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30.11.07
 

Um disco pop de 2007? Não ouvi muitos, confesso, e desses, poucos foram os que me bateram em cheio, que a coisa não dá para mais. Escolho The Sermon on Exposition Boulevard, de Rickie Lee Jones, o melhor que lhe ouvi em mais de 30 anos de carreira. Pop art underground com forma e improvisação, ao encontro do imaginário gospel judaico-cristão, que fala de redenção, dos milagres e das crucificações que acontecem todos os dias. E acontecem mesmo! Recordo as vezes que ouvi as 13 canções. Um click no repeat e a emoção a brotar da música e da voz da eterna menina que é Miss Jones, o lado feminino de Tom Waits, como também tem sido ouvida. O que não diminui ninguém, só acrescenta a ambos. E a quem os ouve.

Rickie Lee Jones

 
29.11.07
 
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Do quinteto austríaco CTRL, via Creative Sources Recordings, chega 25.11, uma proposta que tem tudo para cativar o ouvido exigente. Foi em 2005 que Gloria Damijan (piano), Bernd Klug (contrabaixo), Meike Melinz (flauta), Gabi Teufner (flauta) e Bernhard Schoeberl (guitarra), todos nascidos à volta de 1980, decidiram formar um grupo para improvisar regularmente, fluidificar processos criativos e apurar um som colectivo. A ideia de pesquisar soluções acústicas fora dos ambientes típicos dos encontros fortuitos entre músicos tem estado na base do trabalho do grupo. Sobre o CTRL, Burkhard Stangl, músico e autor das notas ao disco, escreveu que o grupo se propõe “questionar, pensar e atrever-se, de maneira neurótica, plasmática, subtil e consistente”. Neuroses e plasmatismos à parte, quanto ao mais o objectivo foi plenamente atingido, através da colocação em prática de um programa ambicioso de improvisação subtil, sem ser reducionista, rica em formas maleáveis, incessante exploradora de contrastes e aproximações tímbricas. O debate a cinco, que não sofre o mínimo atropelo ou hesitação, produz um som contemporâneo, abstracto e minimalista, caracterizado pela abundância de padrões pontilhistas assimétricos, somatório de pontos de luz e sombra em instável justaposição. A progressão, discreta e elegante, avança por pequenos passos em escala diminuta, de recorte e acabamento delicados. O som das flautas movimenta-se no espaço e paira no ar, inefável, como volutas de fumo por entre a trama das cordas de guitarra, piano e contrabaixo. Composição/decomposição, pormenor, breve instante colorido suave. Os cinco artistas sabem comunicar entre si e o projecto funciona. 25.11, bela e ousada combinação de impressões acústicas, foi gravado na mesma data, ao vivo no estúdio Amann, em Viena, Áustria.

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CTRL

 
 

Estreia do artista sonoro alemão Marcus Held (aka Porcelain in the Backpack), de Leipzig, Alemanha, com Sand and Loam (zym017), o seu primeiro EP na zymogen, netlabel italiana de fina escolha e critério apertado, goste-se mais ou menos. Herr Held labuta na área da música electrónica, com tempero acústico, de field recordings e de sons estranhos produzidos por não menos bizarros instrumentos, que depois levam uma passagem final com a varinha mágica do processamento electrónico. O resultado merece atenção.

 
 

LeCool

 
27.11.07
 

cover art

Há um mês ou dois já aqui tinha falado na estreia de um novo quarteto, The Engines, que lançou recentemente um disco homónimo na Okka Disk. Baseados em Chicago, Jeb Bishop (trombone), Dave Rempis (saxofones alto, tenor e barítono), Nate McBride (contrabaixo e baixo eléctrico) e Tim Daisy (bateria) são quatro dos mais activos e conhecidos músicos da geração dos 30 anos, já a bater nos 40. O quarteto formou-se em 2005, ainda sem Bishop, que entrou para um concerto e foi-se deixando ficar. O circuito de rodagem deste 'motor', que culminaria na gravação do disco, tem sido a terra que o viu nascer e tudo à volta da Windy City. O que têm de comum estes quatro distintos cavalheiros, além de serem todos músicos de primeira; sem descurar uma boa melodia, possuírem um gosto comum pelo jazz moderno com arestas e rugosidades; terem o gosto variado quanto ao que ouvem; serem quase todos oriundos de Chicago (Nate McBride é da Carolina do Norte e tem estado a viver em Boston) ... é claro, a companhia de Ken Vandermark! Vantagem e desvantagem, tanto quanto me é dado ouvir. Porque, se por um lado o grupo já nasceu com alto nível de rendimento colectivo, fruto das muitas andanças em que os quatro, em pacote ou em separado, se têm visto; por outro, e no que ao disco diz respeito, o fantasma de Vandermark paira ao longo dos 73 minutos de duração de The Engines, tão forte é a influência estilística, instrumental e composicional que o saxofonista e clarinetista tem vindo a exercer sobre os (seus) rapazes. Quer-me até parecer que o grupo está hesitante entre ser uma espécie de Vandermark 5, sem o dito, e uma versão menos vincada do Spaceways Incorporated. Fora este problema de identidade, a resolver ou não (é lá com eles), a música é boa, os músicos excelentes e The Engines soa bem e fresco. A gravação é de Julho de 2006.

The Engines

Bishop - Rempis - McBride - Daisy

 
26.11.07
 


FMP CD 119
ILINX
Baghdassarians
Baltschun
Scherzberg
Thein

FMP CD 121
JALI NYAMA SUSO
Kora Music
from Gambia

 
 
Acabou de sair na imparável Creative Sources e estou-lhe a dar a atenta e carinhosa audição que deveras merece: SKY SHIFTER, do irlandês Mark O’Leary, e do alemão Günter Müller, fundador da editora For 4 Ears. As gravações são de Cork (Irlanda) com pós-produção em Basileia (Suiça). Improvisação experimental de tons escuros, carregada de mistério, manufacturada com ferramentas electrónicas, ipod, guitarras, percussão e processamento electrónico em tempo real. Uma boa conversa pela noite dentro entre dois grandes mestres, que parecem sentir-se à vontade com a tomada de decisões sonoras em conjunto e em cada momento, intencionais e aleatórias. As improvisações electroacústicas não-estruturadas de SKY SHIFTER apresentam uma forte unidade temática, conjunto de referências e citações inspiradas em ambientes urbanos artificialmente iluminados, espécie de banda sonora para passeios nocturnos por ruas desertas à hora em que a noite é quase dia.

 
 
Beside the Cage é uma formação com dois trombones, duas baterias e guitarra eléctrica. Susceptível de pôr meio mundo a salivar por potência e estrondo, e outro meio a fugir a sete pés? Duplo engano, seja como for. Porque o programa do quinteto alemão de Oliver Demand e Moritz von Woellwarth (trombones), Rolf Kleinemas e Thomas Winger (baterias) e Sascha Demand (guitarra), expresso na peça única intitulada 10 Years of Beside the Cage Music, é outro e não tem nada a ver com histrionismos ou volume elevado. Pelo contrário, o trabalho de Beside the Cage afirma-se de um modo plácido e tranquilo, algures entre o falar mavioso de uma língua alienígena desconhecida e essa tipologia de comunicação franca que é a música improvisada. É evidente o extremo cuidado colocado no tratamento do som e na formação de estruturas celulares, como microrganismos imateriais que se instalam e sofrem mutações vagarosas na sua progressão. Os espaços vão sendo preenchidos de maneira discreta e não intrusiva, com um módico de acção, fora as ocasionais mas contidas erupções. Por vezes, há um prenúncio de “rock” na percussão e na interpenetração com a guitarra, para logo recuperar a subtil e envolvente microtonalidade. Em 10 Years of Beside the Cage Music, a percussão das duas baterias contribui de modo particular para a qualidade orgânica essencial, balanceia o som etéreo dos trombones com os efeitos mais presentes e definidos da guitarra eléctrica, nas variantes e-guitar e e-table-guitar, com desenhos de muito bom gosto. Trabalho solidamente maturado, ainda que a forma mal se pressinta no decurso das múltiplas combinações e recombinações nascidas em directo, e onde a definição formal é substituída por estados de semiconsciência, que tanto apresentam sinais vitais mínimos, como logo a seguir recuperam forças e mostram vontade de rumar a novas paragens. A música de Beside the Cage, ao investigar na fronteira das áreas da electroacústica experimental e da livre-improvisação, procura saídas e rompe em campo aberto, para se distender lânguida e sem pressa de chegar. Mas chega. Gravação de Novembro de 2005, realizada em Hochschule fur Gestaltung (HfG), ZKM Karlsruhe, Alemanha, e editada pela portuguesa Creative Sources Recordings.

 
 

D'incise: Capharnaüm [e-dogm]

 
 

LA MONTAÑA RUSA ..... Airto Moreira & The Gods of Jazz, Ahmad Jamal, Agusti Fernández, Barry Guy & Ramón López, Winton Marsalis & The Lincoln Centre Jazz Orchestra.

 
24.11.07
 

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Joe Harriott & John Mayer Double Quintet
Indo-Jazz Fusions (1968)

"(...) There were problems to be faced in bringing the two kinds of music - jazz and Indian - into such close proximity. John Mayer, an Indian composer who came to Britain from Calcutta in 1952, had previously written several concert works which link Indian scalar forms and rhythms with Western modes, and these have been performed by various European orchestras and soloists. But this was his first attempt at fusion with jazz musicians. Joe Harriott, already famous as one of the most adventurous jazz musicians in Europe, responded nobly to the challenge. Indeed, it is likely that his work here is some of the finest he has ever put on record (...)." - Charles Fox

 
 

Lol Coxhill / Morgan Fisher - Slow Music (Pipe, 1980)

 
23.11.07
 

Outro disco (com certeza não ficarão por aqui) do trio de Jarrett, Peacock e DeJohnette, o Standards Trio, que, perco-me nas contas, devem andar nisto juntos há para aí um quarto de século, mais coisa menos coisa. O que é bom e é mau. Bom, porque um trio como este sabe da poda e toca como poucos no activo; mau, porque, salvo se se for um iniciado ao Standars Trio, não se ouve nada que não se tenha escutado já tantas vezes em tantos discos. Já se sabe sempre o que lá vai dentro. Um valor seguro, portanto, imune ao risco e não sujeito a flutuações de mercado como o Dow Jones. Mais que isso, pelos padrões em voga, este é "o trio", aquele de maior sucesso artístico e económico. Para se ter uma ideia, ao mesmo tempo que edita estas gravações de 2001, a ECM está a lançar um CD triplo com gravações do ano de 1983... e aí vão cinco coelhos com duas cajadadas! Desta feita a dose é dupla, para animar a malta. E põe em relevo aquele que é o porventura o maior atractivo de My Foolish Heart - Live at Monteux – a coesão e a empatia do trio no tratamento de um reportório de composições originais de Miles Davis, Sonny Rollins ou Thelonious Monk, de clássicos do American Song Book, e de standards de diferentes épocas – Four, My Foolish Heart, Oleo, What’s New?, The Song Is You, Ain’t Misbehavin’, Honeysuckle Rose, You Took Advantage of Me, Straight No Chaser, Five Brothers, Guess I’ll Hang My Tears Out to Dry, Green Dolphin Street, Only the Lonely – que nas mãos de Jarrett, Peacock e DeJohnette adquirem renovado interesse. Para uns, um disco a não perder; para outros, mais um a juntar à vasta discografia do grupo. Pela certa, o disco de Natal de muitos jazz-lares por esse mundo fora. Até a cor da capa ajuda, oh-oh-oh. Em Portugal a distribuição é da Dargil.

 
 

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No O Zurret d'Artal, irmão mais novo do Jazz e Arredores, Jesús Moreno disponibiliza para descarga gratuita o recital do pianista norte-americano Matthew Shipp (a melhor síntese possível de Cecil Taylor, Mal Waldron e McCoy Tyner, com um ouvido na cultura DJ, como já foi dito e eu subscrevo) em Barcelona, realizado há dias (Casal del Metge, 15.11.2007), na apresentação espanhola de ONE, disco editado em 2006 na Blue Series da Thirsty Ear.

 
 



APERION – night in krakow [insubordinations]

Marzena Lis: piano – Rafal Mazur: baixo acústico

Apeiron is a duo of contemporary improvised music – grand piano and acoustic bass guitar – founded in Krakow by Marzena Lis and Rafal Mazur. They are working together since 2005 playing improvised music and realizing graphic scores. Apeiron is e self-reliant duo but members are really interested in cooperation with other artists. They worked with Gilad Roth – saxophone, Rafal Drewniany – electronics, Tomek Choloniewski – drums and with Misha Feigin (concert at “Meeting of Improvisers” – Krakow 2007) - guitar. Apeiron working in “trans-idiomatic” aesthetic, it means that on the ground every available kinds of aesthetic artists create new configurations and new shapes and figures of sounds.

 
22.11.07
 

Chegou há dias a nova Cadence Magazine - The Independente Journal of Creative Improvised Music, que desde há 32 anos se publica em Redwood, Nova Iorque. O estreante formato de livro (a sério) veio substituir o caderno com a fronha e figurino originários, que já cansavam um bocado. A cara já não é a da imagem (# Abril/2003, o único que encontrei na net) e, em vez de mensal, como vinha a ser desde 1976, passou a trimestral, por razões que se compreendem, ligadas à contenção de custos. Na direcção, Bob Rusch, editor, cronista da creative improvised music, crítico, olheiro, produtor e editor discográfico. Folheando, salta à vista que deixou de existir a secção central com o catálogo completo da distribuição de CDs e LPs pela Cadence, o que libertou espaço para texto editorial. Além de o grafismo ter levado uma volta considerável, o conteúdo continua a merecer a mesma atenção de sempre. Acabei de renovar a minha subscrição deste vício que, cá em casa, já leva mais de uma década. Passa a custar USD$15 (256 páginas) em vez dos 4 de cada mês. Na capa do primeiro número da nova era, o saxofonista tenor Salim Washington, um dos entrevistados desta edição, a par do pianista Hal Galper.

 
 
A comunidade de músicos de Oakland tem estado muito activa nos últimos anos. O caso da Moe!Kestra!, dirigida por Moe! Staiano, antigo baterista do Sleepytime Gorilla Museum, é bem o paradigma da efervescência que se vive naquelas paragens californianas. De reportório variado, a orquestra, com 10 anos de actividade, trabalha habitualmente peças do lider, mas já improvisou sobre composições de Glenn Branca, Rhys Chatham e John Zorn.
O material sonoro que preenche a totalidade deste CD, a mais recente saída na Edgetone Records, foi extraído de dois concertos realizados no mesmo dia. Two Rooms of Uranium In 83 Markers (Conducted Improvisation Vol. II), apresenta duas peças de improvisação conduzida a partir de partituras gráficas escritas por Staiano. A primeira, intitulada Conducted Improvisation Piece No.6: Depleted Uranium (10'), foi executada por um ensemble de 9 membros, composto por Myles Boisen, Lucio Menegon, Vicky Grossi, Allen Whitman, Jeff Hobbs, Marika Hughes, Devon Hoff, Ches Smith e Carla Kihlstedt. Para a segunda peça, Conducted Improvisation Piece No.11: Two Orchestras in Separate Rooms (40'33), gravada na mesma ocasião, no extinto Box Theater, de Oakland, em Maio de 2003, foi convocada uma formação alargada da Moekestra!, com 31 elementos de um grupo que habitualmente varia entre os 25 e os 40. Nesta pièce de résistance, os músicos – a lista completa inclui o who's who da região, Alan Anzalone, Michael Perlmutter, Rent Romus, Aaron Bennett, Chris Broderick, Scott Rosenberg, David Slusser, Darren Johnston, Jennifer Baker, Jeff Hobbs, John Shuirba, Robin Reynolds, Theresa Wong, Christopher Brown, George Cremaschi, Lisa Mezzacappa, Lucio Menegon, Pat Moran, Daryl Shawn, Robin H. Walsh, Bill Wolter, Vicky Grossi, David Mairs, Allen Whitman, Michael Guarino, Jason Levis, Sam Ospovat Cymbal, Peter Valsamis, Suki O'Kane, David Leikam, Bob Marsh, Matt Davignon – foram divididos em duas secções, dispostos em salas diferentes, ligadas por um corredor, cabendo a Moe! andar de um lado para o outro a conduzir as duas componentes em simultâneo. O que se ouve na panorâmica é a junção das duas metades. Ambos os concertos fizeram parte de um festival que pretendeu chamar a atenção para os problemas relacionados com a utilização pelos EUA de urânio empobrecido nas guerras do Iraque e Afeganistão. Musicalmente, o trabalho da Staiano's Moe! - MOE!KESTRA! é uma experiência bem sucedida no modo como organiza e disciplina caos e dissonância, e na maneira como consegue prender a atenção do ouvinte de fio a pavio.

 
21.11.07
 

glasgowimprovisersorchestra-at-googlemail-dot-com
GIO + Axel Dörner

Berlin: Die Symphonie der Großstadt (1927), by Walter Ruttmann.
21st November - CCA Glasgow Supported by the Goethe Institute Glasgow

 
 

Alessandro Bosetti
"Il Fiore della Bocca"
Rossbin

 
 
Aporias, título recente de um quinteto de improvisação livre formado em Glasgow, Escócia, que inclui o percussionista japonês residente em Nova Iorque, fundador da editora H&H, Tatsuya Nakatani, e os membros da Glasgow Improvisers Orchestra, director Raymond MacDonald (saxofones alto e soprano), Peter Nicholson (violoncelo), Nick Fells (laptop e samplers), e Neil Davidson (guitarra eléctrica), que já editou Grain, disco de guitarra acústica solo, na Creative Sources Recordings. Nas cinco peças de Aporias (68') há traços de escola Inglesa de improvisação livre, do marulhar e da constente tensão milimétrica que John Stevens instilava na música do Spontaneous Music Ensemble, com ocasionais picos de febre. Ao olhar que percorre o passado recente, como revisitação da memória que codificou gestos, sinais e referências de uma prática com determinada demarcação temporal, o grupo aporta elementos da sua própria pesquisa, individual e colectivamente assumida, patente na numa particular organização tímbrica e espacial que é, na sua unidade e diversidade, tributária da escrita ocidental, de alguns aspectos do minimalismo de 70, da arte sonora electrónica actual e de alguns aspectos meditativos ligados à tradição japonesa. Para pôr em prática este programa de acção, o grupo trabalha sobre aquela plataforma estética, reconhecível e deveras importante na improvisação europeia em geral e britânica em particular, mas não se deixa ficar pela actualização dos procedimentos que Stevens, Bailey, Watts, Parker e companhia inventaram em meados de 60 – os quais autonomizaram a improvisação, até então uma característica, entre outras, do jazz norte-americano – ou dos AMM, de John Tilbury e Eddie Prévost (desde 2005, um duo), que, partindo de idênticos pressupostos, apontaram noutras direcções. O quinteto de Aporias optou antes por, tomando aquelas referências como ponto de partida e motivo de inspiração, transformar modos, trabalhar sobre novos desenvolvimentos estéticos e recentrar o paradigma musical nos aspectos eminentemente colectivos da criação espontânea. É assim que a uma intensa actividade sonora por unidade de tempo, permeada de breves intervalos de silêncio, o quinteto adiciona um tipo de construção gramatical complexa, de tecitura apertada, meios pelos quais logra a convergência entre o fino rendilhado obtido através das mais diversas técnicas experimentais, ortodoxas e heterodoxas, aplicadas aos instrumentos, a simplicidade formal da organização e um assinalável sentido narrativo, prática musical conscientemente assumida como uma forma apurada (e depurada) de composição instantânea. A música, sendo de fácil acesso e descoberta, exige um ouvido atento e interessado neste tipo de poética de síntese entre o "clássico" e os avanços estéticos da chamada nova música improvisada. Edição da CS.

 
20.11.07
 

Käärmeenkääntopiiri – isso mesmo – disco de colaboração entre os experimentalistas Uton (nome artístico do finlandês Jani Hirvonen) e Valerio Cosi, um puto italiano de 22 anos, já nosso conhecido das colaborações com a magnífica Vanessa ‘Niwi’ Rossetto, no duo Pulga, e com Brad Rose, da foxy digitalis, Wilson Lee ou Enzo Franchini. Uton (guitarra, violino, ruídos e percussão) e Cosi (saxofone – cita a este respeito, entre outras, influências de Coleman, Coltrane, Ayler, Zorn, Brötzmann, Sanders, Dolphy e Henderson – electrónica, sintetizador, field recordings e percussão), originários das cidades de Tampere (Finlândia) e Taranto (Itália), chegam a uma muito curiosa mistura neo-psicadélica de free jazz, electroacústica, drones, ragas e ambientalismo electrónico extravagante, susceptível de convencer quanto aos meios e propósitos. Ao longo das quatro instalações sonoras do disco, feitas a partir de colagens e sobreposições hipnóticas, o duo persegue e encontra o equilíbrio sonoro entre melodia e ruído, abismos tenebrosos e superfícies cristalinas. É fascinante o espírito exploratório que a dupla põe em movimento. Käärmeenkääntopiiri foi gravado entre Julho e Agosto de 2006. O lançamento público pela Fire Museum Records tem data anunciada para 26 de Novembro próximo.

 
 

Here's how it works: a track is started by a musician It's called the "seed" track. Anyone else may then download that track, and add a further layer over that track. These layers do not have to go in sequence, you may branch out at any stage. Results are then posted on the site for your listening pleasure. All tracks are what they are; there is no 'finished track'. A compilation is planned for Whi Music later in the process. If you are interested in adding to tracks or creating a new track click here for more information or to just listen: CADAVRE ESQUIS

 
 

High Mayhem

 
18.11.07
 

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Nicole Mitchell (Chicagoan of the Year 2006, The Chicago Tribune) com o septeto Black Earth Ensemble em CD gravado nos estúdios Riverside, e em DVD filmado ao vivo no Velvet Lounge, clube que Fred Anderson dirige em Chicago. A receita que o Black Earth Ensemble confecciona inclui sobretudo ingredientes encontrados nessa grande despensa que foi e continua a ser a Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM), meio onde a artista se fez (Nicole é filha de Roscoe Mitchell). O desenho global de Black Unstoppable, além de pintado com as cores mais vivas da AACM, faz lembrar a estética Impulse! de finais de 60, inícios de 70, ao celebrar o reencontro com a intemporalidade do jazz. Nicole Mitchell (flauta, flauta alto e piccolo), Jeff Parker (guitarra), Josh Abrams (contrabaixo), David Young (trompete), David Boykin (saxofone tenor), Tomeka Reid (violoncelo) e Marcus Evans (bateria). Black Unstoppable saiu em Outubro passado na Delmark Records.

 
 

Jesús Moreno em discurso directo: Próximas las elecciones generales, ando dando vueltas a la idea de la formación de un partido. su objetivo sería al adhesión de portugal. esto nada tiene que ver con ninguna trasnochada idea de expansionismo españolista. es solo sana envidia. mientras en este trozo grande de iberia la orquesta iba/iba olestars hace ya tiempo dejó de funcionar y la foco de música libre solo da señales de vida anecdotica cada festival hurta cordel, en el rinconcito luso la vgo despliega una actividad envidiable. la referencia 100 del hiperactivo sello portugués creative sources propone todo un atracón de vgo. un triple recogiendo cinco (largas) grabaciones en directo. grabaciones realizadas en el periodo junio 2006/junio 2007 (...). O Zurret d'Artal. al fondo de la bodega habia una gran cuba...

 
17.11.07
 

Outra novidade, QUARTET, esta na Rastascan. A editora de Gino Robair, que se prepara para lançar Nine Compositions (DVD) 2003, de Anthony Braxton, e I, Norton - An Opera in Real Time, do próprio Robair, mantém a bitola elevada, não faz concessões e, como tal, tem vindo a apurar o sentido estético nos mais de 20 anos que leva de actividade. Jon Raskin (ROVA Saxophone Quartet) teve a ideia de formar este quarteto para pôr em prática uma série de composições gráficas que foi idealizando nos últimos anos, inspiradas no desenho de folhas de árvores e noutra matéria vegetal recolhida nos passeios que deu pelos parques de Oakland, Califórnia. Aos músicos – o próprio Jon Raskin (saxofones), Liz Allbee (trompete e percussão), George Cremaschi (baixo e electrónica) e Gino Robair (sintetizador e bateria) – deu tempo e espaço para preencherem a panorâmica com o que bem entendessem. Artes plásticas para músicos. E ouvintes. QUARTET foi gravado em 2005 por Myles Boisen @ Headless Buddha, Oakland.

 
 
London Jazz Festival

LONDON JAZZ FESTIVAL


 
 

Timeless Pulse - Quintest

Thomas Buckner, George Marsh, Pauline Oliveros, David Wessel, Jennifer Wilsey

 
16.11.07
 
Charles Mingus Sextet - Live in Norway, 1964 - Part 1



Charles Mingus - contrabaixo
Eric Dolphy - saxofone alto, flauta, clarinete baixo
Clifford Jordan - saxofone tenor
Johnny Coles - trompete
Jaki Byard - piano
Dannie Richmond - bateria


Charles Mingus Sextet - Live in Norway, 1964 Part 2
Charles Mingus Sextet - Live in Norway, 1964 Part 3
Charles Mingus Sextet - Live in Norway, 1964 Part 4
Charles Mingus Sextet - Live in Norway, 1964 Part 5
Charles Mingus Sextet - Live in Norway, 1964 Part 6
Charles Mingus Sextet - Live in Norway, 1964 Part 7

 
15.11.07
 
Dave Rempis, Hunter-Gatherers Greg Burk, Ivy Trio
Dave Rempis: Hunter-Gatherers // Greg Burk: Ivy Trio

482 Music
releases the work of jazz, world and and improv artists who create what often resists assignment to a specific style, music that blends or bends conventional categorizations. Our goal is to seek out and release music that is rooted in the interplay of composition and improvisation, and that finds enjoyment in the exploration of new approaches to traditional genres. You will find many of the best-known improvising musicians from around the world here, some working in one-off groups that do not exist before or after these recordings, making the quality of the performances that much more remarkable. And, we hope, you will find something a little unexpected in everything we present.


 
 
JEFF GBUREK - murmurs, then, grains of drought, ore sought in the seeker's hand
01 . murmurs, then, grains of drought
02 . ore sought in the seeker's hand
CNV 44


 
14.11.07
 

Os créditos são dos mais elevados, como se sabe. A fama vem de longe, sucessivamente revista e aumentada pelo olhar que sobre ele foram deitando luminárias como Miles Davis, que mandava os pianistas dos seus primeiros grupos tocar como ele toca. A música de Miles, ela própria, deve muito às concepções de Ahmad Jamal. Se se atentar, por exemplo, na forma de tratar o espaço e o silêncio, no cromatismo e no tipo de progressão harmónica num e noutro caso, descobrem-se inúmeras afinidades entre eles. E ontem à noite (13 de Novembro), diante dos olhos e dos ouvidos do público presente no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, que enchia por completo a sala, percebeu-se porque é que Jamal tem sido motivo de inspiração para tanta gente, de há cinco décadas para cá. A verdade é que mestre Ahmad Jamal, 77 anos, tecnicista com alma, pianista de pianistas, deu um grande concerto com o seu quarteto maravilha. Assim foi, por todo um amplo conjunto de razões: tratamento do piano com extrema elegância, força percussiva e agilidade harmónica; variação dinâmica e verve lírica; mão esquerda poderosa, a gerir ritmo e harmonia, mão direita inefável e arrebatadora.
Belos arranjos orquestrais para novas e antigas composições, suas e de outros mestres, desfilaram ante um CCB rendido à beleza e à simplicidade de uma arte maior, jazz moderno de suave fragrância afro-latina. Aberto o set com Paris After Dark, seguiu-se Papillon e durante quase hora e meia assistiu-se ao desfile de temas enraizados na tradição, numa abordagem mais virada para o futuro, que para a repetição de fórmulas passadistas. E assistiu-se ao momento sublime da transfiguração de Salt Peanuts, de Dizzy GiIlespie, de Poinciana, do próprio Ahmad Jamal, e de muitas mais, executadas no inconfundível estilo policromo que é seu, que casa bem as virtudes do clássico com as do moderno e ainda se atreve a pisar o risco na exploração de novos territórios.
A resposta da secção rítmica foi sempre de nível superior, compondo um trio de piano (+1) de sentido dramático e narrativo fora do comum. James Cammack, contrabaixo, e o lendário Idris Muhammad, bateria, a que se somou a cor da percussão sensível e inteligente do porto-riquenho Manolo Badrena, ex-Weather Report e ex-Joe Zawinul Syndicate, elaboraram uma teia rítmica complexa e multidimensional, que elevou o quarteto às alturas. Uma experiência fantástica, ouvir Ahmad Jamal em quarteto e ao vivo. Justíssima, a enorme ovação final. Quem perdeu em Lisboa vá vê-lo ao Guimarães Jazz, dia 16 de Novembro. Dará o tempo (e o dinheiro) por bem empregues.

 
13.11.07
 

Esta semana estreia o novo podcast de Rui Neves, programador do Jazz em Agosto. Acessível através da página do Serviço de Música da Fundação Gulbenkian, Músicas no Plural tem periodicidade semanal e muda todas as segundas-feiras. O programa abre com um disco de dois percussionistas, Fritz Hauser & Michael Askill, SPACE, do disco Music for Bells, Cymbals and Gong (Celestial Harmonies). Seguem-se Tony Oxley, Phil Wachsmann, Pat Thomas e Matt Wand, o Bimp Quartet, de Floating Phantoms; depois, Acid Mothers Temple; Hélène Labarrière com François Corneloup; Butch Morris e a Nublu Orchestra; a finalizar a emissão primeira, Bill Frisell e o 858 Quartet, com Jenny Scheinman, Eyvind Kang e Hank Roberts.
Músicas no Plural: Um percurso de escolhas investido em várias tipologias actuais da Música, as mais inovadoras e menos convencionais, um recenseamento do que não é de imediato visível e audível, neste século XXI em que se instituiu a nova Era do Digital.

 
 
Três discos mais tarde, dois em duo com o baterista Rick Rivera (I’ll Meet You Halfway Out In the Middle of It All e Everything’s Going Everywhere, ambos na Edgetone Records) e outro a solo (Solo Piano, na Pax Recordings), o que Thollem McDonas, pianista da Bay Area de S. Francisco, nos oferece em Racing the Sun / Chasing the Sun, é um conjunto de 11 peças para piano solo retiradas de duas metades de concerto. A primeira, de uma apresentação em Forli, Itália, em Dezembro de 2005; a segunda, de um concerto em S. Francisco, em Março de 2006. Anote-se o posicionamento do pianista num estilo sem fronteiras definidas, que atravessa géneros e estilos, dentro do jazz e de Rachmaninoff a Bartók, cuja síntese complexa se poderia situar algures nos desenvolvimentos ocorridos num tempo e num modo posterior às invenções de Cecil Taylor. Thollem é um virtuoso do piano, um talento nato. Em parte, educado (começou a estudar piano aos 5 anos com a mãe), noutra parte espontâneo, de originalidade e capacidade inventiva rara nas áreas do jazz e da improvisação. Pondo de lado a forma das várias escolas do piano com aquelas referências, Thollem assume por inteiro o seu lado mais iconoclasta, irreverente e exuberante no uso da cor. Na Europa, talvez um Joachim Kühn mais eruptivo possa dar uma ideia do universo a que pertence o pianista da Costa Oeste dos EUA. De execução rápida e precisa, com total independência de mãos e extraordinário sentido rítmico e brilho harmónico mesmo em alta velocidade, servido por uma imaginação delirante, que convida o ouvinte a excursionar-se pelos labirintos da sua arte do piano. Arte que o próprio pianista e compositor define como post-classical circus punk world jazz free music – for people and everyone else, um contributo mais para o refrescamento da gramática e do vocabulário do piano. Poucos pianistas em exercício poderão hoje ser referenciados, separada ou simultaneamente, nos livros de jazz, livre-improvisação ou composição contemporânea. Thollem McDonas é um deles. Racing the Sun / Chasing the Sun foi editado em CD pela Creative Sources Recordings.

 
12.11.07
 
Interessante, o disco deste grupo liderado pelo baterista português João Lencastre, de recente edição pela catalã Fresh Sound New Talent. Fresco de uma ponta a outra, One! parece-me um disco leve e despretensioso, uma boa hora de jazz, que vai debicando daqui e dali sem se preocupar nada com definição estilística ou com filiação na escola A ou B. Nessa medida, é um disco actual, moderno na forma como soa, tanto na releitura de um trio de clássicos (Lonely Woman, de Ornette Coleman, leva um banho harmónico novo; Byrdlike, de Freddie Hubbard, fia bop fino; e Summertime...), como em improvisações colectivas (o caso dos temas intitulados Communion I, II e III), com solos bem sacados do trompetista Phil Grenadier, do guitarrista André Matos, de Demian Cabaud, no contrabaixo, e de um nome importante do moderno piano no jazz, o norte-americano Bill Carrothers, o homem do leme, que aqui assume a riqueza da invenção harmónica por sua conta e risco. Entre peças gravadas ao vivo no Hot Clube de Portugal e outras em estúdio, há aqui um lado espontâneo no assumir do encontro sem preparação de maior, que deixa algumas arestas por limar. Do meu ponto de vista, só acrescenta ao disco. Confesso que quando vi Summertime no alinhamento temi pela charopada mais que provável. Sem fundamento, afinal, porque o grupo soube evitar a linha pronunciada da melodia original e dar-lhe uma confecção curiosa, sem desmanchar totalmente a composição de
Gerschwin. João Lencastre catalizou os cinco num quinteto (nem sempre as duas realidades se equivalem, mas aqui assim acontece em pleno), toca bateria com contenção e delicadeza, marca o tempo, acentua o que precisa de ser sublinhado, e sabe ser discreto quando deve, numa louvável atitude de sensibilidade e inteligência. Nisso, revela bom ouvido e abertura de espírito. Gostei deste primeiro (!) trabalho de João Lencastre, que, tendo arriscado, petiscou.

 
11.11.07
 

How the ear works

Outer Ear Festival - Chicago, 4 de Nov. a 2 de Dez. 2007

 
10.11.07
 

event

PEIRA is a burgeoning label of improvised music with the aim of bringing forth fertile and engaging work from individuals who have developed a definite form and means. We care for robust self-governing multiplicities that know when bounds should be kept and crossed. Rugged voices that have no concept of catering. In a word, dynamism.

 
 

Christian Wolff - Lines For String Quartet / Accompaniments For Piano

A - Lines (22:45)

violoncelo - Judiyaba; viola - Nancy Ellis; violinos - Nathan Rubin, Thomas Halpin

B - Accompaniments (21:10)

piano - Frederic Rzewski

 
 

13 de Novembro, no Centro Cultural de Belém (CCB) ----- AHMAD JAMAL

Ahmad Jamal (piano), com James Cammack (contrabaixo), Idris Muhammad (bateria) e Manolo Badrena (percussão).

Ahmad Jamal nasceu em Pittsburgh em 1930. O seu estilo começou a ser notado logo após a formação do seu primeiro trio, em 1951, muito em particular devido ao grande sucesso alcançado com os arranjos da canção popular "Billy Boy". A partir de 1956, Ahmad Jamal decide-se pelo trio de piano, contrabaixo e bateria (introduzindo a bateria em vez da guitarra). Miles Davis apaixona-se de imediato não só pela música, como pela forma como ele trata o piano, contribuindo para a ainda maior credibilidade do pianista. Herdeiro da tradição pianística criada por Nat King Cole, Ahmad Jamal soube desenvolver um estilo muito peculiar: da riqueza harmónica da mão esquerda a servir de base, à excelente improvisação da mão direita, tendo sempre presente a subtil utilização do espaço e do silêncio, Ahmad Jamal é hoje considerado um dos pianistas históricos do jazz moderno. - CCB (Foto: Samy Snider)

 
9.11.07
 

29.8.61, Eric Dolphy to Mr "Geroge" Russell

 
 

Sábado, 10 de Novembro, às 21h00: CREATIVE FEST # 01, festival da Creative Sources Recordings, que se pretende venha a ser realizado anualmente no Outono, com o cair da folha. São 13 os duos (1 + 1 = 1) que vão actuar de enfiada no Estúdio da Bomba Suicida. A lista de participações pode ser apreciada em detalhe clicando sobre o cartaz supra, obra gráfica de Travassos sobre fotografia de Ernesto Rodrigues (Ilha do Pico, Açores). Sábado à noite, aos pares, todos à Bomba Suicida, na Rua Luz Soriano (de costas para o Conservatório Nacional), ao Bairro Alto, em Lisboa.

 
 

Jesús Moreno, amigo e melómano inveterado de Huesca, Espanha, colocou no seu excelente o zurret d´artal o concerto de Ornette Coleman em Vitoria, de Julho deste ano.

 
 
Chegaram duas novas edições da querida Edgetone Records, editora do meu amigo, saxofonista e entrepreneur Rent Romus, cujo infatigável trabalho louvo a cada passo. COMAOrnamental Urban Shrubbery, e Eddie the Rat Insomnia Sound Bible, é deles que se trata. COMA é a sigla de California Outside Music Associates, e Eddie the Rat é o pseudónimo do compositor e multi-instrumentista Peter Martin, também ele da Costa Oeste dos EUA. Ouvi primeiro a Shrubbery do COMA, segundo disco desta associação sob a forma de trio, com John Vaughn (saxofones, percussão e theremin), Zone (violoncelo, baixo eléctrico e percussão) e Dax Compise (percussão). Sem grandes novidades no cardápio, mesmo assim o COMA diz ao que vem, confecciona com esmero e o resultado deixa impressão duradoura. Ouve-se bem e com gosto, mesmo quando num tema ou noutro o trio parece querer enveredar por um somatório de lugares comuns próprios de alguma música improvisada. Porém, parecem sentir a escorregadela e não chegam a estatelar-se ao comprido como cheguei a temer a certa altura. No final, fica-se com a sensação de que tem potencial para interessar. A rapaziada parece simpática e interessada no que faz. Resolvidos um ou outro equívoco e hesitação, para a próxima será seguramente melhor.
Com Eddie the Rat e Insomnia Sound Bible, o caso muda de figura, e já dá amplamente para o gasto. Até sobra. Porque nem só de energia rock/folk e boa vontade experimental pode viver um projecto sólido e consistente numa área musical muito batida como é esta, sobretudo nos últimos tempos, em que os artistas folk pareciam ser mais que os pombos no Rossio. Sente-se que o projecto caminha para lá, mas ainda lhe falta um danoninho assim em matéria de concisão. Há criatividade, ideias, fantasia, mas falta saber gerir aquilo tudo sem recurso à colagem e à sobreposição excessivas. Menos pode ser (tantas vezes é) mais. Mesmo assim, Peter Martin e a sua banda alargada – anda por aqui muita gente a ajudar à festa, na página da Edgetone contei 30 e tantos músicos, muita doideira, vozes naturais e em falsete (o melhor do disco), coros, trompete, clarinete, violino, piano, guitarra, outras cordas, percussão, instrumentos de manufactura caseira, sons pequeninos, sons maiores, sons do outro mundo, o diabo a sete – Martin, dizia, sabe contar histórias através de música e o disco chega a ter momentos de altíssimo nível. Se fosse na onda de dar estrelas, coisa que sempre detestei fazer, só por obrigação, este seria um daqueles em que se acenderiam três luzinhas e meia, com a outras uma e meia fundidas. Por causa do granel e da excessiva duração da empreitada (74'), que cansa um bocado, tanta é a informação por segundo. Metade ou pouco mais chegava bem para as encomendas. Só por isso levam no toutiço.

 
 

Amir ElSaffar

Amir ElSaffar, trompetista iraco-americano a viver há anos em Nova Iorque, aproveitou o tirocínio que fez com Cecil Taylor e Daniel Baremboim, assimilou a memória das tradições musicais iraquianas e europeias, e aí está, virado para o jazz, à frente de um sexteto formado por Rudresh Mahanthappa (saxofone alto), Carlo DeRosa (contrabaixo), Tareq Abboushi (buzuq e percussão), Zaafir Tawil (oud, violino e dumbek) e Nasheet Waits (bateria). A proposta, intitulada Two Rivers, filia-se no subgénero do world jazz, tipo East meets West, facção que tem dado origem a uma vasta série de movimentações interessantes, como as de Ravish Momin, Vijay Iyer, do próprio Rudresh Mahanthappa, todos da geração dos 30 anos, com ascendência indiana, ou, as da geração anterior, cujo representante mais reconhecido é o libanês Rabih Abou-Khalil. Quanto a Amir ElSaffar, o pouco que me coube ouvir deste disco deixou perceber que Two Rivers – o título sugere muito do que aqui se passa – é uma boa aposta da PI Recordings, afeita a este tipo de estéticas cruzadas.

 
8.11.07
 

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The Context of Pleasures, Tempestuous, novidade na ainda tenra Onother Timbre. Se gosto disto... Há mais três discos neste primeiro cesto, e um quinto na calha. Em Portugal, a distribuição é da Esquilo.

 
 

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Boas notícias: Space (Staubgold) e Space Solo 1 (Quecksilber), de Rafael Toral, nomeados para os prémios Quartz 4 (Electronic Music Awards) deste ano, na categoria QWARTZ EXPERIMENTAL/RECHERCHE. Parabéns, Rafael! Space is the Place... Entretanto, a 17 de Novembro próximo, Rafael Toral & Roger Turner ao vivo, [no.signal], Londres.

Formerly known for his work with guitar and electronics, Rafael Toral terminated in 2003 that line of works to completely renew his approach to music: he now researches performance possibilities in electronic music.His long-term "Space Program" is a quest for a discipline to structure musical discourse in "post-free jazz electronic music", using experimental, custom-built or modified instruments. Approaching jazz from an alien perspective, as a system of individual decision-making from the viewpoint of free spectrum electronics, his conception is concerned with gestural performance, instruments with a simple and clear sonic identity, and articulation of silence and sound.In 2006 he released "Space", and more recently "Space Solo 1" (the Space Program's release series). This will be the first UK performance of Space and the collaboration with Roger Turner is a World premiere put together by [no.signal]

 
7.11.07
 

Por junto, dei apenas duas demãos completas no Live at the Jazz Standard, do Dave Douglas Quintet na sua mais recente formação, com o jovem mas já bem desemburrado, Donny McCaslin, e os batidões Uri Caine, James Genus e Clarence Penn. Pouco escavei ainda, mas pelo que ouvi o disco não é nada de se deitar fora. Breves notas de prova, quase a vol d'oiseau: Douglas está na sua melhor forma, rápido, sensível e inteligente as usual, a comprovar (não é bem o termo, mas não tenho outro agora) uma vez mais que se pode fazer bom, tesudo e eventureiro jazz mainstream sem concessões, nem ter que andar a copiar o que os antigos fizeram no seu tempo, e a esse tempo pertence, sem prejuízo do respeito pela tradição. As composições, que vão do figurino "clássico" de Mr. Douglas, ao calipso e à latinidade, são todas originais recentes do trompetista. O quinteto, rodadíssimo, toca que se desunha, como seria de esperar, tanto nos tempos rápidos como na baladaria, inexcedível na arte de dizer em conjunto, em contraponto e fora dele, e na queda natural para a improvisação – tudo muito bem feito, profissional, mas com entrega de corpo e alma. A gravação, datada de 2006, captou bem o ambiente do Jazz Standard, clube de Nova Iorque onde Dave Douglas gravou as longas maratonas realizadas durante a residência que ali manteve entre 5 e 10 de Dezembro daquele ano, que vieram a desembocar num conjunto de 12 capítulos autónomos, disponíveis em mp3 via Musicstem; Dave Douglas trocou a trompete pela corneta, outro timbre, outras cores, diferentes do habitual; e, o que me cai particularmente bem, pessoalmente, Uri Caine toca piano eléctrico Fender Rhodes em todos os temas, lembra Chick Corea de outros tempos e fica a matar nesta faceta de Dave Douglas. Edição conjunta da Koch e da Greenleaf Music em CD duplo, 2007. Mesmo para quem, como é o meu caso, tem as prateleiras ajoujadas com discos de Dave Douglas (fora Masada e outros projectos continuados ou eventuais), enfim, a loucura do costume, este Live merece atenção e escuta deliciada. Melhor cenário... uhm... talvez depois de jantar, estirado no sofá, a pensar na morte da bezerra, por exemplo. Outra volta ao disco 2 e mais não digo, que tenho uma coisa ao lume.

 
 

cover art

Confesso que desta não estava à espera: em CD, a gravação do encontro – único e breve momento, que se conheça – entre o soprador alemão Peter Brötzmann e o contrabaixista sul-africano exilado em Londres, Harry Miller (1941-1983), ao vivo em França, 1980. Edição da galeria Corbett vs. Dempsey, de Chicago, fundada e dirigida por John Corbett e Jim Dempsey. Até 30 de Novembro, a CvsD expõe trabalhos de Peter Brötzmann, artista plástico.

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Peter Brötzmann - Paintings & Objects

 
 
Em concerto no Stralau, 68, Berlim (local entretanto encerrado), em Agosto de 2003, Bertrand Denzler (saxofone tenor), Axel Dörner (trompete, computador), Daniel Erdman (saxofones soprano e barítono), Günter Müller (ipod, mini-disc, percussão e electrónica) e Michael Griener (bateria). Cinco nomes maiores da improvisação livre moderna europeia, especialistas do tratamento em directo do detalhe sonoro, exploram longas extensões horizontais que atravessam todo o espectro, tecem teia e trama de complexa urdidura, fundem sopros, sons digitais, percussão e processamento sonoro, com flexibilidade na articulação das ideias e apreciável interesse estético. A preparação desenvolve-se em movimentos de quase silêncio surgidos do nada, que crescem e se transformam em picos intensidade súbita, posto o que abandonam a panorâmica e desaparecem no espaço. A concentração e a sabedoria na gestão da mistura tímbrica versus tecitura textural, fazem o resto do trabalho, transformando o que à partida poderia parecer uma peça de difícil digestão numa viagem de interesse crescente por paisagens coloridas e variadas. O eixo principal de Stralau (2005) resulta do confronto entre as matrizes acústica e electrónica, e da aparente relação dialéctica entre elas, que se cria e resolve tanto pela via da oposição, como pela convergência, construída a partir de um elaborado equilíbrio de formas e proporções, tudo feito em tempo real, sem recurso à magia da produção em estúdio. É muito interessante observar a maneira como os cinco músicos diluem as fronteiras entre um tipo de abordagem instrumental dir-se-ia mais convencional, e outro que se poderia designar por não-idiomático (nesta acepção, o trabalho dos britânicos e veteranos AMM, poderia considerar-se o antepassado musical e ideológico directo da preparação montada em Stralau), de tal modo que questões como a de saber quem está tocar o quê, assumindo-se como um problema negligenciável, ainda assim, passa a ser de difícil resposta. Os talentosos Bertrand Denzler, Daniel Erdman e Axel Dörner, longe do tradicional papel atribuído aos sopros no combo de jazz, género que também praticam com assinalável sucesso artístico nos vários grupos em que participam, assumem aqui o discreto papel de eficientes gestores de intensidade, ao lograrem sustentar a tensão durante toda a duração da peça, a rondar a hora. Percussão sibilina e electrónica restolhante completam um quadro geral em a ilusão é quase perfeita: tremenda actividade sonora com um mínimo de notas, silêncios, sons esparsos e fragmentos angulosos intrincadamente ligados entre si, sem recurso a loops ou outro tipo de repetições – sensação de movimento constante sem sair do mesmo sítio. Grande trabalho, um dos melhores que ouvi na Creative Sources.

 
6.11.07
 

High energy outrageous music?! Não sei porquê… Bom, ao que consta, parece ter sido verdade que, entre 1982 e 1991, a Ritual Band assolou a costa de S. Francisco com ventos fortes, massas de ar quente e ondas alterosas. Tal como no outro mega-colectivo dirigido por John Gruntfest, a porta estava sempre aberta para quem quisesse alinhar no espírito e tocar as tripas cá para fora. “The only rule was, you don't have to come”. Esta formação da Ritual Band até é das mais maneirinhas, já que conta apenas com sete membros, além de John ‘Waveman’ Gruntfest, em saxofone alto: Sybil Glebow (bateria), Cheryl Schwartz (saxofone tenor), Bill Crossman (piano), Jim Flam (saxofone tenor), Yancie Taylor (vibrafone), Jan Labate (saxofone alto), e J. A. Deane (trombone) abrilhantam o baile, que deve ter durado até altas horas da madrugada, ao menos a julgar pela energia sobrante. A fatia aqui apresentada permite espreitar o ambiente de festa que ia no Komotion na noite de 28 de Julho de 1989, ambiente que tem muito a ver com a forma peculiar de abordagem ao free jazz que era, e continua a ser, a de John Gruntfest. A uma indicação do director, normalmente dada através de um solo ou motivo melódico, o octeto agrupa-se, dispara colectivamente em várias direcções, fragmenta-se nos solos, reagrupa-se para nova investida e aguarda por novo incitamento. Pelo meio, há tempo para citar Sun Ra e a Arkesta, e para uma versão distorcida e bem-humorada de Mack the Knife, uma ajuda mais para que BIRTH - Live at Komotion seja um disco muito simpático de ouvir.

 
 

O projecto canadiano NADJA (Aidan Baker e Leah Buckareff) retoma o caminho anterior com Radiance of Shadows. Três longas faixas na linha da estética doom ambiental pesadão, na variante de guitarra, bateria e efeitos. O registo da participação de Nadja no festival Brainwaves de 2006, que me chegou à mão, deixou-me a melhor das impressões deste duo apocalíptico. Radiance of Shadows é para gostos afeitos ao gótico e para outros, curiosos e com a pulga atrás da orelha. Ouvidos nisto, s'il vous plait. Alien8 Recordings.

 
5.11.07
 

Outubro de 1982. Derek Bailey e Cyro Baptista encontram-se em Nova Iorque para uma série de duetos. Um desses encontros históricos, graças ao interesse de Bill Laswell, foi gravado e mais tarde publicado na Incus, editora de Derek Bailey. CYRO, assim baptizado, assinalou a primeira reunião em disco dos dois grandes mestres. Vinte e um anos depois daquela gravação, resolveram encontrar-se de novo em Nova Iorque, no agora encerrado clube Tonic. O disco, DEREK, saiu entretanto na Amulet Records, editora de Billy Martin (do trio Medeski, Martin and Wood), por iniciativa do percussionista brasileiro. Teve o aval de Derek Bailey, que viria a falecer aos 75 anos no dia de Natal de 2005. Causa: problemas neurológicos sofridos na sequência da patologia que lhe havia sido diagnosticada (Síndrome do Túnel do Carpo*).

(* Mononeuropatia periférica resultante da compressão do nervo mediano do punho. Produz sensações estranhas, entorpecimento, formigamento e dor em alguns dedos e no lado da mão relativo ao polegar. É comum especialmente em mulheres, podendo afectar uma ou ambas as mãos. As pessoas cujo trabalho exige movimentos repetitivos forçosos, levando à extensão do pulso, são as mais susceptíveis (como aquelas que utilizam chaves-de-fenda). Uso prolongado de teclados de computador também causa esta síndrome - PST Portugal).

 
 

A 6 de Novembro, na High Two Records, sai um disco de homenagem ao saxofonista e compositor Marion BrownSweet Earth Flower: A Tribute to Marion Brown. A iniciativa é do projecto His Name is Alive, que se lembrou de evocar a música do injustiçado Marion Brown. O autor de Geechee Recollections, apesar de ter tocado ao lado John Coltrane, Pharoah Sanders, Sun Ra, Archie Shepp e outros grandes daquele tempo, e de possuir uma carreira discográfica com episódios muito importantes, passou ao lado da fama que, ironicamente, bafejou outros de menor valia. Brown, nascido em 1935 e a viver algures na Florida, gostou do que ouviu: "It's beautiful. Thank you. You really understand me."

 
 

Pianist and bandleader Sun Ra has been both ridiculed as a charlatan and revered as an innovator of jazz theater and collective improvisation. His band, the Sun Ra Arkestra, ranged anywhere from 10 to sometimes more than 100 musicians, and embodied many sounds, styles and cultures. He was an artist whose style, in all its ceremony, ushered in an era of free improvisation and big-band experimentation. [...]

 
3.11.07
 

Um, dois, pelas minhas contas aí vão três do DOPO, colectivo do Porto. Primeiro foi Last Blues, To Be Read Someday, depois For the Entrance of the Sun, ambos na test tube - dois bons momentos do que chamei, ainda me lembro, experimentalismo inclassificável nacional. Agora, saiu Crossing Birds, na norte-americana Foxglove, divisão da Foxy Digitalis. Ainda não ouvi nada do que lá se passa, mas estou curioso, porque os dois números anteriores me caíram muito bem. Agrada-me o som estranho, 'sujo' e arrastado que eles fazem, improv-rock cerimonial sem o ser no sentido formal do termo, que se coloca fora das modas do air-play e se veste de tons escuros, que adensam o mistério pela convivialidade de sons antigos, primitivistas, com vestígios de pós-modernidade.

 
2.11.07
 

Esta semana, no Jazz on 3: Basquiat Strings (Emma Smith, Victoria Fifield, Jennymay Logan, Ben Davis e Richard Pryce) + Seb Rochford (bateria), Ellery Eskelin (saxofone tenor) e Simon H. Fell (contrabaixo) - ao vivo nos Electric Proms da BBC, em de Outubro de 2007.

 
 

Este é para o serão. Numa volta pelas prateleiras mais altas, aquelas onde já só dá para chegar empoleirado, dei com Round Trip, do japonês Sadao Watanabe (saxofone soprano e flauta). As composições, quatro (Round Trip: Going and Coming; Nostalgia; Pastoral e São Paulo), são todas de Watanabe. A gravação é de Junho de 1974, realizada no Allegro Sound Studio, em Nova Iorque, e nela participam Chick Corea (piano), Miroslav Vitous (contrabaixo) e Jack De Johnette (bateria). O disco da Vanguard era uma raridade até ser reeditado há uns anos pela Comet Records. Como é que esta música envelheceu, 30 e tal anos passados sobre a gravação? Nada mal, apesar de algum kitch de época, como seria de esperar. Fora isso, é Watanabe vintage, a sopranar muito próximo do Coltrane final e a contagiar Chick Corea, que espreme os pianos, acústico e eléctrico, até à última gota, impulsionados ambos pelo balanço post-bop cosmic-groove de Vitous/DeJohnette.

 
 

LE GGRIL avec Jean Derome & Les Poules

PLAISTOW Los Criminales Reciclados en Conductores de Autobuses

Insubordinations

 
1.11.07
 

Issue 14 - November 2007

Page One: a column by Bill Shoemaker
What's New?: The PoD Roundtable
A Fickle Sonance: a column by Art Lange
The Book Cooks: Patrick Hinely
Far Cry: a column by Brian Morton
Moment's Notice: Recent CDs Briefly Reviewed
A European Proposal: a column by Francesco Martinelli
Travellin' Light: Taylor Ho Bynum
Free Jazz: The Point of Departure Contest

 
 

Picture

Don Ayler (1942-2007)

 
 
We Are Violent, de Nihil Communication (Andre Custodio e convidados), de S. Francisco, Califórnia, situa-se esteticamente numa subdivisão da electroacústica, do noise e da electrónica actual aparentada ao dark ambient. Momentos épicos contrastam com outros emocionalmente mais rasos, dramatisco dronolesco de base electroacústica, com acentuações de electrónica pesada, a partir de um vasto arsenal de fontes sonoras agrupadas em torno da expressão “efeitos”, mas também de sintetizadores, percussão (t-rodimba) e vozes, arquitectura sonora e pós-produção. Na densidade, que não na exibição formal, lembra o trabalho de industrial-ambient do projecto russo Cisfinitum (Evgueny Voronovsky) que, como ninguém tira partido de processadores analógicos e sintetizadores vintage, maquinaria pesada que produzem sons de outros tempos em formatos actualizados. Em We Are Violent (o título parece remeter para cenas de faca e alguidar musical, mas trata-se de pura provocação), o zumbido cresce, ganha peso e volume, muda de forma e de tonalidades, decresce de intensidade e transforma-se em esculturas de lava incandescente. Esta amálgama de produtos de origem vária capta o sentido e o vagar do movimento planante, serve-se do peso específico de cada som para criar acidentes misteriosos na paisagem espartana, despojada de adereços. Um convite à reflexão e à meditação ascética, depois da passagem da tempestade. O disco, mais do que interessante, traduz um paciente e laborioso processo de maturação e de apuramento sonoro como não é vulgar ouvir-se. Edição da Edgetone Records.

 
 

WREK

 
jazz, música improvisada, electrónica, new music e tudo à volta

e-mail

eduardovchagas@hotmail.com

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