
Tim Berne, saxofonista das minhas preferências, é também dos mais prolíficos em actividade. Todos os anos edita vários discos com várias formações em várias editoras, incluindo a dele, a Screwgun para quem não sabe. De entre eles, fui encontrar no porta-luvas do automóvel um que lá passou a residir por tempo indeterminado: The Shell Game. Hard bop for the new millennium. Com Tom Rainey do Paraphrase, baterista está-se a ver, e Craig Taborn nos teclados, Berne está com as pilhas na carga máxima. Tão depressa experimenta como vem comer à mão do standard (no feitio, apenas, que não nos temas de paternidade alheia), e joga tudo o que tem no tabuleiro. Dir-me-ão alguns (parece-me que estou a vê-los), ah, mas o Berne “tem muito melhor”.... Pois sim, mas e daí, que é coisa que digo invariavelmente quando me dizem que A tem “muito melhor”, ou “esse não é o melhor dele”. E daí? O que conta é que The Shell Game bateu-me forte logo que o ouvi a primeira vez, já não me lembro quando, lá para 2001. E continua, cada vez que no carro me lembro dele. Será pela virulência electro que Taborn engendra com o Fender Rhodes e a electrónica? Será da tensão permanente que atravessa o disco? Será da arquitectura da música, dos arranjos... Será dos 30 minutos de Thin Ice, em que cabe uma boa parte de Tim Berne? Não sei. Nem sei porque é que Tim Berne não vem tocar a Portugal um destes dias. Até a Down Beat: «The Shell Game is one of the most sonically differentiated jazz records of recent years».

Número de Fevereiro da All About Jazz-New York:
Barry Harris, Gerald Wilson, Kahil el'Zabar, Greenleaf Music, ABC no Rio, Derek Bailey In Memorian, Megaphone VOX, Matt Lavelle, Joe Wilder, Jeanne Lee, Marc Johnson, Mark Murphy, Miles Davis, Ben Wolfe, Michael Attias, Cedar Walton, Billy Bang, e muito mais. Download, aqui.
«– Na música dos MÉCANOSPHÈRE, qual é o grau de improvisação e de composição?
– Não há distinção entre uma coisa e outra no que fazemos. Procuramos fazer qualquer coisa cujo interesse e sentido não seja pelo facto de ser improvisado ou de ser composto. Seria falso dizer que é música improvisada porque a finalidade do que fazemos não está no improvisar. A improvisação musical não é no que fazemos mais do que um dado do nosso propósito estético. Tem mais a ver com um método de construção, aberto e instável, ligado a questão de rapidez e urgência cada vez que tocamos, seja em palco ou em disco. Não tentamos desconstruir os gimmicks, os truques e as formas, tentamos pelo contrário encontrá-los e acertá-los mais a partir de uma espécie de Tabula Rasa, pré-formal, pré-produzida, ainda por construir. Partir do zero para acertar coisas eficazes e expressivas dentro do Caos ou a partir do Silêncio. E não tentar desconstruir as formas, as referências, os métodos, a ligação aos instrumentos.
Acho que houve muita confusão quando lançámos o primeiro disco (Mécanosphère, 2003) porque se falou muito no facto de que o disco tinha sido mais ou menos improvisado, no sentido em que foi feito numa semana e sem nada pré-composto. Todos os dias ia ao estúdio com um conjunto de ideias muito abstractas e no fim do dia tinha duas ou três músicas gravadas na sua forma final. Idem, com as vozes e os textos. Aliás, quando o Adolfo gravou as vozes nem sequer tinha percebido que era para fazer um disco. Surgiu depois esse rótulo de música improvisada e a maioria das perguntas na imprensa que se interessou pelo disco eram acerca deste facto, deste não-método. Achei curioso, porque quando ouves o disco, a música, a letra, ou quando vais a um concerto de Mécanosphère, tens uma estética, um certo discurso ou propósito, que não tem muito a ver com a música improvisada. A improvisação é uma dimensão, um meio, no que fazemos. O primeiro álbum não soa minimamente a música improvisada, soa a uma espécie de hip-hop lo-fi, industrial, instável e parasitado por pequenos acidentes, onde eventualmente se sente a mão humana, nervosa, que quebra a sequenciação, a edição limpa, os loops, e a marcialidade do costume. Cheira a acidente e a qualquer coisa de frágil ao mesmo tempo. Mas não soa minimamente a música improvisada. Há grandes músicos que dedicam a sua vida a fazer música improvisada e não penso que Mécanosphère seja um deles. Os Neubauten, durante anos, nunca ensaiavam e iam achando uns gimmicks durante os concertos que depois iam repetindo de um concerto para o outro. Esqueletos de temas, de letras, de estruturas no meio de um caos mutante. Por outro lado não faziam música improvisada, faziam uma coisa ligada ao rock, à performance, etc.
Hoje em dia, como houve uma espécie de pequena mediatização daquele rock todo fodido, ruidoso, experimental, desestruturado, post-no-wave, etc. acho que se está a perceber que improvisado ou composto não é necessariamente uma distinção relevante para falar de estética ou de propósito de determinado projecto ou banda. É um pouco como falar de electrónica. Não faz muito sentido. É um adjectivo. Não designa nada mais do que uma dimensão num objecto complexo. Há bandas de música electrónica no sentido em que a electrónica em si é mesmo o que está em jogo e em questão na sua música. É sujeito e objecto do trabalho. Também não é o caso connosco. Visto que a electrónica não anda a ser muito investigada no que fazemos. Apenas a ser utilizada, pirateada, maltratada como uma qualquer percussão ou engenho achado».
Excerto da entrevista (9/2005) publicada na webpage dos Mécanosphère. (Foto © Luís Bento, 2004)
Terça, 31 de Janeiro, é dia de estreia ao vivo do power trio DIGGIN'
Com:
Alípio Carvalho Neto_saxofones
Carlos Barretto_contrabaixo
Rui Gonçalves_bateria
Na Trem Azul, Lisboa, à tardinha.

Ernesto Rodrigues, na Down Beat de Fevereiro de 2006:
«Since the 1960s, when British musicians like Derek Bailey, Evan Parker and John Stevens forged a radical strain of non-idiomatic improvisation, abstract on-the-fly music making has gone through loads of permutations. But over the last decade or so, perhaps the biggest factor in the music’s growth has been non-musical. The Internet has allowed an international community of musicians to flourish and interact, and now it’s hardly surprising that strong players thrive in far-flung locales. “It’s played an essential role in what concerns the edification of an international community, and we’re all part of it,” Portuguese violinist Ernesto Rodrigues said. In Lisbon, a city whose best-known musical export remains the emotionally fraught fado, he’s emerged as a distinctive voice of experimentation. Thanks to his Creative Sources label, the world is becoming an even smaller place.
Although Rodrigues grew up around the arts — his father was a playwright and his godfather was a classical musician — a childhood pal got him enrolled in a conservatory. While he studied the classics, he was pursuing a strong interest in experimental music and soon became influenced by the English school of free improvisation. “The relationship with my instrument is focused on textural elements,” he said. “Electronic music was an early influence on my approach to violin playing, which challenges traditional romantic concepts of the instrument through the use of preparations and micro-tuning.” Rodrigues launched the label in 2001, primarily to document his own work. He quickly managed to survey a broader range of activity in Lisbon with recordings that featured guitarists Manuel Mota and José Oliveira, pianist Gabriel Paiuk, bassist Margarida Garcia and his son, cellist Guilherme Rodrigues, among others. Much of the work subscribes to a minimal, gestural style of free improvisation, although Rodrigues recognizes a distinctly Mediterranean quality, “that one doesn’t find outside the country. There’s generally some feeling of contemplation and lyricism,” he said. Before long the strength of the work began attracting others, and now, with a catalog that boasts more than 50 titles, Creative Sources not only represents the state of the art of improvisation in Europe — with work from people like Axel Dörner (Germany), Stéphane Rives (France), Ingar Zach (Norway) and Alessandro Bosetti (Italy) — but in other locales as well, including the United States, Japan and Lebanon. Now Lisbon has become an important stop on any international itinerary, and early this year Rodrigues will be touring the United States with Mota» - Peter Margasak.

Pás! Nova edição de Ernesto Rodrigues (viola), agora com Hans W. Koch (electrónica), na netlabel CtrlAltCanc Records, de Adriano Zanni, "dedicata alla diffusione di suoni elettronici sperimentali". Nostalgia (ctrl025) só agora publicada, foi gravada em Lisboa em Novembro de 2004. Acabo de receber a notícia, pelo que ainda não tive oportunidade de ouvir a edição.
«Ernesto Rodrigues has been playing the violin for 30 years and in that time has played all genres of music ranging from contemporary music to free jazz and improvised music, live and in the studio. His main interest shifted towards contemporary improvised and composed music. The relationship with his instruments is focused in sonic and textural elements. Electronic music was an early influence on his approach to violin playing, which challenges traditional romantic concepts of the violin/viola through use of preparations and micro tuning. Active in different settings on the Portuguese scene for free improvised music, both as a collaborator and in leading his own groups. Music for Dance, Cinema, Video and Performance. Has created the record label Creative Sources Recordings in 1999, which mainly concentrates on releasing experimental and electro-acoustic music».
«Hans W. Kock: as composer/performer i am often working with electronic-sound produced by or taken from everyday-tools, like household-electronics, hairdryers, metalwool for cleaning pots and pans or old computers. they are combined in strange ways to reveal some more hidden aspects of their functionality, and strive to transform them into instruments. music-like structures are more or less a side-effect of the process of the search for the proper abuse of these things. on the other hand when working with digital media, i try to explore their boundaries and implicit faults, in order to arrive at interactions which keep a live of their own and react to human input in an unpredictable way».

Este não é fácil de encontrar, mesmo em segunda mão. Tive essa sorte aqui há tempos. Mais que improvável, parecia-me impossível deparar-me com tal, mas fui dar com Circular Temple, do Matthew Shipp Trio, esquecido, sem que uma mão curiosa, coleccionadora ou não, dele se abeirasse com intuito de apropriação. “Guardado está o bocado…”, lá diz o povo.
Os 1000 exemplares publicados em 1991 pela Quinton Records, editora de Shipp, esgotaram-se num ápice. O mesmo sucedeu à reedição de 1994 da Infinite Zero/American Recordings, editora dirigida por Henry Rollins. Circular Temple foi o segundo de Shipp, imediatamente a seguir ao duo com o saxofonista Rob Brown (Sonic Explorations), muito antes da notoriedade que lhe adviria da pertença ao estável quarteto de David S. Ware, e das mais recentes aventuras na Thirsty Ear. Curiosamente, Matthew Shipp chegou àquela editora em boa medida por causa deste disco e das ligações que Henry Rollins tinha com a Infinite Zero, a 2.13.61, e mais tarde com a Thisty Ear, distribuidora da marca de Rollins. O disco denota a atenção que o pianista deu à música de Cecil Taylor, Paul Bley e Andrew Hill, cujas linguagens expandiu para lá dos limites conhecidos. Outras influências que Shipp reclama para si são as dos pintores Jackson Pollock e Mark Rothko – o mesmo tipo de vocabulário do expressionismo abstracto posto em música. William Parker e Whit Dickey, dois terços desta espantosa sessão de energia espiritual, o suporte vigoroso que dá um balanço incrível às teclas de Shipp ao longo das quatro partes em que se subdivide Circular Temple. Uma delas, a segunda, tem o subtítulo de Monk’s Nightmare. Escreveu John Ferris em 1991, a propósito de Circular Temple: «Is this “not jazz”? Not ever? The tom-tom is here, but the musical landscape is vast, the syntax so broad, so personal, a new language is created: pantonal, polyrhythmic, one implying a whole new and total cosmos: now dark, foreboding, now playful, lyrical, always clear, well crafted, absorbing. Whose language are we speaking? The answer to that question is at one and the same time both easy and complex: the language of this trio. Mat Shipp’s language. If you want to understand, you simply have to listen. Dig?»
A 31 de Janeiro sai o novo disco a solo de Matthew Shipp, na Thirsty Ear/Blue Series. One.

MULTIMEDIA
A História da Música multimedia é um empreendimento criativo que reúne vários media e sectores artísticos, da imprensa ao computador, da rádio ao satélite, numa interdisciplinaridade sem precedentes.
Discurso sobre todos os géneros com uma multiplicidade de azimutes telemáticos, informáticos é o situacionismo da pósmodernidade musical. Introduz novas percepções, numa versão interactiva do mundo musical.
A música multimedia é uma forma espectacular contemporânea, do monumental, como os megaconcertos, ao discreto, como acções de video-art.
A infoarte considera a imagem mental, virtual, e conduz a interacção dos materiais e das artes nele envolvidas.
Na arte multimedia são chamadas as mais diferentes tendências estéticas, sob duas facetas:
mixed media, com a dependência da música; intermedia com independência da música, projecto da democracia de materiais mediáticos e musicais.
A música é envolvida nos light shows, nas criações poliartísticas (na dança, na performarte, no cinema, etc.), ambiências, instalações, circuitos fechados de video music dos movimentos pluriartísticos dos anos 1970, às proliferações tecnológicas dos anos 1980, e a ulterior e progressiva disseminação da musica cibernética.
O computador é o mass media mais importante da música multimedia. Podemos considerar o computador como uma tecnologia auxiliar da criação musical, mesmo como um instrumento musical, mas jamais como compositor ou executante. O ecrã video está integrado no computador.
O computador permite a análise dos sons, as codificações, as sínteses sonoras e os processos de controle de todos os aspectos da criação musical multimedia, onde substitui a regente de orquestra a criação da partitura sintética e a operatividade em tempo real.
No mundo da criação multimedia imaginam-se outros espaços musicais, outras atitudes instrumentais, muitas planificadas no computador.
A sua mais elevada expressão estética-musical na vertente clássica é a ópera multimedia e, na vertente popular, é o megaconcerto pop/rock como extensão tecnológica, está a arte (música) robótica e a transmitida via satélite.
Se Nam June Paik, nos anos1960, foi o profeta da música multimedia (da video music à música telemática), grandes autores prosseguiram uma work in progress em diversas áreas (o teatro musical de John Cage, video ópera de Bob Ashley, brain music de Alvin Lucier, paisagismo de Murray Schaeffer, a instalação de Brian Eno, o show de Laurie Anderson, etc.).
De qualquer forma a música multimedia é o avatar da música do futuro.
JORGE LIMA BARRETO
Otomo Yoshihide's New Jazz Ensemble © 2005 Akiko Isobe
Esta vai valer a pena. Já está a valer, aliás. O quinteto DOPO, dos arredores do Porto, editou na test tube o seu ep de estreia no campo da música experimental, Last Blues, To Be Read Someday (test tube 030), que considero um dos projectos mais interessantes e originais do experimentalismo inclassificável nacional. Um mimo – diria assim – que pode ser melhor apreciado via dowload a partir da página da netlabel.Rock na aparência, catalizador na evidência, DOPO é como um íman que atrai referências e influências de estéticas dispersas, que nas mãos dos cinco tomam formas no mínimo curiosas. Na base estão as guitarras e a bateria, que abrem espaço para a melódica, harmónio, flautas, low-budget electronics (tanto quanto se consegue perceber, até porque não há nada que soe a laptop nem às melhores marcas de máquinas da especialidade) e tudo o que os DOPO acham adequado a produzir som organizado sob as mais coloridas roupagens de folk urbano ritualista, que tem nos Boxhead Ensemble um dos emblemas/paradigmas mais imediatamente reconhecíveis. Mas isso é apenas a parte “visível”. Porque a música dos DOPO possui várias camadas abaixo do nível do mar, a razoável profundidade, e é susceptível de leituras as mais diferenciadas, ao invadir territórios e imaginários inesperados, fantasmagóricos, ancestrais, apelando à improvisação como salvo-conduto que une as pontas e liga os símbolos desta poética original e personalizada.
Há qualquer coisa de muito atraente neste arranhar imperfeito e inacabado que se aproxima muito de um estado que convida à ascese partilhada. É para aí que converge o espírito da liberdade que esconjura todos os que lhe são adversos. Segredo? Trabalho, memória e talento musical. Ouço o EP vezes sem conta e sinto que a música já me corre nas veias. Maravilhas da administração sonora intravenosa.
Dia 4 de Fevereiro ver-se-á como se safam no primeiro round da ZDB, onde darão aquele que ficará para a história com o primeiro concerto, numa noite a dividir com o público, Lobster e Veados com Fome.


Outra das das grandes edições da test tube é este op de Lezrod, artista colombiano que também dá pelo nome de David Velez e que auto-define como um audio destructionalist. Em seleccion natural, a partir de Bogotá, Lezrod produziu uma sequência de quatro temas de electrónica experimental complexa com um travo amargo que lhe vai muito bem. Contenção e capacidade de síntese são duas ideias que cultiva e põe ao serviço da sua produção electrónica caseira. Essencialmente, tem bom gosto, sabe experimentar e gerir as combinações geometricamente bem organizadas de sons sintetizados e analógicos, servindo-se da reverberação controlada e da manipulação de frequências como tempero. Brian Eno há anos que ensina como se faz. Por cima das melodias minimais em loop, Lezrod dispõe o resultado das suas investigações, misturando percussões acústicas que vai buscar ao jazz, com outros samples, delays, sobreposições de glitch, estática e ruído experimental variado com que estrutura a obra, sem se perder em repetições estultas ou motivos acessórios. Apenas o essencial para despachar 20 minutos de puro contentamento digital. Pedro Leitão e a test tube merecem toda a nossa atenção e agradecimento por nos darem a conhecer alguns dos projectos mais interessantes da nova música electrónica experimental que se faz um pouco por toda a parte. Há que lhes dar ouvidos.

Ontem, 27 de Janeiro, Bruce Lee Gallanter publicou a Newsletter da Downtown Music Gallery desta semana, onde destaca as cinco novas edições da Leo Records:
- Anthony Braxton With The Creative Jazz Orchestra - Compositions 175 & 126 (for Four Vocalists And Constructed Environment) [2 CD Set] (Leo 453/454);
- Sun Ra & His Space Arkestra - What Planet Is This? [2 CD set] (Leo GY 024/025);
- Ivo Perelman With Rosie Hertlein, Dominic Duval, Newman Baker - Introspection (Leo 455);
- Phil Minton / Roger Turner - Ammo (Leo GY 022);
- Francois Carrier With Mat Maneri, Uwe Neumann, Pierre Cote, Michel Lambert - Happening [2 CD Set] (Leo 451/452).

No Jazz on 3 desta semana... Tomasz Stanko! (Que boa lembrança, broda Jezz Nelson, há quanto tempo não me virava para a música do trompetista polaco...). Aqui está a oportunidade de o voltar a ouvir, captado ao vivo no Barbican, a 19 de Dezembro, durante o último London Jazz Festival. Stanko com um quarteto de compatriotas: Marcin Wasilewski, piano, Slawomir Kurkiewicz, contrabaixo, e Michal Miskeiwicz, bateria. Agrada-me bastante o lado mais escuro do jazz mainstream de Tomasz Stanko.

We are all visitors here, é apresentado pelo produtor Pedro Leitão, da test tube, como uma obra-prima da música electrónica ambiental. Na verdade, estou tentado em dar-lhe razão. Este trabalho do norte-americano Michael Duane Ferrell, aka Elian, que tenho andado a ouvir em pormenor há já algum tempo, é, pelo menos, das melhores obras do género que ouvi. Uma experiência sonora metafísica acentuada pela delicadeza dos drones que ilustram esta viagem inspirada na transitoriedade da nossa existência terrena. É por estarmos de passagem que devemos aproveitar para fruir a beleza do planeta que nos foi dado habitar, defende Elian; colocar o desafio da nossa pequenez ante a grandeza da imensa nave espacial que nos transporta. Nessa medida, há que experimentar o visível e o invisível, ouvir a transparência do som no mesmo instante em que cabem o átomo e o cosmos, oscilando ambos em movimentos quase imperceptíveis, fluidificados. Impressiona a profundidade de campo da paisagem poética que compõe o universo sonoro de Elian. As imagens da Antártida que ilustram a edição assumem aqui um carácter eventualmente redutor, por serem susceptíveis de prender a atenção a uma visão parcelar, quando a música que as suporta apela a algo fisicamente não localizado e muito mais vasto. O que me parece realmente em comunhão com imagens de Seth White são as tonalidades geladas de algumas passagens. Como é que se representa o frio em cor e som? Belo trabalho de Elian e mais uma pérola a juntar ao crescente catálogo da test tube que Pedro Leitão tem vindo persistentemente a ensaiar e a construir.
DIGGIN'
Com:
Alípio Carvalho Neto_saxofones
Carlos Barretto_contrabaixo
Rui Gonçalves_bateria
A 31 de Janeiro, na Trem Azul, à tardinha.
LET'S GO TO WAR, editora do Porto. "Is not only a cd-r label, not only a website to promote underground artists, but it is mainly a way to be in the music scene. Because we all here are enemies of the music business, to quote a famous band, we are devoted in maintaining our independent, autonomous vision for making music. We have nothing, so we have nothing to lose". Duas compilações em cd-r revelam passos interessantes de algumas dezenas de artistas que exercem nos vários domínios afins da electrónica underground: Lost Gorbachevs, Sikhara, Carla Oliveira, Bruno Ribeiro, Stealing Orchestra, HHY, Red Albinos, João Martins, David Miguel, Ohmalone, Most People Have Been Trained To Be Bored, Citizen Shame, Society Has Tape Recorders, Fátima Vieira, Zé Miguel Pinto, Nuno Peixoto, José Alberto Gomes, Klank Ensemble, Klank Ensemble, Mécanosphère (Benjamin Brejon e Adolfo Luxúria Canibal), Pleghmatic Plump, The Morlocks. Noise, sampling, loops, “clicks‘n’cuts”, ambientalismo, drum‘n’bass, electro-jazz, beats, manipulações várias, field recordings, bricolage techno e digitalia dronológica vária, agitam a cena criativa lusa com epicentro no Porto.

A netlabel galesa Serein, dirigida por Huw Roberts, funciona como plataforma de divulgação do trabalho de artistas da música electrónica experimental, electroacústica e ambiental. Este mês de Janeiro publicou a compilação Tracks in the Snow, com temas de artistas da casa. Neles se inclui e abre a sequência Night Work, de ocp, "operador de cabine polivalente", aka João Ricardo, designer sonoro português, do Porto, com algum trabalho relevante publicado na netlabel portuguesa mimi records. Tracks in the Snow é uma boa mostra do que de melhor se faz actualmente no género. «Serein is proud to announce the arrival of a very special collection of work to see in the new year. Tracks in the snow is a compilation EP featuring some familiar names and welcoming new friends for 2006. Swathed in warm analogue waves and washes, field recordings and live instrumentation are six tracks that further establish Serein's sound as a collective. While each individual brings their own unique style to the work as a whole, it is refreshing to hear such diverse compositions that work so well together. Not to be missed».

T.E.C.K. String Quartet
Em concerto único na Trem Azul a 6 de Fevereiro, às 19h30.
Tomas Ulrich - violoncelo / Elliott Sharp - guitarras acústicas
Carlos Zíngaro - violino / Ken Filiano - contrabaixo
End Zone
«Um dos escritores favoritos de Elliott Sharp, Don DeLillo, tem publicado um estranho romance (“End Zone”) em que o futebol americano lhe inspira associações com a guerra nuclear e as técnicas e tecnologias médicas invasivas, um exemplo de como a realidade dos nossos dias pode confundir-se com os mais delirantes cenários de ficção científica, de que, aliás, o guitarrista é um confesso entusiasta. A páginas tantas, refere-se Delillo aos pequenos seres vivos (gatos, cães, lebres, esquilos, etc.) que todos os dias são atropelados nas vias rápidas e que, com o tempo e a quantidade de pneus que lhes passam por cima, são – a expre
ssão é do próprio romancista – “macadamizados”, isto é, integrados no alcatrão e no empedrado.Quando o engenheiro escocês John Loudon McAdam inventou o macadame no século XIX para pavimentar as ruas do Reino Unido, se não poderia imaginar a dimensão internacional que a sua iniciativa tomaria, muito menos fazia ideia de que o processo teria a propriedade de transformar corpos orgânicos na matéria aglutinadora das camadas de agregado mineral. Os veículos motorizados estavam ainda por surgir, mas o certo é que a evolução do automóvel, com o aumento da velocidade do mesmo e o surgimento de grandes e pesados camiões, determinou que a componente animal se tornasse tão importante para a circulação de pessoas e cargas. Se antes eram os animais que nos transportavam, hoje tal continua a verificar-se deste outro modo. Convém não esquecer igualmente que a mobilidade automotora segue o princípio da balística – um carro não é mais do que um projéctil controlado, com a particularidade não só de se dirigir a um destino (um alvo), mas de mudar de direcção, como, aliás, acontece com os mísseis dirigidos à distância por computador. E que, para todos os efeitos, esse carro só se movimenta porque o seu motor é de combustão, ou seja, porque segue a mesma lógica dos explosivos. Projécteis que são, quando vários automóveis se encontram nas rodovias há sempre o risco de colidirem, com perdas de vidas como consequência, e a verdade é que o equilíbrio dos censos depende dessa circunstância. A estrada tornou-se num mediador de vida e de morte e até num regulador de populações.
O que Elliott Sharp propõe com Carlos Zíngaro, Tomas Ulrich e Ken Filiano no projecto T.E.C.K. é uma analogia da voragem sedimentadora do macadame, e como seria de esperar não pretende passar po
r um meio de entretenimento para as famílias, mas afirmar-se enquanto arte, inconveniente e cínica como qualquer arte verdadeiramente emancipada de funcionalidades sociais que tenham o propósito do “divertimento”. São muitos os elementos orgânicos que cada um destes improvisadores/compositores introduz no agregado a que chamamos música. Se seguem uma fórmula da música de câmara (uma pequena formação de cordas de arco, com violino, violoncelo e contrabaixo, a que se acrescenta uma guitarra acústica), o certo é que a mesma não serve o lazer do rei, reflectindo antes a complexidade e as contradições dos burgos cosmopolitas contemporâneos, tendo saído do quarto do monarca para se instalar nos espaços públicos que são os teatros e os auditórios, espaços republicanos e democráticos não necessariamente destinados à ocupação dos tempos livres deixados pelo trabalho, mas para questionação cultural e investimento criativo, factores da espiritualidade dos povos num período de amargo materialismo económico. As produções do quarteto T.E.C.K. consistem em híbridos das expressões urbanas da actualidade sob forma sincrónica e diacrónica, consequência da transversalidade de culturas em meio metropolitano e do presente estádio das suas evoluções ao longo do tempo. E porque se alimentam da realidade
tal como ela é, têm em conta os factores científicos no seu mapeamento de formas e de metodologias. Sharp tem, inclusive, por costume utilizar algoritmos, tal como um engenheiro o faria. “Crio composições que funcionam como organismos vivos e cujas metáforas operacionais são retiradas de processos biológicos e da matemática da teoria do caos, da geometria fractal e da linguística”, argumentou em entrevista. Daí a definição que faz da sua obra como “música ir/racional”, que nas suas palavras “está para a música como a ficção científica está para a ciência”. Se a tradição afro-americana dos blues está na origem da sua abordagem da guitarra, tal como ouvimos no seu solo acústico “Velocity of Hue”, as técnicas transformadoras que lhe aplica, bem como as coordenadas estéticas de carácter experimental que persegue, distanciam-no da identidade específica dessa tipologia musical etnicista nascida nas margens do Mississipi, o que, de resto, faz todo o sentido, na medida em que a sua cultura é outra. O mesmo tem feito com todas as linguagens que foi adoptando, como o rock, o jazz e a new music, material idiomático que transfigura e mescla no alcatrão das suas propostas pessoais. Não é outra coisa o que fazem os seus parceiros. Carlos Zíngaro tem formação clássica, e se no modo como toca ouvimos ecos de Paganini, Shostakovich e Bartók, também lá estão Ornette Coleman, John Cage e Jimi Hendrix. Para além de que o seu violino não é propriamente o tipificado, antes um sucedâneo de instrumentos de sopro como o clarinete, aplicando até a respiração articulativa destes. “Shakuhachi”, a peça em que mimetiza a sonoridade da flauta de bambu japonesa com o mesmo nome, é um bom exemplo da ambição do músico português quanto a uma metamorfoseação não só lexical como sonora do violino. Pelo seu lado, o violoncelista Tomas Ulrich situa-se entre dois mundo
s, o do free jazz e o da música contemporânea herdeira de Stravinsky, dúbia condição que lhe permite a “ferocidade” já apontada pela crítica, não habituada a assistir a tal fulgor por parte de um cordofone que, regra geral, tende a tornar invisível o seu executante em contextos onde haja instrumentário mais afirmativo ou o violoncelo é obrigado a um papel passivo. Ulrich integrou o Sirius String Quartet num álbum do grupo de metal alternativo Dr. Nerve, “Ereia”, e isso já quer dizer muito. Ken Filiano é outro caso exemplar: a inovação do desempenho do contrabaixo no novo jazz faz dele uma das coqueluches da cena nova-iorquina. Uma característica do seu jogo é o regresso ao uso do arco. Encadeando harmónicos nos registos mais baixos, aplicando preparações móveis entre as cordas e recorrendo a um pedal de volume para uma melhor gestão das dinâmicas, a sua mestria é igualmente modificadora. Imaginem-nos agora a derreter na auto-estrada da música criativa e terão um vislumbre da visão de Don DeLillo entre uma bola perdida e uma entubação hospitalar, com um cogumelo de fumo a levantar-se no horizonte... As “end zones” deste mundo podem ser pontos de partida para outros caminhos. E um livro pode inspirar uma prática musical».
Rui Eduardo Paes

Paul Murphy (Trio Hurricane, Raphe Malik Quartet), baterista extraordinário de S. Francisco, a viver em Nova Iorque a partir dos anos 70, liderou esta sessão histórica em 1982, que se manteve inédita até 2003, altura em que foi publicada pela Cadence Jazz Records. Com Jimmy Lyons, sax alto, Dewey Johnson, trompete, Karen Borca, fagote, e Mary Anne Driscoll, piano. Red Snapper expõe 19 quadros a solo, duo, trio e em quinteto. Mais importante: constitui uma oportunidade soberana para ouvir Jimmy Lyons em duo com o último baterista que o acompanhou. Nessa medida, o disco funciona como complemento à caixa de cinco (The Box Set) que a Ayler Records dedicou ao enorme saxofonista. «The Cadence Historical Series designates recordings that have historical as well as artistic significance and have previously never been commercial available», pode ler-se na contracapa do CD. As notas de Mary Anne Driscoll contextualizam a sessão, obrigatória para os que militantemente professem o Murphysmo-Lyonismo.

"(...) Amo las sonoridades difíciles, el verso escultórico (...) El verso ha de ser como una espada reluciente, que deja a los espectadores la memoria de un guerrero que va camino al cielo, y al envainarla en el sol, se rompe en alas (...). Amo las sonoridades difíciles y la sinceridad, aunque pueda parecer brutal." - José Martí (1853-1895), Versos Libres.

Strong Language é um discaço! Lunge, o quarteto, nasceu na sequência da participação dos seus membros na digressão que Butch Morris realizou em Londres em 1997, a London Skycraper Tour. Gail Brand, trombone, chefia o mesmo quarteto que gravou Brace & Framed para a Acta. Phil Durrant, electrónica e violino, Pat Thomas, electrónica e piano, e Mark Sanders, percussão. Improvisação electroacústica da escola britânica, que explora intensamente as possibilidades tímbricas dos instrumentos acústicos, combinando-os com as texturas suaves e discretas da electrónica. A música foi gravada em concerto no Bimhuis de Amesterdão, em 2002, no âmbito do dOek Festival #2. Para completar o disco, o produtor Martin Davidon acrescentou duas outras peças gravadas no Gateway Studio, em Londres, dois anos antes. Abre-se a sessão com Planarchy. Em bom passo, Gail and the boys estabelecem desde o início o paradigma sonoro para o tempo e o modo que se vai seguir: imprevisíveis cruzamentos instrumentais, desdobramentos em ligações laterais e diagonais que disparam em todas as direcções, trombone/percussão, electrónica/percussão, electrónica/trombone, violino/piano… .
Sons microscópicos misturam-se sem pré-aviso, mutações orgânicas sucedem-se de modo imprevisto.
Rough With the Smooth desenvolve-se no tom soturno que mais adiante se irá encontrar em Rothko. Acentua-se a contemplação introspectiva com os sons graves do trombone, sobrepostos ao contínuo fervilhar de partículas sonoras em lume brando. Um ouvido treinado e atento ao detalhe beneficiará ainda mais com audições sucessivas deste tema, um dos melhores da sequência.
White Writeable Area começa com sinais esparsos de electrónica, pontuados pela subtil assimetria rítmica das escovas de Sanders. Pequenas bolhas de ruído electrónico enchem e rebentam como acidentes na paisagem que se vai progressivamente adensando. Violino e piano percutem repetida e desencontradamente, gerando o ambiente dramático ideal para se ouvir a lassidão fibrosa do trombone, que corta a bruma e soa quente por cima da base electrónica.
No Filters, sendo curta (4'10), é a peça mais vivaz do conjunto. E também a que mais se aproxima do jazz. Gail Brand toca um conjunto de frases melódicas num estilo próximo do George Lewis. Pat Thomas, sublinha algumas passagens ao piano. Sanders, frenético, inventa o seu próprio swing, e Phil Durrant preenche boa parte dos espaços deixados em branco com pinceladas de electrónica low-fi, que por vezes lembram as vocalizações de Phil Minton.
Virada a página do concerto de Amesterdão, Mull it Over, primeiro dos temas de estúdio, sendo anterior em data à sessão holandesa, evidencia o mesmo tipo de estratégia. Gail Brand usa agora a surdina e uma série de utensílios e técnicas de modelação sonora, aqui mais próxima da estética de Paul Rutherford. Em fundo evolui a bug music do trio Durrant/Thomas/Sanders. Vejo Gail sentada à sombra de uma árvore carregada de pássaros, cigarras e outros insectos, improvisando no trombone ao entardecer de um dia de verão.
Rothko, a fechar a sessão, inicia-se com Sanders e Durrant em primeiro plano, a arranhar pratos e cordas. Soam ecos de trombone, primeiro ao longe, depois mais próximo da boca de cena, invertendo-se as posições relativas entre voz principal e trio. Sobre o cenário desce o tom de melancolia outonal com que se conclui a jornada.
Lunge - Strong Language (Emanem)

A propósito, bem fez Rui Neves em recordar-me as aparições de Sun Ra em Portugal (Vilar de Mouros, na edição de 1982 do Festival, e Lisboa, no "Jazz em Agosto" de 1985), a que esteve ligado, como detalhadamente consta da página de Artur Miguel Dias. Portugal was the Place. Entretanto, a Margarida escreveu-me um mail simpático, em que informa ser eu "por demais responsável pela [sua] paixão crescente pelo trabalho de SUN RA, que [ouve] em loop há semanas, sempre acompanhada das perspicazes dissertações do [meu] blog". E termina: "Obrigada por nos dar o seu contributo, deveras multifacetado, sobre o melhor do jazz e música improvisada que se faz por cá e além-mar ;)".
Nada a agradecer. Tem toda a razão ;-)

Abrem-se de par em par as portas do Jazz e Arredores para o grito d'alma de Miguel Martins, conhecido empresário da noite lisboeta, dos mais competentes e, mesmo assim, daqueles que fazem começar os concertos a desoras, esquecido de que há quem moureje, voluntariamente ou não, às 8 e às 9 da manhã seguinte (parece impossível mas é verdade!).
Caros Eleitores e Abstencionistas,
É com a voz embargada pela comoção que venho, por este meio, anunciar a realização de um estrondoso concerto no Luso Café, na próxima 5ª Feira, 26/01 (dia de anos do meu irmão), pelas 23h. A saber:
- Guilherme Rodrigues (trompete);
- Alípio Carvalho (saxofone);
- Hugo Martins (guitarra);
- Hernâni Faustino (contrabaixo);
- José Oliveira (percussões).
Convirá, porventura, lembrar que Guilherme Rodrigues é o testa-de-ferro do Professor Cavaco para fraudes eleitorais na Florida e em Pinhão, que Alípio Carvalho, apesar de brasileiro, revolucionou o toureio apeado, uma célebre tarde na Monumental de Samora Correia, que Hugo Martins está confirmadíssimo na terceira edição da Primeira Companhia, que Hernâni Faustino, após quase duas décadas de perdição, deixou, finalmente, as drogas duras, e que José Oliveira foi o responsável pelo auspicioso enlace entre Teresa Guilherme com Henrique Dias.
Apareçam!
Miguel Martins
(Nota da redacção: o cartaz do evento supra, da autoria do célebre Travassos, já tem a data devidamente acertada).

Declaro-me fervoroso apreciador sem reservas de European Echoes, disco da orquestra dirigida por Manfred Schoof, oportunamente reeditado pela Atavistic/Unheard Music Series. Em 1969, a nata da improvisação livre europeia pedalava com uma energia avassaladora, que chega aos nossos dias em boas condições de envelhecimento e preservação das propriedades encantatórias. Do quinteto original de Schoof entraram na festa, além do trompetista, Gerd Dudek, Buschi Niebergall e Alex von Schlippenbach; do trio de Peter Brötzmann, o próprio, Han Bennink e Fred Van Hove; dos grupos associados a Pierre Favre, Arjen Gorter, Peter Kowald e Irène Schweizer; do Reino Unido, Evan Parker, Paul Rutherford e Derek Bailey; de Itália Enrico Rava; da Dinamarca, Hugh Steinmetz. Um total de 16 elementos. Três trompetes, três pianos (!), três saxofones, três contrabaixos, duas baterias, trombone e guitarra. Da digressão europeia resultou uma bobine para transmissão radiofónica, que veio a dar origem à edição inaugural da editora alemã Free Music Production, mais conhecida pela sigla FMP. Um vintage explosivo e devastador, susceptível de fazer as delícias dos fans de jazz, improv, noise, experimental e enfim, de música, além de constituir um documento importante para compreender a transição do free jazz tal qual se fazia na América, para a free music europeia, que atesta a correspondente aquisição de identidade e estatuto próprios.

The Space Between with Barre Phillips, edição da 482 Music. Não foi por falta de aviso que passei ao lado deste disco do trio The Space Between. Mas foi preciso encontrá-lo em saldo para me acercar da peça com a atenção devida e acabar por a incluir no rol de aquisições. O trio The Space Between formou-se em 1996, quando a canadiana pianista Dana Reason e o norte-americano Philip Gelb, a residir em S. Francisco, convidaram a pedagoga, compositora e improvisadora Pauline Oliveros para um concerto naquela cidade.
Do encontro nasceu uma combinação instrumental fora do comum: shakuhachi (flauta de origem japonesa), piano e acordeão. Desde o início, o trio apostou sobretudo na exploração da riqueza tímbrica e textural das suas composições instantâneas, pondo de lado noções comuns de ritmo, harmonia e melodia, estratégia que tiveram oportunidade de aprofundar em sessões gravadas com os contrabaixistas Matthew Sperry (1999 e 2002) e Joëlle Léandre (2002).
Em 1998 o trio tinha convidado o contrabaixista norte-americano radicado em França, Barre Phillips (muito conhecido pelas suas gravações para a ECM) para dois concertos em Berkeley/California, no Center for New Music and Audio Technologies. Foram esses concertos que deram origem à gravação de with Barre Phillips, apenas publicado em 2001 pela 482 Music.
Música sossegada, microscópica, de movimentação lenta, com tempo e espaço para ouvir a tensão em que nasce o silêncio, atravessado pelos intrigantes sons espectrais do acordeão, sabiamente combinados com a espiritualidade oriental do shakuhachi, o piano mutante de Dana Reason e as erupções assimétricas do contrabaixo. Barre Phillips partilha a direcção dos acontecimentos com Pauline Oliveros (a veterania a definir o curso da coisas) num disco belíssimo e multiforme que não é jazz nem free improv no sentido europeu do termo. É outra coisa. Só ouvindo. E em concentração total, de preferência.

Fac-símile do cartaz que anuncia a estreia absoluta do novo quinteto-maravilha denominado G. Free Unit. Será no Luso Café, ao Bairro Alto, a 26 de Janeiro próximo (e não de Fevereiro, como o jovem Travassos escreveu no boneco). É já na quinta-feira, pelo que é bom ir-se a gente mentalizando para o momento do impacto. Há-de ser tal que não deixará ninguém indiferente. Quase posso garantir. Guilherme Rodrigues, Alípio Carvalho Neto, Hugo Martins, Hernâni Faustino e José Oliveira em propósitos de improvisação livre. Às 23h00.
A hora tardia é que é uma pecha, mas que se há-de fazer?! Os programadores de música devem pensar que ninguém trabalha de dia nesta terra (provavelmente têm razão...) ou que toda a gente mora em Lisboa, e vai daí organizam as sessões para começar às 11/meia-noite. É bem capaz de terminar antes das duas. Já não é mau.
Mapa-jazz de Manhattan na década de 60.

Acabo de ler a interessante entrevista (não editada) que Noah Howard deu a Phil Freeman, publicada na Wire de Janeiro (n.º 263). Noah Howard, saxofonista alto nascido em 1943 em New Orleans, tocou com muita gente importante no jazz americano, sobretudo da menos considerada pelos media. Marcadamente pós-ornettiano no estilo, Howard estudou com Sonny Simmons e tocou com o reverendo Frank Wright, o saxofonista tenor Frank Lowe, Sun Ra, Alice Coltrane, Milford Graves, Bobby Few, Bobby Kapp, Wilber Morris, Art Taylor. Homem que veio do gospel e dos blues, Howard processou uma enorme variedade de influências. Gravou para a ESP-Disk em 1966. Viveu muitos anos em Paris, Berlim e Bruxelas, integrando a vaga de expatriados que nos anos 60 e 70 demandaram terras europeias à procura de melhores oportunidades de vida e de criação musical.

A partir de hoje, 20 de Janeiro, e até sexta, em homenagem a Derek Bailey, recentemente desaparecido, o "Jazz on 3", da BBC Radio 3, além de música gravada em estúdio e editada em disco, vai transmitir em webcast duas gravações ao vivo do finado guitarrista britânico. Uma, da Music Improvisation Company, em 1970, com o saxofonista Evan Parker, o percussionista Jamie Muir e o electronicista Huw Davies; e outra gravada em 2000 no Tonic de Nova Iorque, em dois duetos: um com Alex Ward, clarinete, e outro com Susie Ibarra, percussão. Alinhamento completo.
Original 3" Reel TAPS boxes from 1973
A 19 de Janeiro chegou a vez de Wilson Pickett.
Tinha 64 anos. RIP.

«Recorded in 1973, when Sun Ra and the Arkestra was going through a very creative period in their music, this double CD is just the first volume from the Sun Ra Waitawhile archives. The line-up of the Arkestra counts 25 musicians including Sun Ra and for once we are not going to hear some critical remarks about the poor sound because the quality of the recording is superb. The length of the recording is almost two hours and the Arkestra plays original Sun Ra compositions and untitled improvisations, one of which is almost 30 minutes long. A must for any Sun Ra fan».
Acredito piamente.

Em 2003 deu-se o desejado regresso de Ivo Perelman aos discos, ele que tinha anunciado que se iria afastar da música para se dedicar a tempo inteiro à pintura, reproduzida no interior do folheto do disco, à razão de um quadro por cada peça da suite em 7 partes. E em que forma voltou o saxofonista brasileiro há mais de 20 anos a viver em Nova Iorque! O som de Perelman não perdeu um grama de peso. E parece ter ganho em bravura, pulmão, velocidade e expressividade, na exploração de movimentos e nuances de raiva e doçura, revoadas de cores, formas e texturas, como no acrílico sobre tela. Dir-se-ia que a plasticidade do som de Perelman é o correlativo da sua pintura. Para Suite for Helen F. (Boxholder Records, 2003), que homenageia a pintora expressionista abstracta norte-americana Helen Frankenthaler, Perelman adoptou o formato de double trio, com os bateristas Gerry Hemingway e Jay Rosen, e os contrabaixistas Mark Dresser e Dominic Duval, repartidos por ambos os canais aos pares, Duval-Rosen (os homens do Trio X, de Joe McPhee) à esquerda, e Dresser-Hemingway (dupla rítmica de Anthony Braxton, no quarteto com a pianista Marilyn Crispell), à direita, embora não seja fácil perceber quem toca em cada um dos lados. Um disco colossal e tormentoso, como seria de esperar. A evitar por quem só se satisfaça com as assobiáveis melodias de sempre.

Peter Brötzmann & Nasheet Waits
Live at The 'Bottle' Fest 2005, Chicago
«brö-A is the first release in the c/d format on brötzmann's private 'brö' imprint. produced in an edition of 400 copies to sell exclusively at concerts on the fall 2005 u.s.a. tour by brötzmann/waits, the disc is available here at eremite.com while supplies last. the package consists of a heavyweight cardstock gatefold-style sleeve (re-cycled paper), artwork by brötzmann, with the c/d mounted on a foam "hub" on the right inside panel. a handsome & unusual piece, & the music is a strictly killer representation of the brötzmann/waits dialectic».
Edição da Brö, distribuída pela Eremite.

Voilá a capa do mais recente número (16, acabado de sair) da revista espanhola ORO MOLIDO, editada em Madrid por Chema Chacón. A publicação trata essencialmente de "música difícil", para usar a expressão irónica tão cara ao editor (hola patrón!), e de outra que, não colocando tantas dificuldades, propõe desafios interessantes às mentes curiosas e aos corações apaixonados (esta é de Leo Feigin). Cá da terrinha colaboram regularmente o Rui Eduardo Paes et moi.
"The dance to the music of time" (Poussin)
Jam-session after-lunch do Dia de Reis
Alípio Carvalho Neto, Abdul Moimême, Rodrigo Amado e Lizuarte Borges
Lisboa, 6 de Janeiro de 2006 (foto: Eduardo Chagas, percussão)

1, 2, 3 discos do trio Cosmosamatics, o nome colectivo que alberga de há uns anos a esta parte a dupla de grandes improvisadores, Michael Marcus e Sonny Simmons. Este último, o veterano acompanhante de Prince Lasha e Eric Dolphy, mas também de John Coltrane, Sonny Rollins, Don Cherry e Sun Ra, nos idos de 60. Esteve uns anos afastado das lides, mas entretanto recobrou fôlego para uma fulgurante segunda parte de carreira, que prossegue com surpreendente leveza ainda hoje, aos 73 anos. Three (Boxholder Records, 2004) é título de disco e simboliza a reconfiguração do grupo, outrora um quarteto com William Parker, no primeiro disco, e Curtis Lundy, no segundo. Além destes, têm ocupado o lugar do contrabaixista Dominic Duval, Chris Sullivan, Tarus Mateen, Gildas Scourarnec, Emil Ram e Masa Kamaguchi. Na bateria, o mesmo de sempre, Jay Rosen, bem conhecido de quem acompanha as edições da CIMP, espécie de baterista da casa, tantos foram e continuam a ser os projectos em que se emprega. Por falar em CIMP, este formato foi já explorado com grande sucesso estético e emocional por Simmons e Marcus, em 1996, estava a editora a dar os primeiros passos e o baterista, em vez de Rosen, era Charles Moffett. O trio de então gravou Transcendence e Judgement Day, os extraordinários primeiros CIMP's que ouvi. O disco divide-se em duas partes: os primeiros quatro temas foram gravados num estúdio de Nova Iorque; os quatro seguintes, ao vivo no Bimhuis de Amsterdão. No geral, percorrem-se vários estilos, desde derivados do blues e do funk, ao free moderado que constituiu a marca principal de Transcendece e de Judgement Day. Destaque? Talvez a leitura personalizada em saxofone alto solo de Round Midnight, de Thelonious Monk, que fica na memória pela capacidade de reinvenção de um dos standards mais tocados do jazz. É também por isso que Three, longe de ser um disco indispensável, não deve ser dispensado por quem gosta de jazz autêntico e genuíno.

A música que os portugueses Ernesto Rodrigues e Guilherme Rodrigues (violino e violoncelo, respectivamente), o norte-americano Wade Matthews (flauta, clarinete baixo e laptop) e o libanês Bechir Saade (flauta, clarinete baixo) tocaram na primeira parte do duplo concerto dia 18 de Janeiro, na Trem Azul, aproxima-se esteticamente de algumas correntes da composição contemporânea. Explorações musicais em que cada fragmento sonoro encerra conjuntos maiores ou menores de outros sons, harmónicos insinuados pelas cordas contra e a favor dos sopros, contrastando altas e baixas frequências em movimento. Música que em grande medida explora a gestão do silêncio como ausência de som (que não é o mesmo que ausência de música), a frase que se começa a desenhar mas que se deixa propositadamente inacabada, encaixa noutra de imprevisível origem, duração e direcção, que instiga a formação de contrastes e aproximações, matizes diversos de sombra e luz, cambiantes que se mesclam e complementam, notas soltas para quem as quiser apanhar e passar a outro. Ruídos cageanamente integrados na paisagem sonora, construção, ruptura, inflexão, acervo de assimetrias discursivas que se estabelecem propositadamente ao acaso, indeterminadas e instantâneas.
Na segunda parte, permanecendo Wade Matthews da formação anterior, entraram Alípio Carvalho Neto (saxofone alto), Miguel Martins (melódica), Hernâni Faustino (contrabaixo) e Pedro Costa (violino). Durante cerca de meia-hora assistiu-se à sã convivência entre as características mais marcantes da música tocada na primeira parte e as das linguagens da improvisação mais próximas do jazz, com Alípio a picar notas por cima da manta de urdidura colectiva, constantes trocas de olhos com a doçura da melódica, pinceladas de cor em passo mais acelerado sobre o drone irregular das cordas de Pedro Costa e Hernâni Faustino, com maior complexidade e exigência no equilíbrio das vozes. O mesmo tipo de inventividade sob formas que, sendo similares às da primeira parte, com elas mantêm uma relação dúplice de proximidade/afastamento.
Assentando no mesmo paradigma, a segunda parte trouxe outro tipo de focagem, com maior amplitude dinâmica. Música mais rápida, igualmente livre, estilisticamente diferente da anterior – “o mesmo cavalo com outros arreios e outro tipo de movimentação”, parafraseando uma expressão que ouvi a Alípio Carvalho Neto na animada conversa de bastidores que longamente mantivemos sobre esta dupla afirmação da criatividade da música improvisada feita em Portugal.
Nada está escrito no papel, como na linguagem, em que a fala precede a escrita. No mesmo sentido, a improvisação serve finalidades de comunicação entre os músicos, e entre estes e o público, resultando na revelação de mundos sonoros complexos e misteriosos, que se posicionam para lá das convenções do tonalismo, atonalismo, reducionismo ou minimalismo, free jazz e livre-improvisação, fruto da interacção consciente entre músicos com diferentes backgrounds, formações, origens culturais e geográficas, irmanados no propósito de criação sonora em comum, em busca de qualquer coisa: outras formas de produção e de escuta musical, por exemplo.

Bela descoberta acidental, a deste disco do Paul Dunmall Sextet. Shooters Hill (FMR Records), de 2004, é um prazer para os viciados no som do grande saxofonista inglês, que com Evan Parker e Elton Dean, compõe a trindade dos maiores sopradores britânicos contemporâneos (e Lol Coxhill?). Paul Dunmall, exclusivamente em tenor (desta vez, nada de soprano clarinete ou gaita de foles) toca com Paul Rutherford, trombone, Jon Corbett, trompete (não confundir com o outro Corbett, o crítico, jornalista, produtor, director da UMS/Atavistic, e divulgador de algumas das práticas mais inovadoras do jazz), John Adams, guitarra, Roberto Bellatalla, contrabaixo e Mark Sanders, bateria. Shooters Hill, Get In It e Fratso, três discussões vivas nascidas de motivos simples desenhados pelo saxofonista, que desembocam nas habituais longas improvisações, com o sobe e desce de intensidade que caracteriza a música de Paul Dunmall. A par do prato forte do disco, a improvisação colectiva, destacaria os grandes solos de sax tenor, guitarra e trombone. Jazz britânico muito substancial.

Chegou o Inverno e com ele mais um número (40) da Signal To Noise, a melhor revista de música improvisada e experimental, "documenting the confluence of avant-garde jazz, electroacoustics and experimental, modern rock, and beyond..." Já tem distribuição em Portugal, através da Trem Azul.
PATEK
Wade Mathews_clarinete baixo, flauta alto e electrónicas
Ernesto Rodrigues_violino, viola
Guilherme Rodrigues_violoncelo
Bechir Saade_clarinete baixo
Trem Azul, 17 de Janeiro, à 19h30

VUELVE ¡ESCUCHA!
Vuelve el ciclo de conciertos más internacional de Madrid, ahora con músicos de Beirut, Viena, Berlín , Buenos Aires, Baltimore y Madrid, villa y corte. Música improvisada acústica, electrónica y muy interesante para animar y estimularnos en esta cuesta de enero y febrero (¡y mira que es larga!).
Lunes 23 de enero a las 21 h
Bechir Saade (Beirut - clarinete bajo y nai)
Andrés Arregui (Madrid - saxo alto, fliscornio)
Julio Camarena (Madrid - guitarra)
Domingo 5 de febrero a las 21 h
Dieb 13 (Viena - cassettes, vinilos, cds, discos duros, etc. todos ellos desviados musicalmente)
Miercoles, 8 de febrero a las 21 h
Julien Simon (Berlín - midi wind controller)
Lunes 27 de febrero a las 21 h
Leonel Kaplan (Buenos Aires - trompeta)
Audrey Chen (Baltimore - voz)
Wade Matthews (Madrid - ya se verá)
CRUCE: arte y pensamiento
info_cruce@yahoo.es
UNA EXCELENTE OPORTUNIDAD PARA COMPRAR ORO MOLIDO #16.

George Russell, pianista, arranjador ao nível de Gil Evans e Stan Kenton, compositor e autor do The Lydian Chromatic Concept of Tonal Organization, uma das mais importantes teorizações que o jazz produziu, que marcou o desenvolvimento do modalismo na improvisação (baseada em escalas, em vez dos tradicionais acordes), gravou apenas três discos para a Decca (New York, N.Y., 1958; At The Five Spot, 1960; e Jazz in the Space Age, 1960) antes de se mudar para a Riverside. O terceiro, Jazz in the Space Age, é um portento musical. Em 1960, Russell arregimentou uma big band de 14 elementos com dois pianistas, Paul Bley e Bill Evans, que se debatem em constante duelo ao nível de Harmonica/Charles Bronson e Frank/Henry Fonda, em Once Upon a Time in the West (melhor, só Claudia Cardinale). Jazz in the Space Age, um dos melhores discos de sempre de Russell, antecipa a obra-prima de 1961, Ezz-Thetics: o conceito de Chromatic Universe levado às últimas consequências em termos de liberdade para os solistas.
A Newsletter desta semana (13 de Janeiro) da Downtown Music Gallery. É melhor ir por quem sabe. As notas de Bruce Lee Gallanter podem ajudar nas escolhas.

Mojo Hand, editado originalmente pela Fire Records em 1962, actualmente acessível em reedição da Comet Records. Blues inspirado e R&B clássico de Sam Lightnin’ Hopkins, o lendário bluesman do Texas, que muito contribuiu para trazer o blues do campo para a cidade, conferindo-lhe um estatuto de maioridade artística. A voz e a guitarra de Hopkins marcaram profundamente o Texas Blues, desde o tempo em que, na infância, era "a vista" de Blind Lemon Jefferson, e, já adolescente, acompanhava o primo Texas Alexander. Lightnin´ Hopkins, o mais prolífico dos bluesmen, gravou mais que todos em 60 anos de carreira, excepção feita talvez a John Lee Hooker.

Foto Vanita & Joe Monk, 2002
"I find the universe to be an amazing place. And I believe that that's the kind of spirituality that I'm interested in... And the truth must be about the miraculous nature of the universe that we're born into. And our opportunities to learn and develop and to understand more are built into the way the universe is structured. And you can call that spiritual, or, I don't know, you can call it scientific, or you can call it philosophical. But at a certain point, if a philosophy is telling the truth, it's saying the same thing as a religion - if a religion is telling the truth. And if a science is telling the truth then it's saying the same thing as a philosophy or a religion. An understanding, an insight can come through any of those disciplines. But at a certain point, if it's saying something true, then it's saying something universal. That might be a spiritual idea."

«(...) AMM emerged as a very special marriage between the two most significant strands of modern (Western) music - the axis represented by the history from Debussy, through Schoenberg to Cage - and the axis represented by Armstrong, Ellington, Gillespie or Parker. (The equal status of Jazz has never been properly acknowledged in musical history). But, if it is such a fusion of histories, then it has resulted in a form which is dominated by neither tradition and is challenging for both (...)». Matchless Recordings.

Não é de agora. Há muito que a crítica de jazz no Expresso é pobre, tanto nas escolhas como na análise. Há mais de 25 anos que assim é. Envergonha e diminui que um jornal de referência com a responsabilidade do Expresso não tenha nunca conseguido elevar-se a altos padrões de qualidade na análise, como lhe é exigível. Os críticos que ao longo dos anos têm escrito no Expresso sobre outros géneros musicais, como a clássica e o pop/rock, por exemplo, melhor ou pior, souberam quase sempre interpretar o momento presente e apreender os sinais do futuro, abrir as portas aos novos sons e sobre eles informar o público nas colunas que assinaram e continuam a assinar. O Jazz, desde sempre o parente pobre da crítica do jornal, nunca mereceu melhor que a superficialidade corriqueira com que, semana após semana, Raúl Vaz Bernardo criticou ou referenciou os discos que lhe foram chegando à mão. Veja-se a edição de hoje, 14 de Janeiro. RVB, num texto inserido no suplemento Actual, a fls. 37, procura demoradamente justificar-se pelo facto de não ter incluído certos títulos no seu balanço de “melhores do ano”. Desde logo, não se percebe porquê tanta relevância dada a este mea culpa de RVB, mas há critérios jornalísticos que a razão desconhece. No fundo, o que preocupa RVB é que a sua lista apenas em “mais de 50%” tenha coincidido com as da imprensa internacional da especialidade, problema que o deixou “consternado”, na medida em que os outros 50% de títulos das listas estrangeiras, sendo seus conhecidos, helàs... por causa de tão apertado critério, não puderam entrar na dança. Não se faz.
Antes disso, diz o histórico que na elaboração da sua lista dos melhores do ano, segundo o critério auto-imposto, atende exclusivamente à disponibilidade dos títulos no mercado nacional, para – segundo refere – assim evitar cair “num certo elitismo”, que seria incluir discos que o “comum dos leitores” não encontraria nas lojas portuguesas. E mais: acrescenta à sua penosa justificação o facto de não incluir outros títulos, estes sim, disponíveis no mercado nacional, porque (pasme-se...) as distribuidoras em questão, alegadamente, importariam poucos exemplares desses mesmos discos. Por esta razão, interroga-se o auto-amputado crítico, em que medida tais discos, sendo escassos em quantidade (quantos seriam necessários para Bernardo se satisfazer?), deveriam ainda assim ser criticados no Expresso e qualificarem-se para o best of bernardino? Vexata quaestio...
É espantoso, não é? Uma única virtude encontro em tão despropositado texto: finalmente fica-se a saber a razão por que Bernardo não escreve uma linha sobre outro jazz que não o mesmo de sempre; por que não se atreve a mostrar o tão diversificado que de novo se faz por esse mundo fora (desde que não seja importado em quantidades que não diz quais, não existe, de acordo com o seu critério), etc. É que o crítico institucional do Expresso vota ao absoluto desprezo tudo o que, qualidade à parte, seja minoritário, não distribuído cá na terrinha, ou que, sendo-o embora por distribuidoras que trabalhem catálogos de importação (há poucas mas muito boas em Portugal, felizmente), não entre pelas portas do Expresso adentro, grátis e à pázada, de preferência.
E que dizer do paternalismo descabido relativamente aos leitores do jornal, ao partir do princípio que “o comum” não sabe usar a internet para encontrar no mercado global os títulos que lhe interessem?! Provavelmente, os leitores estarão à espera que RVB lhes explique como se faz.
Há quem se sinta insultado com o que RVB escreveu, como é o caso de um amigo que me fez chegar um mail alusivo. No mínimo, envergonha que um jornal como o Expresso se conforme com estas justificações de “trazer por casa” e se continue a demitir das suas reais responsabilidades informativas (e formativas) do público a que se dirige, e que merece ser tratado com mais dignidade, respeito e consideração.
Não sei como é que o editor do Actual autoriza tamanha exibição de provincianismo, mas, vamos lá, com um pequeno esforço a gente acaba por perceber. Haveria que arrepiar caminho?

Derek Bailey/Evan Parker, London Concert
Psi Records
«Este é um disco histórico (foi gravado em 1975 num memorável concerto em Londres e, se se trata de uma reedição, tem 31 minutos extra e totalmente inéditos de música) de um duo que já não existe, pois entretanto Derek Bailey e Evan Parker zangaram-se e seguiu cada um para o seu lado. E se eles chegaram a acusar-se mutuamente de estagnação nas mesmas fórmulas, a própria evolução das suas respectivas carreiras encarregou-se de os desmentir. Parker levou o mais longe que é possível imaginar as técnicas orientais de respiração circular que aplica no saxofone soprano, multiplicando-se em situações e contextos musicais, do electrónico com o seu Electro-Acoustic Ensemble, com quatro “laptopers” a fazerem processamentos em tempo real, às colaborações que vem mantendo com o dub de Jah Wobble, e Derek Bailey não só emparceirou com músicos techno, a começar por DJ Ninj, como namorou com o free rock dos Ruins e fez as pazes com a balada num célebre disco saído na editora de John Zorn, para além de que, ao perder a mobilidade de um dos dedos, iniciou um processo de reinvenção da sua própria maneira de tocar a guitarra. Sabendo agora o que se seguiu, quase podemos dizer que ambos estavam, na altura do registo destas gravações, ainda na infância das artes que tão bem vêm dominando, mas o certo é que a música que faziam há 30 anos era sólida, inovadora (foram, aliás, dois pioneiros deste tipo de abordagem) e tão afirmativa quanto o que hoje nos propõem, com o acrescento da frescura de algo que tinha acabado de nascer. Se nos abstraírmos do tempo que passou, e até da familiaridade que estes sons hoje possam ter para os fãs da improvisação livre, não poderemos deixar de pensar que tais abstracções secas e pontilhísticas numa guitarra que, mais do que tocada, é torturada, e tais rugidos e gemidos dissonantes de saxofone, deviam soar muito estranhos aos ouvidos comuns dos Seventies. Ainda hoje a aceptabilidade desta música constitui um problema, mas uma coisa ninguém pode desmentir: o que encontramos neste CD aproxima-se muito do sublime». - AnAnAnA

A emissão desta semana do Jazz on 3 abre com a entrevista que a pianista Myra Melford deu a Jez Nelson por ocasião da sua recente passagem por Londres. Logo após a entrevista, passa na íntegra um concerto do saxofonista norte-americano Charles Lloyd, gravado ao vivo no London Jazz Festival. Lloyd em trio com dois percussionistas, Eric Harland e Zakir Hussein. No intervalo Jez Nelson conversa com Lloyd, e aborda dois tópicos interessantes: o saxofonista revela que o seu álbum Forest Flower (Atlantic), gravado ao vivo no Monterey Jazz Festival de 1966, vendeu qualquer coisa como dois milhões de cópias (! por cada milhão), e que foi ele quem lançou uma rapazinho chamado Keith Jarrett, o pianista daquela memorável sessão. Em webcast até à próxima sexta-feira.
O violinista e improvisador português Ernesto Rodrigues anda numa roda viva. Depois dos concertos em Lisboa que fará nos próximos dias (ver detalhes), a 22 de Janeiro inicia uma estada em Berlim (Ausland), onde realizará concertos até 1 de Fevereiro, com o guitarrista luso Manuel Mota.A 7 de Fevereiro partem ambos em digressão para os EUA, até 4 de Março. Vão arrasar o afamado Seattle Improvised Music Festival, entre 8 e 12 de Fevereiro; dali dão um salto à canadiana Vancouver e depois descem até S. Diego, na Califórnia, com passagem por toda a West Coast. Partirão depois rumo à East Coast, terminando o périplo em Nova Iorque, quase um mês depois. Em cheio! Excelentes notícias da internacionalização da moderna música improvisada portuguesa. E mais, o número de Fevereiro da revista Down Beat traz um artigo inteiramente dedicado ao trabalho de Ernesto Rodrigues, que já li. Parabéns, Ernesto!
amon düül zwei ...

Ó que saudades! Depois de um interregno que terá durado um par de anos, em que apareceu a tocar contrabaixo, Joe Morris tirou novamente a viola do saco. Desta vez, com Jim Hobbs, Timo Shanko e Luther Gray, Morris toca a beleza de que fala o título em seis rolantes composições. Nada de encanar a perna à rã e sempre em bom andamento. Há uns anos atrás Joe Morris abriu um espaço novo para a guitarra no jazz não tradicional. Continua a soar como nenhum outro, antes ou depois dele. Beautiful Existence.
>Manta Rota,
tradução indirecta do francês Ensemble Freak, é um sexteto de improvisação comunal. Proveniente de tradições, em iguais partes conscientes e inconscientes neste núcleo de músicos, de improvisação colectiva, casos dos Amon Düül, No-Neck Blues Band, ou dos Red Krayola, de «Parable Of Arable Land», acabam por ser a primeira real manifestação local de um sintoma que se começa a registar pelo Ocidente ligado às músicas livres do séc. XXI. Dos Estados Unidos (com Sunburned Hand of the Man ou Wooden Wand & The Vanishing Voice), à Finlânia (com Kemialiset Ystävät ou Avarus) ou à Austrália (Castings), desponta uma primeira geração – pelo número – em movimentações improváveis, de dinâmicas que vão para lá de banda, e regressam a comunalismos improvisados, informadas por décadas de música livre. Não são como as improvisações de grupo de Alan Silva para a BYG/Actuel, mas também; não são um «drum circle» hippie da treta, só um bocadinho; não são o drone eterno da A Band ou dos Vibracathedral Orchestra, mas já o ouviram. São outra coisa qualquer, de estilo ainda por nomear, de conhecimento tanto plural quanto recente de tradições e não-tradições, turismo musical pancontinental, feito de interesse e fascínio por manifestações de expressão crua e inusitada. Manta Rota é constituído por elementos de Gala Drop, CAVEIRA, The Vicious 5, Phoebus, Braço, Fish & Sheep e mais alguém que foi lá parar à procura de sensações efluvianas.
Na ZDB, sábado, 14 de Janeiro, a seguir ao Sei Miguel Jazz-Out Leadership, às 23h00.
18.01.06//23h//HOT CLUB
FREE OCTET
ernesto_rodrigues/violin, viola
ricardo_pinto/trumpet
eduardo_lála/trombone
alípio_carvalho/tenor saxophone
peter_bastiaan/alto saxophone
hernâni_faustino/double bass
manuel_mota/electric guitar
rui_gonçalves/drums

Outro dos grandes discos de 2005. Boas novas nos chegaram o ano passado do Norte da Europa. No que à free improv europeia concerne e em matéria de trabalho sobre som, tempo e espaço, nunca o GUSH (Mats Gustafsson, saxofones soprano, tenor e barítono; Sten Sandell, piano; e Raymond Strid, bateria), na precedente meia-dúzia de edições, havia ido tão longe e tão fundo. Norrköping trás de volta o fenomenal trio sueco em três peças de composição instantânea, gravadas em Maio de 2003: Handpicked (18’43), Sava (13’35) e Rhomb (26'37).
A movimentação dura uma hora inteira e alterna entre o sombrio, a média luz, e passagens vigorosas em altas rotações que se resolvem depois em placidez contemplativa. Como se o trio subisse esforçada e lentamente ao cume da mais alta montanha e se deixasse depois rolar pela encosta abaixo, numa extraordinária viagem cinematográfica por paisagens revolutas intervaladas por clareiras pacificadoras.
Comparado com o Aaly Trio e com The Thing, duas outras formações triangulares em que participa Mats Gustafsson, o GUSH continua a ser a que mais afincada e consequentemente professa o credo nas virtudes da livre improvisação. Razão bastante para que os aficionados do free jazz/improv não possam passar-lhe ao lado.

Wade Matthews & Trio
Wade Matthews (clarinete); Rui Horta Santos (saxofone tenor, aquafone); Eduardo Raon (harpa); Sergue (contrabaixo)
Jamaica - Rua Nova do Carvalho, 6 - Lisboa
18/01/2006, às 00h00

Outro livro que investiga o lado eléctrico da música de Miles Davis, correspondente ao quarto de século que vai de 1967 até à morte do artista, em 1991. Depois dos recentes Miles Beyond: The Electric Explorations of Miles Davis, 1967-1991, de Paul Tingen (Billboard, 2001), e de The Last Miles: The Music of Miles Davis, 1980-1991, de George Cole (University of Michigan Press, 2005), chegou a vez do crítico e jornalista freelance Phil Freeman – autor, entre outros, deo essencial New York Is Now! The New Wave Of Free Jazz – explorar o filão e sair com novo livro com idêntico objecto, recolocando na agenda o debate sobre a tão controversa "fase eléctrica" de Miles, reexaminando-a à luz do seu enquadramento espácio-temporal, designadamente quanto às repercussões da última fase de Miles no desenvolvimento das diversas cores e formas da moderna música urbana. Philip Freeman, Running The Voodoo Down - The Electric Music of Miles Davis. (Backbeat Books, 2005. 256 páginas)

Sei Miguel Jazz-
-Out Leadership
14.01.2006///23h00///Galeria Zé dos Bois
«Estreia de Sei Miguel na ZDB na formação Jazz-Out Leadership. Relativamente a esta actuação, Sei Miguel descreve o alinhamento de criadores participante enquanto «Unit», uma das possíveis configurações do seu trabalho, que, com vários membros, funciona sempre como uma pequena orquestra. O septeto por si orientado irá tocar 30 peças em simultâneo, numa dinâmica «entre a cibernética [na pureza etimológica do termo, enquanto arte de governar dialectos, neste caso referentes a todas as idades do jazz e afins] e o ecossistema», segundo o próprio. Trata-se de outra parte do seu trabalho, "declaradamente orquestral", em que "a proliferação de material temático acaba por fazer com que a peça fundamental seja a própria orquestra". Como habitual nas suas apresentações em nome próprio não se trata de material improvisado, existindo ao invés "um livre arbítrio na forma como cada músico gere o seu espaço temático no tempo colectivo". Figura central do jazz e das músicas livres portuguesas dos últimos 20 anos, Sei Miguel tem vindo a desenvolver de forma profunda uma ligação possuidora de altíssima propriedade relativa à história do jazz, desenhando as suas composições completamente embebido e informado nas tradições formais e metafísicas dessa música. Tem uma linguagem, dentro desta vasta escola, que condensa em si todo um universo de expressão, progressão e não-progressão, materiais e discurso. Um artista tão raro em Portugal, quanto o é no jazz mundial, de méritos elevadíssimos».
Sei Miguel (trompete de bolso); Fala Mariam (trombone); Rafael Toral (electrónica) Adriana Sá (cítara paulistana); Manuel Mota (guitarra); Pedro Lourenço (baixo); César Burago (percussão)
Há algum tempo atrás, o saxofonista alto Seth Misterka estudava filosofia na Wesleyan University, ao mesmo tempo que integrava o círculo de criação musical à volta de Anthony Braxton, fazendo parte do Ghost Trance Ensemble. Decorridos os anos de formação académica, Seth Misterka mudou-se para Nova Iorque, onde passou a exercer intensa actividade como saxofonista alto. Entretanto, pôs de lado umas coroas e montou um estúdio em Brooklyn, onde tem gravado e produzido sessões como esta que a editora portuguesa Clean Feed em boa hora resolveu publicar. Na liderança do projecto está outro residente em Brooklyn, o activo, versátil e multifacetado percussionista Jeff Arnal, antigo aluno de Milford Graves e actual co‑director artístico do festival de música experimental Improvised and Otherwise. Àqueles dois improvisadores juntaram-se o trompetista Nate Wooley e o contrabaixista Reuben Radding. Em 2001 formaram Transit, o quarteto homónimo do disco então gravado, que, por vicissitudes várias, apenas viu a luz do dia no final de 2005. Nate Wooley começou a tocar trompete na adolescência, estudou com Ron Miles, Fred Hess e Jack Wright. Este último abriu-lhe as portas para um mundo musical de grande quietude, que passou a abraçar inteiramente. A residir em Jersey City, Wooley toca habitualmente com luminárias da categoria de Steve Swell, Tatsuya Nakatani, Anthony Braxton, Bhob Rainey, Alessandro Bosetti, Herb Robertson, Kevin Norton, Tony Malaby, Scott Rosenberg, Matt Moran, entre outros.
O contrabaixista Reuben Radding faz parte de downtown scene de Nova Iorque. Estudou com o grande Mark Dresser. No prosseguimento da sua actividade, Reuben tem tocado com Matt Moran, Oscar Noriega, Ursel Schlicht, Jack Wright, Daniel Carter, John Zorn, Marc Ribot, Elliott Sharp, Robert Dick, Wally Shoup e tantos outros mais. Hoje em dia é um dos mais reputados contrabaixistas norte-americanos do novo jazz.
Transit recorre às composições instantâneas do quarteto, com raízes no jazz e na new music, nada convencional nos domínios harmónico, melódico e rítmico, e em constante transmutação entre aqueles dois pólos. Música livremente improvisada que se baseia nas estratégias da música escrita, emerge enformada por um forte sentido de direcção e pensamento musical colectivamente ordenado.
A estratégia escolhida apela ao apurado instinto de acção e reacção dos membros do quarteto, o que os habilita a tomar decisões imediatas, a encontrar novas combinações harmónicas e estruturações rítmicas que conduzem a soluções insuspeitas. A música adquire então maleabilidade e respiração próprias, que lhe dá para explodir em diferentes cores e direcções, ou deslizar por curvas suaves, gerindo a ampla e subtil gama dinâmica, inteligentemente aplicada à transição entre aqueles dois pólos.
Um work in progress de quatro músicos talentosos e inspirados, totalmente empenhados em surpreender o ouvinte com a frescura da sua música livre, aberta, imaginativa e clarividente, que estimula o cérebro e vivifica a alma. Disco a todos os títulos excelente, Transit dá um passo em frente no desenvolvimento e consolidação do jazz actual.
Publicado originalmente pela Sweet Earth, em 1979, e reeditado em 2004 pela Comet Records, The Other Side of the Sun, sendo dos discos mais straight de Sun Ra, continua a desafiar a categorização geralmente atribuída à sua música e aos discos que a registaram ao longo de mais de 50 anos de actividade.Gravados pela Arkestra no Blue Rock Studios, em Nova Iorque, entre o final de 1978 e o início de 1979, os cinco temas de The Other Side of the Sun afastam-se dos padrões de uma certa "normalidade" até então prosseguida, mesmo que de uma "normalidade alucinada" se tratasse, na medida em que Sun Ra parece ter querido romper com o precedente ciclo de experimentação iconoclasta para se ater a formas mais próximas das usadas pelos mestres que sempre admirou, Fletcher Henderson e Duke Ellington.
É nesse espírito que reinterpreta dois dos maiores clássicos do reportório standard do jazz, Flamingo e The Sunny Side of the Street, que não desmembra nem distorce, como se poderia à partida pensar justificadamente que faria; antes usa como rampa de lançamento dos solistas da Arkestra, que aproveitam a oportuna deixa para mostrar como eram bem mais do que estridentes e endiabrados servidores do pensamento e acção do director.
Dentro desta ordem de ideias, até mesmo Space is the Place se veste aqui com a roupagem menos vistosa e garrida que alguma vez conheceu, porventura mais conforme com o tom assumido nos standards. Mas – e lá está a dificuldade em arrumar Ra e as suas obras –, The Other Side... também incorpora o lado mais abstracto da sua música (Space Fling e Manhattan Cocktail), embora contido dentro de parâmetros de um certo “bom comportamento”, que nele é sempre irreverente, mesmo quando honra a memória dos mestres. Outro lado de Sun Ra.

Improvisação shamânica? O escocês Ken Hayder inspirou-se em Elvin Jones e em John Stevens para desenvolver o seu próprio sistema, baseado no cruzamento da música experimental e improvisada com músicas orientais. E explica como se viaja musicalmente da Escócia para a Sibéria, em conversa com Will Montgomery, da Wire.
Sun Ra, Morton Street, Philadelphia. Junho de 1979.
Fotografia de Val Wilmer (Sun Ra Picture Archive).

Jason Bivins ouviu a mais recente dezena de edições da excelente Creative Sources, editora lusa dirigida pelo violinista português Ernesto Rodrigues, especializada em livre improvisação lowercase, afins e electroacústica. As opiniões críticas de Bivins estão publicadas na webzine One Final Note deste mês.
Bill Frisell a interpretar exclusivamente material dos Beatles? Tem mais que graça. É ouvir para crer, em concerto transmitido em webcast (partes 1 e 2) pela rádio holandesa VPRO. Com Bill Frisell tocam a violinista Jenny Scheinman, o guitarrista Greg Leisz, em pedal stalk, e Sidiki Camara, percussão. O concerto ocorreu em 11 de Novembro de 2005, no Bimhuis, em Amsterdão. A fechar a sequência de temas de Lennon e McCartney, a Bill Frisell Band interpreta Baba Drame, um original do maliano Boubacar Traoré.

O Nuno Ferros, da Associação Rock'n'Cave, colocou online algumas reportagens fotográficas que vale a pena ver: John Zorn COBRA: Portuguese Ensemble; Marc Ducret solo & workshop; e Don Byron workshop.Trabalhos fotográficos de Vítor Barbosa e de Anabela Trindade.
Dead Meadow. Jason Simon, Steve Kille e Stephen McCarty. O trio de Washington D.C. não esconde a sua predilecção pelo rock os anos 70 e toca uma interessante mistura de Jimi Hendrix com Black Sabath, blues à maneira dos Led Zeppelin e dos Hot Tuna, e improvisação saturada de guitarras sabathianas de grandioso efeito. O cantar evoca o lado mais sonolento e teen dos Stone Roses de há duas décadas. Além das guitarradas fuzz que abundam no disco, o lado mais inovador e atraente desta forma de neo-psicadelismo, que evita retro-debruçar-se em demasia, é a composição. O que aqui se ouve são grandes canções de rock, com letras inspiradas nos universos de Tolkien e Lovecraft. O terceiro disco do grupo, Shivering King and Others, publicado pela Matador em 2003, é um bom disco de rock.

Dia 1 de Março p.f. é posta a venda a edição comemorativa dos 30 anos da ICTUS, editora de Andrea Centazzo, uma caixa de 12 discos que cobre parte essencial do trabalho que o percussionista italiano desenvolveu ao longo de três décadas com alguns dos nomes mais importantes do jazz/improv euro-americano, como Steve Lacy, Derek Bailey, ROVA Saxophone Quartet, Kent Carter, Alvin Curran, Evan Parker, John Carter, Vinny Golia, Tom Cora, Toshinori Kondo, Jack Wright, Ladonna Smith, Davey Williams, Eugene Chadbourne, Gregg Goodman, Carlos Zíngaro, Lol Coxhill, Gianluigi Trovesi, Lester Bowie, Tony Oxley e outros. Antecipando a edição completa, a ICTUS editou uma compilação com temas dos 12 discos da nascitura caixa.

Abre hoje online o Centro de Informação da Música Portuguesa, "serviço público que vem colmatar uma lacuna no domínio da visibilidade da criação musical portuguesa; promovendo activamente os compositores e intérpretes portugueses, disponibilizando informação, distribuindo publicações, gravações, partituras, etc.; usando para tal os recursos virtuais actualmente disponíveis. O seu principal objectivo é pois divulgar e encorajar a interpretação e conhecimento da música portuguesa à escala mundial". A sessão de apresentação pública do CIMP, com vocação de serviço público, será feita por Rui Vieira Nery e pelo compositor António Pinho Vargas. O objectivo do Centro é promover activamente à escala mundial os compositores portugueses e as suas obras, os intérpretes portugueses e os recursos musicais nacionais, disponibilizando informação, distribuindo publicações, gravações, partituras, vídeos, imagens, textos, com conteúdos em português e inglês, tirando partido das novas tecnologias de comunicação usando extensivamente os recursos virtuais actualmente disponíveis.
A instalação do CIMP, uma iniciativa do compositor Miguel Azguime, actual director, teve início em 2002, com o projecto intitulado Música Contemporânea Portuguesa – Divulgação Digital. Esse projecto, concluído há cerca de cinco meses, veio colmatar uma enorme lacuna no domínio da visibilidade da criação musical portuguesa, juntando-se, com duas décadas de atraso, aos congéneres europeus na International Association for Music Information Centres (IAMIC).
Perante a urgência que se faz sentir em Portugal de editar partituras, o CIMP iniciou agora a digitalização de partituras que, passo a passo, irão sendo disponibilizadas no sítio. Esta extensão do projecto inicial, e o contínuo desenvolvimento da investigação, tratamento da informação e a sua consequente disponibilização pública, são prova do «empenho e dinamismo no sentido de garantir a continuidade e o crescimento do serviço que este centro pretende prestar, numa perspectiva de implementação coerente de um projecto com carácter de serviço público, indispensável à afirmação da cultura e da arte em Portugal e, simultaneamente, à promoção, investigação e divulgação da música portuguesa a nível internacional».

F-ire is a collective of musicians, dancers and visual artists committed to developing and sustaining creativity. We have come together to ensure, by mutual support and co-ordination, that our artistic efforts function well within the communities with which we interact.

Os gémeos Alex e Nels Cline fizeram 50 anos. Aludindo à data, os manos baterista e guitarrista improvisam pela primeira vez juntos em público, e com uma orquestra formada pelo escol da Costa Oeste dos EUA, que inclui Scott Amendola, Bobby Bradford, John Fumo, Vinny Golia e Steuart Liebig, entre outros. Notícia completa e detalhada do evento, aqui.

Não é propriamente Dialogue, a mais que provável obra-prima de Bobby Hutcherson, mas anda lá perto. Durante muito tempo andou escondido, foi avistado inicialmente em edição japonesa, esteve mais de uma dezena de anos a aguardar edição americana, apenas ocorrida em 1980, para depois mergulhar em novo hiato, a que só em 2005 a Blue Note veio pôr fim, ao incluí-lo no catálogo Rudy Van Gelder (um grande bem-haja, Rudy!), com outra capa e grafismo substancialmente melhorado. Falo de Oblique, disco em quarteto de Hutcherson, com Herbie Hancock, Albert Stinson e Joe Chambers. Gravado em 21 de Junho de 1967, Oblique inclui três composições do vibrafonista, uma de Hancock (o tema composto em 1966 para Blow Up, de Michelangelo Antonioni) e três do baterista Joe Chambers, que revela notável habilidade para o ofício da escrita musical. Não é Dialogue, dizia eu no intróito, mas combina bem o lado mais New Thing de 1965, com o modalismo de Miles Davis e John Coltrane, a latinidade e o soul jazz que viria a marcar o resto da década de 60, resultando noutro grande título de Bobby Hutcherson. Emparelha bem com Happenings, do ano anterior, o tal da capa rosa com menina ao centro, que só conheço da Blue Note japonesa. Reeditado em Agosto de 2005.
07JAN06//TREM AZUL JAZZ STORE
AA TRIGE AND FREE IMPROVISORS
Andres Velazquez_sax
Rafael Pozo_guitarra eléctrica
Miguel Benardo_clarinete
Julio Camarena_guitarra
Jesus Ramirez_tuba
Ernesto Rodrigues_violino
19h30>3euros

Dia 8 de Janeiro próximo, marcando o início da temporada do Vision Club, sediado no Clemente Soto Velez Cultural Center, 107 Suffolk St., Nova Iorque, regressa à actividade o extraordinário trio BY ANY MEANS - CHARLES GAYLE / WILLIAM PARKER / RASHIED ALI, o mesmo que gravou Touchin' on Trane para a FMP, em 1991.
«To kick off the 2006 Vision Club Season, Arts for Art is proud to announce the return of BY ANY MEANS, a supergroup featuring Charles Gayle on saxophone, William Parker on bass and Rashied Ali on drums. One of the most explosive groups of the early 1990s, the group has not performed together in nearly a decade. BY ANY MEANS had its genesis in an FMP recording made on Halloween of 1991 entitled Touchin' On Trane. The explosive record (allmusic.com calls it "The greatest John Coltrane tribute album") released in 1993».
"Free your mind and your ass will follow", a palavra de ordem de George Clinton a abrir o disco um de dois que compõem esta funktástica coleccção de 15 hits do funk man por excelência. Live & Kickin’, George Clinton & The P-Funk All Stars. Deixa cá recuperar o groove ao longo de duas horas e meia de festa. "One Nation Under A Groove". Parece que te estou a ver, George, as cores garridas da tua vestimenta, a rapaziada com os adereços a condizer, as meninas endiabradas a cantar e a dançar ... um reboliço sem nome. Um prazer para corpo e alma. Funkadelic & Parliament.

Jeff Arnall (percussão), Nate Wooley (trompete), Reuben Radding (contrabaixo), Seth Misterka (saxofone alto). Transit (Clean Feed)
A Formiga no carreiro // A Formiga no carreiro / Vinha em sentido contrário / Caiu ao Tejo / Ao pé dum septuagenário / Larpou trepou às tábuas / E de cima de uma delas / Virou-se pr’o formigueiro / Mudem de rumo / Já lá vem outro carreiro
A formiga no carreiro / Vinha em sentido diferente / Caiu à rua / No meio de toda a gente / Buliu buliu abriu âs gâmbias / Para trepar às varandas / E de cima de uma delas / Virou-se pró formigueiro / Mudem de rumo / Já lá vem outro carreiro
A formiga no carreiro / Andava à roda da vida / Caiu em cima / Duma espinhela caída / Furou furou à brava / Numa cova que ali estava / E de cima de uma delas / Virou-se pr’o formigueiro / Mudem de rumo / Já lá vem outro carreiro // José Afonso

Uma mais que curiosa incursão nos domínios aventurosos da instalação sonora moderna. Jon Brumit socorreu-se de tudo o que tinha à mão para fabricar o objecto sonoro que neste momento me está a zunir aos ouvidos. Zunir quer dizer isso mesmo, mas também significa zoar, frigir, troar, assolar, rebarbar e esgravatar com electrónica, guitarras, percussão, objectos sensorialmente irreconhecíveis mas apelativos, samples, loops, processadores sonoros vários, o diabo a quatro. Brumit sabe onde é que dói mais e carrega sem dó nem piedade. No melhor sentido da expressão. Extremista radical e niilista empedernido? Nem tanto. Talvez mais um experimentalista sonoro, iconoclasta e ruidista militante, que gosta e sabe combinar lixo sonoro de modo a criar paisagens alienígenas e, ainda assim, fortemente humanizadas. Ou não fôra esta a banda sonora de um filme intitulado Vendetta Retreat, que ainda está para ser feito, mas já é possível imaginar por onde vai seguir. O ponto é esse mesmo: Jon Brumit convida toda a gente a enviar-lhe ideias e projectos visuais que possam contribuir para a realização da grande fitassa, funcionando o disco como lebre para as ideias criativas, mais ou menos doentias, isso agora é com cada um, dependendo do estádio de evolução. Segue o aviso abaixo. Entretanto, há que ouvir o audio de Vendetta Retreat para se perceber quão intrigantemente estranho o produto sonoro é, e mais ainda, quem o ouve e gosta. Música de ambientes estranhos ou outra forma de improvisação especialmente apreciável por aqueles de nós que amam o ruído exploratório organizado. Jon Brumit - Vendetta Retreat / Motion Picture Soundtrack (Edgetone, 2005)
«If you would like to be part of VENDETTA RETREAT The Motion Picture, send in your written response to the soundtrack, or experiences real or imagined on the theme of revenge. Submissions will remain anonymous. All contributors will be listed independent of their submissions. Send MOVs or AVs up to 30 seconds in length by first visiting Jon Brumit's Web Site. Deadline for submission is July 3, 2006».

Psychicemotus. Sessão cálida de Yusef Lateef em 1965 para a Impulse!, quando nem todo o jazz que a editora gravava era necessariamente extremo e sempre a abrir. Dito por outras palavras, é disto mesmo que se trata: «Ethereal flute meditations followed by hard-driving tenor saxophone workouts. An Erik Satie composition ("First Gymnopedie") alongside a Fats Waller tune. Pieces with inscrutable titles like "Psychicemotus" and "Medula Sonata." Something unusual is going on here - but when the multi-instrumentalist Yusef Lateef is involved, the unusual is business as usual. This 1965 quartet session is vintage Lateef, as infectious and captivating as it is mysterious and uncategorizable». Com George Arvanitas, Reggie Workman e James Black.
Música & Mass Media
Quatro conferências para a Culturgest
Por Jorge Lima Barreto
4 de Janeiro – Disco
Como o disco conserva e reproduz; registo e edição. O disco-objecto, o disco como instrumento musical. Alguns discursos discográfico-musicais (ex: o hip-hop)
11 de Janeiro – Rádio
A Rádio, com um forte pendor ideológico, fez surgir uma verdadeira estética radiofónica. Nalguns casos o próprio aparelho de rádio foi assumido como instrumento (ex: Kurtzwellen, de K. Stockhausen)
18 de Janeiro – Cinema e Vídeo
Do cinema mudo, acompanhado por música, ao filme sonoro, desenvolveu-se uma estética metamusical sonoplástica de grande funcionalização (ex: Miles Davis para Fim-de-semana no Ascensor). A TV e o vídeo, como o cinema, incorporaram a música como um seu elemento artístico, surgindo várias expressões da video music.
25 de Janeiro – Multimedia
As Músicas automáticas, a Música electroacústica, a programação e a composição de Música assistida por computador. A Música e a poliarte (escultura sonora, instalação). A Música e a comunicação à distância (ex. Perfect Lives de Bob Ashley)

Don Cherry na MPS em 1968. Gravação do concerto no Berlin Jazz Festival, com Sonny Sharrock, Albert Mangelsdorff, Bert Rosengren, Karl Berger e Eje Thelin. Eternal Rhythm (parts 1 & 2). Pela tarde fora...

Atentai nesta importante missiva convidatória de Miguel Martins, conhecido percussionista e empresário da noite lisboeta, que desta feita nos interpela veementemente a assistir a um auspicioso evento musical que terá lugar amanhã, quarta-feira, dia 4 de Janeiro, ao cair das 23h30, no Luso Café. Cedo para uns, tarde para outros, o que interessa é participar na refrega.
«Ilustres Compagnons-de-Route e Anarco-Seminaristas em geral,
É com muito, mas muito, prazer que vos venho, por este meio, anunciar um evento dos maiores esplendor e grandeza: o concerto de Ano Novo do Luso Café, o qual consistirá na actuação de uma luminária da tuba jazz internacional, o magnífico, e não menos magnânimo, Oren Marshall, músico que gravou, entre muitos outros, com figuras tão diversas como Steve Swallow, o demiúrgo do baixo eléctrico, Charlie "O Sopro" Mariano, Evan "Vai Lá, Vai" Parker e o saudoso Derek Bailey (RIP).
Neste concerto participarão, também, alguns nomes cimeiros da música improvisada cá do burgo, nomeadamente Ernesto Rodrigues (violino sexy), Guilherme Rodrigues (violoncelo transcendente), Sei Miguel (pocket trumpet espanta-espíritos) e Rafael Toral (electrónica anti mau-olhado).
Este sensacional acontecimento, que promete deixar marcas indeléveis, ocorrerá, como disse, no meu modesto estabelecimento (Tv. da Queimada, 14), na quarta-feira, 4 de Janeiro, pelas 23.30, e a entrada custará uns módicos 3 Euros.
Vinde à minha beira, carago!»
Miguel Martins

Procurando não ser redutor - o que nesta matéria é assaz difícil -, da lista que se segue constam 15 dos melhores discos de jazz/improv publicados e por mim ouvidos ao longo do ano passado. A ordem é puramente arbitrária, excepto num caso: a escolher um como "o" disco de 2005, apostaria tudo no ROVA :: Orkestrova :: Electric Ascension (Atavistic).
É realmente uma obra fora de série, algo que com uma intensidade e um impacto tais que só acontece de tempos a tempos, talvez mesmo só de 40 em 40 anos... Como é o caso este ano, com a interpretação de Ascension, de John Coltrane (1965) feita pelo Rova Saxophone Quartet (Bruce Ackley, Steve Adams, Larry Ochs e Jon Raskin), Nels Cline, Fred Frith, Ikue Mori, Otomo Yoshihide, Donald Robinson e outros. Triunfo total e absoluto!
The Fonda/Stevens Group – Forever Real (482 Music)
Adam Lane Trio – Zero Degree Music (CIMP)
Alexander von Schlippenbach – Monk's Casino (Intakt)
Herb Robertson NY Downtown AllStars – Elaboration (Clean Feed)
Earl Howard – 5 Saxophone Solos (Mutable Music)
ROVA:: Orkestrova – Electric Ascension (Atavistic)The Vandermark 5 – The Color of Memory (Atavistic)
John Stevens Quartet – New Cool (EMANEM)
Rutherford/Vandermark/Müller/Dylan van der Schyff – Hoxha (Spool)
Territory Band-4 – Company Switch (Okka Disk)
John Coltrane – One Down, One Up: Live at the Half Note (Impulse!)
Triptych Myth – The Beautiful (AUM Fidelity)
Atomic – Bikini Tapes (Jazzland)
Torbjörn Zetterberg – Krissvit (Moserobie)
Barry Guy New Orchestra – Oort-Entropy (Intakt)

Nas bancas e no Jazz e Arredores, o número de Janeiro de 2006 da All About Jazz - New York:
"On the Cover: YUSEF LATEEF; Interview: ANNIE ROSS; Artist Feature: KEN VANDERMARK; Label Spotlight: ARTISTSHARE; Club Profile: ENZO'S JAZZ; Encore: GEORGE RUSSELL; Megaphone: JOEL HARRISON; Lest We Forget: HAROLD ASHBY".
Ouvi com atenção o novo disco de Vinny Golia, Sfumato, que a Clean Feed acaba de editar. Mais um tiro certeiro da editora portuguesa e outro importante título a adicionar à vasta discografia do multi-instrumentista. Fiquei muito bem impressionado com o que ouvi. Para a história ficou um grande concerto deste quarteto em Coimbra, em Junho de 2003. Aproveitando a estadia em Portugal, o grupo passou pelo ora defunto estúdio Shangri La e gravou estas nove composições originais de Vinny Golia. Que se ouve? Fundamentalmente, tudo aquilo que constitui a marca d´água de Vinny, branco do Bronx que migrou para Beverly Hills, Califórnia, e lá foi criando um body of work impressionante, como compositor, director de orquestra e instrumentista exímio que o é das famílias das flautas, clarinetes e saxofones. Mestre Golia é ainda, reconhecidamente, um especialista da combinação de timbres de sopros com cordas e percussão, um compositor e arranjador dos maiores que o jazz tem, para todo o tipo de formações, e Sfumato é outro bom exemplo dessa arte maior de swingante recombinação de polirritmia e contraponto, que trás consigo sementes de futuro.
O trompetista texano Bobby Bradford, antigo companheiro de Ornette Coleman e de John Carter; o contrabaixista Ken Filiano, que há muito trabalha com Vinny, e o baterista Alex Cline, completam o quarteto que participou no Jazz ao Centro - Encontros Internacionais de Coimbra.
Bobby Bradford deixou marca profunda no jazz norte-americano da segunda metade do século passado. Tocou com Ornette Coleman e Eric Dolphy nos anos 60, tendo integrado o quarteto do primeiro em substituição de Don Cherry. Manteve uma colaboração duradoura com o New Art Jazz Ensemble, do clarinetista John Carter, que o tornou conhecido de um público mais alargado. Desaparecido John Carter, Bobby Bradford fundou o seu próprio quarteto, o Mo’tet, que incluiu Vinny Golia e ocasionalmente Marty Ehrlich. Fez ainda parte do Spontaneous Music Ensemble, do britânico John Stevens.
Músico de primeira linha, Ken Filiano possui uma paleta musical de largo espectro, que inclui a música contemporârea, o jazz e a improvisação espontânea. Tem participado em inúmeros projectos e festivais nos EUA, Canadá, Europa e América do Sul, ao lado de Warne Marsh, Vinny Golia, Steve Adams, Barre Phillips, Bertram Turetzky, Joelle Leandre, John Carter, Bobby Bradford, RoswellRudd, Ted Dunbar, Jimmy Cleveland, Paul Smoker e o ROVA Saxophone Quartet, em paralelo com o ensino em diversas universidades americanas.
Alex Cline começou cedo a actividade criativa, inicialmente em bandas de rock, com o irmão gémeo e guitarrista, Nels Cline. Mais tarde, expandiu os seus interesses ao jazz e à new music pela mão de Vinny Golia e de Julius Hemphill, de cujo trio fez parte.
A música do quarteto de Vinny Golia evoca o jazz west coast, perfumado de blues, servido por belos uníssonos tocados pela dupla de sopradores. Música rica em subtilezas melódicas, harmónicas e rítmicas, esbate a fronteira entre composição e improvisação, dificilmente perceptível mesmo ao ouvinte mais treinado e atento. Visita os universos musicais de Anthony Braxton, Ornette Coleman e Albert Ayler, cujos sinais identitários se apresentam “esfumados” através do olhar absorvente de Vinny Golia, que evita cair na citação ou na homenagem. Por outras palavras, Sfumato é jazz que se vê ao espelho, pula e avança.