And Now... Assinala o regresso, vindo das brumas do tempo passado, do Revolutionary Ensemble. Levo uma tarde inteirinha de audições sequenciais em modo de repetição deste que é um dos discos mais estimulantes entre os que ouvi já este ano. As revistas que tratam do jazz que menos entra pelos ouvidos adentro há muito que antecipavam esta edição da americana PI Recordings.Artigos, comentários, notas e entrevistas sobre a nova gravação do Revolutionary Ensemble, criaram uma razoável expectativa à volta do acontecimento, que acabou por se confirmar em absoluto. O disco é uma grande obra do trio que vem do Loft Jazz dos anos 70: Leroy Jenkins, violino, harmónica; Sirone, contrabaixo, e Jerome Cooper, piano e bateria.
Música de câmara e free jazz numa mistura tão fresca e equilibrada hoje como há 30 anos atrás, no tempo de The Psyche (reedição da Mutable Music), que beneficia das possibilidades de exposição relativamente mais alargada que lhe concedem (agora) alguns segmentos da imprensa. 27 anos depois da última aventura em disco, The Revolutionary Ensemble sai-se com uma bomba!

Em 2005 comemoram-se os 40 anos da fundação da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians), o mais antigo dos colectivos de artistas da música afro-americana, criado por iniciativa de um grupo de músicos de Chicago, à cabeça dos quais o pianista e compositor Muhal Richard Abrams. Foi o advento da expressão «Great Black Music» e da sua afirmação enquanto bandeira musical e política (Malcolm X morreu em 1965), com fortes ligações às raízes afro-americanas do jazz (jazz radical, nesse sentido).Ao longo das quatro décadas de existência, a AACM afirmou-se na cena internacional como um importante catalizador das formas de expressão musical mais vanguardistas e experimentais, que, a partir da «Windy City», se disseminaram por todo o mundo do jazz, estendendo o seu exemplo a outros pontos da América do Norte e à Europa, a partir do final dos anos 60. 40 anos de existência activa da associação comemoram-se condignamente com festividades alusivas, concertos e outras manifestações culturais com especial ênfase nos dias 7 e 8 de Maio, e epicentro no Chicago Cultural Center e no Museum of Contemporary Art, de Chicago.
Os concertos programados envolvem uma série de membros activos da AACM, em conjunto com músicos de Nova Iorque. O AACM Fire Trio, do pianista Jodie Christian, com o co-fundador do AACM residente em Nova Iorque, Reggie Nicholson, e Ari Brown. Participam também George Lewis e Ann Ward; Edward Wilkerson e o fenomenal 8 Bold Souls; e, claro, o papa do free jazz de Chicago, Fred Anderson.
Da terceira geração da AACM, participam a flautista Nicole Mitchell e o Black Earth Ensemble, que acolhe outro grande flautista de Chicago, James Newton. Convidados especiais são Douglas Ewart, Mwata Bowden, Edward Wilkerson, Rita Warford.
O fundador do BAG (Black Artists Group), a congénere da AACM em St. Louis, Oliver Lake, terá um destaque especial. Seguir-se-á o quarteto do trombonista Isaiah Jackson, com Corey Wilkes, trompete, o baterista Vincent Davis, e o percussionista Art "Turk" Burton. A apoteose chegará depois, com a actuação do Great Black Music Ensemble, formação herdeira da original Experimental Band, fundada por Muhal Richard Abrams em 1965 - uma grande orquestra composta de membros da AACM de todas as gerações, que interpretará composições de alguns dos mais distintos entre eles, com Joseph Jarman à cabeça.
Três dos melhores improvisadores nacionais reencontram-se para abordar um programa de música composta no momento em que é executada. Micro-climas sonoros criados em tempo real, que permitem investigar novas formas de combinação e organização sonora. Às 19h30.
Deve ter sido uma canseira, os habituais contratempos, o diabo a sete e os imponderáveis do costume. Mais coisa menos coisa, a exposição toma forma e as fotografias sobem pelas paredes acima. E lá estará ela, visível e vistosa, na Trem Azul, de 1 a 30 de Abril próximo futuro.PRETO NO BRANCO - 25 fotografias de Nuno Martins sobre músicos de jazz.
"Com ênfase nas expressões, um paralelo entre o Jazz e a fotografia enquanto linguagens distintas, mas que permitem a expressão, o sentir emocional".
Antecipo que o Nuno vai expor alguns dos melhores trabalhos fotográficos realizados nos anos mais recentes, que merecem ser vistos.
De 1 a 30 de Abril, na Galeria da Trem Azul, à Rua do Alecrim, em Lisboa.
[ P R E T O n o B R A N C O ]
Expressões no jazz, fixações de um olhar. Emoções. Assim como o jazz é uma linguagem musical própria, com os seus signos e códigos, a fotografia é uma outra linguagem, semântica de luz, que expressa e expõe um determinado olhar, pelo qual, uma percepção particular do meio é estabelecida.
Mais que fotogramas de espectáculos, estas fotografias encerram o testemunho de um duplo sentir. O sentir do autor, numa dinâmica que transporta para um suporte a singularidade de um momento, e o sentir do músico, pleno de emoção na sua expressão corporal, numa relação intrínseca, una, com o som, notas que transforma em música, a sua música, produto de uma interpretação pessoal na sua relação com o mundo.
Fotografia e música. Fotografia e jazz. Emoções e sentires. Paralelos.
Preto no Branco é o reflexo do encontro ontológico de duas formas de sentir, singulares, que perspectivam formas de comunicação, produto do entendimento do mundo que nos rodeia.
Nuno Martins
Abril de 2005
Paul Dunmall (saxofones) só mandou fazer a fartura de 85 cópias de um disco quádruplo que gravou com Paul Rogers (contrabaixo de 7 cordas) e Philip Gibbs (guitarra acústica e banjo). O opus enormus chama-se NIMES (DLE 036) e foi editado por Dunmall na própria Duns Limited Edition. A aquilatar pelos anteriores trabalhos deste laborioso trio (Live At The Quaker Center é um bom exemplo) o CD quádruplo deve ser de ir às lágrimas de satisfação. Fui-me a ele antes que esgote. Afinal, 85 exemplares sempre é um exagero... .
Está anunciada, mas ainda não disponível na página da Mind Your Own Music (ainda vai no DLE 038), outra colossal obra quádrupla de Tony Levin, Paul Dunmall e Paul Rogers: DEEP JOY (DLE 041), também na Duns Limited Edition. Três dos quatro MUJICIAN, o melhor quarteto de free jazz britânico que conheço. Para a pandilha estar completa só lá faltam as suíças do homem do Atum Tenório (esta é do Fernando Grilo), Keith Tippett. Este Deep Joy insere três sets em trio e um em duo de sax tenor e bateria... .Paul Dunmall em duplo formato quádruplo. Vendo bem, é o tamanho que vai melhor com a sua estatura física e musical. Dunmall é imenso, o maior... .
> Paul Dunmall (foto: Nuno Martins)
Deambulando pelas edições de noise rock, subgénero que muito aprecio, com relativa surpresa fui encontrar Frode Gjerstad integrado no quarteto ULTRALYD (Frode Gjerstad, sax alto e clarinete, Anders Hana, guitarra eléctrica; Kjetil Brandsdal, baixo; e Morten J. Olsen, bateria), e editado pela americana Load Records.
Noise/rock/jazz/improv, e o mais que os noruegueses quiseram pôr dentro da música desta jam band. Fiquei a saber que Chromosome Gun é o segundo disco do bravo quarteto nórdico, tendo o primeiro, homónimo, sido publicado por Trevor Taylor na Future Music Records (FMR).
Bruce Lee Gallanter, da Downtown Music Gallery (DMG), de Nova Iorque, ouviu o disco e dele disse assim: "Muito concentrado, criativo e furioso. É interessante que Frode, a rondar os 60, consiga realmente acompanhar estes jovens pesos-plumas (...). Estarei já velho para estas aventuras?! Não, e aprova disso é que vou assistir a alguns concertos deste tipo de barulho no Victo deste ano. Suponho que ainda não cheguei ao topo da montanha".
Pessoalmente, como ainda agora comecei a subi-la (que digo eu?!), sobra-me pedalada para ouvir esta desbunda Ultralyd. Vai daí, fui-me à página da Load, editora de Providence, Rhode Island, e já está no papo, juntamente com o novo dos Sightings, Arrived in Gold. Fora dali, Ultralyd só a 26 de Abril, data do lançamento no mercado internacional.Ultralyd - Chromosome Gun (Load, 2005)
Depois da "bomba" de 2002, que foi O'Neal's Porch (Centering Records/AUM Fidelity), seguramente, um dos melhores discos daquele ano, eis que William Parker e o quarteto com Rob Brown, Lewis Barnes e Hamid Drake voltam à carga no próximo mês de Maio com Sound Unity (AUM Fidelity). Seis composições gravadas no Canadá (Montreal e Vancouver), no decurso da digressão que o quarteto empreendeu em 2004. Musicalmente, anuncia-se e espera-se algo próximo de O'Neal's Porch, no espírito, forma e substância."All people in the world need the beauty of truth to survive. ... Over the last 600 years we have acquired tons of knowledge and information about everything under the sun, yet we are a stone’s throw away from destroying the world in which we live. All information that is acquired in life must transform into wisdom; then into compassion. Without compassion science will never succeed". - William Parker

Ainda a propósito de Eric Dolphy, permito-me sugerir a leitura de dois ou três interessantes subsídios para o melhor conhecimento de Eric Dolphy. São gratuitos e estão disponíveis na net. Realço o trabalho de Alan Adale sobre Eric Dolphy, que compila a discografia completa do saxofonista, flautista e clarinetista em 6 partes, cronológica e detalhamente organizada (de 1949 a 1964). Na mesma área de trabalho há a ter em conta o esforço compilatório de Peter M. Roberts. Noutro aspecto, qual seja o de considerar as referências de outros músicos a Eric Dolphy, avulta o estudo do japonês Kenzo Nagai, actualizado a Julho de 2004. Há a considerar o festival de homenagem a Eric Dolphy («Tender Warrior» - 'a Herança de Eric Dolphy a 40 anos da sua morte'), que teve lugar em Agosto/Setembro passados, na Sardenha, organizado por Francesco Martinelli. E a generosa lista de links de «A Love Supreme for the love of Music».
Eric Doplhy: injustamente esquecido para uns; bem vivo e presente para outros. Outward Bound!
Duo // Paulo Curado // Carlos Zíngaro
Carlos Zíngaro – violino
Trem Azul, 6 de Abril, às 19:30
Carlos "Zíngaro" e Paulo Curado nunca tocaram em duo, se exceptuarmos uma actuação conjunta no festival de dança Fringe, mas para além de algumas coincidências nos respectivos percursos (compõem ambos para o teatro e têm um semelhante gosto pela improvisação) já se encontraram outras vezes nas mesmas situações musicais: estiveram juntos no grupo de Janita Salomé, por exemplo, e "Zíngaro" foi o instrumentista convidado num disco e num memorável concerto no festival Jazz em Agosto do Shish, o grupo de Curado com José Peixoto. Júlio Pereira contou igualmente com a colaboração dos dois músicos, ainda que em alturas diferentes, e são ambos activistas da Granular, associação cultural sem fins lucrativos que tem como propósito a promoção do experimentalismo na música e na arte sonora portuguesas. É muito, portanto, o que têm de comum, e se o saxofonista e flautista está mais orientado para o jazz, os conceitos improvisacionais do violinista passaram muitas vezes por aí. Carlos "Zíngaro" foi, de resto, um dos pioneiros do free jazz em Portugal, com os Plexus e outras formações que fizeram história. Esse "background", somado à formação "clássica" que tanto um como o outro tiveram, estará na base deste tão esperado encontro a dois em que Ornette Coleman e John Cage serão, inevitavelmente, dois dos "fantasmas" convocados. - Rui Eduardo Paes

Rui Neves, programador do festival anual de Jazz e música improvisada da Fundação Gulbenkian,
Jazz em Agosto, DJ de Jazz e radialista infelizmente sem trabalho (que saudades do «Jazzosferas» na finada XFM, e do anterior «Jazzofone»...) diz-me que passou o último fim-de-semana em Amsterdão, convidado do
3º Dutch Jazz Meeting. Visitou o novo e ainda inacabado edifício da Bimhuis. "Assisti a uns vinte e tal concertos 'showcase' (cada um a tocar 20/30 minutos) com toda a cena do jazz da Holanda, um fartote", diz Rui Neves.
Adianta que a Bimhuis ocupa 1/3 do edifício e os restantes 2/3 são ocupados por uma organização similar, The Icebreaker, que promove música clássica e contemporânea. "Chama-se o novo edifício Casa da Música e parece-me ser de dimensões similares à da Casa da Música do Porto".
Manda-me ainda um interessante documento em formato pdf, com informação mais completa sobre o novo ex-libris de Amsterdão, pelo menos no que ao jazz e à música improvisada diz respeito, o qual, lamentavelmente, não consigo colocar aqui. Mas a
página oficial da Bimhuis tem informação quanto baste para nos dar uma ideia de como o jazz e a improv são tratados na Holanda. Com foros de casa grande, pelo menos desde 1974.
The Wire de Abril. Vários motivos de interesse, como é hábito. Destaco o trabalho do jornalista e escritor de Nova Iorque, Phil Freeman, sobre Mike Patton (capa), ex-membro do Faith No More, figura importante do rock transgenérico, género híbrido que professa nos projectos Fantômas, Mr. Bungle, Tomahawk, Weird Little Boy, Maldoror, Moonraker, etc, e nas colaborações com John Zorn, a que acresce o trabalho editorial de relevo com a Ipecac. Outro atractivo especial deste número de Abril é a entrevista de Elliott Sharp, o guitarrista do avant rock e da improv, que discute estes e outros temas com Phil England.
(Partisans - Foto: Bob Meyrick)Sobrevivi à estrada! Por entre a guerra civil que se combate diariamente nas estradas portuguesas, com o infindável cortejo de mortos, feridos e estropiados a que não há Código da Estrada que ponha termo (vamos a ver se é desta que a chacina refreia um pouco), foi com grande alívio que cheguei a casa, depois de uma viagem que me levou até perto do mar, onde disfrutei de boa companhia, boa comida, bom vinho e de boa música.
Voltei curioso de saber e a tempo de ouvir o que emissão do Jazz on 3 nos propõe esta semana. Na primeira parte, um concerto bem bom de fusion pós-Miles eléctrico, ou de jazz-rock se se preferir, dos Partisans (não confundir com The Partisans...), em Novembro passado, no Royal Festival Hall, em Londres. Seguidamente, Jez Nelson, aborda Miles Davis em conversa com George Cole, autor de um livro recente sobre o Miles dos anos 80, que ilustra com alguns temas dos álbuns Tutu, Man With A Horn, Decoy, e do póstumo Doo-Bop. A fechar o programa, Jez Nelson serve-nos Cousin Mary, o original de John Coltrane interpretado pelo saxofonista David Murray, em quarteto com McCoy Tyner, piano, e os desaparecidos Fred Hopkins, em contrabaixo, e Elvin Jones, bateria.
A luta continua!

ORKESTROVA (Foto: Roberto Barahona)
Roberto Barahona, em discurso directo, conta como nasceu a gravação de Electric Ascension, o novo disco da OrkestRova, big band eléctrica que, além dos saxofonistas do ROVA Saxophone Quartet (Bruce Ackley, Steve Adams, Larry Ochs e Jon Raskin) inclui as cordas, a electrónica e a percussão de Fred Frith, Ikue Mori, Nels Cline, Otomo Yoshihide, Chris Brown, Donald Robinson ("rhythm & noise"), Carla Kihlstedt e Jenny Scheinman ("strings"), a mesma formação com que se irá apresentar a 27 de Março deste ano, no 6.º SFJAZZ, a ter lugar em S. Francisco.
Gravada ao vivo em Fevereiro de 2003, no Yerba Buena Center for the Arts, em S. Francisco, Electric Ascension será o próximo lançamento da norte-americana Atavistic. Tenho comigo uma cópia de ante-estreia, que me soa belíssima, insuspeita de ter sido gravada de forma quase artesanal. Uma obra de grande categoria. O relato que se segue é também exemplo eloquente da mudança de paradigma iniciada há uns anos, no que respeita à produção, gravação e edição sonora na era digital, em que o processo é cada vez mais partilhado pelos artistas e pelo público, com a ajuda da distribuição independente, sem a necessidade de intermediação das grandes casas de discos, processo cujo domínio pelas majors, até há pouco tempo, era total e absoluto.
Rova - 25 Aniversario de John Coltrane, Ascension
Un sábado de febrero por la noche, en 2003, me dirigí a San Francisco a escuchar al cuarteto de saxofones Rova. Era uno de una serie de conciertos que celebró el aniversario de su fundación. Rova es un conjunto que milagrosamente se ha mantenido vigente durante 25 años, con sólo un cambio en su personal. No es un conjunto que conocía bien, pero me lo recomendó Antonio Martín, español residente en Albacete que es el moderador de un foro de jazz en España, cuyo conocimiento del jazz respeto. Él también sugirió que grabara el concierto, lo que obedientemente hice. El cuarteto Rova se fundó en San Francisco en 1977 por los saxofonistas Andrew Voigt, Jon Raskin, Larry Ochs y Bruce Ackley - Voigt se retiró en 1988 y lo reemplazó Steve Adams.
En 1985 el cuarteto inició Rova:Arts, una organización sin fines de lucro dedicada a difundir música de avanzada, como también otras disciplinas artísticas similares. Rova:Arts administra las actividades del cuarteto, presenta obras de compositores emergentes del género, y un programa educativo. Además, Rova:Arts ha encargado más de 30 obras para saxofón de artistas estéticamente tan diversos como los compositores minimalistas Terry Riley y Pauline Oliveros, los compositores del avant-garde Fred Frith y Anthony Braxton, de Lindsay Cooper, músico del rock experimental y luminarias del jazz como Jack DeJohnette y John Carter.
El concierto se dividió en dos partes. Primero se presentó el cuarteto e interpretó dos de sus obras: "Testimony", de Steve Adams y luego "The Unquestioned Answer", de Jon Raskin y Larry Ochs. En la segunda parte se unieron al cuarteto 8 músicos e interpretaron una versión de "Ascension" de John Coltrane. Unas trescientas personas coparon el Yerba Buena Cultural Center, un lugar excelente para escuchar música por su acústica y por la proximidad del público a los artistas.
“Ascension”, composición de John Coltrane, se grabó originalmente en junio de 1965. Esta composición forma parte de una trilogía religiosa-free: "A Love Supreme" de diciembre de 1964 y "Meditations" de noviembre del mismo año. "Ascension" tiene un enfoque semejante al de "A Love Supreme". Es un tema de cinco notas que se repite en varias partes de la obra. Desde su inicio el auditor tiene que prestar atención. Esta es una obra seria y pesada que no permite ser tratada levemente. Requiere atención y desde su inicio Coltrane lo advierte. Aquí no hay engaños.
Coltrane usó, además de su cuarteto, un ensamble de cuatro saxofones, dos trompetas, y un segundo contrabajista. El enfoque del Rova es similar pero con una instrumentación totalmente distinta. Al cuarteto se le unen algunas de las figuras importantes del avant-garde actual: Otomo Yoshihide, guitarrista y "tornamesista" de la escena avant-jazz del Japón, ex miembro del grupo Ground Zero; Ikue Mori, también japonesa, artista de la electrónica que ha hecho fama en el East Village tocando junto a gente del calibre de John Zorn y Arto Lindsay; el guitarrista Nels Cline y en contrabajo Fred Frith. Chris Brown en teclados, Jenny Scheinman y Carla Kihlsted (esta última del Tin Hat Trio), en violín eléctrico y Don Robinson en batería.
Después del concierto escribí una nota para el sitio www.tomajazz.com , lugar donde también escribe y colabora mi amigo albacetense, acerca de mis impresiones del concierto; además compartí la cinta grabada a través de PuroJazz, el programa radial que conduzco los fines de semana que transmite Radio Beethoven en Chile.
Algunas semanas después recibo un email de Larry Ochs, del cuarteto Rova comentando mi nota. Le sorprendía que yo había viajado desde Chile a escuchar el concierto y aún más que lo había grabado sin que se dieran cuenta, algo que no le molestaba. Le expliqué que vivo a sólo 150 kms. de San Francisco, y que el programa donde se transmitió el concierto se emite desde Chile. Le interesaba escuchar mi cinta para determinar cómo oyó la música el público. Mi cinta, más lo que se grabó de la mesa de control en el concierto, lo convencieron que la música merecía ser editada.
Meses pasaron y Larry me escribió nuevamente para invitarme a otro concierto del cuarteto. Conversamos acerca de las posibilidades de editar Ascension, pero carecían de fondos para poder mezclar la cinta, un paso escencial para después conseguir distribución. Como la organización Rova: Arts es sin fines de lucro, una contribución financiera para sus objetivos puede descontarse de las obligaciones tributarias del que desee contribuir. Y es lo que yo hice. Con mi colaboración se mezcló la cinta y, después de bastantes meses, se ha conseguido un distribuidor, Atavistic Records. En marzo de 2005 Rova celebrará el aniversario de la edición original de Ascension de John Coltrane con un concierto de la obra en San Francisco, con esencialmente los mismos músicos de su actuación en primer concierto. Aprovecharán para también lanzar la edición de Ascension grabada ese sábado de febrero en 2003. Aunque un disco con tantos participantes rara vez arroja ganancias, si las hay se canalizarán a los fondos para programas educativos de la Rova:Arts.
Roberto Barahona
Monterey, California
Estados Unidos

O novo Bimhuis de Amsterdão, obra do gabinete de arquitectura dinamarquês 3xNielsen, que estreou o mês passado, apresenta um luxuoso Programa para Abril de 2005:
1 de Abril
WADADA LEO SMITH GOLDEN QUARTET
Wadada Leo Smith - trompete, Vijay Iyer - piano, John Lindbergh -contrabaixo, Ronald Shannon Jackson - bateria
2 de Abril
Molla Sylla- voz, Phil Minton - voz, Maggie Nichols - voz, Sean
Bergin – saxes alto e tenor, Tobias Delius – sax tenor, Frankie Douglas - guitarra, Mary Oliver- viola, Alex Maguire - piano, Ernst Glerum - contrabaixo, Han Bennink – bateria.
3 de Abril
JAZZ ORCHESTRA OF THE CONCERTGEBOUW & MAARTEN ORNSTEIN, ROB PRONK
o.l.v. Henk Meutgeert
4 de Abril
THE MEETING POINT
MUSIC AND DANCE IMPROVISATION LAB
5 de Abril
WORKSHOP o.l.v. Arnold Dooyeweerd
SESSION - Conservatório de Amsterdão
6 de Abril
ANTHONY BRAXTON SEXTET
Anthony Braxton – sax alto, Taylor Ho Bynum - trompete, Jessica Pavone - viola, Jay Rozen - tuba, Chris Dahlgren-contrabaixo, Aaron Siegal - bateria
7 de Abril
GRAEWE/REIJSEGER/HEMINGWAY
Georg Graewe - piano, Ernst Reijseger - violoncelo, Gerry Hemingway - bateria
8 de Abril
MARK DRESSER TRIO
CABINET OF DR. CALIGARI, PLUS
Denman Maroney - piano, hyperpiano, Herb Robertson -trompete, Mark Dresser - contrabaixo
9 de Abril
i.s.m. VPRO Radio
JASON MORAN & THE BANDWAGON
Jason Moran - piano, Tarus Mateen - contrabaixo, Nasheed Waits - bateria, Marvin Sewell - guitarra
10 de Abril
FINALE DELOITTE JAZZ AWARD
Jazz Orchestra of the Concertgebouw
12 de Abril
WORKSHOP o.l.v. Arnold Dooyeweerd
i.s.m. Conservatório de Amsterdam
13 de Abril
DAVID BINNEY QUARTET
David Binney - sax, Thomas Morgan - contrabaixo, Jacob Sacks - piano, Dan Weiss - bateria
14 de Abril
TINEKE POSTMA QUINTET
Tineke Postma – saxofones alto e soprano, Martijn van Itterson - gitarra, Rob van Bavel - piano, Jeroen Vierdag -contrabaixo, Marcel Serierse – bateria
15 de Abril
URI CAINE TRIO
Uri Caine - piano, Drew Gress - contrabaixo, Ben Perowsky -bateria
16 de Abril
DAVID LIEBMAN TRIO
David Liebman – saxofones tenor e soprano, Marius Beets - contrabaixo, Eric Ineke - bateria
17 de Abril
GUUS JANSSEN & HAN BENNINK
Guus Janssen - piano, Han Bennink - bateria
18 de Abril
SPRITUAL UNITY FEAT. HENRY GRIMES
Roy Campbell - trompete, Marc Ribot - guitarra, Henry Grimes - contrabaixo, Chad Taylor - bateria
19 de Abril
WORKSHOP o.l.v. Arnold Dooyeweerd
i.s.m. Conservatório de Amsterdão
20 de Abril
BOOKLET
Tobias Delius – sax tenor, clarinete, Joe Williamson - contrabaixo, Steve Heather - bateria
21 de Abril
BADI ASSAD
Badi Assad - voz, guitarra, Zeli – baixo eléctrico, Guilherme Kastrup - percussão, bateria
22 de Abril
IKKI & SEAN BERGIN, MARTIN FONDSE, EDDY VELDMAN
Bryan Davies, Philipp Staudt, Diederik Rijpstra –trompetes, Jonas Ganzemuller – sax alto, Reza Mohajer – sax tenor, Koen Schouten – sax barítono, Kobi Arditi - trombone, Matsumoto 'Santi' Kazushi – trombone baixo, Thomas Bekhuis - guitarra, Avishai Roet - baixo, Mark Coehoorn -bateria
23 de Abril
JUNGLE WARRIORS XL PRESENT
WORLD GROOVE PROJECT
Purbayan Chatterjee - sítara, Niti Ranjan Biswas - tabla, Mousse Pathe M'Baye - sabar, djembe, tama, Jan Klug - saxofones, patafoon, Jan Kuiper-gitaar,
Oeds Bouwsma-bas, Raoul Roosenstein-drums
24 de Abril
KURT ROSENWINKEL GROUP
Kurt Rosenwinkel - guitarra, Mark Turner – sax tenor, Aaron Goldberg - piano, Joe Martin - contrabaixo, Ari Hoenig - bateria
25 de Abril
1000 YEARS OF JAZZ
LAPTOP/TURNTABLE SESSION
26 de Abril
WORKSHOP o.l.v. Arnold Dooyeweerd
i.s.m. Conservatório de Amsterdão
27 de Abril
TilNo BeAm
PALINCKX ONTMOET SERVISCHE MUSICI
Han Buhrs-zang, Jacq Palinckx - guitarras, Bert Palinckx - contrabaixo, Alan Purves – bateria, Boris Kovac - saxofones, Svetlana Spajic Latinovic - canto, Bogdan Rankovic - clarinete, clarinete baixo, Bogdan Bijelic-acordeão, Vlada Cukovic - viola
28 de Abril
CALEFAX
FAR EAST, WILD WEST
Ivar Berix - clarinete, Raaf Hekkema - saxofone, Jelte Althuis – clarinete baixo, Alban Wesly – fagote, Maarten Ornstein - sopros, Tony Overwater - contrabaixo, Wim Kegel - percussão
29 de Abril
HOWARD LEVY & ANTHONY MOLINARO
Howard Levy - harmónica, Anthony Molinaro - piano
---------------------------------------------
Enquanto não chegamos a Abril, hoje à noite há Diane Reeves no CCB. Recomendável a corações mais sensíveis.
Gosto muito de ouvir o pianista Joel Futterman. E mais ainda em trio com o primo Ike Levin, saxofonista tenor e clarinetista, e com o baterista Alvin Fielder, que com Futterman e o saxofonista de New Orleans, Edward "Kidd" Jordan, gravou o fenomenal Southern Extreme, publicado em 1998 pela Drimala Records. A mesma formação gravou ainda o Live at Tampere Jazz Happening (2000), na Finlândia.Futterman, que também toca saxofone soprano, lembra por vezes um Cecil Taylor menos turbulento, espacialmente mais concentrado e poupado nas notas, características que partilha com os colegas neste especioso Resolving Doors. São elas que ajudam a fluidificar discurso, carregado de fisicalidade, emoção e enlevo espiritual. O veterano Joel Futterman, que tocou com Jimmy Lyons, Rahsaan Roland Kirk e Joseph Jarman, depois de décadas de carreira, apresenta renovada mátéria-prima com que constrói pontes para o diálogo com Ike Levin, ímpar na combinação de expressionismo e melodia. Outro ponto alto do disco é o vigoroso trabalho de bateria de Alvin Fielder. Mas há muito mais para explorar nas seis composições espontâneas de Resolving Doors.

Prossegue alegremente a discussão à volta de Eric Dolphy e de Lennie Tristano, dois importantes modernistas do jazz. Esquecidos ou não? Se sim, injustamente ou não? Eis a questão. Por ordem de entrada, há comentários de Manuel Jorge Veloso, Eduardo Chagas, R F Barahona, Nuno Catarino e ... - perdoai molhar a sopa novamente, mas é irresistível - ... de mim próprio, e do Luis Farrolas. Quem quiser pode dar a sua opinião, elucidar alguns aspectos, comentar o que foi dito, enfim, participar. Basta accionar o botão e colocar o escrito no espaço próprio para o efeito. São bem-vindos todos os contributos.
"As for Lennie Tristano, I'd like to go on record as saying I endorse his work in every particular.They say he's cold. They're wrong. He has a big heart and it's in his music. Obviously, he also has tremendous technical ability, and, you know, he can play anywhere with anybody. He's a tremendous musician. I call him the great acclimatizor" - Charlie Parker, 1953.
Fred Anderson e Robert Barry
Em 1996 realizou-se o primeiro Vision Festival. Na estreia, 39 concertos e 6 exposições de artistas plásticos. Em 1997, o número de concertos voltou a ultrapassar a trintena. Em 1998, o Vision mudou de figurino. Além de prosseguir a apresentação ao vivo dos artistas mais representativos do melhor que se faz no jazz actual, foi decidido passar a homenagear uma ou mais figuras por edição. Jimmy Lyons iniciou este novo ciclo do Vision. Em 1999, foi a vez de Denis Charles. Em 2000, evocou-se a vida e obra de Julius Hemphill. Em 2001, Frank Wright. Em 2002, Don Cherry. Em 2003, Jeanne Lee. A edição do ano passado homenageou dois grandes contrabaixistas do jazz de vanguarda, Wilber Morris e Peter Kowald. Este ano, a figura tutelar da décima edição do Vision Festival é Fred Anderson, o papa do free jazz de Chicago.
O programa completo da X Edição, com o calendário e horário das sessões de música e artes plásticas está já disponível na página oficial do Vision Festival. X Vision Festival – 14-19/06/2005 - Centro Cultural Clemente Soto Vélez (107 Suffolk Street, NYC)


Anthony Braxton, piano; Dave Douglas, trompete; Mark Whitecage, saxofones alto e soprano; Mario Pavone, contrabaixo; e Warren Smith, bateria, gravaram Six Standards (Quintet) 1996, que a italiana Splasc(h) editou o ano passado - Splasc(h) World (H863)
Palavras Desencarnadas II Ciclo Granular na Abril em Maio De 18 a 20 de Março
Que relações podem existir entre a linguagem e o som? Que conjunções, intersecções e contrastes podemos formar entre as palavras e os sons, independentemente dos contextos? Que performatividade pode ter a palavra? A que corpo aspira? Poderá existir uma linguagem desencarnada? Todo o jogo da linguagem nos remete irremediavelmente para um corpo? Para uma antropologia que precede o acto comunicacional? E o que é um texto? O que define um texto e como este se constrói? Pode um texto ser performativo, polissémico, e não especificamente literário? É a todas estas perguntas que uma série de eventos organizados pela Granular, em parceria com a Abril em Maio, vai procurar responder, de forma transdisciplinar.
Carlos Santos: Found Words- Luís Miguel Girão / Paulo Maria Rodrigues: Cyber Song / Com Palavras Amo- DJ Olive / Nuno Rebelo- Américo Rodrigues / Genoveva Faísca / Ulrich Mitzlaff- Pedro Almeida: Acur- Rui Costa / Iñaki Rios / Natividad Plasencia: O Nosso Quixote- Adriana Sá / Margarida Mestre / Ricardo Jacinto / Nuno Torres: Retrato de um Amigo Enquanto Falo
Numa onda multidimensional experimentalista, apeteceu-me regressar ao disco com que David Coulter iniciou a sua carreira a solo, depois de ter passado pelos El Stew, Test Department e Pogues. INterVENTION é uma beleza de disco. Composição experimental e improvisação que sugerem diversas formas da música asiática (ragas) e africana (cânticos tribais) e europeia (folk), sem perder a coerência interna e natureza orgânica do produto. Coulter toca quase tudo, didjeridoo, guitarra, violino, bandolim, acordeão, ukulele, harpa, harmónio, etc, etc, instrumentos que se ligam no fio da progressão musical, entrecortando arranjos vocais, spoken word e field recordings. Música moderna, experimental e globalizada, altamente sedutora. Inclui colaborações de Marc Ribot, JJ Palix, Steve Nieve, Chris Long, Terry Edwards, Ghedalia Tazartes, Phil Minton e Paul Buck, entre outros.David Coulter - INterVENTION (Young God Records, 1999)

No Jazz on 3, esta semana há John Surman ao vivo em recital solo, motivo suficientemente forte para rejubilarmos, pois mestre Surman está de novo em digressão pelos palcos europeus e americanos. Depois de uma prolongada licença sabática, Surman deixou os admiradores a pensar que o saxofonista poderia ter ter arrumado as palhetas juntamente com as botas e os instrumentos. Parece que assim não aconteceu. John Surman tem uma estatura musical impressionante e o entusiástico regresso às lides está a empolgar admiradores e críticos por esse mundo fora. No recital do Gateshead Jazz Festival, oferecido pela BBC Radio 3, John Surman toca sintetizadores e saxofones.

Na segunda parte do programa, John Fordham apresenta
McCoy Tyner em trio, com Charnet Moffett, contrabaixo, e Eric Gravatt, bateria.
McCoy é um dos pianistas mais importantes e influentes dos últimos 50 anos de jazz, antes, durante e depois da sua cumplicidade com John Coltrane, no quarteto com Jimmy Garrison e Elvin Jones.
John Surman e McCoy Tyner Trio: dois em um no Jazz on 3, com a qualidade do costume.
Ainda os "Injustos Esquecidos"
Por dever e por gosto, publico o texto que Manuel Jorge Veloso me enviou por mail, ontem, sábado 19 de Março (Dia do Pai), em resposta a um comentário meu, aqui publicado em 16.02.2004. Vamos ao texto de MJV, que comentarei no final:
Caro Eduardo Chagas,
Tanto quanto me parece, julgo que não nos conhecemos pessoalmente e apenas mantivemos contactos muito esparsos via email em tempos algo recuados (e agora mais recentes), embora seguramente tenhamos estado próximos em acontecimentos ligados a esta(s) área(s). Mas, pelo menos no que me diz respeito, não me parece que tenha tido a oportunidade de ligar (ou de me ligarem) a sua cara ao seu nome. Desculpe-me se acaso estou enganado. Pode ser da idade.
Vem isto a propósito da liberdade que tomo em lhe enviar estas linhas, agora que passaram alguns dias depois de encerrado o ciclo de cinco conferências semanais (prefiro, aliás, o termo «sessões fonográficas») que realizei na Culturgest a propósito de Lennie Tristano e Eric Dolphy. Liberdade, no fundo, proporcional ao folgado espaço que esta nova forma de comunicação (os blogs) felizmente permite a quem comunica e a quem comenta aquilo que se comunica.
Ora... as razões próximas deste meu comentário radicam no texto através do qual, em iniciativa amável, V. se referiu (no seu post de 16.02.05) ao início dessas conferências. Uma amabilidade algo mitigada, é certo, já que após ter sublinhado o interesse de que porventura se revestiriam as conferências («a temática é deveras interessante», começo a citá-lo), logo acrescenta a possibilidade de que o seu título «se preste a alguns equívocos».
Porquê? Porque (pelos vistos, a começar por si), ao depararem com o título genérico das conferências - «Dois Injustos “Esquecidos” do Jazz Moderno» - aqueles que V. alertava para a sua realização seriam levados a pensar que eu estaria a atribuir àqueles dois mestres do jazz moderno, para além de «esquecidos», o absurdo qualificativo de «injustos»!!!
À falta de melhor discernimento, julgo que o seu primeiro e não inocente comentário é logo marcado por uma reprimenda – apimentada por mal disfarçada ironia – castigando a minha preferência de um adjectivo («injustos») em detrimento de um mais adequado advérbio de modo («injustamente»).
Sem dúvida que V. tem toda a razão em censurar o despreocupado uso que fiz do Português ao inventar semelhante título; e de nada serve, agora, eu argumentar com a minha relutância em usar um advérbio de modo num título ou alegar que qualquer pessoa de boa fé logo veria que «injustos» queria significar, de facto, «injustamente». Aqui tem, então, a minha mão estendida para a justiceira palmatoada!
Acontece, porém, que V. não se limitou a argumentar em relação ao adjectivo «injustos», discorrendo a seguir sobre ser «muito discutível que Eric Dolphy ou Lennie Tristano tenham efectivamente sido esquecidos pelo público do jazz.». Isto, ao mesmo tempo que lhe ocorria transformar ou omitir quer o itálico quer as aspas que, em todos os materiais de promoção da Culturgest à sua disposição para redigir o post, vinham associados à palavra «esquecidos» no título das conferências, bem como o texto introdutório através do qual eu dava a entender o sentido provocatório e o propositado exagero desse qualificativo. Texto por completo esclarecedor (a quem tivesse algumas dúvidas) e que foi, não apenas publicado na página da Internet da Culturgest como enviado para a imprensa e cinco vezes incluído nas folhas de sala distribuídas à entrada do auditório, pelo que me dispenso de aqui repetir o seu real contexto e significado.
Problema bem maior é que, depois, V. começa a alinhar alguns «argumentos» para justificar a sua alegação de que Tristano e Dolphy são tudo menos «injustamente esquecidos», chegando ao ponto de afirmar (e passo a citar): «Tenho como muito provável que o comum ouvinte de jazz – falo do iniciado, nem sequer seria necessário considerar o connaiseur [a grafia é sua!] – se não tem os discos mais representativos dos artistas, para lá caminha, ou sabe, pelo menos, quem foram Eric Dolphy e Lennie Tristano, e que instrumento ou instrumentos tocaram.»
Uma afirmação ao mesmo tempo estentórica e espantosa de quem parece não viver neste Mundo, bastando apenas cotejá-la com qualquer texto de referência de qualquer autor que se tenha debruçado sobre Dolphy ou Tristano para se concluir da sua completa presunção e fantasiosa arbitrariedade! Mais grave ainda: em abono dessa afirmação, V. acrescenta, como suporte da mesma, «uma simples pesquisa no popular motor de busca google» (!) adiantando, eufórico, números como 137.000 referências a Dolphy e logo se congratulando (sem qualquer estremeço ou assomo de dúvida) com a existência de «mais de uma centena de milhar de páginas em que se fala, anuncia, discute e comenta a música e a obra gravada de Eric Dolphy.» (sic!)
Ou seja, sem sequer pestanejar, V. dá de barato a superioridade da chamada «inteligência artificial» de um programa de software face à inteligência do hardware que são as nossas celulazinhas cinzentas! E acrescenta números, tão «credíveis» como aquele, relativos às buscas que fez sobre Tristano, Mingus ou Konitz!
Bom... seguindo o seu exemplo, resolvi fazer há dias idêntica experiência em relação a outros nomes ou matérias. E tive, tal como V., resultados verdadeiramente surpreendentes. Por exemplo, em relação a Booker Little, o google devolveu-me 908.000 entradas (!!!), ou seja, quase um milhão, pelo que a conclusão óbvia seria a de que Little é muito mais conhecido do que Dolphy (133.000) ou Tristano (32.600) ou mesmo Ornette (177.000) e até Coltrane (610.000). Que tal?
E como sou um pouco egocêntrico, cliquei no google para buscar «Manuel Jorge Veloso» e eis que o resultado deu 34.100, donde eu sou sem contestação «o maior» em comparação (por exemplo) com o desgraçado do Tristano!!! E, depois, busquei «Um Toque de Jazz» e o resultado foi 191.000 por comparação com uns míseros 49.200 para «Cinco Minutos de Jazz»!!! Mas então, seguindo este tipo de raciocínio, não se está mesmo a ver que eu sou incomparavelmente mais mediático do que o autor de tão históricos minutos!!!
Meu caro Eduardo Chagas: é, sem dúvida, do seu inteiro e livre arbítrio acreditar cegamente em motores de busca que nos dão meros (e quantas vezes enganosos) resultados «quantitativos», em detrimento de outras formas de investigação susceptíveis de nos darem informação «qualitativa» e qualificada. O que me parece menos honesto – e já não, apenas, sorrateiramente sarcástico – é que V. conclua o seu post de 16.02.05 afirmando, também sem estremecer: «Há assim bons motivos para ouvir [nem sequer lhe ocorreu o termo «confirmar»], a partir de hoje e de viva voz, as razões pelas quais MJV [agora, pasme-se!] se esqueceu de considerar a perenidade, a actualidade e a presença influente daqueles dois mestres no jazz de hoje.»
Entre outras coisas importantes que tive com que me preocupar, esperei por si cinco semanas a fio para o ouvir (e ver), «de viva voz», avançar este tipo de argumentos; ou para que V. pudesse cotejá-los com o conteúdo real (e não imaginado) das «sessões fonográficas» que tive o prazer de realizar na Culturgest.
Esperei afinal em vão, pelo que só me resta este meio para poder contestar, face aos seus leitores, a bondade do seu texto de apresentação das mesmas.
As minhas saudações e os desejos da continuação do seu contributo para a divulgação do jazz e da música improvisada.
Manuel Jorge Veloso
PS – Já me esquecia! Será que V. acredita que o «Bacalhau à Brás» é menos conhecido (ou preferido) do que as «Ameijoas à Bolhão Pato»? É que o primeiro tem 6.150 entradas no google - enfim, 6.988, se também procurar Brás com «z» - por comparação com as segundas, que têm apenas 131 - a bem dizer, 553, se procurar Bolhão também com «u». E esta, hein???!!!
------------------------------------------------------------------------
Agradecendo ao MJV o seu texto supra, gostaria de acrescentar que a publicitação das iniciativas na Culturgest não relevou de qualquer "amabilidade mitigada" ou "mal disfarçada ironia", segundo presume o seu autor. Tratou-se tão só de divulgar as conferências e de comentar, sem as obscuras e malévolas intenções que me são atribuídas, aquilo que me pareceu uma equívoca e desadequada escolha de título. Injustos esquecidos, Dolphy e Tristano?! A coisa, segundo MJV, pretendeu ser provocatória. Confesso que, míope, não reparei na alegada provocação.
Esclarece o texto da Culturgest que acompanha o anúncio das ditas "sessões fonográficas": «Sendo certo que este hábito e esta preguiça têm contribuído para aprofundar o injusto esquecimento de toda uma legião de músicos de segundo plano — cuja musicalidade é impossível desprezar — tudo se torna mais grave quando as vítimas conjunturais desse arbítrio são músicos de elevado gabarito». Onde está a provocação de que fala, MJV? O que vejo afirmado de forma chã é apenas aquilo que MJV pretende que tenha um putativo sentido provocatório, de alcance insuspeito. Que intencional "sentido provocatório e propositado exagero" pode haver em dizer que Dolphy e Tristano são dois "injustos esquecidos"? Efectivamente, trata-se de um exagero, mas não no sentido em que MJV pretende que seja. Mas sosseguemos, porque, como diz a Culturgest, MJV procurou reparar o tal agravo do esquecimento, «debruçando-se sobre a obra e o legado desses dois mestres e investigando as conjunturas que terão, porventura, concorrido para uma tão recorrente omissão». Nada pretensioso, portanto. «Try to right this wrong», diz-se no texto traduzido em Inglês.
O autor das sessões pensa que as «vítimas conjunturais desse arbítrio» estão ou foram esquecidas, e que isso, além do mais, é injusto. Muito bem, está no seu direito. Eu não concordo e mantenho ser «muito discutível que Eric Dolphy ou Lennie Tristano tenham efectivamente sido esquecidos pelo público do jazz»; bem pelo contrário, mesmo não "acreditando cegamente" em motores de busca nem no primado da inteligência artificial (homessa, do que MJV se haveria de lembrar!!!), e tenha apresentado o exemplo como uma simples curiosidade, a tal que MJV considerou tratar-se de «um problema bem maior». Aí é que estava a ironia e MJV passou ao lado. Também está no seu direito.
Opiniões e ironias à parte, só tenho a lamentar o tom de ressentimento e de remoque azedo em que MJV embrulhou o seu escrito. Não era caso para tanto e deixa transparecer que não gosta mesmo nada de ser criticado nas suas afirmações, ainda que fundamentadamente e em tom cordato como o que usei. Continua no seu direito, mas é um despautério.
Cumprimentos.
Eduardo Chagas

Do inesgotável mundo das netlabels de que o Mr. Cool é especialista, chega uma edição de se lhe tirar o chapéu: ICELU - Live at Riverview Lounge (luv sound), que gravita algures nas zonas de contacto entre a livre-improvisação, a colagem, o noise e o paisagismo ambiental de carácter marcadamente experimental. Quatro músicos compõem o colectivo ICELU: Ben Klein, tuba amplificada, microfones de contacto, guitarra eléctrica e acordeão; Bryan Teoh, guitarra eléctrica, laptop e guitarra-sintetizador; Reid Stratton, sax baríotono amplificado, laptop; e Jonathan Roberts, vox. Vale a pena dar uma espreitadela à música destes marados do Wisconsin, que se (nos) divertem à brava.
Os compositores russos Eugeny Voronovsky e A. Tzarev, sob o nome de Cisfinitum e na linha de anteriores trabalhos com drones e objectos sonoros em actividade reverberativa, colocaram o álbum Landschaft à disposição do público para descarregamento gratuito, através da netlabel Entity.Explorando as tonalidades mais escuras e soturnas dos drones, Landschaft (paisagem), obra de 2000, originalmente publicada pela Insofar Vapour Bulk, desdobra-se em quatro temas: Inland, Landschaft I, Landschaft II e District Delta, entre os 9 e os 21 minutos de duração. À medida que se avança pelas profundezas destas paisagens surreais e fantasmagóricas, vão-se descobrindo sons distantes de vozes e ruídos de maquinaria pesada em movimento, cujos ecos chegam ao primeiro plano filtrados por uma camada de névoa. Este efeito confere ao conjunto uma acentuada tonalidade melancólica, que aprofunda o carácter contemplativo da música electro-acústica/industrial ambient do Cisfinitum. A imagem que capeia a edição, acima reproduzida, capta bem o espírito e o sentido da obra.
De vez em quando, muito de vez em quando, surge na rádio uma canção pop perfeita. Há dias, alternando entre as duas estações audíveis na região da grande Lisboa, fiquei enganchado na antiga frequência da malograda XFM, 91.6 FM, a ouvir uma dessas raras canções pop, que depois reouvi várias vezes, à força da inclusão do tema nas malfadadas playlistas, as tais que sem misericórdia nos picam o crânio com tanta repetição. Falo de Black and White Town, dos britânicos Doves. Que canção! Perfeita na estrutura, melodia, refrão, voz, guitarras, bateria, um piano de parede sublime, soberbos arranjos vocais de fundo, tudo em concomitante euforia e espírito positivo.Apesar do massacre das playlists, vale a pena ouvir Black and White Town dezenas de vezes, mesmo que a história contada tenha a ver com a vida nos subúrbios das cidades. Sem dúvida, uma das melhores canções pop que ouvi nos últimos anos. Some Cities, o ábum donde foi sacado o hit single, que ouvi na íntegra uns dias depois, não está globalmente ao mesmo nível, mas ainda assim, pese embora uma ou outra faixa menos conseguida, deve estar a caminho de ser ovacionado pela crítica da especialidade e seguramente bem posicionado nas tabelas de vendas.Black and White Town, do álbum Some Cities, editado este mês pela Capitol Records.
Here comes the action / Here it comes at last /Lord give me a reaction /Lord give me a chance /You should follow me down/ In satellite town/ There's no colour and no sound/ I'll be ten feet under ground/ Gotta get out this black and white town/ Here comes some action/ Put sound in my life/ Gotta get out to get compensation/ Gotta get out to get this to play/ Well, leave me alone/ Boy, you try to find your way in this world/ You better make sure you don't/ Crack your head on that pavement now /My god this is sickIt's been plaguing me now/ This is a dangerous place now/ This is a dangerous place/ You should follow me down/ In satellite town/ There's no colour and no sound/ I'll be ten feet under ground/ This black and white town/ You should follow me down/ There's no colour and no sound/ In black and white town/ Be ten feet under ground/ In black and white town
A fama do CCMC, como a do Constantino, já vem de longe, dos recuados 60. Para nos situarmos, convém lembrar que em 1964, Michael Snow, pianista, realizou o filme New York Eye and Ear Control, uma pérola de 34 minutos, cuja música, de Albert Ayler, Don Cherry, Roswell Rudd, Gary Peacock e Sunny Murray, foi gravada por Bernard Stolman e editada pela ESP-Disk.Mas aqui a música é outra: CCMC, ou, talvez, Canadian Creative Music Company. O famoso trio canadiano de livre-improvisação arranjou a bonita nestes concertos em três locais diferentes do Canadá, Jonquière, Victoriaville e Toronto... . Em Abril, Maio e Junho de 1996, Paul Dutton, John Oswald e Michael Snow, verdadeiras lendas da música improvisada canadiana, arrasaram literalmente as audiências dos concertos. Porque, segundo se sabe, a música foi tocada no meio do público, para uma fruição mais directa e imediata.
aCCoMpliCes é uma peça cheia de bizarria e excentricidade sonora que vem mesmo a calhar para quem realmente gosta de free improv. Quem não verificar esta condição, ou aproveita para experimentar os ares e o ambiente, ou melhor fará dar meia volta, porque a música não dá para bater o pézinho nem para trautear no chuveiro.
Os veteranos CCMC pensam em grande e executam da mesma forma: Michael Snow, realizador, produtor, argumentista, artista plástico, toca piano e sintetizador da maneira mais heterodoxa. Paul Dutton toca harmónica enlouquecida e vocaliza sons filiados na mesma escola experimental de Phil Minton ou do japonês Makigami Koichi. John Oswald, que tocou com Eugene Chadbourne e Henry Kaiser, desenha esquissos e faz um estrilho considerável com o saxofone alto, na linha de alguns episódios mais agrestes de John Zorn. Mas nem só de explosão vive aCCoMpliCes. Tempo há para deixar a música desenvolver tranquilamente, criar espaços, silêncios, e preparar-se para cada nova descarga energética que só atemoriza os incautos ou quem tem faltado aos treinos. Luz, penumbra, sombra, trevas, luz... .
CCMC – aCCoMpliCes (Victo, 1998)
Com sólida formação de flamenco, Chano Domínguez aprendeu a tocar guitarra de ouvido. Atreveu-se entretanto por diversas áreas do rock, antes de se dedicar por inteiro ao flamenco com o Chano Domínguez Trio, e de passar pelas formações de Pepe de Lucía, Potito e Juan Manuel Cañizares.Chano Domínguez nasceu em Cádiz em 29 de Março de 1960. Aos oito anos o pai ofereceu-lhe o seu primeiro instrumento, uma guitarra flamenca com a qual começou a tocar. Aos 18 formou um grupo de rock andaluz, onde tocava teclados. Gravou três discos para a editora CBS. Atraído pelo jazz, em 1981 integrou, como teclista, a banda Hiscadix, onde ganhou sólida reputação como músico, prémios e presenças em festivais.
Ao longo dos anos Domínguez apurou a fusão de ritmos e linguagens do jazz e do flamenco, manifestada na abordagem do swing e da improvisação, cruzados com a energia e a espontaneidade do flamenco. "Cádiz in the soul and Monk in the fingers", como alguém sintetizou.
Depois de um concerto ontem à noite no Teatro Aveirense, na cidade de Aveiro, Chano Domínguez actua hoje em Lisboa, no Grande Auditório da Culturgest, com o quinteto base do CD de 2000, Oye cómo viene, disco acalamado pela crítica e nomeado para os Grammy na categoria de Jazz Latino. Com Chano Domínguez em piano, tocam Mario Rossy, contrabaixo; Marc Miralta, bateria; Blas Cordoba "Keíjo", cante e palmas; e Tomás Moreno "Tomasito", baile e palmas. Chano Domínguez Quinteto – Grande Auditório da Culturgest, em Lisboa. 18 de Março, 21h30.

"The album you hold in your hands [Captain of the Deep, Eremite] is a remarkable document. It is notable as one of only two recordings released under the leadership of the legendary Denis Charles. It is equally notable as the sole remaining evidence of a superb quartet, one whose existence was as brief as it was ecstatic. The opening piece, 'We Don't,' is my favorite selection. Mr. Moondoc and Mr. Breedlove achieve the rough, sanctified sax/trumpet interplay that was the Ayler Brothers stock in trade. Mr. Charles takes a solo so evocative of West Africa's talking drum tradition as to lend the piece an ancient character. All the material on this album has a sweet congruence. This band never fails to fill you with the magnificent sense of individuals working towards a greater whole. Nobody steps on anyone else's notes, nobody shoves anyone aside, and it is obvious throughout that the interpersonal communication is happening at a very high level." - Byron Coley -------------------------------------------
Este álbum é realmente fora do comum. De 1998 para cá ouvi centenas e centenas de discos e poucos foram os que me deixaram uma impressão tão funda e duradoura. Porquê?! Sei que como eu há muitas outras pessoas que sentem o mesmo em relação a este disco, a obra-prima de Denis Charles, com Jemeel Moondoc, Nathan Breedlove e Wilbert deJoode. Está cá tudo: blues, marcha, batida afro, swing, bop, todos os ritmos e cenários do jazz, fundidos numa peça musical imponente, com tempero especial: a paixão do free jazz.
Duas saídas na Drimala são boas notícas para animar a malta. Não rima mas é verdade. Philip Egert, o produtor que desde 1998 faz viver um dos projectos editorias mais profícuos e diversificados, lança novas propostas esteticamente arrojadas. A primeira chama-se BassX3, o novo projecto de Gebhard Ullmann, saxofonista e clarinetista alemão de nomeada, com o novaiorquino Chris Dahlgren e o austríaco Peter Herbert. O outro lançamento é particularmente caro aqui ao torrão natal, pois que com o saxofonista americano Joe Giardullo, na exploração da arte do duo, toca o violinista português Carlos Zíngaro, ao vivo na Mãe d'Água de Lisboa - Falling Water, Live at Mãe de Água.

Signal to Noise - the journal of improvised and experimental music/Spring 2005
>

O britânico George Haslam é credor do apreço do povo do jazz por várias e relevantes razões. Além de um grande saxofonista, grandeza inversamente proporcional ao conhecimento que dele se tem e à divulgação da sua obra gravada, em 1989 Haslam fundou, e desde então mantém activa, a editora SLAM Productions, que conta perto de 100 títulos editados. Elton Dean, Lol Coxhill, John Law, Paul Dunmall, Keith Tippett, Howard Riley, Neil Metcalfe, a nata do free jazz e free improv britânica e americana (Mal Waldron, Steve Lacy, ...) são alguns dos artistas a quem George Haslam abriu as portas da SLAM e concedeu extensa exposição discográfica. Prosseguindo as actividades editoriais, em Março de 2004, a SLAM Productions publicou The Mahout, um disco em trio de Goerge Haslam (saxofone barítono e tarogato) com o pianista norte-americano Borah Bergman e o baterista britânico Paul Hession. Gravação de estúdio datada de Junho de 2003, The Mahout, mistura livre-improvisações pelo trio homónimo e temas a solo por cada um dos intervenientes. No primeiro tema, The Mahout, George Haslam abre as hostilidades em tarogato, instrumento de madeira com um timbre a meio caminho entre o clarinete e o saxofone soprano, elaborando séries de espirais e erupções descontínuas. Bergman rasga pano secundado por Hession, desafiando-se mutuamente e transformando o tema num aceso despique a três vozes.
Refreando o entusiasmo em que a música já ia lançada ao cabo dos primeiros 10 minutos, entra o segundo tema, M.E.V, sigla que toma as iniciais de Malcom Earl Waldron, mais conhecido por Mal Waldron, o pianista e compositor norte-americano com quem o saxofonista tocou e a cuja memória o tema é dedicado. M.E.W., é um solo elegíaco de Haslam, primeiro em barítono solo, depois no uso simultâneo da big horn e o tarogato.
Segue-se Streams, o solo de piano de Borah Bergman. Segundo as notas da edição, o título refere-se às correntes sonoras de harmonia e ritmo criadas pelas mãos do pianista, que ora tocam independentes uma da outra (esta é uma das características mais marcantes do estilo de Bergman, para quem os termos "mão esquerda" e "mão direita" não se aplicam, visto ter desenvolvido uma técnica muito própria traduzida na total independência de mãos), ora trabalham em interdependência e complementaridade, como é mais comum ouvir-se tocar o instrumento. O tema é bem um repositório das capacidades técnicas do pianista, dos avanços técnicos e do léxico do piano na música improvisada mais energética, veículo de comunicação da intensidade emocional de Bergman.
Com Ancient Stars, regressa a comunhão do trio. George Haslam está no centro das atenções com um impressionante solo de sax barítono, à volta do qual piano e bateria executam uma dança encantatória. Haslam soa ao mesmo tempo agreste e macio, algo que se situa entre as marcas pessoais de Paul Dunmall e Evan Parker, duas das mais distintas vozes britânicas do saxofone.
O solo de Paul Hession, The Varmint, é dedicado pelo baterista à memória de Jack Elam, o façanhudo mau da fita dos filmes de cowboys (em Once Upon a Time in The West, ficou famosa a cena em que Elam apanha uma mosca com o cano do Colt), ídolo da adolescência de Hession, falecido por alturas da gravação do disco. Um solo cinematográfico perigoso e com a barba por fazer, à imagem do homenageado.
Dusk é a reprise de Borah Bergman, agora introspectivo e inspirado nas emoções sugeridas pelas horas crepusculares. Serve de introdução ao tema final, Zircon, o terceiro encontro do trio, mais explosivo que os outros dois, como que a encerrar a festa com fogo de artifício. Borah Bergman está como peixe na água, assim como George Haslam e Paul Hession, que ateiam fogo ao rastilho, com mais que provável satisfação pelo resultado obtido.
Fantástico trabalho, este The Mahout. Volto ao princípio e é já.
George Haslam / Borah Bergman / Paul Hession - The Mahout (Slam Productions, 2004)
A Silkheart prevalece-se de ter vindo a dar um lugar de destaque nas suas edições a bateristas das vanguardas do jazz e da música improvisada afim. São de facto muitos os projectos de e com grandes bateristas acarinhados pela editora sueca, de entre os quais se destacam Alvin Fielder, Andrew Cyrille, Denis Charles, Reggie Nicholson, Marc Edwards, Avreeayl Ra, Michael Wimberly, Susie Ibarra, Kahil El Zabar e por aí adiante. Prosseguindo esse olhar especial sobre a actividade dos homens das peles e dos pratos, a mais recente edição da Silkheart, ainda que liderada por dois dos mais influentes veteranos desta tipologia musical, o contrabaixista Sirone e o violinista Billy Bang, acrescentados de Charles Gayle, apresenta a estreia de um jovem baterista de New Jersey, que aos 22 anos está a dar que falar num meio musical em que o nível de exigência técnica e estética é muito elevado. É o caso de Tayshawn Sorey, o gordinho que tocou dia 12 de Março passado no CCB, integrado no Nomad de Dave Douglas, em substituição do canadiano Dylan van der Schyff.Vem esta referência a propósito da participação notável que o rapaz tem no novo quarteto de Sirone e Billy Bang, o Sirone Bang Ensemble. Papel que se manifesta na actividade de estimular a criatividade dos velhotes, insuflando a música (e contagiando os músicos) com uma frescura e uma vitalidade impressionantes.
Configuration foi gravado ao vivo no clube CBGB, na noite de 24 de Novembro de 2004. Os créditos há muito firmados por cada um dos intervenientes poderiam fazer supor tratar-se de uma sessão free, de estilo tórrido e selvagem. Nada de mais errado, porém. Configuration é a fotografia sonora de um concerto musicalmente sóbrio e relativamente tranquilo, em tempo médio-lento. Quer dizer, tão plácidao quanto pode ser um evento musical em que intervém Charles Gayle, que, no caso concreto, se estreia em disco a tocar saxofone alto! Para a toada dominante puxar para o lado mais suave do free jazz, em parte concorre o facto de o quarteto trabalhar eminentemente sobre composições escritas, três de Sirone, três de Billy Bang, e de os músicos se concentrarem na improvisação dentro dos limites da exposição temática, que procuram cumprir com rigor. Por exemplo, no tema de abertura, Jupiter´s Future, após a breve enunciação da linha melódica composta por Billy Bang, os músicos fazem a sua apresentação musical, executando solos à vez. Quem começa é Tayshawn Sorey, que durante os minutos iniciais mostra ao que vem, dando o mote para o que se há-de seguir. Repete-se o tema, uma sequência de 8 notas e variações. Segue-se o sax tenor de Charles Gayle no mesmo tom relaxado e não abrasivo; Billy Bang sublinha algumas passagens e deixa Gayle novamente à vontade até chegar a vez de Bang e de Sirone se travarem de razões. É este último quem fecha a sequência, posto o que o Ensemble retoma o fio à meada, para concluir com a melodia inicial.
Surpreendentemente, quando já se esperava que o disco prosseguisse de acordo com este tipo de formato, eis que o Ensemble ataca o segundo tema da sequência, Freedom Flexibility, em estilo hard bop evocativo dos Jazz Messengers de Art Blakey. Seia um hard bop típico, não fora a capacidade dos músicos de entrarem, permanecerem e sairem dos acordes escritos por Billy Bang.
We Are Not Alone, But We Are a Few, escrito por Sirone, é o tema mais contemplativo da série, em andamento lento e espaço amplo para o quarteto se espraiar. As cordas fazem as principais despesas do som. Depois da introdução, em que Charles Gayle fica a observar a evolução dos acontecimentos, o saxofonista entra no jogo, acentuando o lado mais vincadamente emocional, no que evoca o trabalho do Revolutionary Ensemble, o trio de Leroy Jenkins, Sirone e Jerome Cooper.
I Remember Albert, além das óbvias conexões espirituais e formais à música de Albert Ayler, recupera o tempo médio inicial e, naturalmente, é o momento de esplendor de Charles Gayle, que enche a casa com o seu som rude e áspero, embora contido dentro dos limites a que o confinou a escrita de Sirone. O contrabaixista oferece o segundo momento do tema ao violino de Bang.
Notre Dame de La Garde, relembra as aventuras do Revolutionary Ensemble, de Psyché, por exemplo, patente nos aspectos de maior melancolia e introspecção, onde a criatividade de Billy Bang se mostra mais evidente, com destaque para um bem esgalhado dueto com Charles Gayle.
A fechar a hora de concerto, Configuration, o tema-título em jeito de funk marcdo bela batida forte de Tayshawn Sorey. O baterista volta a tomar conta das operações e a catapultar o trio veterano para as alturas, de onde desce calmamente, até a música se desvanecer no meio dos aplausos.
Grande noite, grande disco. Passei ontem na Trem Azul e comprei um exemplar. Ficaram lá outros dois à espera de alguém que goste de Jazz. Sirone Bang Ensemble - Configuration (Silkheart, 2005)
O contrabaixista norte-americano Mario Pavone iniciou a sua carreira nos anos 60. Estudou e tocou com grandes mestres, como Bertram Turetzky e Paul Bley. Influenciado por Charles Mingus, anos mais tarde Pavone fez parte do movimento Loft de Nova Iorque, período durante o qual tocou intensamente com Archie Shepp, Bill Dixon, Anthony Braxton e outros grandes criadores de som. Nos anos 80, Mario Pavone mudou-se para o Connecticut, estudou em Yale e na Wesleyan, período em que colaborou com Jane Ira Bloom, Ray Anderson, Anthony Davis, Gerry Hemingway, Mark Helias, Pheroan ak Laff, Leo Smith e muitos outros músicos. De volta à Downtown de Nova Iorque, nos anos 90 iniciou uma frutuosa colaboração com o Thomas Chapin Trio, formação com a qual gravou sete álbums. Data dessa época o aprofundamento do seu percurso enquanto líder de vários combos, corolário de uma carreira que este ano comemora o 40.º ano de actividade.Assinalando a efeméride, Nova Iorque será palco de uma série de concertos no decurso de duas aventurosas semanas, entre 27 de Abril e 11 de Maio.
Na Quarta-feira, 27 de Abril, Pavone toca com o Totem Quartet (Mario Pavone, contrabaixo; Tony Malaby, saxofone tenor; Angelica Sanchez, piano e órgão; Kevin Norton, bateria e vibrafone) no novo espaço de John Zorn, The Stone. Convidado especial, Marty Ehrlich, saxofones e clarinete. No Dia do Trabalhador, 1.º de Maio, haverá dois concertos no CBGBs’ Lounge: novamente o Mario Pavone Totem Quartet, com o trompetista Steven Bernstein como convidado especial. Quarta-feira, 4 de Maio, a grande festa de aniversário, a Official 40th Anniversary Party, com o Mario Pavone Nu Trio/Sextet. Em palco estarão Mario Pavone, contrabaixo; Charles Burnham, violino; Steven Bernstein, trompete; Howard Johnson, saxofone barítono e tuba; Peter Madsen, teclados; Michael Sarin, bateria. Local: 55 Bar. Finalmente, na Quarta-feira seguinte, 11 de Maio, no Barbès, clube de Brooklyn, volta a tocar o Mario Pavone Totem Quartet. O convidado desta vez será o saxofonista alto, John Beaty. Grande festança! Parabéns a Mario Pavone!
Ted Curson - Plenty Of Horn (Old Town, 1961)
Ted Curson - trompete
Jimmy Garrison - contrabaixo
Kenny Drew - piano
Bill Barron - bateria
Eric Dolphy - flauta
Danny Richmond - bateria
Pete La Rocca - bateria
Mr. Cool recomendou-me a audição de dois projectos de electrónica meets free jazz que a netlabel eDogm disponibiliza gratuitamente online. Ouvi ambos e fiquei muito bem impressionado. Destaco The Fissback Voyage, o projecto de Tlön 5, dois músicos franceses de Toulouse, Eric Pailhé, saxofone tenor, gira-discos e efeitos electrónicos; e Johann Bourquenez, piano, sintetizador e efeitos digitais, a que se somou Roger Cazenave, baixo e sintetizador. O EP The Fissback Voyage compreende cinco temas, num total de 27 minutos. Vou na segunda audição e parece-me que não escapa uma terceira. Por hoje.

O Nuno Ferros, da associação Rock'n'Cave, meteu a mão na massa e tem prontinho a arrancar o fenomenal _____ Space 2005.parte 1
festival de música experimental e improvisada
· Festival de MÚSICA onde se abordam os novos rumos da música contemporânea, possibilitados quer pela via da experimentação/improvisação quer pelas novas tecnologias digitais.
· Ao longo dos últimos anos têm surgido no panorama nacional diversos projectos que têm aproveitado da melhor forma estas novas possibilidades. Atendendo à sua importância e carácter inovador é nosso objectivo contribuir para a sua melhor divulgação.
· Pretendemos criar uma plataforma de ensaio de formas e formações musicais. Temos consciência das dificuldades encontrados pelos músicos portugueses para levar até ao palco as suas iniciativas mais originais. O Space é um espaço para eles.
______ Programa: 17 de Março -> 2 Abril
____17 Março, 22h: quinta-feira, Rivoli Café-Concerto (entrada livre)
1. Cheese Cake Project: projecto de Jorge Queijo, no qual a percussão exerce um papel principal, a qual explora recorrendo a vários componentes electrónicos. Neste concerto vai apresentar-se em duo com Marco Figueiredo (piano)
2. Quad Quartet +: quarteto de saxofones criado recentemente em Aveiro, composto por João Figueiredo (sax soprano), Fernando Ramos (sax alto), Henrique Portovedo (sax tenor), Romeu Costa (sax barítono). Neste concerto vão apresentar-se com os convidados João Martins (sax alto) e Jorge Queijo (percussão)
____18 Março, 22h: sexta-feira, Rivoli Café-Concerto (entrada livre)
1. Projecto Arzach: projecto liderado por Henrique Fernandes. Consiste na criação, em tempo real e ao vivo, duma banda sonora para projecções de BDs de culto: Flood, de Eric Drooker e Mondwasser, de Micha Hirst. Foi apresentado recentemente no Festival Internacional de BD da Amadora 2004, e nas XVI Xornadas de Banda Deseñada de Ourense. Os músicos participantes são: Henrique Fernandes (contrabaixo), Bitocas (chocalhos), Fred (Brasil)(bongos). A edição de imagem e animação são de Augusto Lado
____19 Março, 22h: sábado, Rivoli Café-Concerto (entrada livre)
1. Lady Cleaners: duo de laptops de Lucho Henriquez (Equador) e Bjorn Erlach (Alemanha)
Lucho Enriquez (Ecuador 1978)
Guitar player, Composer and Sonologist. His musical background involves classic & contemporary music, electronic music, jazz and rock. He studied composition with Jose Angel Perez Puentes (Cuba, Ecuador in Conservatory “Gershwin”) and Klarence Barlow(Germany, Holland in Royal Conservatory). His music and He(as performer) has been performed around Ecuador, Cuba, The Netherlands, England and Portugal. Since 2001 he dessigns his own microtonal guitar models. In 2002 he published his book “The system of 18 sounds” which was published in Ecuador and Cuba. Since 2003 is programming and researching at the Sonology Institute in Den Haag. At the moment is developing his own virtual synth programming enviroment for guitar called “guitar collision” .
Björn Erlach (Germany)
Music & audio software developer, UNIX hacker and sonologist. Visited the School of Audio Engineering in Cologne from 1996-1997. Studied computer music with Clarence Barlow in Cologne 1998-2003. Since 2003 he is busy with the maintenance of the only Linux machine at the institute of sonology in Den Haag and explores improvised computer
music with the Ladycleaners.
He has programming experience with C/C++, lisp, scheme, tcl/tk and is a strong supporter of opensource software like Puredata, csound,common lisp music and Supercollider.
2. Artesão: quarteto de improvisação desenhado por José Miguel Pinto (guitarra) e Rodrigo Pinheiro (piano)
____2 Abril, 23h30: quinta-feira, Passos Manuel (7,5 euros)
1. Spy Quintet: quinteto criado propositadamente para a edição de Space 2005 inspirado no album Spy Vs Spy (Elektra,1989) no qual John Zorn, Tim Berne, Mark Dresser, Michael Vatcher e Joey Baron interpretam temas de Ornette Coleman (que completou 75 anos a 9 de Março), seguindo algumas regras e estruturas musicais por este criadas e apresentadas em albuns como "Free Jazz (A Collective Improvisation) by Ornette Coleman Double Quartet".
O quinteto vai ser composto por Gustavo Costa (bateria), João Tiago (bateria), João Martins (sax), João Guimarães (sax), Henrique Fernandes (contra-baixo), e, neste concerto, vão contar também com a participação de José Miguel Pinto (guitarra) e Gil (voz).
2. Giga Tera Pia dj set: Colectivo de DJs que se dedica à animação de espaços recorrendo a diferentes formas de arte: música, vídeo, performance, pintura, etc.
________________________________________________________
Mais informação sobre o festival Space, assim como fotos e textos descritivos.
A segunda parte de Space 2005, vai decorrer entre os meses de Novembro e Dezembro em várias cidades. 
A avaliar pelo registo, deve ter sido um concerto e pêras. Cecil Taylor, Dominic Duval e Jackson Krall, ao vivo no Ted Mann Concert Hall de Minneapolis em 19 de Fevereiro de 2000, sessão gravada e recentemente publicada pela Cadence Jazz Records. Em três temas (Improvisation I, II e III), de 37, 29 e 7 minutos, respectivamente, Cecil Taylor prossegue a arte da reivenção do estafado trio de piano.A técnica prodigiosa e a emoção intacta de Taylor apoiadas por um acompanhamento de luxo, inteiramente ao serviço da exploração de ideias abstractas, fazem todo o sentido para quem é conhecedor e para quem, não o sendo, quiser e souber ouvir sem preconceito. Taylor incandescente, Duval esmagador e Krall constantemente a pôr lenha na fogueira. Irresistível apelo.Cecil Taylor - All the Notes (CJR, 2005)
... E por falar em Dave Douglas, este après-midi segue deliciosamente ao som de Freak In, de 2002. Uma bomba de fusion, um híbrido de jazz, electricidade e electrónica, do melhor que se pode ouvir nestes tempos.

Quem tenha interesse, e, especialmente, quem além disso possa ir a Austin, Texas, entre 31 de Março e 3 de Abril, saiba que os pormenores do 3º No Idea Festival of Creative Improvised Music, já estão disponíveis. Presentes, alguns dos nomes habituais, como Chris Cogburn e Nick Hennies, mas também Dave Dove, Maria Chavez, Jason Jackson, Rick Reed, Kyle Bruckmann, Tatsuya Nakatani, Jack Wright, e etc por aí adiante. Do Texas não sopram só maus ventos...
Casa cheia para ouvir Dave Douglas & Nomad na apresentação em Portugal de Mountain Passages. O disco, vigésimo segundo da carreira do trompetista e primeiro para a Greenleaf, editora própria recém-fundada, resultou de uma encomenda do Festival I Suoni delle Dolomiti para nele apresentar uma peça inédita para ser interpretada a mais de 3000 metros de altitude, em que era suposto músicos e assistência deslocarem-se a pé até às alturas alpinas e aí conviverem e celebrarem a alegria de viver através da música.Em Lisboa, o local escolhido para a apresentação foram as planuras de beira-rio de Belém, onde Dave Douglas (trompete), Marcus Rojas (tuba), Michael Moore (clarinetes e saxofone alto), Rubin Kodheli (violoncelo) e Tyshawn Sorey (percussão), fizeram muito por transportar o auditório ao topo imaginário das mais altas montanhas musicais.
Nomad é uma banda fora de comum na instrumentação, no som e na atitude. Não é vulgar, mesmo nas linguagens do jazz ou dele afins, ouvir-se uma combinação instrumental de trompete, tuba, saxofone alto, clarinetes, violoncelo e bateria, e menos ainda a produzir um tipo de som tão diverso e eclético, próximo da música de câmara de tradição europeia, da música cigana, da folk centro-europeia, da música ladina, do jazz, das steet bands, atravessado de ponta a ponta pelo espírito do jazz, entre o ébrio e a elevação espiritual. A plasticidade sonora é tal, que tanto soa a música de bar em noite de folia, como a música de câmara interpretada numa sala de concertos, perante públicos exigentes e condicentes com ambos os cenários.
Além da competência técnica individual de cada músico integrante desta particular formação do NOMAD, que sofreu alterações no line-up original em função de compromissos de agenda dos “originais” elementos, e da excelência das composições do trompetista, impressionou imenso a capacidade de interacção, o lirismo e o sentido de colectivo que os cinco injectaram a cada passo da progressão musical. Os pormenores dos arranjos e a improvisação transformaram a música em algo de grandiloquente, sem ser pomposo, com enorme profundidade de campo, elevada concentração dos executantes e sentido de unidade na produção de um som extraordinário.
No primeiro encore ouviu-se aquele que ficou como um dos momentos altos da celebração, uma composição de homenagem ao grande Lester Bowie, num tom de gospel repassado de saudade pela trompetista do Art Ensemble of Chicago, que deixou a sala rendida à intensa interpretação do quinteto. Como o público não dava mostras de se querer ir embora, o grupo regressou ao palco para tocar uma última peça, que rematou uma noite de excelente música e um concerto a todos os títulos memorável. Dave Douglas & Nomad
Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém
12 de Março de 2005.

É hoje às 21h00, no CCB: Dave Douglas & Nomad apresentam Mountain Passages. Com Dave Douglas (trompete), tocam Marcus Rojas (tuba), Michael Moore (clarinetes e sax alto), Rubin Kodheli (violoncelo) e Tyshawn Sorey (percussão). Ausentes estão Peggy Lee e Dylan van der Schyff, as escolhas de Douglas para a gravação de Mountain Passages.
Alan Silva & The Celestrial Communication Orchestra, Sunny Murray, Archie Shepp, Paul Bley, Dave Burrell, Sun Ra, Art Ensemble of Chicago, Dewey Redman, Anthony Braxton, Don Cherry e por aí adiante, mais outros nomes importantes da electrónica e das vanguardas, como Musica Elettronica Viva, Gong, Daevid Allen, Robert Wyatt, etc, fazem parte das escolhas de Byron Coley e Thurston Moore para esta compilação de temas de álbuns da BYG/Actuel, gravados em Paris, entre 1969 e 1971. O melhor do free jazz daquela época está reptresentado em Jazzactuel.Pode ler-se nas notas à compilação: "(…) There's no denying that the Actuel series is one of THE great cultural can-openers of the post-war era ... it will neatly peel the top off of your scalp and pour in a steaming load of freedom, and that is a procedure which is above reproach."
É o que se ouve aqui, matinalmente.Disco UmSunny Murray, Red Cross 7:49 Archie Shepp, Blasé 10:25 Steve Lacy, Note 4:27 Daevid Allen, Memories 3:36 Sonny Sharrock, Soon 7:53 Grachan Moncur III, Exploration 10:40 Clifford Thornton, Pan-African Festival 7:48 Jacques Coursil, Black Suite, part 2 (excerpt) 6:30 Dave Burrell, Echo 20:14
Disco Dois
Sun Ra & His Solar-Myth Arkestra, The Utter-Nots 11:18 Arthur Jones, Brother B 7:23 Burton Greene Ensemble, From "Out Of Bartok" 5:06 Art Ensemble Of Chicago, Get in Line 8:42 Andrew Cyrille, Pioneering 4:33 Paul Bley, Ramblin' 5:45 Frank Wright, One For John/China, part 2 16:40 Acting Trio, Cello Discordato No. 9 7:40 Dewey Redman, Tarik 4:47
Disco Três
Don Cherry, Teo-Teo-Can (excerpt) 4:16 Anthony Braxton, B-Xo NO147a (excerpt) 6:24 Jimmy Lyons, Premonitions 7:35 Claude Delcloo/Arthur Jones, Africanasia, part 1 (excerpt) 6:08 Musica Elettronica Viva, The Sound Pool, part 1A 3:42 Kenneth Terroade, Blessing 17:55 Gong, Squeezing Sponges Over Policemen's Heads/Foghat, Digs Holes In Space 6:34 Alan Silva & The Celestrial Communication Orchestra, The Seasons, part 6 22:30
A AnAnAnA mudou. Fez um restyling e ficou bem. Passei por lá. Há caras novas, o espírito mantém-se. A newsletter dá conta das mudanças ocorridas e da vontade de se continuar a afirmar no espaço próprio que conquistou, renovando-se. Um abraço ao Paulo Somsen e à rapaziada das "Anas".De cara fresca (venha ver como ficou a decoração da nossa loja!) e com uma promoção imbatível dos discos de várias editoras (preços de 3 a 9 euros, tanto para CD como para vinil) a decorrer, a AnAnAnA decidiu assinalar a preceito a nova fase que este ano iniciou. Com a mesma direcção (Paulo e Fred Somsen) e o mesmo projecto de sempre desde 1990, mas com uma equipa de trabalho renovada. O atendimento e o escritório é agora constituído por gente nova e conhecedora, para além do Fred, também o Joaquim Santos e o Filipe Leote. Contamos ainda com a colaboração de um amigo de longa data, o crítico e ensaísta Rui Eduardo Paes, na feitura da nossa newsletter semanal e no aconselhamento nas suas áreas de especialidade. O que quer dizer que os nossos clientes continuarão a ser bem recebidos, sabendo de antemão que este continuará a não ser apenas um espaço comercial, mas também um local de descoberta das novíssimas tendências da música ou de redescoberta das grandes obras de outras gerações, bem como de convívio entre melómanos.
A AnAnAnA foi pioneira no nosso país em diversas frentes. Foi a primeira a avançar com um serviço de comercialização postal da chamada música alternativa ou independente, foi a primeira a distribuir este tipo de música no comércio lojístico tradicional e em grandes superfícies como a Fnac, foi a primeira a editar e a divulgar a criação experimental e de vanguarda feita em Portugal e foi ainda a primeira a despertar a atenção dos media para estas práticas musicais. Fazemos parte da história porque fomos nós que a iniciámos, mas não nos contentamos com ser apenas uma referência do passado. Com a presente mudança, a AnAnAnA preparou-se para continuar na linha da frente e para fazer a história do futuro.
Somos tão ambiciosos quanto sempre fomos e não queremos menos do que o céu. Os próximos tempos serão, pois, de grandes novidades, passando estas, entre outras, por novas representações de prestigiadas etiquetas discográficas internacionais. Preparem-se, pois, para o que aí vem.

Vision Festival X
Nova Iorque - 12 a 19 de Junho de 2005
A Arts for Art, associação sem fins lucrativos dirigida por Patricia Nicholson Parker, sediada no Lower East Side de Nova Iorque (East 6 Street, NYC 10009), que funciona como uma plataforma para os artistas independentes poderem apresentar o seu trabalho e foca o interesse na promoção de eventos artísticos, anunciou em Nova Iorque que a próxima edição do VISION FESTIVAL, a décima, irá ter lugar em Nova Iorque, entre 12 e 19 de Junho.O Vision Festival é um dos maiores acontecimentos internacionais ao nível do jazz e da música improvisada em geral, que em apenas 10 anos se afirmou como um dos mais importantes festivais da história do jazz. Para comemorar a primeira década de existência, a Arts for Arts alinhou um programa que é de longe o maior e o mais ambicioso de toda a história do festival anual. Confirmados para as sessões de 12 a 19 de Junho estão Fred Anderson - Harrison Bankhead - Billy Bang - Rob Brown - Han Bennink - Peter Brötzmann - Roy Campbell - Whit Dickey - Paul Dunmall - Hamid Drake - Douglas Ewart - Alvin Fielder - Lori Freedman - Charles Gayle - Eddie Gale - Henry Grimes - William Hooker - Joseph Jarman - Terry Jenoure - Kidd Jordan - Joelle Leandre - George Lewis - Maria Mitchell - Roscoe Mitchell - Joe Morris - David Murray - Patricia Nicholson - Evan Parker - William Parker - Paul Rogers - Sam Rivers - Matthew Shipp - Jorge Sylvester - Ijeoma Thomas - Oluyemi Thomas - Nasheet Waits - Reggie Workman - Other Dimensions in Music - Sound Vision Orchestra - Little Huey Creative Orchestra - Conceptual Motion Orchestra.
Ou seja, boa parte dos nomes e das sensibilidades estéticas mais importantes e representativas do jazz do presente, virado para o futuro.
Haverá lugar para um momento especial (mais especial que os outros) de homenagem a Fred Anderson, a quem será entregue um prémio de carreira, denominado Special Lifetime Recognition Award, a ter lugar no Fred Anderson Day, dia 16 de Junho. Num dos dois palcos do Clemente Soto Velez, haverá um concerto all star, com Fred Anderson, Kidd Jordan, George Lewis, William Parker, Joseph Jarman, Alvin Fielder, Harrison Bankhead, e outros artistas que ao longo dos anos cruzaram carreiras com a do grande Fred Anderson, o papa do jazz de vanguarda de Chicago.
Local: Clemente Soto Velez, em duas salas de concertos, uma galeria de arte e um bar.Preço: $25 por noite (€19). A assinatura para a totalidade dos concertos custa $140 (€107).
Bilhetes à venda na Downtown Music Gallery, em Nova Iorque. 
David S. Ware Quartet, Vision Series/2004 (Foto: John Rogers)
A chegada de cada disco novo de ou com Tim Berne é sempre antecedida de uma certa expectativa. Por dois motivos essenciais: primeiro, Berne, apesar de ser um músico prolífico e de participar em inúmeros projectos próprios e de terceiros, tem sempre algo de novo a dizer. Em segundo lugar, depois da publicação de The Sublime And, do grupo Science Friction, suscitou-se a questão de saber que novas direcções tomaria a música de Berne, que entretanto atingira picos de complexidade técnica nunca vistos no saxofonista. Ou seja, iria o músico insistir nos projectos de grande fôlego, subindo, porventura, um ou vários degraus em direcção a um suposto opus magnum em termos de construção e de duração das composições, ou faria uma inflexão, um back to basics em direcção ao cerne de Berne, lançando mão da simplicidade formal, escassa instrumentação e duração confinada a limites mais comuns no jazz?Ouvindo Souls Saved Hear, do trio Big Satan, dá para perceber que, tratando-se do novo disco de um colectivo sem liderança marcada de qualquer dos seus membros, ainda não foi desta que Tim Berne deu a conhecer a opção que se segue. O caso aqui é outro e reincide no trabalho cooperativo que o trio tem vindo a realizar. Tim Berne e Marc Ducret, tal como nas anteriores edições do Big Satan, metem a mão na massa, repartindo entre si as composições. Tom Rainey também assina uma delas (Hostility Suite). Em todas se optou claramente pela economia de meios. O disco ronda os 47 minutos e nenhum dos 9 temas ultrapassa os 10 minutos. A opção considerada incluiu a gravação em estúdio de um álbum conciso e concentrado, em que todas as notas contam. Não há nada a mais nem a menos, o que resulta numa utilização assaz eficiente do tempo e do espaço, com apertada concentração e parcimónia na gestão das pausas e silêncios. Marc Ducret tem aqui um papel fundamental, ao pôr de lado a distorção da guitarra, substituindo-a por uma abordagem acústica e eléctrica não tão carregada, que melhor sublinha os contornos das figuras. Ducret é um fora de série, um dos mais (ou o mais) interessantes guitarristas da actualidade, que faz de cada nota um hino ao bom gosto e ao rigor na concepção do som colectivo. A isto soma-se um tratamento rítmico condicente por parte do inventivo Tom Rainey, que tanto propulsiona as operações como preenche milimetricamente os espaços, acentuando o detalhe de cada motivo.Souls Saved Hear vem a ser um realmente disco muito bom, o que é recorrente em Tim Berne e em particular na frutuosa associação a Marc Ducret e a Tom Rainey. Que aqui se reconfirmam como excelentes improvisadores e organizadores de sons. A não perder.
Novas da EMANEM
... A partir de 14 de Março:
CLIVE BELL & SYLVIA HALLETT - 'The Geographers' (2004) - EMANEM 4112 65 minutes.
Following their 2004 FREEDOM OF THE CITY festival performance (heard on EMANEM 4215), Clive Bell and Sylvia Hallett went into the studio to record some more improvisations. Bell used Cretan pipes, harmonica, khene, pi saw, shakuhachi, stereo goathorns and a whirling bat drum, while Hallett used anklung, bicycle wheel, electronics, mbira, sarangi, saw, viola, violin and voice. Between them they created a very exotic sound world.
ANTHONY BRAXTON & MILO FINE 'Shadow Company' (2004) - EMANEM 4113 66 minutes.
Anthony Braxton invited Milo Fine to travel half way across the USA so they could make some music together for the very first time. The result was the extended free improvisation (with gaps) which is heard complete on this CD. Braxton used four saxophones, and Fine two clarinets, piano and drums.
ROGER SMITH & LOUIS MOHOLO-MOHOLO ‘The Butterfly and the Bee’ (2004) - EMANEM 4114 71 minutes.Following the success of their very first performance together at the 2004 FREEDOM OF THE CITY festival (heard on EMANEM 4215), Roger Smith and Louis Moholo-Moholo went into the studio to record some more. Their second meeting went so well that they recorded enough duo improvisations for a complete CD. The resulting music is heard complete, with Smith on Spanish guitar and Moholo on augmented drum set.
O disco começa com a chamada da tuba aos outros instrumentos, que com ela começam uma espécie de dança. Tuba ao centro, sax tenor à esquerda e trompete do lado direito. Posto em movimento, o trio mistura-se homogeneamente e improvisa sem papel à vista. Duos, trios, monólogos sucedem-se naturalmente, como numa conversa tranquila entre três amigos de longa data. William Roper ocasionalmente pousa a tuba e diz poemas seus, por cima das frases de saxofrone tenor e trompete. Purple Gums, A Boy Like You, You A Square, três belos textos; os dois primeiros contam histórias de amor perdido e último discorre sobre um caso de discriminação racial, que faz lembrar a música de Stravinski, da História do Soldado. Bobby Bradford escreveu e disse Li´l Sister, um poema humorístico à volta das contingências da vida de um músico, dito de modo a fazer flutuar as palavras por sobre as notas do sax tenor de Francis Wong. A música de Purple Gums prende a atenção durante os mais de 70 minutos de execução. Imagino o auditório da S. Francisco State University completamente rendido a esta música com fortes ressonâncias AACM, tocada por três veteranos que arriscaram fazê-lo livremente e sem a segurança da música pré-escrita, enveredando pela abordagem da música tradicional das street bands, filtrada por uma sensibilidade moderna. Oh brother, she´s got those Purple Gums... .
Bobby Bradford/Francis Wong/William Roper - Purple Gums (Asian Improv)
Na próxima 5ª Feira, dia 10 de Março, pelas 23h00, no Luso Café (Travessa da Queimada, 14 - Bairro Alto, Lisboa), concerto de jazz-rock com o JESSE CHANDLER TRIO:- JESSE CHANDLER (órgão Hammond)
- JOÃO AGOSTINHO (bateria)
- ANDRÉ FERNANDES (guitarra eléctrica)
Jesse Chandler nasceu em Boston em 1978 e reside em Woodstock, Nova Iorque. Experimentou vários instrumentos, saxofone, clarinete violino e piano, até se fixar no órgão, filiando-se na "New School" de NY. Também toca Fender Rhodes e Wurlitzer. Teve como mestres Larry Goldings, Junior Mance, Reuben Wilson, George Garzone, Kenny Werner, Reggie Workman, entre outros. Jesse Chandler é uma das revelações do jazz norte-americano dos últimos anos. O seu primeiro disco como líder, Somewhere: Between, foi muito bem recebido pela crítica.
John Zorn abriu um novo espaço na East Village de Nova Iorque!Sob a direcção artística de Zorn, The Stone é um projecto da Hips Road, organização sem fins lucrativos, que assume a forma de espaço comunitário para actuação de artistas da música experimental e das diversas vanguardas. Pensado para ser auto-sustentado financeiramente, o dinheiro entrará através de donativos voluntários, da cobrança de entradas e da venda de discos em edições especiais a editar pela Tzadik. Os proventos revertem integralmente para os músicos que actuarem em cada programa. Não há venda de bebidas nem de outro tipo de artigos. Apenas música. The Stone inicia hostilidades já a partir de dia 1 de Abril, com John Zorn Improv Party. Segue-se, a 2 de Abril, o Milford Graves Trio, com Milford Graves, Hugh Glover e Joe Rigby, mantendo uma programação intensa durante todo o mês. Excelente notícia.

GARAGE (The Thing) lançado no Verão passado pela norueguesa Smalltown Superjazz, afiliada da Smalltown Supersound, editora que contratou as próximas edições do Free Fall (Ken Vandermark, Ingebrigt Håker Flaten e Håvard Wiik), trio que gravou Furnance para a Merge Records, subsidiária da Wobbly Rail. The Thing é um trio escandinavo (norueguês e sueco) que se formou em 2000, composto por Mats Gustafsson (sax tenor e barítono), Ingebrigt Håker Flaten (contrabaixo) e Paal Nilssen-Love (bateria). O trio tanto toca a música de Don Cherry, 'Butch' Morris e Frank Lowe, como temas de punk, garage-rock e afins (Yeah, Yeah, Yeahs, The White Stripes, The Sonics). Confluência eficiente de duas fontes primordiais de energia, o punk e o free jazz.
Daqui a umas horas, às 19h30. --------------------------------------------------------Mais tarde...
Maré alta na Trem Azul. Noite cheia com o AMP, o projecto novo de Abdul Moimême, Manuel Mota e Pedro Gonçalves. Duas guitarras eléctricas e contrabaixo. Não conhecia o AMP e penso - não sei se estou em erro - que esta foi a sua primeira apresentação "formal" ao vivo. O que sei, porque que me foi dito pelo próprio Abdul Soimême, é que esta foi a segunda vez que tocaram juntos. E muito! Aconteceram momentos sublimes no fluir constante da livre-improvisação, alto nível técnico e comunicação emocional entre os artistas e os outros fruidores. Convergindo com os músicos e o público, a acústica da sala deu uma apreciável ajuda ao desenvolvimento do som e à exploração das estruturas abstractas. Fragmentos de luz, jazz e blues totalmente abertos à transfiguração, lançando pistas em várias direcções a partir do tronco, ramos e folhas da mesma árvore. Pura intuição. E puro talento das 16 válvulas, digo cordas. AMP! Bonito de se ver e de se ouvir.
HOT CLUBE DE PORTUGAL
Praça da Alegria, 39 - Lisboa10 e 11 de Março de 2005
CONFERENCE CALL:
Gebhard Ullmann (saxofones)
Michael Jefry Stevens (piano)
Joe Fonda (contrabaixo)
George Schuller (bateria)
O Festival Dancing in Your Head - Ornette at 75, celebra este ano o 75.º aniversário de Ornette Coleman (Fort Worth, Texas, 9 de Março de 1930), entre 21 e 23 de Abril p.f..
> Quinta-feira, 21, a abrir e sob o tema The Music of Ornette Coleman, músicos de jazz, clássica, rock, e world music interpretarão peças de Ornette Coleman. Confirmados estão The Flux Quartet, Tom Chui, Anthony Cox, Nirmala Rajesekar; Happy Apple e The Bad Plus.
> Na sexta-feira, 22 de Abril, o Ornette Coleman Quartet toca na que será uma das suas raras apresentações ao vivo. Em palco, com o saxofonista, estarão Greg Cohen (contrabaixo), and Tony Falanga (contrabaixo) e Denardo Coleman (bateria).
> A fechar o festival, no sábado 23 tem lugar o que a organização designa por Dancing In Your Head Festival Marathon: oito horas seguidas de concerto com nomes e grupos tão diferentes como The Bad Plus, Dean Granros, AntiGravity Ensemble, Dosh, Zebulon Pike, Douglas Ewart, Gao Hong, Steve Goldstein, Fat Kid Wednesdays, Wendy Lewis, Fernando Meza, Erik Barsness, Gloryland Ponycat, Happy Apple, Nachito Herrera, Nirmala Rajasekar, Anthony Cox Ensemble, Oromo Sisters, Patrick Crossland, Tom Chui, Zeitgeist, Minneapolis Guitar Quartet, e Bang on a Can All-Stars. Será apresentada em estreia mundial uma obra especialmente encomendada para o efeito a Ornette Coleman.
Festival Dancing in Your Head - Ornette at 75
William and N. McGuire Theater; T. Mann Concert Hall – Minneapolis, 21-23/04/2005
O Jazz-Cafe Damberd, em Ghent, Bélgica, oferece excertos de vídeos de concertos. Entre os 8 e os 15 minutos, dá para ver ALAS NO AXIS, David Fiuczynski, Cuong Vu Trio, Gilbert Paeffgen Trio e Cosmic Dapp Theory. Brevemente, actuará o Trio Iffy - Chris Speed, saxofones; Jamie Saft, teclados; e Ben Perowsky, bateria. Muito interessantes as fotos, os links e a história do Damberd.
Agrada-me muito o conceito-base deste projecto antigo de Marco Eneidi, saxofonista alto da Bay Area de S. Francisco: tratar a big band como um instrumento autónomo relativamente aos instrumentos que a compõem. A orquestra toca como um instrumento mais, com Eneidi a definir coordenadas, orientações e directrizes, para que a entidade colectiva progrida musicalmente, acomodando espaço para os solos dos seus membros. Esta versão da American Jungle Orchestra, captada ao vivo em 1996, tinha entre si Glenn Spearman (1947-1998), o lendário sax tenor que ajudou ao ressurgimento do free jazz nos anos 90.Grande influência tiveram na música de Marco Eneidi os anos em que se formou com Cecil Taylor and Bill Dixon, em Nova Iorque, e especificamente no instrumento, o estilo de Sonny Simmons e de Jimmy Lyons, em cujas estéticas se filia.
Música complexa e difícil de abordar (cada um dos dois discos tem mais de 70 minutos), que exige carradas de atenção da parte do ouvinte. Precisa de tempo para se tornar reconhecível e amigável. Com Glenn Spearman, Jackson Krall, Wadada Leo Smith, Bertram Turetzky, Jon Raskin, Oluyemi Thomas, Bruce Ackley, Phillip Greenleif, Alex Weiss, Matthew Goodheart, e outros.
Marco Eneidi & The American Jungle Orchestra (2 CD Botticelli Records, distr. Eremite Records)
Rui Neves > DJing no Purex, Rua das Salgadeiras, 28 LISBOA
Domingo 23h. > Segunda 02h. MARÇO
sessões POLIJAZZ
O jazz hoje, síncrono, global, tal como um diamante de faces múltiplas > reflectoras da realidade múltipla que nos circunda > misteriosa e reveladora da Verdade > que cabe a cada um escolher
Em Ulrichsberg, Áustria, de 5 a 7 de Maio de 2005 - ULRICHSBERGER KALEIDOPHON 2005, com:
- Wachsmann, Bunce & Lytton
- RoToR
- Gerry Hemingway Quartet
- Plasmic
- Mal d´archive
- Marco Eneidi / Andrew Cyrille
- Fieldwork
- Ianus
- Schlippenbach Solo
- Radian
- Henry Grimes Trio feat. Marilyn Crispell & Adrew Cyrille

Depois, em 18 e 19 de Junho, JAZZATELIER ULRICHSBERG
FESTIVAL DER REGIONEN 2005 / PHONOMANIE VIII:
CONDUCTED IMPROVISATION
ANTHONY BRAXTON & ENSEMBLE
Piano music: Anthony Braxton, Genevieve Foccroulle
Ensemble: Anthony Braxton, Taylor Ho Bynum, Aaron Siegel
Trio: Anthony Braxton, Taylor Ho Bynum, Aaron Siegel
Ensemble: Anthony Braxton, Taylor Ho Bynum, Aaron Siegel
Procurei e encontrei a preço de combate, We Insist?, o primeiro disco de Otomo Yoshihide (n. 1959) como líder. Otomo, além de membro da 100 Turntables Orchestra, tem andado num virote criativo com John Zorn, Fred Frith, Eye Yamatsuka, Ground-Zero, Celluloid Machinegun e a Double Unit Orchestra, Date Course Pentagon Royal Garden, Ground Zero, House Of Discipline, I.S.O., MC Hellshit & DJ Carhouse, Otomo Yoshihide's New Jazz Ensemble, Otomo Yoshihide's New Jazz Quintet, PantyChrist, Television Power Electric ... – a lista é longa, mas citei apenas alguns.Em We Insist?, subtitulado Hong Kong - Tokyo Extreme Music Meeting, Vol. 1, o infatigável japonês aparece à frente de uma orquestra frenética e alucinada, para a qual convidou algumas das personalidades mais relevante da música improvisada japonesa destes últimos anos, e o norte-americano John Zorn. O álbum, gravado em 1990-91, foi originalmente editado pela Sound Factory, de Hong Kong. Nele, além de Yoshihide (turntables, sampler, tapes, guitarra), entram Eye Yamatsuka (voz), Hideki Kato (baixo), Junji Hirose (saxofones) Kenichi Saito (guitarra) Masahiro Uemura (bateria) Shuichi Chino (piano e sampler) e John Zorn (sax alto).
Música analógica, colagens de vinil, field recordings, computadores - improvisada experimental trangenérica análogo-digital futurista.
Otomo Yoshihide - We Insist? (Noise Asia, 2003)
Flyer do concerto ao vivo do trio AMP, 7 de Março, às 19h30, na Trem Azul, Rua do Alecrim, 21-A - Lisboa.
O que a imprensa há-de dizer sobre o famoso trio AMP:Ils sont irreverents et trés radicals. Cependent, leur musique continue aussi actuelle qu’il y a 20 ans. Extremement recommandèe!
CyberCotidien, Paris, 07/03/2025
أما ليندسي دافنبورت التي تخلصت من الإسبانية كونتشيتا مارتينيث في جولتي، فستواجه في نصف النهاية باتي ش.
أما الروسية أنستازيا مسكينة التي فازت ببطولة فرنسا المفتوحة فقد أقصيت هي الأخرى، وقالت إن السبب هو الجهد الذي بذلته في كأس روسيا في شهر ديسمبر.
The Afgan Highlife, Afganistan, 07/03/ 2027
Da molto tempo non si ascoltava in Italia una musica cosí eclettica. Gli AMP sono un gruppo radicale ma rigoroso è sorprendente. É necessario ascoltarli!
Lo Spazzziale di Milano, 07/03/ 2026
Los AMP son la sorpresa del año. Extraño que tardaran 30 años hasta ser conocidos en nuestro pais. Hay que escuchar a este trio cojonudo!
El Desmadre, 08 /07/2035
The Homeland Security Depatment finally issued visas for these three great european musicians. It nearly took 40 years but it was well worthwhile. Too bad they are a little overdue. Nevertheless the latest gene therapy has proved miraculous! Definitly a memorable concert.
Big Brother Daily, L.A. 09/08/2045
A não perder, esta investida de Abdul Moimême, guitarra eléctrica; Manuel Mota, idem; e Pedro Gonçalves, contrabaixo.

Alexander von Schlippenbach, sobre MONK'S CASINO - The Complete Works of Thelonious Monk:
"The idea of compiling the complete works of Thelonious Monk and arranging them for live performance came to us in 1996-97. Apart from the pieces we already knew, there was not much sheet music available. Taped-up photocopies of manuscripts from various sources (there was no Thelonious Monk Fake Book yet) did make it possible, though, for us to finally put everything together. The first performance took place at the now defunct Jazzhaus Trepow, where we played the whole program over and over for a week. We then put together three sets of 23 to 24 pieces each, suitable for a live concert of about three-and-a-half hours of pure music.
In 1998, the complete show was first performed in a single evening at the NDR broadcast hall, for a broadcast organized by Michael Naura and the NDR jazz staff.There were also concerts in Germany, the Netherlands, and Austria. The complete show was then presented at the 2002 Berlin Jazz Festival, as well as at Nato in Leipzig and the Feuerwache in Mannheim. Before the Leipzig performance on 29 February 2004, we also did two evenings at the Berlin jazz club A-Trane. The recordings of the A-Trane concerts are on this CD.
The compositions are the most important thing here, so we did some of the pieces without any improvisation at all. We did take some liberties with the arrangements: many things came up during rehearsals and later became part of the performance. Monk's Casino is not an encyclopedic project, but an arrangement of the complete works of Thelonious Monk for live performance in one evening. At Monk's Casino, things often happen fast and sometimes get quite turbulent, too. Still, everything is well organized and, to that degree at least, under control. So here we go!"

Alexander von Schlippenbach
Axel Dörner
Rudi Mahall
Jan Roder
Uli Jennessen
Caixa de 3 CD's Intakt CD 100 / data de edição: 10 de Fevereiro de 2005

Depois de Blackwater Bridge (Gary Hassay e Anne LeBaron, 2002), álbum que desenhou novos trilhos de confluência entre o saxofone alto e a harpa, e ajudou a redefinir o quadro de relações entre instrumentos de sopro e cordas, elevando-as a um novo patamar discursivo cujos ecos perduram na memória do ouvinte, eis que a Drimala Records resolveu investir novamente no talento de Gary Hassay, saxofonista criador do excepcional Another Shining Path, do trio Ye Ren, com William Parker e Toshi Makihara – um dos melhores discos de 1999, a todos os títulos recomendável.Gary Hassay está de regresso aos discos. E agora, na companhia da cantora Ellen Christi, senhora de uma elegância vocal irrepreensível, que assim se apresenta nesta proposta de combinação sonora entre as vozes de dois artistas absolutamente fora do comum, que se inscreve na série de obras com que a editora de Hampton, Virginia, tem vindo paulatinamente a aprofundar a essência do formato.
Neste sentido, a articulação vocal de Ellen Christi, fantástica cantora da free form, assenta como uma luva na sonoridade madeira do saxofone alto do pintor abstracto Gary Hassay. Dois casos extremos de sub-exposição, num mundo em que a música improvisada deste calibre se vê condenada a uma inexorável e progressiva guetização, em favor de produtos e subprodutos de menor valia estética e musical que enxameiam o mercado.
É com redobrado prazer que se experimenta cada nova audição de Tribute to Paradise, mercê da empatia, intimidade, harmonia e vontade de comunicar dos dois criadores. Christi canta com swing e sem palavras, numa sucessão de onomatopeias (scat) de brilhante definição e limpidez. Hassay constrói cada intervenção com uma impressionante intensidade, servido de tonalidades e texturas pouco usuais, desafiando o ouvinte a cada curva. Sobre Christi escreveu o New York Times: "Canta num estilo forte e cristalino, improvisando com o fraseado de Albert Ayler e a intensidade de John Coltrane". E isso fica igualmente patente nos três temas em que o som de Christi se funde com a voz de Gary Hassay num canto a capella de muito bom gosto.
Vale a pena o ouvinte fazer o esforço simples de tentar penetrar no âmago do som puro, vogar nos cambiantes da coloratura vocal de Christi, enlear-se no voltear constante do sax alto, que namora a voz de Christi e se espraia em sinuosas linhas melódicas. Parte do encanto desta gravação está no sucessivo deslindar dos mistérios da criação musical espontânea; na arte de decifrar estruturas complexas que afinal se traduzem em linhas melódicas de fácil apreensão. Conquista cujo prazer felizmente está ao alcance de qualquer de nós, desde que se disponha a ouvir em profundidade. A paz de espírito que sobrevém é a melhor recompensa que se pode esperar desta promessa de "novo paraíso".
Gary Hassay & Ellen Christi - Tribute to Paradise (Drimala Records)
Fernando Grilo, Improv 1 (Março/2005)

Admiradores à séria de Jimi Hendrix (e candidatos), alegrai-vos, porque The Jimi Hendrix Experience BBC Sessions, remasterizado e completo (duas horas), saído em 1998, está aí à venda nas fnacs de Lisboa (pelo menos aqui sei que sim) a preço decente. Muito mais que decente é a música gravada em estúdio propositadamente para emissão pela BBC Radio One e na BBC TV, em 1967 e 1969. Eram os tempos do needletime, em que as rádios legalmente não podiam passar mais do que um certo número de horas diárias de música gravada em discos, e DJ´s como John Peel e Alexis Korner levavam as bandas para estúdio, gravavam e depois emitiam através da Radio One, que então dava os primeiros passos. Este é o Jimi Hendrix imediatamente anterior ao sucesso das grandes realizações que o haviam de guindar ao efémero estrelato (em vida, obviamente), a tocar originais de Hendrix e clássicos de Muddy Waters (Catfish Blues) Curtis Knight e outros. Notas extensas, onde David Sinclair conta toda a história das gravações do trio de Jimi Hendrix, Noel Redding e Mitch Mitchell para a BBC. Não é Jimi do mais clean, mas assim sujinho ainda parece que soa melhor e autêntico, isto é, sem o polimento e a graxa do estúdio.
Foxey Lady, Fire, Stone Free, Hey Joe, Hear My Train a Comin', Purple Haze e mais trinta e picos temas, parecem novinhos em folha, ásperos e angulosos como convém. E há curiosidades várias como o jingle Radio One, you´re the only one for me... que Jimi gravou para a estação.
Seamus Blake
25.06.2001
Commodore Ballroom, Vancouver - Canadá
______________________________________________
«UM TOQUE DE JAZZ»
RDP - ANTENA 2
Um programa de Manuel Jorge Veloso
Domingos - 24.00 às 01.00
Quintas (rep.) - 10.00 às 11.00
__________________________________________________
MARÇO
06.03.04 (e 10.03.04) – Concertos Internacionais (1) – o Sexteto de Jazz da ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo, Porto), com Zé Pedro (sax-tenor), João Guimarães (sax-alto), Aurélien Lino (piano), Eurico Costa (guitarra), Rui Leite (contrabaixo) e João Cunha (bateria). 1ª. parte do concerto realizado em 11.12.04 no CCB.
13.03.04 (e 17.03.04) – Concertos Internacionais (2) – o duo Mulgrew Miller (piano)-Steve Nelson (vibrafone). 2ª. parte do concerto realizado em 11.12.04 no CCB.
20.03.04 (e 24.03.04) – Concertos Internacionais (3) – o Quarteto de Christine Jensen (sax-alto), com Geoff Keezer (piano), Fraser Hollins (contrabaixo) e Greg Ritchie (bateria) com a convidada especial Ingrid Jensen (trompete). Concerto realizado em 19.10.03 na Maison de la Culture de Frontenac, Montreal (Canadá) no quadro da emissão «Silence... on Jazz». Gravação cedida pela Eurorádio.
27.03.04 (e 31.03.04) – Concertos Internacionais (4) – Hoje: o duo Seamus Blake (sax-tenor)-Bryn Roberts (piano). Concerto realizado em 17.10.03 na Maison de la Culture de Frontenac, Montreal (Canadá) no quadro da emissão «Silence... on Jazz». Gravação cedida pela Eurorádio.
Transmissão:
FM e AM da RDP/Antena 2

Gosto à brava desta Symphony no. 5 (Describing Planes of an Expanding Hypersphere), em 8 andamentos, do compositor norte-americano Glenn Branca. Gravada em 1984, esteve anos a fio (12) à espera de ser editada, aquela que é uma das mais (ou a mais) densa das sinfonias para guitarra de mestre Branca. Além do compositor, que conduz a orquestra e tece as principais malhas de guitarra, fazem o gosto ao dedo Tim Sommer e Dan Braun, baixo; Greg Letson e Miriam McDonough, teclados; Jonathan Bepler, Al Arthur, Hahn Rowe, Evans Wohlforth, Matthew Munisteri e Mark Roule, guitarras; Stephan Wischerth, bateria. Um monumento sinfónico às seis cordas electrificadas.
Guitarra, saxofones e baixo eléctrico. Peter Epstein, David Tronzo e Jerry Granelli. Lançam-se calmamente pela ladeira abaixo e vão apanhando o que podem pelo caminho. A viagem é tranquila, sem pressas de chegar ao fim. Quando termina, sente-se que cumpriram a missão de improvisar criando um mundo etéreo que partilham com o ouvinte. Olhos e ouvidos bem abertos.
Tronzo/Granelli/Epstein - Crunch (Love Slave Records, 1999)
Dave Douglas, visto por João Santos
.
.
Dave Douglas toca em Lisboa no próximo dia 12 de Março. À cabeça do programa está a apresentação do álbum Mountain Passages, recentemente editado pela Greenleaf. Será no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém. Com Douglas, vêm Michael Moore, Rubin Kodheli, Marcus Rojas e Tyshawn Sorey.
Sobre Dave Douglas e o projecto Mountain Passages, escreve João Santos:
“When I first began to experience mountain running, I would feel embarrassment when I found myself talking to squirrels, chipmunks, and birds (crows are particularly attentive). But now that time has passed and I now also talk with trees and rocks, I feel more comfortable with mountains' communications. And what is it like when a day of running ends and I come down out of the mountains? With my limbs caked with mud and my clothes soaked with sweat, I am clean. Though fatigue pulses through every nerve, I am well rested. With my skin torn from brambles and from poking Balsam fir, I am whole. And as to living longer? The mountains and I are eternal. We will visit together as often as I can manage. And one peaceful day, I will return home forever." - (Damon Greenleaf Douglas, 1933-2003)
Uma leitura inicial permitir-nos-ia criar um paralelo entre esta música de Dave Douglas e a montanhosa região que a inspirou. Forçosamente, surgiriam extremos – vales profundos, picos agudos, planaltos verdejantes, áridas escarpas – e apelar-se-ia à vertigem própria do que é criado à escala do mundo natural. Ou então, relembrar-se-iam as palavras do seu pai no que concerne aos caminhos já criados pelos parques naturais dos EUA – Damon, tal como o filho, possuía uma pulsante e esclarecida visão quanto à forma de conciliar o conhecido (a preservação) com o iminentemente novo (a criação). Na sua área de especialidade (cartografia e história - publicou o influente relato «The Bridge Not Taken: Benedict Arnold Outwitted»), defendia que novos trilhos deveriam ser desbravados se quiséssemos efectivamente compreender a nossa relação com a floresta. Na frase com que iniciámos este texto – poeticamente premonitória – está claramente patente a devoção que lhe dedicava.
Em «Mountain Passages», Douglas regista um conjunto de composições estreado (em Agosto de 2003) em pleno coração das alpinas Dolomitas, correspondendo ao convite do Festival “I Suoni delle Dolomiti” para nele apresentar uma peça inédita que, em certa medida, correspondesse ao duplo desafio de a interpretar a mais de 3000 metros de altitude e de se traduzir numa invocação própria da região. (Para mais informações sobre a edição desse ano – e fotos do local – acedam por favor a http://www.fassainfo.com/suoni/). Além de imediatas reflexões políticas e culturais (por exemplo, o tema de abertura é claramente inspirado pela música ladina enquanto «Bury Me Standing» é uma referência ao homónimo livro da Uruguaia Isabel Fonseca, que narra a sua convivência com ciganos nómadas da Roménia, Polónia ou Albânia), Douglas adicionou-lhe uma inesperada dimensão ao decidir-se por dedicar a composição ao seu pai.
Em http://www.greenleafmusic.com/ e, obviamente, http://davedouglas.com/, podem encontrar toda a informação referente ao projecto. E, ainda que biografia e expressão artística se confundam naturalmente no percurso de um compositor e intérprete como Dave Douglas, dê-se-lhe as voltas que se der, este terá de se tratar de um dos seus mais pessoais e complexos testemunho. Mas, por agora, convirá ainda esclarecer que a Greenleaf foi uma editora por si fundada – não apenas para a sua própria produção, claro – e que no seu site encontram uma extensa biografia, notas sobre a gravação deste álbum, um conjunto de críticas ao disco (do allaboutjazz à Downbeat), além de fotos de alta resolução e demais material promocional. Como saberão, o quinteto NOMAD apresentará entre nós este álbum já no próximo dia 12, no pequeno-auditório do Centro Cultural de Belém. Por questões de agenda, a integrá-lo estarão os músicos que têm acompanhado Douglas nas últimas apresentações nos EUA - Michael Moore, Rubin Kodheli, Marcus Rojas e Tyshawn Sorey – e não a formação patente em «Mountain Passages». O disco, esse, fica como o primeiro por nós trabalhado desde que decidimos iniciar nova actividade. E fica bem, até porque o 1º disco que promovi na Ananana – há precisamente 5 anos – foi o «Leap of Faith» e o último que o Rui promoveu na Multidisc, há 3 meses, foi o «Bow River Falls». Entretanto, a nossa empresa está ainda em processo de formação, pelo que o apresentamos em nome individual, o que até nem fica mal.
Esta não é a primeira vez que Douglas se desloca a Portugal. Esteve ainda há pouco tempo – respectivamente em 2001 e 2002, enquanto líder – nos Festivais de Seixal e Ponta Delgada. Mas, tal como convém, esta formação tem pouco em comum com as anteriores.
Ao longo de mais de 15 anos, paralelamente ao seu percurso no jazz, Douglas compôs música para bailados, agrupamentos de câmara e, inclusivamente, para Orquestra Sinfónica. Em 23 álbuns predominantemente dedicados ao seu repertório, comandou múltiplas formações numa série de tangentes entre o jazz de vanguarda, a música clássica e o folclore. Participou, como convidado, em mais de 100 gravações. Após uma série de Master Classes e Workshops nas principais Universidades Norte-Americanas, é há 2 anos director artístico do Banff International Workshop in Jazz and Criative Music. Recebeu bolsas do National Endowment for the Arts e do fundo Meet the Composer. É um dos mais influentes, criativos, prolíficos e originais músicos das últimas duas décadas.
Discografia: http://home.arcor.de/nyds-exp-discogs/index0.htm
Enquanto líder >
A abrir a década de 90, surge ao lado de Kermit Driscoll, Mark Feldman, Andy Laster e Tom Rainey no quinteto New and Used (Knitting Factory) – não se trata propriamente de uma formação por si liderada, mas pode afirmar-se que é nela que começa a mais dar nas vistas enquanto compositor. Em 1993, a italiana Soul Note edita «Parallel Worlds». Recorrendo a Mark Feldman (violino), Erik Friedlander (violoncelo), Mark Dresser (contrabaixo) e Michael Sarin (bateria), Douglas estreia-se à frente de um grupo de certa forma empenhado em revitalizar a prática do Third Stream, surgindo com intensas composições originais e brilhantes releituras de Webern, Ellington e Stravinsky.
Em 1994, a Canadiana Songlines edita o primeiro álbum do Tiny Bell Trio, de Douglas, Brad Shepik e Jim Black. Como principal impulso, criar uma música espontânea permeável a influências de formas tradicionais Europeias, nomeadamente das Balcãs, com destaque para as interpretações de temas Húngaros. Espaço ainda para uma composição de Kurt Weill e 6 originais de Douglas.
Em 1995, à luz de Booker Little – de quem interpreta 3 temas – Dave Douglas surge na New World com o álbum «In Our Lifetime», liderando um supergrupo com Uri Caine ao piano, Joey Baron na bateria, James Genus no contrabaixo, Chris Speed no clarinete e saxofone, Marty Ehrlich no clarinete baixo e Josh Roseman no trombone. É, no entanto, na leitura das suas peças mais longas que sobressaem as fortes características da sua música – de um musculado lirismo a um dramatismo quase púdico, Douglas ia criando uma voz única no panorama do jazz de vanguarda.
É igualmente de '95 a segunda gravação do Tiny Bell Trio, «Constellations», desta feita na Suiça Hat Hut. Permanecem as influências da Europa de Leste, mas sobressai a agenda política de Douglas (da guerra na ex-Jugoslávia à exploração laboral na fronteira entre os Estados Unidos e o México) – factor aliás, que, de forma mais ou menos dissimulada, estará sempre presente nos seus álbuns.
Um ano depois, novamente na Soul Note, o apropriadamente denominado «Five» torna a explorar a pouco habitual formação de cordas (com Drew Gress substituindo Mark Dresser) que Douglas havia apresentado na sua estreia. Uma interpretação de Monk, outra de Rahsaan Kirk e uma série de originais dedicados a compositores como Wayne Shorter, John Cage, Steve Lacy ou Woody Shaw.
Em 1997 reaparece com o bem sucedido Tiny Bell Trio com um álbum gravado na Europa (precisamente «Live In Europe»), editado pela nova iorquina Arabesque. Para além do repertório comum aos registos precedentes, há espaço para uma curiosa abordagem ao universo de Robert Schumann.
É do mesmo ano «Sanctuary», registo duplo de duas datas no Knitting Factory editado pela japonesa Avant. É um dos seus mais exploratórios documentos incorporando Anthony Coleman e Yuka Honda nos samplers, Cuong Vu no trompete, Mark Dresser e Hilliard Greene nos contrabaixos, Dougie Bowne na bateria e Chris Speed em clarinete e saxofone. Manobrando por entre as elásticas fusões da downtown, Douglas combina grooves electrónicos com incursões pela memória do melhor jazz eléctrico.
A fechar ’97, «Stargazer», álbum dedicado a Wayne Shorter, entre interpretações do seu repertório e novas composições por ele inspiradas. O sexteto é de luxo: Douglas, Chris Speed, Joshua Roseman, Uri Caine, James Genus e Joey Baron.
1998 é mais um grande ano para Douglas. Primeiro, com «Moving Portrait» (DIW), criando novos arranjos para 3 canções de Joni Mitchell – num quarteto de peso com James Genus no contrabaixo, o sempre precioso Billy Hart na bateria e o pontilhante Bill Carrothers ao piano – e dedicando-se a uma série de composições contidas e intimistas, que renovam uma dimensão algo espiritual e elegíaca na sua música e vêm, de certa forma, abrir as portas ao seu lançamento seguinte, o impressionista «Charms of the Night Sky» (Winter & Winter). Aqui, com Greg Cohen no contrabaixo, Mark Feldman no violino e Guy Klucevsek no acordeão, Douglas assume uma perspectiva quase essencialista na sua escrita para pequeno ensemble (ou, pelo menos, claramente pós-minimalista), num conjunto de motivos de algum dramatismo, presos a dinâmicas subtis e a um estado de quase melancolia suspenso pela respiração lenta do seu sopro, vagamente temperados por melodias balcânicas ou judaicas. Depois, desta feita na Arabesque, equilibra a balança com um registo a roçar o free bop, «Moving Triangle». Com Chris Potter no saxofone, James Genus no contrabaixo e Ben Perowsky na bateria, Douglas demonstra mover-se à vontade em áreas mais frontais e mais dependentes do virtuosismo, inventividade e capacidade improvisacional dos seus intervenientes.
A abrir ’99, na sua formação “Soul Note” (Feldman, Friedlander, Gress e Sarin), uma certa síntese das suas tendências mais eruditas, passando pela música clássica, pelo klezmer e pela música de câmara de vanguarda, no álbum «Convergence». Foi também neste ano que encontrou um lar para o seu Tiny Bell Trio na Winter & Winter. «Songs For Wandering Souls» veio cimentar a posição deste trio como um dos mais originais e emocionalmente comunicativos no universo do jazz contemporâneo. A interacção entre Douglas, Shepik e Jim Black é notável.
2000 é o ano do seu acordo de exclusividade com a RCA. Após quase uma década de dispersão por 9 editoras independentes, Douglas assina um contrato válido por 5 anos com uma multinacional, garantindo um nível de investimento e exposição até então por igualar. Antes, na Arabesque, tempo para «Leap of Faith» com Potter, Genus e Perowsky. Não seria necessário invocar o desafio do título para que todos os amantes de jazz aceitassem que estavam perante um criador único, com – pelo menos ao nível da sua geração - um quase inigualável legado criativo. Este quarteto é explosivo e intenso e um dos seus maiores triunfos criativos. Depois chegou a estreia na RCA com «Soul on Soul», uma terna e brilhante invocação da memória de Mary Lou Williams, ao lado de Chris Speed, Greg Tardy, Joshua Roseman, James Genus, Joey Baron e Uri Caine, com particular rigor e respeito por um conceito de tradição que, feitas bem as contas, nunca foi assim tão conformado quanto isso. A fechar 2000, a reedição do seu agrupamento de «Charms of the Night Sky» em «A Thousand Evenings». Mais uma vez, Douglas era o testemunho vivo de que a disparidade de interesses não implica dispersão criativa – ou muito menos de públicos – mas antes um fluxo e refluxo constante capaz de lidar com o maior número possível de possibilidades e interrogações. Por aqui especulava-se sobre o jazz de câmara, o folclore europeu, tango e klezmer, num conjunto de ideais de incessante reafirmação de individualidade.
2001 começa com «El Trilogy», disponível exclusivamente através da loja da Downtown Music Gallery. Com Feldman, Klucevsek, Cohen, Susie Ibarra e Gregory Tardy, grava a música que compôs para a Trisha Brown Dance Company. São um conjunto de peças líricas, delicadas e evocativas, por vezes lembrando Copland ou as miniaturas de Ives. É do mesmo ano «Witness» - o tal com o tema de spoken word narrado por Tom Waits. Trata-se de um álbum influenciado pelas preocupações políticas de Douglas, no qual participam um conjunto de músicos habituais nos seus registos (Chris Speed, Feldman, Friedlander, Sarin, Gress, etc).
Com «The Infinite», de 2002, Douglas funda um novo quinteto (Uri Caine, Chris Potter, James Genus e Clarence Penn) e invoca Miles Davis – essencialmente da fase a partir de ’68, quando os teclados electrónicos começam a introduzir-se nas suas formações. Mas o ouvinte era surpreendido ao verificar que haviam aqui versões de Rufus Wainwright, Mary J. Blige e Bjork. É, no entanto, em «Freak In», um ano mais tarde, que explora mais profundamente as possibilidades da criação de novos híbridos e fusões. Com Jamie Saft, Marc Ribot, Brad Jones, Joey Baron, Ikue Mori ou Craig Taborn na formação, aborda novas texturas e tangentes, aplica mais efeitos e manipula o output criativo dos seus instrumentistas num software de computador – como há bem pouco tempo fez igualmente Tim Berne, também com bons resultados. Nada, no entanto, que soe estéril ou que não sugira uma transbordante energia e complexidade invulgar.
No ano passado, o último álbum em exclusivo para a RCA, «Strange Liberation», de novo com Uri Caine, Clarence Penn e Chris Potter, mas com uma adição que sempre fez sentido mas que demorou a acontecer, a de Bill Frisell na guitarra. Espaço, de certa forma, sem abandonar o jazz, para Douglas ingressar num mundo paralelo ao seu, mas igualmente vasto e de uma elegância sem precedentes, onde os ecos do primeiro cancioneiro norte-americano ressoam livremente. E, antes dos balanços, «Bow River Falls», na Premonition, com Louis Sclavis, Peggy Lee e Dylan van der Schyff, resultante da sua participação no workshop anual de Banff. Douglas havia tocado já com Lee e Schyff no excelente «In The Vernacular», de François Houle, e a fluência e naturalidade por eles retribuída – num registo de um certo experimentalismo formal – permitiu-lhe conceber NOMAD, a sua última formação.
Enquanto sideman >
Primeiras gravações em meados dos anos 80 com os Doctor Nerve - formação liderada pelo guitarrista Nick Didkovsky - com os quais veio a gravar 5 álbuns. Até ao início da década de 90: participação em múltiplos projectos relativamente experimentais, liderados por compositores e instrumentistas como Mark Wagnon, Mark Whitecage, Vincent Herring, Dave Cook, Peter Tomlinson, Jamie Baum ou Michael Jefrey Stevens. Anos 90: notabilizado ingresso em projectos como «... Plays The Music Of Mickey Katz», de Don Byron, no ainda activo quarteto Masada, de John Zorn (no qual gravou a seminal série de 10 álbuns para a DIW), em várias formações lideradas por Myra Melford, Michael Formanek, Mark Dresser, Fred Hersch, Greg Cohen ou Uri Caine (incluindo o destacado projecto «Urlicht/Primal Light» consagrado à música de Gustav Mahler), novamente com Zorn em «Bar Kokhba», no Rova Saxophone Quartet (para a interpretação de «Ascension», de Coltrane), no What We Live, de Lisle Ellis, ao lado de uma luxuosa formação (Marty Ehrlich, Lester Bowie ou Hamiet Bluiett) para o regresso às gravações de Fontella Bass (em «No Ways Tired»), ou, entre outros, no agrupamento de François Houle para «In The Vernacular» - isto tudo, além de pontuais e curiosas ingressões no domínio da Pop, como convidado em álbuns de Suzanne Veja, The Band, Sheryl Crow, Sean Lennon, Cibo Matto ou Ron Sexsmith. Desde 2000: numa fase de maior produção individual, espaço ainda para a participação em «Flights of Fancy» de Joe Lovano, no «The Gift», de Zorn ou em «Verse», de Patricia Barber. - João Santos
Estreou-se em 2000 e vai cumprir dentro de dias a 6.ª edição. O Bragajazz, evento programado por José Carlos Santos, pretende ser uma mostra de jazz europeu e americano da actualidade e, nessa medida, já conquistou um espaço próprio na oferta de jazz nacional e internacional. Corolário de uma estratégia de sucesso que coerentemente tem vindo a aplicar, que passa pela regularidade da sua frequência, fidelização do público e programação de qualidade, com particular ênfase no jazz europeu, sem descurar a inclusão de nomes importantes da actualidade e do passado da tradição afro-latino-americana.Homenageando a tradição, a edição de 2005 contará com a participação do veterano percussionista Ray Barretto, nome importante do jazz latino, a encerrar o festival. Entre a abertura, a 10 de Março, com a cantora Jacinta, e o fecho com Ray Barreto, terá lugar o mais interessante do cartaz: o olhar sobre o presente e o futuro do género, dado pela presença do contrabaixista novaiorquino William Parker e o seu Violin Trio, de que fazem parte duas lendas maiores do free jazz norte-americano, o violinista Billy Bang e o baterista Sunny Murray.
Assinale-se ainda a participação tra de Philipe Catherine e da Brussels Jazz Orchestra. Outro nome importante do jazz moderno, que vem ao Bragajazz, é o de do saxofonista e clarinetista alemão Gebhard Ullmann e o Conference Call (G. Ullmann, saxofones e clarinete; Michael Jefry Stevens, piano; Joe Fonda, contrabaixo, e George Schuller, bateria), antecedido do Hugo Alves Trio (Hugo Alves, trompete e fliscórnio; Zé Eduardo, contrabaixo; e Jorge Moniz, bateria), que apresentará Hugo Alves Taksi Trio, o mais recente CD do grupo.
Paralelamente, decorrerá uma Feira do Disco, a apresentação de Poezz, Jazz na Poesia de Língua Portuguesa, com selecção e textos de José Duarte e Ricardo António Alves, Ed. Almedina, 2004), e um workshop dirigido pelo trompetista Hugo Alves.
Parque de Exposições de Braga
10-12 de Março de 2005

John Coltrane, Pharoah Sanders, Alice Coltrane, Jimmy Garrison e Rashied Ali, em Julho de 1966, foram dar uma volta pelo Japão. Realizaram vários concertos, dois dos quais gravados para uma rádio de Tóquio. O resultado são as várias horas de música reunidas em Live in Japan, passado a CD em 1991 pela GRP/Impulse!. Não há McCoy Tyner nem Elvin Jones, que já tinham ficado pelo caminho, mas a intensidade extrema na exploração dos temas é a mesma, com durações a alternar entre a hora e a meia-hora de expressionismo abstracto. Às primeiras vezes, Live in Japan parece fel. Depois, com o passar do tempo, torna-se mel. De tal maneira, que vou preparar o jantarinho embalado pelas doces melodias do disco 3 desta caixa de 4, que há muito não revisitava: Peace on Earth, meia-maratona de 25 minutos, e Leo, maratona de 44.
Bon apetit!
Jimi Hendrix - Voodoo Child
Well, I stand up next to a mountain
And I chop it down with the edge of my hand
Yeah
Well, I stand up next to a mountain
And I chop it down with the edge of my hand
Well, I pick up all the pieces and make an island
Might even raise a little sand
Yeah
’cause I’m a voodoo child
Lord knows I’m a voodoo child baby
I want to say one more last thing
I didn’t mean to take up all your sweet time
I’ll give it right back to ya one of these days
Hahaha
I said I didn’t mean to take up all your sweet time
I’ll give it right back one of these days
Oh yeah
If I don’t meet you no more in this world then uh
I’ll meet ya on the next one
And don’t be late
Don’t be late
’cause I’m a voodoo child voodoo child
Lord knows I’m a voodoo child
Hey hey hey
I’m a voodoo child baby
I don’t take no for an answer
Question no
Yeah
A respeito deste disco tive uma das primeiras e mais acesas discussões musicais que se podem ter na adolescência. Em confronto, duas posições inabaláveis com este tópico de partida: James Blood Ulmer (que bem que soava e soa este nome!) é muito bom guitarrista, um "génio", vs. James Blood Ulmer é uma fraude, um imitador de Jimi Hendrix, etc. A causa mais próxima era Tales of Captain Black, a preciosa cassete gravada da rádio a partir de um programa em FM Stereo que passava LP’s na íntegra para gáudio dos putos que não tinham outra forma de chegar à música em 1978.Passei anos a imaginar como seria a capa do disco e quem tocaria além do grande James. Só anos mais tarde soube que aquele saxofone era um sax alto; que quem o tocava era Ornette Coleman (para o caso, tanto fazia que fosse ele ou outro); que Jamaaladeen Tacuma era o nome (esquisito...) do baixista, e que o baterista devia ser parente do saxofonista, porque além do nome próprio Denardo, tinha Coleman como apelido.
Muito mais tarde ainda vi a capa pela primeira vez (aquela mesma que está lá em cima, mas em tamanho vinílico, bem entendido). Há dias, por acaso, deparei-me com o CD num saldo, no meio de pilhas de discos de rock, quase a querer passar despercebido. Não reconheci a capa, muito diferente da do LP original. Fantástico flash back de 27 anos! Escusado seria dizer que o trouxe comigo.
A edição em CD é da japonesa DIW. Factos novos para mim: não sabia que Tales of Captain Black tinha sido o primeiro disco de James Blood Ulmer, descontando a anterior edição europeia de Revealing, que nada tem que ver com aquele na forma e na substância, e com o qual Tales rompe esteticamente; quem produziu o disco foi Ornette Coleman, o homem do sax alto - factos que me seriam indiferentes e sem significado em 1978, mas que hoje fazem sentido e ajudam a explicar o tremendo disco que Tales of Captain Black é. Conheci entretanto várias outras coisas de James Ulmer. Mas este disco é inultrapassável no drive incessante e no tecer frenético da malha apertada que suporta o alto de Ornette, permanentemente acossado pelo quase uníssono do baixo eléctrico e da bateria. Não há disco como o primeiro. Mais do que só a guitarra e o baixo, este disco é todo ele eléctrico, carregado das ideias harmolódicas de mestre Ornette. E, neste caso, o pretérito é quase perfeito.
James Blood Ulmer - Tales of Captain Black (DIW)
Na noite de 9 de Junho de 1977, Steve Lacy (1934-2004) tocou no restaurante "Zer Alte Schmitti", em Basileia, Suíça. O concerto foi gravado e editado em Lp pela HatHut, um dos primeiros discos da editora suíça. Gravação histórica do saxofonista soprano, a voz mais marcante do instrumento em todo o Séc. XX. Em 2000, Clinkers foi reeditado em CD pela hatHOLOGY, como primeira parte do celebrado concerto de Basileia. 44 minutos cheios de força, precisão e beleza lírica, a meio caminho entre o lado mais vincadamente melódico e o abstraccionismo profundo das suas colaborações com Lol Coxhill e Evan Parker, outros dois monstros do saxofone soprano actual. Clinkers é um disco admirável, a metade conhecida de um grande recital que é também um dos melhores solos de Steve Lacy. Inolvidável experiência que se renova a cada audição.