doseados, maior liberdade individual concedida por Bob Cooper, escapando por esta via ao estilo tipicamente west coast.
Interessante audição comparativa de dois discos esteticamente próximos e aparentados, mas que encerram em si um manancial de diferenças e especificidades, cuja descoberta se vem a revelar um exercício intelectual e emocionalmente estimulante.
Howard Rumsey presents…Conte Candoli & Max Roach - Jazz Structures (Lone Hill Jazz)

Quase me esquecia de falar da festa de aniversário da Jazz Store da Trem Azul, estabelecimento lisboeta que ontem cumpriu o primeiro ano de intensa e variada actividade. Muita gente, amigos, conhecidos, televisão (fomos quase todos entrevistados pelo Hugo Pinto, o único maquiado para o efeito), comes, bebes, e um programa com dois concertos e uma jam session em perspectiva. Primeiro actuou o IMI Kollektief, do saxofonista Alípio Carvalho Neto e restante rapaziada, Elsa Vanderweyer, Jean-Marc Charmier, João Hasselberg e Rui Gonçalves. Foi a terceira vez que vi o IMI K. ao vivo, no espaço de, quê, quinze dias, talvez. À terceira, o IMI K. já soa como um colectivo no verdadeiro sentido do termo, cingindo-se àquilo que constitui a essência da sua voz original. Sinergético, o ente ganhou corpo e espírito próprios, tendo ascendido a um patamar superior ao da simples soma aritmética dos cinco talentosos improvisadores que o compõem. Sensacional!
Nós, no público, parece que gostámos muito, se bem interpretei os acenos de cabeça e as muitas palmas e assobios de louvor que repetidamente se ouviram. Outro bom concerto daquele que – já aqui o disse – constituiu a grande surpresa e a revelação deste ano de 2005! (Pouca gente sabe, mas vem a caminho um trio de fantásticos improvisadores dos vastos e, para já, insondáveis domínios da electrónica de trazer por casa, capaz de os destronar – o ainda nascituro mas já nomeável LowTech, de que me orgulho de fazer parte antes de o ser, um pouco como a pescada, if you know what I mean).
Não fiquei para a segunda parte, em que actuava o trio de Michaël Attias, porque, depois de três noites seguidas em Coimbra a ouvir o massacrante estarola (e, sobretudo, tarola!) japonês que Attias se lembrou de trazer (a contra-revelação do ano), não tinha nem mais um grama de paciência para aturar a sua, digamos assim abreviada e eufemisticamente, heterodoxia percussiva pseudo-hardcore em alto volume e máxima rigidez; posto o que me pus ao fresco, literalmente falando, que a noite de Lisboa enregelava qualquer jazzómano que àquelas horas fortuitamente atravessasse a 24 de Julho a caminho do combóio.
Parabéns públicos pelo aniversário ao Pedro Costa, Hernâni Faustino e Ilídio Nunes. E também ao Travassos e à Madalena, que ainda não fizeram um aninho mas também merecem.
Bela festa e muita pândega, claro.
Para a semana começa o Guimarães Jazz 2005, cujo programa e calendário podem ser aqui consultados. Da Introdução, escrita por Ivo Martins, retiro este saboroso quanto esclarecedor pedaço de prosa:«Quando falamos em alcançar visões concordantes sobre as dificuldades sofridas no caminho da existência, estamos a referir o que elas têm em comum relativamente à sua disposição no tempo. A prática de tratar o passado como um caso presente, quando essa mesma ideia pode ser associada ao futuro, faz com que exista uma complementaridade que põe a questão de ter de se saber agir com as ideias que, aos nossos olhos, se encontram velhas e desactualizadas. Esta fonte de estímulos, que teremos de ignorar ou de rejeitar, caso contrário ocorreria um erro definido na descontinuidade entre os acontecimentos que persistem num determinado conjunto de interesses, faz com que tudo o que vai passando, apareça como um momento que, sendo visível e sustentado por inúmeras manifestações de evidência, nos pode trazer uma novidade».
Para mim, chega, mas o texto continua no mesmo registo arrevesado, que estas coisas do jazz são, evidentemente, só para doutorandos em literatice. Ora, deve ser por tudo isto que este ano vêm a Guimarães, a Bob Brookmeyer New Art Orchestra, Jason Moran Piano Solo - 1ª Parte; Ralph Alessi Quartet Featuring Jason Moran - 2ª Parte, Sexteto ESMAE, Art Ensemble Of Chicago – Great Black Music "Ancient To The Future", Jason Lindner, Bill Mchenry, Omer Avital And Daniel Freedman, etc.
O boneco do cartaz é uma estampa, não é?
Macho Jazz
Como bem observa o João Santos, amigo e dwitza man por excelência (não figura em nenhuma destas fotos), «o começo de uma discussão que não vai haver em torno da Diana Krall poderia encontrar aqui um eco alargado e pertinente: Macho Jazz, artigo do John Gill», publicado no mais recente número da Paris Transatlantic Magazine, dirigida por Dan Warburton.Que tem isto a ver com os comentários que aqui deixei há dias? Só lendo, mas um dos pontos de partida é dado no texto pelo próprio John Gill, quando o também escriba da W
ire observa certeiro: «Meanwhile, young women with cantilever bras prepared to lie on their backs "playing" the saxophone on CD covers get record deals. Would Diana Krall have released a single goddamn minute of music if she looked like Andrea Dworkin, who by the way happens to be a heroine of mine? What happens to the young jazz musicians (lesbian and heterosexual) who won't lie on their backs, literally or metaphorically? It's a serious debate that isn't happening – the situation of women in jazz and the dynamics that affect their experiences and expectations in the field». O texto integral para leitura, gozo e reflexão, está aqui. A foto de Mats Gustafsson (The Thing) é do Nuno Martins, sacada durante o concerto do Jazz em Agosto 2004, a que John Gill faz referência. A da cantora e pianista, não sei. Nem me interessa. Quem lhe quiser apreciar o talento ao pormenor, basta clicar sobre a dita, que ela cresce a olhos vistos. Cheers, Di...
Quinta-feira, 3 de Novembro. Na abertura da segunda parte dos Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra – Jazz ao Centro/2005, o trio de Aldo Romano, Louis Sclavis e Henri Texier, personalidades maiore
s do jazz europeu actual. A Coimbra, os celebrados músicos franceses trouxeram a releitura das impressões musicais colhidas nas sucessivas viagens ao continente Africano, ao longo dos 10 anos em que têm vindo a trabalhar neste projecto conjunto com o fotógrafo francês Guy Le Querrec (o quarto membro deste trio, por assim dizer), mais a proposta de estreia mundial ao vivo do novo álbum do grupo, African Flashblack, inspirado nos 30 anos de memórias fotográficas de Le Querrec. A este propósito, tratando-se de um projecto que tão intimamente tem ligado música e fotografia, estranhou-se a não exibição de uma única foto de Le Querec antes, durante ou depois da actuação. Globalmente considerado, o concerto apresentou uma boa dose de jazz/world, sequência de pequenos retábulos impressionistas servidos com o bom gosto habitual, embora sem risco nem grandes picos de inventividade. Ancorados no pulsar de Texier, coluna central deste sistema e o mais entusiástico em palco, o trio atingiu picos de perfeição técnica, embora longe da beleza estética e da entrega experimentada noutras actuações ao vivo.
Sclavis não deu mostras assinaláveis do brilho de outrora, bastando, para fazer sobressair tal evidência, a comparação com a presença na primeira parte desta edição do Jaz
z ao Centro, co-liderando um extraordinário quarteto com Michel Portal. O prodigioso clarinetista e saxofonista soprano limitou-se agora a cumprir o programa sem mácula, mas também sem os golpes de asa de que se sabe ser capaz. Em sintonia com Sclavis esteve Aldo Romano, também ele a seguir a lição à risca, sem levantar a fervura que se esperaria de um concerto de apresentação mundial do novo disco, African Flashback. Houve até algo de falhado na tentativa, anunciada por Henri Texier, de abordar musicalmente aquilo que, na visão do compositor, seria a política francesa em África, representada sob a forma de uma marcha militar insípida e incolor, servida por uma imagética sonora demasiado óbvia e involuntariamente caricatural. Enfim, no melhor pano cai a nódoa do politicamente correcto, sempre propício ao aplauso fácil e garantido. Mais frescos soaram os temas do primeiro disco, Carnet de Routes, e os novos de Sclavis para African Flashback, enquadrados numa sequência de peças que, se não memoráveis, tiveram pelo menos o mérito de retomar antigos sabores norte-africanos com refinado toque mediterrânico. Dez anos de percurso conjunto, três álbuns e concertos por todo o mundo, parecem ter conduzido o trio ao final de um ciclo. A partir da encruzilhada a que chegaram, de duas, uma: ou os músicos se questionam e procuram caminhos alternativos através da formulação de um novo conceito, ou arriscam a repetição de uma fórmula que funcionou bem, mas ameaça esgotamento iminente. Ainda assim, e apesar de alguns pontos fracos, assistiu-se a um bom concerto de jazz.

Terminada está a jornada coimbrã, segunda parte dos Encontros Internacionais de Jazz/2005. Quatro dias de música e de pândega à larga. O défice de descanso foi amplamente compensado pela música e pelo convívio entre músicos, público e produção, com o ponto mais alto nas “after hours” do Salão Brasil, jam sessions diárias até altas horas da madrugada. Com transmissão integral e em directo através da Rádio Universidade de Coimbra (:ruclub). Mais um Jazz ao Centro, mais uma celebração do jazz nas suas variadas formas. Para o ano há mais.
07NOV, 19:30 - Festa de Aniversário da TREM AZUL Jazz STORE
Michaël Attias Trio
Michaël Attias_ saxofone alto
Sean Conly_ contrabaixo
Takeaki Toriyama_ bateria
IMI kollektief
Alípio Carvalho Neto_saxofone tenor
Elsa Vandeweyer_vibrafone
Jean-Marc Charmier_trompete, fliscórnio, acordeão
João Hasselberg_contrabaixo
Rui Gonçalves_bateria
+++ Jam Session +++ Comes e Bebes +++ 10% desconto +++ Atribuição dos «Prémios da Pândega»
O novo trabalho online de Bill Shoemaker. Segundo Volume.
Alex von Schlippenbach em entrevista a Shoemaker, realizada em Lisboa, durante o Jazz em Agosto/2005:
«So many times jazz has been called old-fashioned or even dead, and then something happens that says it is alive. There is a new generation of musicians in Berlin like Rudi Mahall, who is a good example of this. The spirit of bebop comes back in his playing, but in a new way. That’s what I find very interesting. Like Evan [Parker], who took Coltrane’s playing and made it into a new thing. The spirit of jazz is something that cannot die. It always resurrects in a new form. That’s been my experience. It will go on like that. I cannot imagine it any other way».
A partir de amanhã, dia 3, e até dia 5 de Novembro:
JAZZ AO CENTRO - ENCONTROS INTERNACIONAIS DE JAZZ DE COIMBRA - 2ª PARTE
Teatro Académico Gil Vicente e Salão Brasil, Coimbra
28, Dunois
Nos anos 80, o clube da Rua Dunois, 28, em Paris, acolheu e gravou dezenas de nomes importantes do jazz e da música improvisada euro-americana. Por lá passou uma lista impressionante, que inclui:
DEREK BAILEY
BOBBY FEW - ALAN SILVA - MOHAMAD ALI
STEVE LACY - TAKASHI KAKO
EUGENE CHADBOURNE SHOCKABILLY
FRED FRITH - TOM CORA
TONY COE - GEORGE LEWIS
ERIC WATSON - JOHN LINDBERG - BARRY ALTSCHUL
TONY COE - LOL COXHILL - STEVE BERESFORD
ALEX VON SCHLIPPENBACH QUARTET
JOELLE LEANDRE - GEORGE LEWIS - DAUNIK LAZRO
SAM RIVERS - MAL WALDRON
SONNY SHARROCK QUARTET
MAL WALDRON QUARTET
MISHA MENGELBERG - HAN BENNINK - ERNST REYJSEGER - GEORGES LEWIS
MAARTEN ALTENA OCTET
HANS REICHEL - SVEN AKE JOHANSSON
ROVA SAXOPHONE QUARTET
HENRI TEXIER QUARTET
GRAND ORCHESTRE DE LAURENT CUGNY
IRÈNE SCHWEIZER - JOELLE LEANDRE - YVES ROBERT - DAUNIK LAZRO
JOACHIM KÜHN - DANIEL HUMAIR - JEAN-FRANCOIS JENNY CLARK
LOUIS SCLAVIS QUARTET
JOHN STEVENS QUARTET
NED ROTHENBERG - ELLIOT SHARP -SAMM BENNETT
JOELLE LEANDRE - MALCOLM GOLDSTEIN - JOHN ROSE
Aqui podem ver-se pequenos extractos de vídeos da época, com cerca de minuto e meio cada.

Aguardo com expectativa a chegada daquela que deve ser uma das grandes edições do ano: VESUVIUS (SLAM Productions). Alexander Von Schlippenbach (piano), Paul Dunmall (saxofone tenor), Paul Rogers (contrabaixo de 7 cordas) e Tony Bianco (bateria), em duas longas improvisações, Salamander (29') e Leviathan (34'), gravadas ao vivo em Londres, a 21 de Outubro de 2004.
«Alex Von Schlippenbach, one of the pioneers of the free jazz movement in Berlin in the 1960's, known for his legendary big band the Globe Unity Orchestra and his trio with Evan Parker and Paul Lovens. Recently he has recorded the complete works of Thelonius Monk. Paul Dunmall, one of the leading lights in melodic free improvising over the last 25 years on saxophone and his more revolutionary work on bagpipes, has an immense range of experience playing with Johnny Guitar Watson, London Jazz Composers Orchestra, Mujician and Danny Thompson's ‘Whatever’. Paul Rogers is an integral part of the European Improvised music scene, working with all the recognized players across the continent and beyond, whilst developing his outstanding approach on his own designed 7 string bass. Tony Bianco, firmly rooted in the Jazz Tradition from his home in New York, has embraced all forms of improvised music. His drive and stamina are exceptional».

Manhã de chove-não-chove, que entretenho a ler o manual de instruções já esquecidas do minidisc (parte da cultura literária do mundo moderno é feita de manuais de instruções, cada vez mais volumosos e complexos) e a ouvir Scenes from the Silent Revolution, de Jess Rowland (Pax Recordings). A ver se me ajuda a ter paciência para esta impenetrável tecnicidade.
All About Jazz - New York
Contents:
- Interview: Borah Bergman
- Artist Feature: Mats Gustafsson
- On The Cover: Sheila Jordan
- Label Spotlight: Fantasy Records
- Club Profile: Cargo Café
- In Memoriam • Birthdays • On This Day