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31.12.05
 

Esta Sudden Music, que escuto noite alta da forma que penso deve ser ouvida – isto é, com máxima concentração, com baixo ruído de fundo para melhor apreender o silêncio –, talvez seja “súbita” na maneira como se expõe ou, com maior propriedade, como se insinua de forma inesperada, sem ser brusca ou intempestiva. Ernesto Rodrigues, António Chaparreiro e José Oliveira entretêm-se aqui em longas improvisações que dão o mote e o ambiente propícios ao desenvolvimento suave e vagaroso, não arrastado, da marcha dos acontecimentos. Violino e viola, guitarra, percussão e piano preparado (também há voz murmurante, não creditada). Som com furos de silêncio ou silêncios pontuados por sons delicadamente ocasionais? Depende da perspectiva, sendo válidas ambas as abordagens, espécie de positivo e negativo da fotografia sonora. A perspectiva de Ernesto Rodrigues, sobretudo no tema de abertura em que a superfície sonora é menos agitada (Round Angles and Sharp Lines), parece ter sido a de dar voz, importância primordial, ao silêncio, que é dele que tudo nasce e para onde tudo corre. Estética próxima da chamada lowercase (Steve Roden define-a como música que aguarda sossegadamente por ser descoberta, antitética da que grita para e por ser ouvida), da improvisação reducionista (ou, preferencialmente, reduzida, despojada), baseada no detalhe, na quietude, na gestão dos amplos espaços e intervalos, que não deve ser confundida com minimalismo repetitivo, posto que em Sudden Music não se reconhece uma linha contínua de progressão unidireccional assente na repetição, mas o encontrar de múltiplos acidentes na paisagem, pontos de fuga que se encontram e desencontram em diferentes planos, os detalhes projectando-se no espaço em várias dimensões. Os extremos tocam-se, e no meio, no grande arco em que o som se organiza, vive o silêncio fundacional, matéria plástica, princípio e fim. Silêncio e tensão, a mesma que aglutina os micro-fiapos sonoros e permite ao ouvinte esperar pelo som seguinte (que já lá está, só que ainda não foi ouvido, aguarda apenas que o ouvinte o descubra), interagir com ele, reflectir sobre ele, pressentir o movimento actual antes que novo som subtilmente se instale, assim deslizando suavemente ao longo dos mais de 70 minutos em que o disco nos pode encantar.
Bom trabalho dirigido por Ernesto Rodrigues. Aprecio, a par da meritória actividade editorial a que se tem vindo a dedicar (52 discos publicados até à data, desde 2000, na Creative Sources), o seu entusiasmo e a capacidade de arriscar em renovadas propostas estéticas, de juntar vontades, formar e dirigir grupos de músicos pelo puro prazer de improvisar.

Sudden Music

Ernesto Rodrigues / António Chaparreiro / José Oliveira

1. Round angles and sharp lines (16.46)
2. Something is going to happen (19.03)
3. Lateral thinking (20.17)
4. Landscape with persons and furniture (14.19)

Gravação de Dezembro de 2001, no estúdio Tcha Tcha Tcha, em Lisboa.

 
30.12.05
 

Em lugar da administração oral da costumeira dúzia de passas na noite de fim de ano, sugere-se a sua substituição pela escuta destas doze magníficas rodelas do Vandermark 5, que, começadas a ouvir à meia-noite de dia 31, chegam seguramente até manhã alta. A festa é garantida. E, ouvida durante o ano inteiro, esta dúzia de retábulos musicais de Ken Vandermark ajudará a torná-lo, se não muito feliz, pelo menos bem mais suportável. Assim desejo aos visitantes do Jazz e Arredores.

«Proof that the genius of Ken Vandermark knows no bounds -- a 12 CD box set of work that continues to delight throughout! The set documents the full 5 night stay of the Vandermark Five at the Alchemia nightclub in Cracow, Poland in 2004 -- a week that must certainly go down in the history of Polish jazz, if only for the quality of work on this set! We'll be honest in saying that we were initially very suspicious of the package -- because let's face it, 12 CDs of work from the same time by anyone might be a bit much. But we also had faith in the project as well -- because we've seen Vandermark live many times over the years, and know that his ability for continuously creative expression is far greater than most players -- not only those of his generation, but countless others than have inspired him from earlier years as well. There's a mode here that's free-thinking, yet tightly directed -- almost like Sonny Rollins at his most modern live modes, but inflected with an understanding of Albert Ayler, Roland Kirk, and Ornette Coleman -- as well as the even more important lesser-known reed expressionists from whom Vandermark has always drawn inspiration. The group's the always-solid Vandermark 5 -- with Kent Kessler on bass, Tim Daisy on drums, Jeb Bishop on trombone, and Dave Rempis on additional saxophones -- and the recording quality of the set is quite strong as well -- just enough "room" to recreate the live feel of the set, but nicely controlled recording of additional space and sounds to maintain the power of a studio CD. The package is limited and numbered -- and packaged in a really unique way! Each cover has a different image, too!»

 
 

Da farta fornada das edições deste ano da Clean Feed, numa escolha difícil porque muitos foram os pontos altos do trabalho editorial de Pedro Costa, Hernâni Faustino e Ilídio Nunes, considerei Elaboration, do trompetista Herb Robertson, aquele que, para meu gosto, foi o melhor, o mais sólido e elaborado disco que a editora portuguesa lançou em 2005. Escolha tanto mais difícil, quanto me “obrigou” a preterir discos com a valia estética e artística de Idle Wild, de Dennis González com o grupo Spirit Meridian, ou deste Townorchestrahouse, que traduz a estreia discográfica enquanto líder do percussionista norueguês Paal Nilssen-Love, num set em quarteto, com Evan Parker (saxofones tenor e soprano), Sten Sandell (piano) e Ingebrigt Håker Flaten (contrabaixo).
Townorchestrahouse: palavra composta que funde os títulos dos três temas do disco. Gravado ao vivo na Noruega durante uma actuação do grupo no Kongsberg Jazzfestival de 2002, o álbum apresenta duas longas improvisações (32’ e 29’), e uma terceira, mais curta (8’) mas não menos intensa. Evan Parker, o veterano da sessão, tem honras de abertura de Town em saxofone tenor, instrumento cuja linguagem tem vindo a reformular ao longo das últimas décadas, facto que, porventura, cauciona a sua autoridade para, de modo natural, definir o padrão estético da improvisação logo às primeiras movimentações.
Conquistada Town pelo denodo de mestre Parker, passa-se à segunda peça, Orchestra, improviso em que Nilssen-Love concede a Sandell espaço mais alargado e o ensejo de trabalhar com cores mais imediatamente referenciáveis a Cecil Taylor, permitindo-lhe posicionar a sua arte algures entre a de Alexander von Schlippenbach e a de Irène Schweizer.
A marca principal de Orchestra, peça de brilhante construção, na forma como tece a apertada urdidura das teclas do piano com as chaves do saxofone soprano, é dada pela característica liquidez do piano de Sandell, a correr saltitante pela encosta abaixo, como um rio que só pára quando encontra o mar.
Para o ambiente exploratório geral contribui em muito o delicado trabalho do baterista, a mão certa para este tipo de estruturação instantânea, coadjuvado nas cordas por Håker Flaten, com quem habitualmente partilha tarefas em grupos como o Scorch Trio, ou The Thing, com Mats Gustafsson.
Em House, a fechar a contenda, Evan Parker retoma a voz de tenor para uma extraordinária sequência de frases, entrecortando o seu personalizado lirismo com as erupções de energia que lhe são características. Na lógica de desenvolvimento do disco, este último tema surge qual síntese dos dois anteriores, a súmula do entendimento que os quatro músicos têm do que é a moderna música improvisada, que é simultaneamente o tomar de pulso ao contributo europeu para evolução do género. Esta é uma música substancial que se descobre a cada nova audição.
Paal Nilssen-Love Quartet - Townorchestrahouse (Clean Feed, 2005)

 
29.12.05
 


Tive o ensejo de ouvir a master do disco de estreia do Wishful Thinking, quinteto de Alípio Carvalho Neto, Alex Maguire, Johannes Krieger, Ricardo Freitas e Rui Gonçalves. The Book of Complaints é (vais ser) um excelente disco, só vos digo. Depois de ter assistido à actuação ao vivo deste quinteto de bravos improvisadores, fiquei curioso de conhecer o resultado do trabalho em estúdio, o qual, constato agora, excedeu em muito as minhas expectativas. No mundo do jazz actual, saturado de propostas revivalistas e obedientes a um determinado figurino, Alípio e seus rapazes conseguiram encontrar um caminho original para afirmar a riqueza da sua música espontânea, inteligente e energética. O disco vai sair dentro em breve na Clean Feed.

 
 
Meteu baixa prolongada, demorou que tempos a reformular, mas a espera valeu a pena: a página de Ken Vandermark está novamente activa. Estreou há dias com nova configuração e enorme manancial de recursos formativos e informativos. Além das secções que habitualmente se podem encontrar nas páginas web de músicos, há as "Musicians Perspectives", entrevistas com os músicos da companhia (H. Drake, P. Brötzmann, P. Lytton, M. Zerang, E. Parker, algumas delas realizadas pelo próprio Ken Vandermark), nas quais se inclui um longo texto sobre Jimmy Giufre, e uma espécie de diário ("Notes From the Field") que recolhe impressões pessoais do músico durante as digressões dos múltiplos projectos que tem em marcha. "In Rotation", permite saber o que é que KV tem andado a ouvir ultimamente.

 
28.12.05
 
A melhor homenagem que se pode fazer a Derek Bailey, fá-la a rádio norte-americana WFMU (região de Nova Iorque), disponibilizando para audição online e eventual descarga para o disco, três horas de puro encantamento baileyano.

 
 
29.12.05///22h00

SEI MIGUEL SPECIAL ATMOS CREW
Sei Miguel (Trompete de Bolso); Fala Mariam (Trombone Alto); Adriana Sá (Cítara Paulistana); César Burago (Percussão); Manuel Mota (Guitarra); Pedro Lourenço (Baixo);
Rafael Toral (Echo Feedback)

+ RICARDO SALÓ (DJ Set)

LEFT
Largo Vitorino Damásio 3F, Santos
Lisboa


 
27.12.05
 

A notícia irrompeu com a brutalidade das coisas tristes que não se anunciam previamente: Morreu Derek Bailey. Desapareceu o poeta, mestre da música improvisada; o artista/teórico/praticante da chamada nova improvisação; o expoente da guitarra eléctrica e acústica; o músico que libertou a abordagem do instrumento dos vários academismos que sobre ele pesavam. Mais do que um inventor de técnicas não convencionais de execução e de expressão, que também o foi, Bailey criou o seu próprio sistema musical, uma característica linguagem personalizada, inconfundível, carregada de novas invenções e de técnicas radicalmente diversas das tradicionais. Ele foi o libertador radical que elevou o padrão da guitarra a um novo patamar técnico e de refinada abstracção poética, tornando válida a referência a um “Antes de Bailey” e a um “Depois de Bailey”.
Nacido a 29 de Janeiro de 1930, Sheffield, Inglaterra, Derek Bailey iniciou os estudos de música na década de 40. Nos anos 50 trabalhou como guitarrista profissional, como solista e acompanhante, procurando tocar em todo o tipo de espaços, como clubes de jazz, salas de concerto, dando os primeiros passos nos estúdios de gravação, de rádio e TV. Na década de 60 interessa-se particularmente pela música livremente improvisada. Procura associar-se a outros músicos com idêntica curiosidade. É então que conhece John Stevens, músico britânico com o qual tocou dentro e fora do Spontaneous Music Ensemble, e contribuiu de forma decisiva para a emencipação do música improvisada europeia da genealogia do jazz, criando um corpo e um espírito próprios, espaço onde se jogaram algumas das mais importantes experiências musicais da segunda metade do Séc. XX.
Em meados da década de 60, Bailey vive um período de transição artística, o último em que tocaria as suas próprias composições escritas, marcadamente influenciadas por Anton Webern (1883-1945), compositor da Segunda Escola de Viena, cuja inspiração o haveria de marcar e impelir à investigação sonora e à invenção técnica, que viriam a fazer dele o mais original e respeitado dos guitarristas.
Na década de 70, Bailey foi novamente pioneiro, ao fundar Evan Parker e Tony Oxley aquela que viria a ser a primeira editora independente britânica dirigida por músicos, a Incus Records. Seguiu-se, em 1976, a formação da Company, um colectivo de improvisadores de várias partes do mundo, e deu origem à famosa Company Week, um evento anual de música livremente improvisada que passou a ter lugar em Londres, modelo posteriormente exportado para Nova Iorque e Hakushu, no Japão. Com Barry Guy e Paul Rutherford integrou ainda o trio de improvisação Iskra 1903.
Durante os anos seguintes, Bailey desdobrou-se em concertos por todo o mundo, tocando com toda a gente da música improvisada, gravando mais de 100 discos com as formações mais insuspeitas e de diferentes géneros musicais, aprofundando o género multiforme que fez evoluir. Em permanente inquietação criativa, o trabalho do guitarrista resultou na mais rica e variada das linguagens musicais, com que produziu novos timbres e uma sintaxe constantemente redefinida, na busca de uma noção que Bailey sempre perseguiu: a espontaneidade. Em 1992 publicou Musical Improvisation: Its nature and Practice in Music, obra essencial para compreender o fenómeno ali tratado.
Barry Guy, Paul Rutherford, Cecil Taylor, Pat Metheny, John Zorn, John Stevens, Evan Parker, Dave Holland, Alex Ward, Lee Konitz, George Lewis, Agusti Fernandez, Lol Coxhill, Han Bennink, Wadada Leo Smith, Tristan Honsinger, Steve Beresford, Louis Moholo, DJ Ninj, Mick Beck, Paul Hession, foram alguns dos muitos músicos que com ele tocaram e aumentaram a já vastíssima obra como solista.
Cidadão do mundo, Derek Bailey vivia desde finais de 2003 em Barcelona, deslocando‑se frequentemente a Nova Iorque, Tokyo e Londres, cidade onde mantinha residência e veio a falecer no dia 25 de Dezembro de 2005. Vítima de doença que o acometera havia pouco mais de um ano, aos 75 desapareceu Derek Bailey, um dos nomes mais importantes e carismáticos da improvisação do Séc. XX.

 
26.12.05
 

Derek Bailey (1930-2005)

Triste notícia, que nos apanha de chofre no meio das Festas: acabo que saber pelo amigo Juan Barranco, que ontem, 25 de Dezembro, morreu Derek Bailey. RIP.
Funeral e cremação terão lugar dentro de uma semana. Em Nova Iorque, John Zorn está a organizar um concerto em memória de Bailey.

«Derek Bailey is one of the most enigmatic figures free improvisation has produced. His impenetrably charismatic music might only be matched by pianist Cecil Taylor (with whom he’s performed some remarkable duets). As one of the founders of Incus Records and a fixture on the European and international scene, he’s been a central part of the development of free music in the post-Coltrane years. His work to divorce improvisation from the jazz language even led him to write a remarkable book, Improvisation: Its Nature and Practice.
His evocative guitar work grew from playing conventional jazz guitar in the 1950s, and in the ’60s was a part of two seminal British free music groups: Joseph Holbrooks (with drummer Tony Oxley and bassist Gavin Bryars) and the Spontaneous Music Ensemble (initially with saxophonist Trevor Watts and drummer John Stevens, the group later included saxophonist Evan Parker, trumpeter Kenny Wheeler and bassist Dave Holland). A tireless nature has led him to work not only with many of the most important figures in experimental and innovative music (Anthony Braxton, Han Bennink, Steve Lacy, George Lewis, John Zorn, Joelle Leandre, Ikue Mori, Pat Metheny and Susie Ibarra, to name but a few), but to find such projects as working with drum’n’bass mixer DJ Ninj, reading poetry and letters while accompanying himself with impressionistic guitar sounds and doing concerts with a tap dancer. Bailey is an explorer and an innovator, restless and rewarding».

“I've always liked the effect of having somebody in there who hadn't the faintest idea what was going on”.

 
24.12.05
 


"Junto a minha voz à daqueles camaradas, fazendo minhas as suas palavras. E não se esqueçam: neste Natal todo o silêncio é musical".

 
 


"Já agora, eu também gostaria de desejar um Feliz Natal a todos os motherfuckers aí em baixo. E que não lhes falte Tities & Beer!".

 
23.12.05
 


"Se a gente não se vir antes, Boas Festas desde Saturno!"

 
22.12.05
  John Hollenbeck em 2002, de passagem pelo Guimarães Jazz.



John Hollenbeck é baterista e compositor do Claudia Quintet e do John Hollenbeck Large Ensemble. O seu trabalho de compositor tem alcançado grande notoriedade, e vindo a ser reconhecido por músicos como Bob Brookmeyer e John McNeely. Hollenbeck colabora habitualmente com Meredith Monk, Cuong Vu e David Krakauer. Foram editados Semi-Formal, do Claudia Quintet, pela Cuneiform Records, e John Hollenbeck Large Ensemble: A Blessing, na Omnitone.
À conversa com Hernâni Faustino.

Hernâni Faustino – O teu trabalho no jazz é bastante abrangente, colaboras com o Achim Kaufmann, Bob Brookmeyer, mas também na música contemporânea, com Meredith Monk. Como é que aconteceu esta interacção como baterista?
John Hollenbeck – Quando era jovem não gostava só de um género musical, gravava cassetes com o que mais gostava nos vários géneros musicais, fazia várias colectâneas. Talvez venha daí a minha apetência pela variedade na música. Mas o jazz sempre teve um grande impacto na minha formação como músico; estudei música clássica, conheci uns amigos brasileiros que me introduziram a novos ritmos, tenho amigos que ouvem muito rock....
HF – A bateria é o teu instrumento de eleição?
JH – A bateria, e o vibrafone; um pouco de piano, bem como outros instrumentos de percussão. Eu estudei percussão clássica, tocava em orquestras... mas, viver em Nova Iorque proporciona várias exposições, toquei klezmer, música argentina e brasileira. A minha música reflecte todas estas experiências.
HF – Lideras três projectos diferentes. Podes falar um pouco sobre eles?
JH – O Claudia Quintet tem uma formação com acordeão, vibrafone, clarinete, baixo e bateria. Tocamos muito e fazemos digressões pelos E.U.A. A música que criamos é muito rítmica, e tentamos uma mistura entre o funk e...coisas do tipo Martin, Medeski & Wood, Radiohead e a música electrónica. Sendo um grupo essencialmente acústico, tem muita improvisação, embora o material seja maioritariamente escrito.
HF – Porquê o nome Claudia?
JH
– Eu tinha um grupo com um acordeonista e um baixista, tocávamos todas as segundas-feiras. Ao princípio, apareceu uma rapariga muito entusiasmada com a música e a dizer que viria todas as semanas, que traria os amigos, etc. Eu acreditei, mas ela nunca mais apareceu. O nome dela era Claudia... decidi chamar o grupo de Claudia Quintet, é como uma piada, eu adoro os nomes de mulheres, já existe muito macho-man no jazz e eu gosto muitas das qualidades femininas, e de as traduzir em parte através do Claudia Quintet. O som do grupo é muito soft, clarinete, vibrafone e acordeão, é sempre muito gracioso.
O Quartet Lucy tem a colaboração do cantor germânico Theo Bleckmann, e o baixista Skuli Sverrisson, esta música é mais ambiental e melódica, é um grupo com o qual tenho imenso prazer em tocar.
No Images é um grupo mais masculino, e as pessoas envolvidas tem uma relação com o free jazz, a formação tem três saxofonistas e bateria, três trombones e bateria, duetos com Ellery Eskelin e com David Liebman. Obviamente que No Images não é uma banda, foi um projecto que eu gostei muito de fazer, a única peça que continuo a tocar chama-se The Drum Major Instinct, onde uso um discurso de Martin Luther King, Jr.. A peça foi escrita para dois trombones e bateria. No disco, os trombonistas foram o Ray Anderson e o Dave Taylor...
HF – Achas que as mulheres que tocam jazz têm uma sonoridade e uma linguagem diferente da dos homens?
JH – Não sei...acho que não...é muito dificil de dizer, às vezes ouvimos mulheres a tocar que conseguimos identificar, como a Marilyn Crispell ou a Susie Ibarra....mas acho que não é por serem mulheres, mas sim pelo que são como criadoras.
Na música é muito dificil ser-se afável; o grupo do Achim Kaufmann, que tocou no Festival de Guimarães, produz uma música muito doce e melódica, mas por vezes também se torna complicado para o público, que está mais preparado para ouvir outro tipo de música, mais imediata....
HF – É complicado trabalhar com o Achim?
JH – Não. É preciso trabalhar muito os temas, porque a escrita do Achim é dificil e ele gosta que sejamos muito criativos quando improvisamos.
HF – Como é que vês o panorama actual em Nova Iorque.É fácil sobreviver como músico?
JH – Hoje em dia as coisas estão muito difíceis. Nova Iorque continua a ser um local privilegiado para quem queira contactar com outros músicos, mas não existe muito trabalho, a maioria tem que tocar na Europa. É uma cidade fantástica e quase todos os grandes músicos passam por lá, podemos tocar juntos, etc. Fiz uma digressão de duas semanas com o Claudia Quintet, o que é um verdadeiro milagre, dadas as circunstâncias... mas parece que as coisas começam a melhorar, o ideal é tocar na Europa.
HF – Qual o baterista que mais te influenciou?
JH – São vários, gosto praticamente de todos...
HF – Podes falar um pouco sobre o duo com Theo Bleckmann?
JH – O Theo usa electrónica, loopings e efeitos, a música é toda ela improvisada, mas tentamos que pareça uma composição com um efeito visual. Eu e o Theo temos em comum a procura por sons estranhos. A percussão e a voz foram provavelmente os primeiros instrumentos do Homem. Tentamos fazer uma abordagem ao aspecto primitivo da música.
HF – Como é que começaste a tocar com a Meredith Monk?
JH – A Meredith costumava tocar com o percussionista Collin Walcott, que morreu num acidente de automóvel quando estava em digressão com os Oregon. Depois da morte de Walcott, ela nunca mais usou percussão na sua música, embora a tenha tornado mais percussiva. Entretanto, Theo começou a trabalhar com Meredith, e ela comentou que talvez estivesse interessada em voltar a ter um percussionista no seu grupo, mas que queria ter a pessoa indicada. Foi então que o Theo me recomendou. Fui a um ensaio, ela gostou da minha colecção de percussões e da minha forma de tocar. O trabalho da Meredith é praticamente todo improvisado, ela grava e depois escolhe o que mais gosta e a partir daí nasce o trabalho específico sobre cada peça. Eu tenho praticamente carta branca para fazer o que quero, gosto muito de trabalhar com ela, os seus conceitos são muito diferentes dos conceitos dos músicos de jazz, a música é muito emotiva e aberta. A primeira vez que toquei no ensaio, ela lembrou-se do Collin Walcott, emocionou-se e chorou. Nunca conheci ninguém como a Meredith, ela é um ser humano fantástico.
HF – Porque é que recorres tanto a brinquedos sonoros?
JH – Eu gosto muito dos sons dos brinquedos, não por serem engraçados, mas por resultarem bem na minha música, e sempre com alguma discrição.
HF – As pessoas no fim do concerto do Achim, acharam que eras muito parecido com o Jim Black? O que pensas disso?
JH – Gosto muito do Jim, mas tento não ouvir muito as coisas que ele faz. É um baterista incrível e adoro a sua forma de tocar, toca muito com o meu amigo Chris Speed. É muito boa pessoa e tem uma cultura muito virada para o rock, enquanto a minha cultura vem mais do jazz e da música clássica. O meu trabalho é mais vocacionado para a composição, enquanto o Jim é basicamente um baterista. O Jim nunca faz aquilo que estamos a espera, é sempre uma surpresa.
HF – E o Joey Baron?
JH – Ele foi muito importante para mim. Somos muito parecidos, tocámos straight ahead jazz e big bands durante muito tempo. Conheci-o quando ele começou a tocar com Bill Frisell e John Zorn, e a afastar-se da maneira convencional de tocar jazz. É claro que esta viragem teve uma grande influência no meu desenvolvimento como baterista. Adorei o seu primeiro trabalho com o grupo Barondown, Ellery Eskelin e Steve Swell. Ele usa sons secos e curtos, e isso torna a música muito mais limpa.
HF – Achas que a audiencia europeia é diferente da norte americana?
JH – A audiencia nos EUA é mais pequena, mas muito educada, na Europa as pessoas vão ver quase tudo, tem maior curiosidade em assistir a concertos de músicos que nunca ouviram falar.

Hernâni Faustino

 
 

Forever Real, nesta altura, deve ser o mais recente do Fonda/Stevens Group. Digo isto porque a gravação é de Abril deste ano, e o grupo não costuma lançar mais de um disco em cada 12 meses. Assim tem sido praticamente desde 1996. A propósito de outro disco, 12 Improvisations (Leo Records), escreveu Rui Eduardo Pais: «Esta música pode ser popular e urbana, mas estudou os “eruditos” e os “primitivos” e confronta-os com o seu próprio vocabulário». Concordo em absoluto. O Fonda/Stevens Group é muito mais que um simples combo a actuar nessa vasta área que é o post-bop dos dias de hoje. O Fonda/Stevens Group é muito mais que um simples combo a actuar nessa vasta área que é o post-bop dos dias de hoje. Tal como o Mosaic Sextet, em que também participam Dave Douglas, Mark Feldman e Michael Rabinowitz, este outro grupo de Joe Fonda e Michael Jefry Stevens vai à composição contemporânea buscar muito do seu fulgor criativo, que reinventa em novos movimentos e combinações, corredores largos por onde circula uma refrescante atmosfera jazzística. Algo que também se pode encontrar na música de John Law ou de John Wolf Brennan, para citar dois grandes pianistas e compositores da actualidade. Noutra parte – e este é um dos grande trunfos de Forever Real – é perfeito o entendimento do pianista Michael Jefry Stevens com Herb Robertson, que faz quase tudo o que é possível com o trompete e encontra sempre a solução certa para os intrincados problemas que Stevens lhe põe a cada passo. Joe Fonda, que assina metade das composições, e Harvey Sorgen, apoiam com a costumada segurança e savoir faire, lançando o grupo em sofisticadas deambulações pelos caminhos novos do jazz moderno. Outra particularidade de Forever Real é a inclusão do hip-hopper Napoleon Maddox, em “human beat-box e poetry”. Pontual, sóbrio e discreto, Maddox não acrescenta nem incomoda; antes dá um toque especioso à mistura, um certo tempero urbano que não desmerece o interesse e a curiosidade do ouvinte. De impressionante bom gosto, esta é uma das melhores colheitas Fonda/Stevens dos últimos anos, e um dos grandes discos deste que ora finda. Aprecia-se melhor em audições frequentes e repetidas.
Fonda/Stevens Group - Forever Real (482 Music)


 
21.12.05
 
Ganelin Trio: Vyacheslav Ganelin, piano e sintetizador (um Yamaha, instrumento que o pianista experimentara pela primeira vez imediatamente antes do concerto); Vladimir Chekasin, saxofones; e Vladimir Tarasov, bateria. Ttaango...In Nickelsdorf foi gravado ao vivo na cidade austríaca de Nickelsdorf em 1985, no final da digressão austro-germânica que o trio empreendeu, e em que ocorreram as peripécias e dificuldades próprias de um tempo anterior à queda do Muro de Berlim, contadas nas notas ao disco pelo produtor Leo Feigin. O disco compõe-se de duas longas improvisações (42’ e 38’, mais os encores que tiveram que ficar de fora da edição original, num total de 30’, e que incluem os clássicos Mack The Knife e Summertime). O melhor do Ganelin Trio ao vivo; a beleza da intersecção entre clássica, folk, jazz e improvisação livre, incríveis mudanças de cor e intensidade, como só este trio soviético era capaz de fazer. Editado em 1986 pela Leo Records em duplo LP (500 exemplares), foi reeditado em CD em 2002. Têm sido feitas comparações entre este trio e o de Cecil Taylor, Jimmy Lyons e Sonny Murray, da década de 60. Reconhecem-se similitudes nalguns aspectos mais superficiais, pese embora a profunda marca europeia do Ganelin Trio, o que mais profundamente o distingue de qualquer outra formação.

In Nickelsdorf - 42:40; Ttaango - 38:57; Mack The Knife (Kurt Weill) - 5:27; Umtza Umtza (Ganelin) - 10:16; End Of Story (Ganelin) - 2:55; Summertime (Gershwin) - 10:40.

 
 
Trinta e dois críticos membros da norte-americana Jazz Journalists Association (JJA), como é hábito nesta altura do ano, elaboraram as listas com os 10 melhores discos de 2005, reflectindo o gosto eclético e variado dos seus autores.

 
20.12.05
 


Mais um LP de Sun Ra a sair da sombra. Este The Night of the Purple Moon (Saturn LP 522) data dos inícios de 70 (data provável, 1970, originalmente publicado pela El Saturn em 1973) e exibe o lado mais electrónico dos teclados de Ra. Neste caso, em Moog e Rocksichord, dois instrumentos da vasta família de dispositivos que utilizou ao longo de décadas de actividade. A Sun Ra Arkestra (aqui na versão Intergalatic Infinity Arkestra) com o pezinho a puxar para o funk, episodicamente reduzida a quarteto, com John Gilmore (saxofone tenor e percussão), Danny Davis (saxofone alto, flauta, clarinete e percussão) e Stafford James (baixo eléctrico). Reedição em LP. Disco macio, habitualmente referenciado como uma boa porta de entrada no universo de Sun Ra. Uma entre muitas.

 
  Spoonful

It could be a spoonful of diamonds,
Could be a spoonful of gold,
Just a little spoon of your precious love,
Satisfies my soul.

Men lies about little,
Some of them cries about little,
Some of them dies about little,
Everything fight about little spoonful.

It could be a spoonful of coffee,
Could be a spoonful of tea,
But a little spoon of your precious love,
Good enough for me.

It could be a spoonsful of water,
Saved from the deserts sand,
But one spoon of them fortifies.
Save you from another man.

Canta Howlin´ Wolf. A versão dos Cream (Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker) em Wheels of Fire (1968) é de estalo!

 
19.12.05
  Vision Club, By Any Means

Olhem esta... o Vision Club regressa em Janeiro com... By Any Means!!!

Charles Gayle / William Parker / Rashied Ali
Sunday, January 8, 2006
The Vision Club Series 2006


THE RETURN OF CHARLES GAYLE / WILLIAM PARKER / RASHIED ALI

«To kick off the 2006 Vision Club Season, Arts for Art is proud to announce the return of BY ANY MEANS, a supergroup featuring Charles Gayle on saxophon
e, William Parker on bass and Rashied Ali on drums. One of the most explosive groups of the early 1990s, the group has not performed together in nearly a decade. They will appear for two performances only, in the afternoon of Sunday January 8th at the Clemente Velez Cultural Center at 107 Suffolk St.
BY ANY MEANS had its genesis in an FMP recording made on Halloween of 1991 entitled Touchin’ On Trane. The explosive record (allmusic.com calls it "The greatest John Coltrane tribute album") was released in 1993 and garnered high praise among critics and fans. It remains an impressive display of the virtuosity of all three musicians - a testament to the power of improvised music when played by
its greatest masters. For the next three years, the group performed frequently in New York and was in high demand in the European festival circuit. In 1994 the group played at George Wein’s usually conservative JVC Jazz festival at an outdoor performance at Damrosch Park (although, the group¹s set was cut tragically short when the impresario decided he was not in the mood for free music on that day).
The group’s final performances came in a European tour in April of 1996. While all three masters have gone on to lead their own acclaimed groups, the world has now been deprived of hearing the collective power of the three for nearly ten years. The Vision Club Series is proud to bring them back for this one-time-on
ly event.
The concert will
mark the beginning of the 2006 season of the Vision Club Series - an ongoing series of intimate AvantJazz presentations which began in February of 2004. For the 2006 edition, Arts for Art, Inc. has decided to move the performances to Sunday afternoons in an attempt to encourage family involvement and a more relaxed community-oriented atmosphere centered around groundbreaking musical performances».
(Fotos: Daniel Yang © 1997)


 
17.12.05
 
Ernesto, Manuel, Alípio, Guilherme e Elsa, ao vivo na Trem Azul

Concerto na Trem Azul Jazz Store. Programado para as 19h30 de 16 de Dezembro, estava o sexteto de Ernesto Rodrigues, passado circunstancialmente a quinteto por impossibilidade prática de participação de Sei Miguel. Com Ernesto Rodrigues (viola, violino) alinharam Manuel Mota (guitarra eléctrica); Alípio Carvalho Neto (saxofone tenor); Guilherme Rodrigues (violoncelo, trompete de bolso) e Elsa Vandeweyer (vibrafone, percussão). Músicos que colocaram cá fora todo o seu potencial, no puro prazer da alma que é dar e receber – tudo aquilo que o diferencia do “negócio” corrente, o deve e haver da hodierna mediocridade contabilística. Sons mil correram de um lado para o outro em aparente auto-gestão. Difícil é tornar isto num sistema, uma linguagem articulada e compreensível. Mais ainda, quando o verbo nasce, projecta-se e interage com os outros, tudo no mesmo momento, que já é passado ainda mal se esboçou. O quinteto soube fazê-lo com sagacidade, dando ao som um corpo, sangue, ossos, músculos, pele e vida própria. O todo, sinergeticamente, foi superior à soma das partes, numa alegoria de sociedade em rede, na qual a comunicação multipolar circula em todos os sentidos, sem um centro tonal ou difusor para além da direcção e das vozes que lhe atribuem o sentido de ente organizado. É a auto-regulação que põe ordem na comunidade específica de discursos e registos, diferentes na sua singularidade, os quais, para se entenderem entre si e fazerem-se entender pelo público, têm que falar um dialecto comum. E falaram.
Free jazz, entendido como outro jazz, tocado hoje por músicos versados em vários léxicos, poliglotas musicais que se inspiram em todo o material sonoro que transportam em si, no momento e na memória. Memória do jazz, tal qual ele se praticou sobretudo desde a década de 60 para cá, da improvisação liberta dos acordes ou inspirada na New Thing, que já não tem a ver com esse processo histórico, mas que dele herdou a liberdade de escolha de métodos, formas, conteúdos, práticas e caminhos, que ajudam à sua compreensão, na medida em que todos os sons são válidos, desde que cageanamente integrados coerentemente no discurso principal. Esta é pois uma prática musical que assenta 100% no imediato, a arte em movimento à procura de algo diferente do que já existe.
Assistir em directo ao desenvolvimento desta música é um desafio que poucos querem permitir-se a si próprios: o de tentar compreender e apreender como é que uma forma de arte evolui de dia para dia, ver o filme (imagens em movimento) em vez da fotografia (imagem estática), que apenas capta o momento único e irrepetível. Sentir a entrega generosa dos artistas, o quanto eles nos querem dar sem nada receber em troca, excluindo a nossa atenção concentrada e o aplauso final. É o desígnio destes mprovisadores que trabalham para manter a chama acesa, convocando-nos para participar activamente no processo criativo, parte do incessante devir que é a vida e a criação artística.
Neste sentido, por tudo isto e pelo mais que é indizível, foi um privilégio assistir à actuação do quinteto liderado por Ernesto Rodrigues, com Manuel Mota, Alípio Carvalho Neto, Guilherme Rodrigues e Elsa Vandeweyer. Espantosa interacção das cordas (Mota a tocar mais alto do lhe costumo ouvir, com um som sólido, potente e granulado, que contrasta bem com a macieza das cordas da viola de Ernesto Rodrigues); Alípio e meter-se bem pelo meio, driblando com o sax tenor potente e volumoso de sempre, na pele de hábil promotor das dinâmicas do grupo. Do outro lado, na ponta esquerda, Vanderweyer alternava entre ataques de percussão marcial e maviosas sonoridades do vibrafone, até encontrar um ponto de equilíbrio entre os dois polos. Guilherme Rodrigues, jovem talentoso possuidor duma rodagem muito considerável, primou nas cordas do violoncelo (que belo som!). Em pocket trumpet lançou clarões de luz para o meio da refrega, picando Alípio C. Neto para um mano-a-mano que atingiu proporções de cuja possibilidade não suspeitaria. Em muito reforçaram essa misteriosa relação entre o que é da dimensão humana e o que pertence à outra, a cósmica, numa predisposição espiritual de intemporalidade que celebra o gosto de criar e de estar vivo em toda a parte.
Música inquietante, expressionista, doce e agressiva, absurdamente grotesca por vezes, angélica noutras – a mesma matéria-prima inerente à condição humana – que não pretende empatizar à superfície, mas causar incómodo bastante para desinquietar e desinstalar as consciências, algumas delas adormecidas por 100 anos de Jazz.

Numa segunda parte, um jantar e três horas depois, na intimidade dos poucos e resistentes circunstantes, tocaram Inês Almeida, violino e viola; Pedro Costa, violino, violoncelo e guitarra eléctrica; Manuel Mota, guitarra eléctrica e viola; Hernâni Faustino, violoncelo; Abdul Moimême, pocket trumpet e guitarra; Travassos, crackle box; e, perdoe-se-me a imodéstia, as grandes revelações da madrugada: Lizuarte “Li Cherry” Borges, magnífico em trompete de bolso; e, para grande surpresa minha, Eduardo Chagas, em crackle box e violino. Sem palavras, mas com muito amor à música.

 
 


Hoje à noite (21h30), em Lisboa (Igreja de S. Domingos, ao Rossio), a ORQUESTRA METROPOLITANA DE LISBOA e o Coro Ricercare (Angélica Neto, soprano) executam, de Eurico Carrapatoso, Magnificat em Talha Dourada.
 
 

Parece que a data é definitiva: 27 de Dezembro. Sofrei, milesianos, sofrei, que essa é a vossa condição. Mais ainda se o vosso/nosso sofrimento está prestes a aumentar, quando virdes/virmos o preço que a caixa vai atingir. Que puta de vida esta!

 
 

Newsletter de Dezembro. Downtown Music Gallery, NYC.

 
 


Travelling the spaceways with Sun Ra Arkestra on board the Lula's Lounge, Toronto, October 20
, 2005
. Interessante colecção de tags e fotos de TeledyN, publicadas no flickr.

 
 


Triptych Myth, The Beautiful (AUM Fidelity). Cooper-Moore (anteriormente conhecido por Gene Y Ashton), piano; Tom Abbs, contrabaixo; Chad Taylor, bateria. Cooper-Moore, homem de muitos ofícios instrumentais e variados recursos estilísticos, a propender para um estilo mais aberto e formalmente livre, arma-se de novos materiais melódicos, redefine a noção de tema e de swing, evoluindo a partir do que se reconhece como tradicional, no seu espectro mais abrangente.
The Beautiful é ponto de partida para o alinhamento das ideias que Cooper-Moore tem vindo a desenvolver ao longo dos últimos 30 anos, influenciadas pelo trabalho em produções teatrais e de dança. Baladas (Frida K. The Beautiful, dedicada à pintora e activista mexicana Frida Kahlo, é uma pequena obra-prima), valsas e abstracções poéticas free convivem com máxima adaptação e flexibilidade num canto único que se reparte por dez composições originais, seis de Moore, duas de Chad Taylor, uma de Tom Abbs e outra do trio.
Impressiona a sensação de movimento pacificador que sai das mãos de Copper-Moore; Tom Abbs toca o contrabaixo na sua totalidade física e emocional, Chad Taylor eleva a parada rítmica ao ponto certo, como já o haviam feito no disco anterior, editado pela Hopscotch Records. Este Triptych Myth, o Full-Blown Trio de Dave Burrell, e o outro recente de Jamie Saft, com Greg Cohen e Ben Perowsky (Book of Angels Vol. 1, Jamie Saft Trio Plays Masada Book Two, Tzadik), são três obras importantes no continuum de renovação e restruturação do piano-trio, que inclui o passado, o presente e o futuro de uma das fórmulas mais trabalhadas do jazz, que já vinha penosamente a dar sinais de preocupante esgotamento. Em particular, este The Beautiful é um marco importante nesse processo; além de ser uma delícia de disco, que perdurará no tempo e ficará seguramente como um dos momentos mais altos da arte do trio neste início de século. Boa notícia é também o facto de esta ser a primeira de três edições que o Triptych Myth fará para a AUM Fidelity. Assim os deuses os inspirem, como generosamente o fizeram desta vez. Por isso lhes devemos agradecer, também.
Finalmente, breve referência às notas que William Parker escreveu para o disco, que expõem uma visão pessoal sobre o papel da música improvisada nos dias de hoje. «Drop this CD over Iraq, Mister Bush» – pede WP, depois de sublinhar as qualidades regenerativas e bem-fazejas para a saúde individual e da Humanidade no seu conjunto. «If this CD only sells one copy, the music has done more good then we could real know».

 
16.12.05
 
Hoje, sexta-feira, 16 do 12, às 19h30,
na Trem Azul:
Ernesto Rodrigues_violino, viola
Manuel Mota_guitarra eléctrica
Alípio Carvalho Neto_saxofone tenor
Elsa Vandeweyer_vibrafone
Sei Miguel_trompete de bolso
Guilherme Rodrigues_violoncelo



 
 

Zappa, Frank - Kongresshaus, Zürich - 12 de Março de 1976

 
  Booker Ervin, Structurally Sound

Este disco de Booker Ervin (1930-1970) para a Blue Note vem na sequência da série de Books que o saxofonista texano gravou para a Prestige na primeira metade da década de 60. Booker há muito que merecia a atenção daquela que era a mais influente marca de discos da época, e a oportunidade chegou em 1966, após três dias de gravação no Pacific Jazz Studios, em Los Angeles. Mesmo não sendo o melhor Booker (qualquer dos prestigiados Books – Freedom, Song, Blues e Space, ou até Exultation e Heavy!!!, por exemplo, batem-no aos pontos, porque mais espontâneos e menos encenados na produção), em Structurally Sound estão presentes, ainda que de forma intermitente, os traços que fazem de Booker Ervin um dos maiores do saxofone tenor. E que traços são esses? Desde logo, o som áspero e viril, o ataque (é extraordinária a forma como Booker entra a matar nos solos e deles sai como toureiro após arriscada faena), a tal mistura rica de Dexter com Coltrane de que se fala habitualmente, o swing espesso e cremoso, a acentuação própria de um bluesman autêntico e genuíno; a paixão e a energia exaltantes, mesmo quando arrulha uma balada delicodoce. Outro aspecto assinalável em Structurally Sound, além da competente secção rítmica formada por John Hicks, Red Mitchell e Lenny McBrowne, é a presença de Charles Tolliver, o bopper vanguardista de grande classe e capacidade de afirmação, parceiro certo para este tipo de programa variado, que agrada às várias sensibilidades do jazz, posicionando-se no vasto território do "centrão". Ao nível das composições, cabe um pouco de tudo: originais de Ervin, Randy Weston, Oliver Nelson, Tolliver, Strayhorn, Frank Foster, Erving Berlin (à reedição em CD, da Connoisseur Series, acrescentaram White Christmas), etc., com arranjos compatíveis com o tal desígnio de agradar a gregos e troianos. Porém, como tantas vezes acontece em casos como o presente, a tentativa resulta frouxa na consecução dos intentos. Ganha-se em amplitude, perde-se em coerência e direcção. Mas voltando ao lado positivo do disco, Tolliver, sem se exceder, agrada; Booker é enorme. Na audição sequencial dos 12 temas apetece isolar os solos de Booker Ervin de tudo o resto. Mas nem seria preciso, porque quando Booker Ervin toca, à volta faz-se silêncio. Só por isso já vale a pena regressar amiúde a Structurally Sound.

 
15.12.05
 


Iff, Travassos, Elsa Vanderweyer e Eduardo Raum. Propõem uma viagem estranha por ambientes psico-dramáticos que advêm da interacção entre homem e máquina. O melhor e o pior de mundos diferenciados, cordas, percussão e ruidismo, apostados em traçar estratégias conciliatórias entre o analógico e o digital. Neste sentido, ao vivo e em directo, criam ambientes emocionalmente carregados, eivados de fragmentos melódicos que se ligam entre si através de um trabalho minucioso sobre a matéria-prima sonora, que nos devolve a um estado primordial, de que apenas nos é dado pressentir o contínuo movimento das partículas.

iff _ laptop / giradiscos
travassos_tapes

elsa vandeweyer
_vibrafone
eduardo raum_harpa
l.s.k_visuals

A 20 de Dezembro, no Lisboa Bar.


 
 

Em 1998, quando saiu, o disco causou espanto. Através dele descobri um guitarrista com um discurso e uma sensibilidade novos, muito diferente do contingente geral das seis cordas do jazz e de fora dele, cumprindo um papel que vinha fazendo falta havia muito tempo: ser o primeiro de uma geração com verdeiro killer instinct, depois de Sonny Sharrock e de James Blood Ulmer, a afirmar um som personalizado às primeiras notas. Joe Morris procura conscientemente que o seu instrumento soe menos como uma guitarra (Les Paul), e mais como um instrumento de cordas tocado como um saxofone. Esta abordagem inovadora, que mistura soul com técnica (tocar nota-a-nota em conjuntos sinuosos que serpenteiam, tomando inusitadas direcções, em camadas assimétricas e descontínuas), faz toda a diferença e resulta numa mistura do tipo Jimi Hendrix meets Jimmy Lyons. Para A Cloud of Black Birds – disco inspirado no movimento colectivo de um bando de aves migratórias, cuja ideia-chave é o chaotic sense of order, de que Joe Morris fala nas notas que acompanham o disco – contribuem as frases curtas e parcas em notas de Mat Maneri (violino), o homem sombra que é o contraponto ideal para a enorme fluência de Morris; Chris Lightcap (contrabaixo) e Gerald Cleaver (bateria) estabelecem a base sobre a qual se desenrola o bailado entre os dois instrumentos de cordas. Passados alguns anos sobre a gravação, Joe Morris continua a ser a mais interessante voz da guitarra jazz, mesmo que ultimamente se tenha virado para o contrabaixo, com assinalável proficiência e sucesso perante a crítica. A Cloud of Black Birds, preservando toda a beleza e mistério inicial, continua a causar espanto.

«This was in the month of October. The leaves were changing colors and the wind was blowing hard. Every afternoon I watched large flocks of cross-migrating starlings fly from one side of the field to the other and from tree to tree. Their collective movement was held together by a loud and seemingly chaotic sense of order. Watching those birds quickly changed my focus from myself and my predicament to a kind of amazed contemplation at the natural beauty and mystery of that scene. The image has stayed in my head ever since. I'm sure that experiencing it helped me to grow and understand myself better.
During the winter of 1969, on a home visit, I learned to play my first chords on a friend’s guitar. Learning about music and attempting to create music over the years has given me the same sense of contemplation and understanding of my personal growth as I had watching the black birds. All of the musicians who have inspired me remind me of the birds in their ability to create an elemental kind of beauty by showing order where others find chaos. My own expression is an attempt to be like that and hopefully to inspire someone to pause and think about their time in this world». – Joe Morris

 
14.12.05
 

«John Stevens was a great drummer, a pioneer of improvised music and the godfather of contemporary community music. His mixed-ability workshops, and the performances that grew out of them, were exhilarating and served as a lasting inspiration to many. Label boss, Martin Davidson, being a completist and unsure of some of the contributors is unprepared to divulge any. It would be of historic significance to know if we are talking name players or workshop unknowns but in truth it¹s unimportant. He does, however, note that Stevens plays no drums here and restricts himself to cornet, his favoured workshop instrument. I have a fond memory of Stevens silencing a busy pub one afternoon while demonstrating to me, in a typically spontaneous moment, the new cornet he¹d acquired. Stevens was like that, a strange combination of intense sensitivity and larger than life bullishness. This album serves as a reminder of one side of his musical legacy and is a fascinating companion to his seminal workshop manual Search And Reflect, which remains a bible to many a 'community musician' to this day. Full credit to Emanem for this one» - Gus Garside

 
 


Entrevista de Karlheinz Stockhausen ao último número de LaScena Musicale.

 
13.12.05
 


Bem assinalado é que este formato pessoal e musical pede comparação com os quartetos de Monk, da fase em que o pianista tocou com Milt Jackson. Isso, o mesmo tipo de toque percussivo, as similitudes na estrutura composicional e no surpreendente encontro de soluções melódicas e harmónicas, são factores que aproximam Andrew Hill e Thelonious Monk. Em 1964, Andrew Hill, o “Monk com asas”, como alguém lhe chamou, convidou Bobby Hutcherson (vibrafone), Richard Davis (contrabaixo) e Elvin Jones (bateria), e formou o quarteto com que gravou Judgment! para a Blue Note, um dos disco mais modernistas dos tempos áureos da editora. Andei estes anos todos sem saber que existia um disco assim, pois dele apenas conhecia a fotografia da capa e pouco mais. Só hoje recebi a graça de ouvir esta maravilha, após aquisição ao fim da tarde. A redenção às vezes chega a tempo. É correr a apanhá-lo! Passar-lhe ao lado voluntariamente merece julgamento, nem que seja à revelia!

 
12.12.05
 

Para o sanderista retinto e para os mais descoloridos ou completos desconhecedores do fenómeno, a proposta é esta colecção de 19 grandes composições de Pharoah Sanders, um dos maiores talentos do jazz de sempre (e de sempre do jazz).
Que eu saiba ainda ninguém se tinha aventurado a reunir num só álbum parte substancial da criação do grande saxofonista norte-americano; neste caso, a partir dos álbuns que gravou para a Impulse, Theresa e Verve Records, alguns deles difíceis de encontrar. A Soul Brother, especialista na matéria, lançou agora esta colecção das melhores páginas do espiritualista Sanders (You´ve Got to have Freedom), recolocando a música do antigo acólito de John Coltrane ao alcance do público em geral.
Em duplo Cd e triplo Lp, Soul Brother.

 
11.12.05
 


«This is the forth studio release from Ken Vandermark's evolving Territory Band with five new compositions (two different versions of Reverse)». O conceito desta pequena orquestra é relativamente simples: Ken Vandermark (fez 41 anos em Novembro passado), graças à bolsa que em 2001 recebeu da MacArthur Foundation, resolveu formar um grupo alargado de músicos euro-americanos, para pôr em prática as suas ideias sobre composição e orquestração, seguindo estratégias comuns a Barry Guy (New Orchestra), Peter Brötzmann (Tentet) e Misha Magelberg (Instant Composers Pool - ICP Orchestra), seguindo um tipo de projecto altamente ambicioso na forma e no conteúdo.
Neste disco de estreia do norueguês Lasse Marhaug a bordo da Territory Band, o modus operandi é bastante diverso do das pequenas formações, nomeadamente o Vandermark 5 ou os trios (DKV Trio, Sound in Action Trio, FME, Spaceways Inc., Tripleplay...), privilegiando aqui os capítulos longos, com vários episódios de composição e arranjos, seis obras abertas com espaços amplos para serem preenchidos pelos improvisadores. Mantém-se o hábito de dedicar cada peça (entre os 8 e os 21 minutos) a personaliadades que de algum modo marcaram o percurso musical e de vida do saxofonista. Desta vez os homenageados são Abdul Wadud, Milton Babbitt, David Tudor, Stanley Kubrick, Sebastião Salgado e Franja Bojc.
Vou dar-lhe ouvidos atentos durante os próximos dias, que esta é tarefa muito exigente. Company Switch saiu em Setembro passado, na Okka Disk. Mais uma grande realização de Ken Vandermark, a que pessoalmente mais me entusiasmou de todas as quatro versões que a Territory Band conheceu. Difícil e inesperado, depois de discos como Territory Band-1, Transatlantic Bridge; Territory Band-2, Atlas; e Territory Band-3, Map Theory. Tal como os três anteriores, Company Switch é um disco imprescindível!
Territory Band-4: metais: Jeb Bishop, Axel Dörner; electrónica: Lasse Marhaug; percussões: Paul Lytton, Paal Nilssen-Love; piano: Jim Baker; palhetas: Fredrik Ljungkvist, Dave Rempis, Ken Vandermark; cordas: Kent Kessler, Fred Lonberg-Holm.

 
 


... Os nomeados para os Grammy's de tudo e mais alguma coisa, e os do Jazz too, of course.

 
 


A VPRO, rádio holandesa que emite em webcast na 4fm os programas de laatste jazz e is dit nog wel jazz? (o jazz mais recente e isto ainda é jazz?), assistiu à edição deste ano do Jazz em Agosto, o festival de jazz que há 22 sessões consecutivas (desde 1984), sob a égide da Fundação Calouste Gulbenkian, trás a Lisboa alguma da melhor colheita do jazz actual e da música improvisada contemporânea. Depois da entrevista a Rui Neves, o programador, a VPRO passa agora os concertos de Erik Friedlander, do trio Mephista (Sylvie Courvoisier, Susie Ibarra e Ikue Mori, na foto) e do Sound of Choice com o Ixi String Quartet.

 
10.12.05
 

Não se ouve Krissvit (Suite da Crise) sem um estremecimento, ao pensar nela (na crise, que há-de passar) e em Mingus (que não passará). Torbjörn Zetterberg compôs por encomenda uma suite em três partes para 8 músicos e uma peça suplente para órgão de igreja. A suite foi estreada ao vivo em 24 de Julho deste ano, em Estocolmo. Torbjörn Zetterberg veio dos Hot Five (Jonas Kullhammar, saxofones; Per Texas Johansson, saxofone e clarinete, Ludvig Berghe, piano, Torbjörn Zetterberg, contrabaixo, e Daniel Fredriksson, bateria), formação de jazz mainstream moderno por si liderada, e evoluiu recentemente para este projecto de small band de jovens músicos suecos. Os arranjos das três composições (de duração compreendida entre os 10 e os 14 minutos) inspiram-se notoriamente no trabalho de Charles Mingus, a influência mais notória – cá está a precisão orquestral, o arredondamento, o volume do contrabaixo e a variação rítmica dentro do mesmo tema, parte da marca d´água do autor de Pithecanthropus Erectus –, a que o compositor sueco, reforçando os aspectos formais e substantivos da sua arte, acrescenta cunho pessoal e um olhar cinematográfico virado para a frente. Também tenho a impressão de que Zetterberg gostou do que o norte-americano Ken Vandermark tem andado a fazer com o Vandermark 5. A acção da audaciosa e temível linha dianteira de saxofones e trombones, que só visto, contado ninguém acredita, tem antecedentes não distantes no tempo. Sopram Joakim Rolandson, Jonas Kullhammar, Per Texas Johansson e Alberto Pinton, saxofones; Mats Äleklint e Øyvind Brække, trombones (e harmónica, que dá um tempero curioso à mistura); no apoio ao ataque vêm Torbjörn Zetterberg, contrabaixo, e Kjell Nordeson, bateria.
Há uma faixa escondida, o tal solo de órgão com que Hampus Lindwall remata a sessão em ambiente barroco, que outra coisa não é que a mesma melodia de Epilog: Ett År Försent, tocada em órgão de igreja, peça gravada na Igreja de Saint-Esprit, em Paris. O disco acaba com o ar mais celestial do outro mundo, assim densificando a experiência auditiva anterior. Sem dificuldade conto este disco entre os melhores que ouvi este ano.
Post scriptum que não tem nada e que tem tudo a ver com este comentário: Abrazos a los amigos chilenos al otro lado de mi tierra, los que desarollan la comunidad de jazz y libre improvisacion en Chile. Que nos pongamos en contacto!
Torbjörn Zetterberg - Krissvit (Moserobie, 2005)

 
8.12.05
 
iMi Kollektief ao vivo no Hot Clube de Portugal

Noite de iMi Kollektief no Hot Clube de Portugal. Tempo para dar largas à imaginação e à predisposição para a surpresa. Desde Outubro passado, altura em que o grupo se apresentou pela primeira vez ao vivo, na Trem Azul (concerto a que assisti e do qual em devido tempo dei nota), tenho vindo a testemunhar o nascimento, crescimento e maturação daquele que se pode hoje definir com toda a propriedade como um verdadeiro colectivo de improvisação. Talento, trabalho e rodagem, quando combinados, fazem destas coisas.
Cá fora antes, e depois já no palco do Hot encontrei um Alípio Carvalho Neto possuído pelos espíritos benignos de John Gilmore e de Pharoah Sanders, energia em bruto, refinada e tornada combustível criativo. Cada vez que pega no tenor Alípio consegue tocar uma história diferente, com uma retórica comum ao resto a banda, em noite inspirada e danada para swingar: Elsa Vandeweyer (vibrafone), Jean-Marc Charmier (trompete, fliscórnio, acordeão), João Hasselberg (contrabaixo) e Rui Gonçalves (bateria), não deram tréguas e puxaram a corda com quanta força tiveram.
Longe do habitual "ora agora solas tu, ora agora solo eu", com palminhas pelo meio, no IMI Kollektief os solos (se os houve e fortes!) enquadram-se num âmbito mais vasto, como extensões dos temas originais de Elsa, Jean-Marc e Alípio, que reflectem a idiossincrasia própria de cada um dos compositores e as diferentes culturas e origens geográficas, por exemplo. Este é um dos aspectos que mais valoriza a música do iMi Kollektiev, a mesma que, a partir de uma base escrita, se reconstrói permanentemente em tempo real.
Neste sentido, a música do IMI tem muito de arquitectura do momento, invenção espiritual de formas fantásticas apoiadas em sólidas colunas de sustentação, segundo as leis da harmonia, melodia e ritmo, convenientemente adaptadas e reconfiguradas.
A este propósito, recordo os momentos extasiantes em que, entre a enunciação e repetição final do tema, Alípio gritava multifónicos no tenor, Jean-Marc soltava cascatas de notas do trompete, Elsa projectava longe os ecos harmónicos do vifrafone por entre as malhas daqueles dois, enquanto João Hasselberg (aqui mora um contrabaixista a sério, é só dar tempo ao tempo!) e Rui Gonçalves estendiam sala fora um irresistível tapete de groove. Isto é algo que o iMi faz muito bem e diferente dos grupos seus contemporâneos.
Há nesta gente um espírito muito prático, directo e imediato: vamos a eles, vamos tocar e é já! Também nessa medida Alípio formou a banda certa, pessoas com múltiplos talentos, capazes de disparar em diferentes direcções, voltar ao trajecto principal, vadiar por ruas secundárias, calcorrear vielas estreitas e retomar à praça central. Mercê da solidez e maturidade colectiva alcançadas nos poucos meses de intenso e quotidiano trabalho, forjado num espírito que apela à mobilização das capacidades inventivas dos artistas.
Tenho para mim que, hoje, a tarefa dos grupos e dos músicos comprometidos com o jazz tem necessariamente de passar pelo total empenhamento, entrega individual e colectiva, na busca de identidade própria, de outro tipo de energia que se projecte para o público, dando-lhe a servir algo de original. E a originalidade hoje, no jazz como em muitas outras formas de criação artística, não significa o absolutamente novo, fazer tábua rasa do passado, um corte epistemológico com a memória. Tudo está inventado, costuma dizer-se. Logo, o que há a fazer é produzir sons que já conhecemos, mas que surjam recombinados de modo tal que dessa nova ligação entre elementos preexistentes, empirismo e racionalismo, a partir de um original cimento agregador (feito de vontade, estilo, convicção e uma consciência funda de que se tem algo de relevante para comunicar – ou não valeria a pena tanto esforço), surja um novo real, que se afaste do convencionalismo. É nesse espírito que interpreto a participação especial de Paulo Matricó, o zabumbeiro que em duas versões do tema Thierry na Caatinga, uma em cada set, somou o ritmo do nordeste brasileiro ao groove e swing da banda, inebriando mais ainda o ambiente.
Ciente das suas capacidades e dos perigos que espreitam, o grupo evita a armadilha do refinamento excessivo, que falsifica a experiência e distorce os propósitos, concentrando-se antes no trabalho sobre a emoção e a melhor forma de a comunicar, expurgada do cliché decorativista.
Isto é novo, inteiramente novo, enquanto elemento central da identidade própria do iMi Kollektief. E assim se cria imprevisibilidade: com as mesmas ferramentas de sempre, há que buscar formas alternativas de dizer, tanto o que se acaba de inventar, como o que já foi tocado antes. Nesta medida, o IMI, imitando-se a si próprio, consegue explodir de alegria e entusiasmo frente ao público. Melhor: sabe comunicar esses estados de alma à assistência. Como disse Charles Chaplin, «A arte não é um estudo. É beleza que suscita o entusiasmo e a simpatia. É simplesmente uma questão de sentimento». Alguém duvida?
iMi Kollektief no Hot Clube de Portugal, 7.12.2005 (fotos She-Lab, de João Leirão).

 
 

Hendrix

«O estilo de Jimi Hendrix é epigonal de todos os solistas de rock pelos elementos que articula. Apresenta um tema, um motivo, uma frase, um som ou uma nota, e une-os em múltiplas sensações a um outro motivo, frase, som ou nota.
Este intercâmbio identifica o seu processo de improvisação. A condição de poder unir essas matrizes formais a outras semelhantes subsiste até ao momento que o centro tonal se esgota nos critérios próprios da generalidade.
A vibração interior, secreta, íntima, conduz o fluxo sonoro a outra singularidade musical, onde se começa o irrecomeçável.
Repetições, sequências homogéneas que exalam múltiplas figuras; Hendrix nunca expõe uma ideia definitiva, a natureza das situações é sempre alterada.
Tais formas discursivas, prenhes de possibilidades, são categóricas, imediatas, não definidas previamente pela composição temática.
As formas instrumentais interceptam-se concretizando um sistema de signos musicais dependentes da evidência intuitiva e sensorial.
A multiplicidade de sons parasitários que se desenvolve nessa relação empresta á matéria improvisada uma natureza cósmica.
Os elementos musicais (palavras, onomatopeias, grunhidos, melodias, esboços harmónicos, sínteses atonais, objectos sonoros) sobrecarregam o pensamento de Hendrix que procura progressivamente libertar-se deles numa significação rítmica potente e vertiginosa.
As imagens sonoras surgem em catadupa, precárias, fantasistas com um valor ritual que o vocalista/guitarrista evoca a cada instante.
Sofrem graduações sucessivas, paroxísticas/repousantes; variáveis/constantes, produzindo matérias eléctricas como um fundo (background).
Na improvisação de Hendrix nada é finito. Todos os elementos se submetem a termos de relação e potência.
As leis gerais dos solos expressam-se superficialmente, a única lei em vigor é a de transgressão; transgressão ao movimento tonal, à modalidade usada, à linearidade sonora, ao movimento rítmico, do carácter imitativo das sequências ;essa transgressão múltipla é operada por técnicas particulares: feed-back, distorções, vibrações, dissonâncias, ecos, roturas, raspagens, experimentações chamânicas, gritos cavernosos, frases vocais líricas e insinuantes, recorrência riquíssima da imaginação.
A técnica blues riff, reiteração de várias frases acopladas, foi também desenvolvida por Hendrix.
Recorreu ao feed-back colocando a guitarra à frente das colunas e elevando o volume da amplificação ao máximo.
Certa vez comprou dois pequenos amplificadores e introduziu-os num balde de água, subiu o volume e o efeito foi cataclísmico.
O prodígio de Hendrix foi seleccionar voluvelmente fórmulas musicais que a improvisação conduzia a um ponto zero, ponto esse donde o solista partia para outro discurso que seria igualmente reduzido ao incaracterístico.
As repetições são hipóteses de novas sínteses generalizadas e afectivas.
Hendrix radicaliza o experimentalismo e a esquizofrenia (intensificada pela droga) como categorias reais da matéria sonora apresentada como inovação constante.
Oiçamos a sua música, o abismo demencial em que o guitarrista se debruça repetidamente aprofunda obsessões, interdita a escolha de vias consequentes, reclama-se do irracionalismo, convida a excessos suicidas, suspende o pensamento na vontade irrealizada, dá-lhe a morte apenas como obstáculo.
E Hendrix entra em delírio, torna-se agressivo, encadeia perversões, solta obscenidades, mima volúpias, agride a sacralidade do artista, estigmatiza o próprio meio de construção musical - na provocação máxima, parte a guitarra e joga-a como último despojo; da alucinação para o público; possesso, insiste, reconsidera outra guitarra, ironiza selvaticamente o circuito criador da improvisação alegadamente humorística, desafia todas as leis, institui o saber anárquico na ordem de contingências em que prosseguem os solos monumentais.
Aí sacrifica o novo elemento temático, novo moínho de vento contra o qual se bate.
Evoca tudo o que empiricamente adquiriu, submerge o expressivo no inconsciente, deixa-se guiar pelo gesto; é o gesto intuitivo e alienado que orienta o solo; o corpo, na repetição do acto já ficou marcado; as mãos executam as mesmas figuras (distorcidas pelo descontrolo cerebral), a garganta solta os mesmos gritos, liberta as mesmas palavras, perverte os mesmos discursos.
Torvelinho, gravitação, dança, salto, mímica, esgares que o obrigam a sair do letargo para dominar reflexivamente a paranóia ameaçadora, na volúpia do abismo formula precisamente uma melodia; o drama do esvaziamento interior, a extroversão da omnisciência do solista que partiu do nada. Um retorno à dialéctica luminosa e maldita do corpo e do pensamento.
Hendrix descobriu e oferece-nos o prazer».
Jorge Lima Barreto

 
7.12.05
 
AllAboutJazz-New York's Best of 2005

Justo e merecido! A AllAboutJazz-New York, considerou a portuguesa Clean Feed como uma das cinco melhores editoras do ano de 2005. Com todo o respeito e consideração pelas outras quatro, objectivamente, a Clean dá um bigode considerável. Depois da menção especial de Mark Corroto, em Setembro passado, eis agora a confirmação da excelência. Parabéns ao Pedro Costa, Hernâni Faustino e Ilídio Nunes!!!

RECORD LABELS

ARBORS
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CLEAN FEED
NOT TWO
TZADIK

 
 


Logo à noite (7/12, 23h30), no Hot Club de Portugal (à Praça da Alegria, em Lisboa), toca o IMI Kollektief: Alípio Carvalho Neto, Elsa Vandeweyer, Jean-Marc Charmier, João Hasselberg e Rui Gonçalves. Tirei a temperatura ao quinteto e pareceu-me que a febre é alta. (foto She - Lab, de João Leirão).

 
 


Para ouvir um bom e recente disco de solos de saxofone alto não é preciso ir mais longe. Earl Howard lançou há dias na Mutable Music um conjunto de cinco peças, com a duração total de uma hora, que, digo, é do melhor que já ouvi. Lembra o Braxton de For Alto, menos agitado e, sem se parecer com ele, com o mesmo tipo de investigação por territórios comuns a ambos, sem tirar a Braxton a palma do pioneirismo. O disco foi gravado no atelier de pintura de Robert Berlind, em Cochecton, Nova Iorque. Provavelmente inspirado nos quadros de Berlind, Howard parece deambular pelo estúdio afastando-se e aproximando-se do microfone, fixo algures num ponto qualquer, criando efeitos dinâmicos improváveis numa sessão de estúdio tout court. Vale a pena ouvir a técnica fora do comum deste saxofonista (e electronicista), que, remetendo para um certo primitivismo sonoro, consegue fazer muito pão com pouca farinha. Extraordinário!
Earl Howard - 5 Saxophone Solos (Mutable Music, 2005)

 
  Braxton at 60!
Eis que chegam ao termo os grandiosos festejos em honra dessa grande figura da música do Séc. XX que é Anthony Braxton, por ocasião do seu mui badalado 60º aniversário. Depois de uma intensa primeira parte, que decorreu entre 14 e 17 de Setembro, e tratou da música para pequenas formações, retomaram-se as actividades festivas entre 16 e 20 de Novembro, com a abordagem a obra integral de Braxton para piano solo. Fecha-se agora o ciclo com a III parte do evento, com ênfase na sua obra orquestral. Entre 7 e 10 de Dezembro, no sítio do costume, a Wesleyan University - Middletown, EUA.



 
 


Sei Miguel All-Stars com Carlos Martins, ao vivo na Trem Azul

Depois de em diversas datas de Novembro passado terem tocado em Lisboa (Galeria Diferença e Lisboa Bar), de onde me chegaram ecos intrigantes acerca da música do Sei Miguel All-Stars, eis que chegara a hora de, pessoalmente e em directo, experimentar o novo trabalho do sexteto. Neste caso, com o aliciante de o grupo, na sessão da Trem Azul, acolher um convidado no seu seio, o saxofonista tenor Carlos Martins.
Com o bem reaparecido Sei Miguel, em trompete de bolso, integram os All-Stars, Fala Mariam, trombone alto, Rafael Toral, oscilador de eléctrodos, Manuel Mota, guitarra eléctrica, Pedro Lourenço, baixo eléctrico e César Burago, percussão. Que se ouviu na Trem Azul? Estruturas, fórmulas de reacção previamente estudadas, ensaiadas as soluções que põem em prática no momento, como peças que vão pegando e tentando encaixar de acordo com o regulamento de um jogo de colagens e sobreposições poliédricas, arquitectura com projecto. Há contudo um interessante lado de improvisação, ainda que parametrizado dentro de opções lógicas previamente tomadas quanto à montagem e execução de sons breves. Música de grande quietude, esconde contudo uma enorme riqueza de pormenor, cada som especialmente desenhado para encaixar num determinado espaço, deixando perpassar uma sensação/obsessão de controlo sobre cada milímetro ou segundo. Poder-se-ia reclamar pela falta de vivacidade ou de variação dinâmica, mas este é o desenho da música de Sei Miguel e dos seus All-Stars, na sua beleza rarefeita de que é feito o seu sistema musical, a poética melancolia que Fala Mariam trabalha por dentro, em entendimento perfeito com o trompete de bolso, embalados ambos pela ductilidade das cordas de Manuel Mota e Pedro Lourenço. Fez-me lembrar alguns aspectos do movimento da King Übü Örchestrü, de Wolfgang Fuchs, que investe na quase negação do indivíduo enquanto solista e na grande azáfama colectiva em ambiente sossegado.
César Burago, percussionista versátil de variados contextos e abordagens, optou por um estilo para-metronímico (com alguns lapsos), mais dado à repetição minimal de figuras geométricas que à liberdade de pulso ou à criação de texturas. Ganhou-se em métrica e rima, perdeu-se em dinâmica e em fantasia. Ter-me-ia agradado mais esta segunda opção, compatível com o kit mínimo de duas tímbalas e pequenos satélites acessórios com que Burago trabalhou.
Carlos Martins começou um tanto perdido na mistura, oscilando ao sabor da onda, como que a estudar a melhor forma de intervir e de adequar o seu estilo a um discurso colectivo que, de habitual, não é o seu. Conseguiu um espaço próprio sem empurrar nem fazer-se ouvir à força por cima do sexteto. Nessa medida, integrou-se na paisagem acústica, logrando aumentar-lhe a variedade de vistas e a temperatura ambiente, justamente nos momentos em que a música parecia pedir um suplemento de energia controlada.
Sou sensível à imagem visual de um tagger a pintar com lata de spray, enquanto os outros músicos trocam impressões entre si (mais entre si que com o público, frequentemente). A ideia funcionou plasticamente, pese embora a reduzida versatilidade tímbrica e textural do oscilador de eléctrodos, dispositivo com uma paleta relativamente limitada, mesmo nas mãos de Rafael Toral. Se bem que maleável e funcional para criar ressonâncias e pontos de intersecção com os outros instrumentos, ou preencher de forma arrítmica espaços deixados em branco – aspectos estes, plenamente conseguidos – viu o seu potencial de invenção sonora mitigado pela sobreexposição e omnipresença, que acabou por distrair o ouvinte, perturbando a fruição completa dos pormenores de uma música que requer elevada concentração para ser melhor apreciada.
À vista do pano que a vela tem, ainda a poderemos ver enfunar num futuro próximo. Assim continuem a soprar os bons ventos e a equipagem dos All-Stars manobre convenientemente, no sentido de sanear o acessório e se concentrar no essencial.

 
5.12.05
 
06DEZ05
SEI MIGUEL SEXTET
Sei Miguel_trompete de bolso>Fala Mariam_trombone alto>Rafael Toral_oscilador de eléctrodos>Manuel Mota_guitarra>César Burago_percussão>Pedro Lourenço_baixo eléctrico
+ Carlos Martins_saxofone tenor
Trem Azul, 19h30

 
 

«A certain wag I know recently quipped that Barry Altschul should change his name to “Very Old-School”. I was unsure what he was getting at, since “old school” is the literal translation of the drummer’s German surname. As it happens, my friend was not even aware of that ironic factoid. His gist was simply that jazz and free drumming had evolved so much since Altschul first recorded with Anthony Braxton that the avant-jazzer’s style had actually become old-hat in the twenty-first century. He might have had a point; visionaries like Joey Baron, Jay Rosen, Hamid Drake, Tom Bruno, and Susie Ibarra have stretched the role of rhythm in the jazz ensemble in all directions. But in the “big picture,” Altschul’s approach remains just as valid as the ubiquitous high-hat rhythm pioneered by Jo Jones with Count Basie in the 1930s or Art Blakey’s titanic press rolls. While “jazz” remains increasingly undefinable as the music absorbs more cultural influences, it stays close to its New Orleans roots with equal determination. Still in all, it is jazz’s evolutionary characteristic that keeps it perennially popular, to one degree or another, with younger generations. If jazz were still as rudimentary as how Jelly Roll Morton or even Charlie Parker played it, it would be little more than a wistful museum piece entering its second century».
Todd S. JenkinsFree Jazz and Free Improvisation - An Encyclopedia Volume I: A-L. Greenwood Press, London

 
4.12.05
 



Variable Geometry Orchestra, ao vivo na ZDB

Enquanto atravessava o Bairro Alto a caminho da ZDB para assistir ao concerto da Variable Geometry Orchestra, dizia para os meus botões esperar uma sessão de livre-improvisação clássica, em passo lento e muito jogo a meio-campo. Surpresa! Adianto já que foi um dos melhores concertos a que assisti este ano.
Na realidade, deparei-me com um magnífico trabalho orquestral, feliz na exploração tímbrica, difícil administração de 16 egos, na eficiente autogestão dos tempos de entrada e saída, e na capacidade de ouvir, reagir e estar parado – papel fundamental! Notei uma incontável sucessão de pontos de interesse, de que destacaria as fases de vigorosa progressão com acentuadas subidas e descidas de intensidade, a que só faltou os metais terem correspondido em grito às invectivas rítmicas disparadas de vários pontos da panorâmica, a um passo da explosão total, catarse de uma música que produz e se alimenta de fortes campos magnéticos. Neste aspecto, fez falta um pouco mais de brass, um trombone ou dois (Fala Mariam ou Eduardo Lála poderiam constituir duas excelentes hipóteses), trompete e outro saxofone, além do tenor de Abdul Moimême e do alto de Nuno Torres, para aumentar a expressividade do colectivo e, sobretudo, servir os momentos mais trepidantes, em que o fogo se torna abrasador, no limite do suportável.
Em acção, a Variable Geometry Orchestra surgiu espontaneamente estruturada em duas duplas: Manuel Mota (guitarra eléctrica, na posição do primeiro violino da orquestra clássica) e Ernestro Rodrigues (viola), à frente, estabelecendo as coordenadas para a atonalidade geral; lá atrás reinavam José Oliveira (bateria, percussão, excelente uso do bombo e pratos), e Hernâni Faustino (contrabaixo), a ligação perfeita no trabalho de propulsão rítmica a uma só respiração, qual «Faustino & Oliveira, materiais de construção, ilimitada». A eles se ficou a dever parte substancial da coerência e da dinâmica imparável da orquestra. No meio, a ponte entre as duas margens, Sei Miguel, a soltar o risco e o brilho do trompete de bolso, outro dos heróis da noite. Nesta dupla triangulação se apoiou o resto da VGO, informalmente organizada por naipes, na permanente troca de posições, de forma a tornar imprevisível o passo seguinte. Bom trabalho dos cordofones e dos ruidistas (laptop, field recordings, tape, sortido de percussões...), que encheram a panorâmica com pertinência, propósito e leveza. As texturas de fritadeira e gratinado de guitarra preparada e laptop, de impressionante bom gosto, somaram-se às gravações de campo de João Silva e trouxeram um tempero especial ao conjunto, transportanto para o interior de uma música que é tida como música de câmara, sinais sonoros da rua, contrastando urbanidade com bucolismo. Deste modo, a ilusão foi perfeita e enorme o valor acrescentado em matéria de cor e movimento.
O que esta inspirada versão da VGO provou é que há outro jazz emergente, que desponta e se ergue das cinzas do género, apoiado no melhor que a livre-improvisação tem para dar, espécie de tertium genus diferente do que se conhece no panorama das orquestras de free jazz ou de free improv, europeias ou americanas, do passado e da actualidade. Com uma vivência musical muito para além das pré-formatadas regras de organização sonora. Há algo de novo que se conjuga com o que é comum a outras linguagens. O resultado prático foi uma espantosa e empolgante sucessão de quadros musicais expostos com grande convicção, mérito de todos os participantes e em especial de Ernesto Rodrigues, diligente congregador de vontades e organizador sonoro de gabarito.
O espanto foi ainda maior quando fiquei a saber que diante de mim se desenrolara e voltara a enrolar o novelo durante hora e meia, sem que jamais tivesse tido a consciência da passagem do tempo, de tal modo me encontrava em estado de transe e graça musical. Por mim, teria ficado para outro tanto e com muito prazer. Os músicos também, estou em crer. A sessão foi gravada. Para a edição, já!

Variable Geometry Orchestra: Ernesto Rodrigues - viola, direcção de orquestra; Pedro Costa - violino; Guilherme Rodrigues - violoncelo; Hernâni Faustino - contrabaixo; Sei Miguel - trompete; Nuno Torres - saxofone alto; Abdul Moimême - saxofone tenor; Manuel Mota - guitarra eléctrica; Ivan Cabral - didgeridoo; Carlos Santos - electrónica; João Silva - gravações de campo, caixa de ruído; Plan - gira-discos; Jorge Travassos - fita magnética; Miguel Martins - percussão; César Burago - percussão; José Oliveira - bateria, percussão.


 
3.12.05
 


Esta noite (3 de Dezembro), às 23h00, na Sociedade Harmonia Eborense, em Évora, actua o IMI Kollektief, de Alípio Carvalho Neto (foto de João Henriques), Elsa Vandeweyer, Jean-Marc Charmier, João Hasselberg e Rui Gonçalves. A não perder por quem possa deslocar-se a Évora. António Branco, será esse o teu caso?
No dia 7 de Dezembro, o mesmo grupo - a revelação do ano de 2005, em minha opinião - actua em Lisboa, no Hot Clube de Portugal.

 
 
Variable Geometry Orquestra na ZDB - Sáb. 3/12

«A música produzida pela Orquestra da Geometria Variável resulta do jogo do material acústico versus o electrónico, numa contínua busca de pequenos detalhes e significados - o som rompe do silêncio para nele voltar a megulhar...
Com esta organização formal do caos, tenta-se aplicar novos conceitos de indeterminação e composição instantânea, através da erupção assimetricamente alternada de momentos de som e silêncio (ausência de som identificável) com predominância para estes últimos, ­seja pela emissão de sons de características subliminares e psico-acústicas, seja pela completa ausência de sons, permitindo assim aos músicos recuperar o seu ritmo natural de respiração e sentido aleatório de pulsação, bem como escutar toda a espécie de acontecimentos sonoros que estejam a ocorrer nesse preciso momento no espaço envolvente, ou então “simplesmente” escutar o que outro músico tenha começado, entretanto, a fazer, sem a preocupação de responder imediatamente e assim encher de forma inútil o espaço sonoro».

Ernesto Rodrigues - violino, viola, direcção de orquestra
Pedro Costa - violino
Guilherme Rodrigues - violoncelo
Hernâni Faustino - contrabaixo
Sei Miguel - trompete
Marco Franco - saxofone soprano
Nuno Torres - saxofone alto
Helena Ornelas - saxofone tenor
Rui Horta Santos - saxofone tenor
Bruno Parrinha - clarinete, clarinete alto
Manuel Mota - guitarra eléctrica
Ivan Cabral - didgeridoo
Carlos Santos - electrónica
João Silva - gravações de campo, caixa de ruído
Plan - gira-discos
Jorge Travassos - fita magnética
Miguel Martins - vibrafone
César Burago - percussão
José Oliveira - bateria, guitarra acústica

Ernesto Rodrigues (direcção)
Violinista / violista de formação clássica e interesses que vão da música contemporânea (é um habitual frequentador dos seminários de Emmanuel Nunes) ao free jazz e à livre-improvisação, Ernesto Rodrigues tem protagonizado uma abordagem reducionista e de «near silence» em que a nota é substituída pelo som puro (ou pelo ruído) e a estrutura pelas texturas, com deflagração dos fraseados em elementos atomizados, quase total desaparição dos três factores essenciais da musicalidade convencional (melodia, harmonia e ritmo) e utilização de microtons ou total atonalidade.

ZDB, Sábado, 3 de Dezembro, 23h00

 
 


A VPRO, rádio holandesa que emite na 4fm os programas de laatste jazz e is dit nog wel jazz? (que é como quem diz, o jazz mais recente e isto ainda é jazz?) em webcast, esteve em Lisboa entre 5 e 13 de Agosto passado para assistir ao Jazz em Agosto 2005, o festival de jazz que há 22 sessões anuais consecutivas (desde 1984), sob a égide da Fundação Calouste Gulbenkian, trás a Lisboa alguma da melhor colheita do jazz e da música improvisada contemporânea.
A redacção da VPRO entrevistou Rui Neves (a entrevista com o programador do Jazz em Agosto já pode ser ouvida desde 27 de Novembro, entrecortada com excertos de música gravada durante o festival), e gravou quatro concertos, que vai emitir nas próximas semanas. Assim, poderemos ouvir gravações dos concertos de Sound or Choice & Ixi string Quartet; o trio Mephista (Sylvie Courvoisier, Susie Ibarra e Ikue Mori); o solo do violoncelista Erik Friedlander e o trio de Mark Dresser, com Denman Maroney e Michael Sarin, a transmitir em quatro partes distintas, com início no fim-de-semana de 3 de Dezembro.

 
 

«La música puede cambiar a la gente: William Parker »
Entrevista de Xavier Quirarte, publicada em PuroJazz, de Roberto Barahona. A ler.


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Já tinha ouvido falar neste material. Procurei por ele em cd ou em lp, não encontrei nada que se parecesse e cheguei a pensar que tivesse sonhado. Afinal, existe mesmo e está aí dentro de dias: Outtakes 1978 (Hopscotch Records, HOP 016), do ensemble do pianista Cooper-Moore. Com o jovem David S. Ware, do tempo de Metamusicians Stomp, de Andrew Cyrille and Maono.
«Yes, Cooper-Moore was doing his stuff back then. This is a very special recorded document that will blow your mind» - Hopscotch

Mark Gould, trompete/ David S. Ware, sax tenor/ Kenwood Dennard, percussão/ Abigal Goldman, voz/ Cooper-Moore, piano, voz, etc.

 
2.12.05
 


Simon H. Fell dá notícia da recente edição o terceiro disco do trio britânico BADLAND, The Society Of The Spectacle (EMANEM 4120). Gravação de 2003, com Simon Rose, saxofone alto; Simon H. Fell, contrabaixo; e Steve Noble, percussão.

«Badland's third album takes them into new, more abstract territory. The heavy blowing is still there, but mixed with a crispness and rapid flexibility that heralds a new era».

«Badland is ten years old now, 'long live Badland'.
We look at the panorama and focus in on one particular part of the terrain to explore before moving on to another area. Badland measures history in sound, not words or images. The wind, strings and percussion are used in non-traditional and also traditional roles. The collective language has always tended towards dynamic extremes. We hope our music has some of the qualities of jazz in its original, unsanitised expression - and some others as well. We don't self consciously deny the innate possibilities of our instruments which are celebrated and extended. Improvisation doesn't belong to anyone. Some of the best contributions to improvised music have been made by people not playing. Sometimes improvisers with limited experience play poignant performances». - SIMON ROSE (2005)

 
1.12.05
 

Grande disco de 2005 (vai já para a lista) é Oort-Entropy, da Barry Guy New Orchestra, versão 2005, mais compacta que a anterior, de Inscape-Tableaux, disco gravado quatro anos antes e apresentado ao vivo em Portugal, no «Jazz em Agosto». Agora são os mesmos 10 elementos, apenas com uma ligeira mas substancial diferença: Marilyn Crispell tirou uma sabática e indicou Agustí Fernández para o lugar do pianista. Peça fundamental na arquitectura de Barry Guy, na medida em que exerce uma função que apela a um tipo de lirismo com forte componente percussiva. Alexander von Schlippenbach ou Irène Schweizer estariam igualmente à altura nestas três peças de Oort-Entropy, pela mesma razão em que esteve Crispell ou está Fernández.
No miolo da BGNO Evan Parker soa a Evan Parker, o suiço Hans Koch brilha em clarinete baixo; Johannes Bauer, também membro da Globe Unity Orchestra, estala no trombone; Herb Robertson, em trompete e fliscórnio, Mats Gustafsson, tenor e barítono; Per Åke Holmlander, tuba (que som!); e dois percussionistas, o britânico Paul Lytton e o sueco Raymond Strid.
A primeira peça - Oort-Entropy part I (18.36) - a mais turbulenta e agitada, convoca o fantasma de Duke Ellington, acordado pela chama de Herb Robertson. E há espaço para uma jam session nos intervalos da escrita. A segunda parte - Oort-Entropy part II (18.22) - coluna central do tríptico, apela demoradamente à introspecção, de que se regressa pelo chamamento insistente de Mats Gustafsson, em barítono e tenor. A terceira parte - Oort-Entropy part III (14.08) - é a do reinado de Evan Parker, em saxofone soprano. Parker domina até perto do fim, momento em que passa a bola a Barry Guy para este conduzir em quase apoteose até ao crepúsculo.
Belo disco, que explora ao limite a dialéctica composição/improvisação. Só não deixa saudades de Crispell porque o espanhol Fernández é do mesmo calibre ao nível da fantasia e do lirismo. Este aspecto da substituição do pianista foi aliás determinante, na medida em que a escrita de Oort-Entropy (Intakt) foi feita a pensar no trio de Barry Guy com Marilyn Crispell e Paul Lytton, posteriormente adaptada a decateto, mas já sem a pianista norte-americana a bordo.



 
 

Dei ainda uma só demão no disco novo do contrabaixista luso Zé Eduardo num quarteto a meias com Jack Walrath, cujos demais membros são Jesus Santandreu e Marc Miralta. Só posso abonar a favor do produto. Composições originais (três de Zé Eduardo, duas de Jack Walrath, uma de Santandreu e outra de Miralta), um clássico de Charles Mingus (Sue's Changes), bons arranjos e melodias, tesão a tocar (é o termo), graça, leveza, inteligência, verve, variedade de moods, cores e aromas, afirmação de autoridade, swing, alegria de viver e boa disposição. Bons ingredientes para produzir um disco de jazz no tempo que passa, e disparar uma chuva de setas positivas directas ao coração e ao intelecto do ouvinte mais ou menos descomprometido. Jack Walrath, além de compor magnificamente, tem um som de trompete bestial e uma articulação que dá p'os peitos a um cavalo. Ouvi-lo vale quase pelo disco todo. Se se lhe somar o tenor de Santandreu e o calor cada vez menos coltraneano e mais personalizado que dele brota em doses generosas; o baixo mingusiano e a condução segura de Zé Eduardo (é bom saber que tem um projecto novo), e a bateria de Marc Miralta, apropriada aos diferentes andamentos, depressões e curvas de nível, temos então uma boa notícia no panorama editorial português, solidamente estribada nesta associação entre um norte-americano, um português e dois espanhóis. Não é de agora a existência deste tipo de manifestações de globalização, mas está em curso uma nova vaga de miscigenação musical euro-americana que é de saudar e incentivar, em particular esta versão ibero-americana.
Estou a acabar a segunda demão, agora. Com gosto. Voltaremos a falar em Bad Guys. Antes maus, que sonsos ou falsos puritanos. Para já, ergo ambos os polegares em sinal de contentamento com o que escuto. E bebo um copo à saúde do projecto e de quem o pôs em marcha. Cheira-me a bom disco de jazz. Clean Feed does it.

 
 

Fui há dias assistir ao concerto do percussionista (e também guitarrista) português, José Oliveira, na Jazz Store da Trem Azul, programa incluído na série de apresentações ao vivo que a casa de discos de jazz de Lisboa tem vindo a desenvolver com feliz regularidade. Num contexto arriscado de percussão solo, seria à partida um aliciante ver como Oliveira – que conheço de algumas actuações ao vivo e dos discos da Creative Sources, sobretudo na companhia de Ernesto Rodrigues e de outros nomes importantes da nova música improvisada portuguesa – se sairia no acto de dialogar consigo mesmo, e com o público. De presenciar o modo como o artista iria servir esse mistério que é a criação musical espontânea no instante.
José Oliveira dispôs um kit de percussão composto pelas peças da bateria convencional, acrescido de um sortido de pequenos pratos, fixos e móveis, discos de metal, artefactos de maderia, sinos, arco, e toda uma variedade de alfaias mais ou menos atípicas do arsenal, ainda que parco em extensão e quantidade, de um livre-improvisador da moderna percussão.
Posto em acção, Oliveira impressionou-me favoravelmente pela capacidade de invenção e reacção sonora aos estímulos que lhe eram auto-dirigidos. O som gerado num dado momento impulsionava a marca seguinte, compondo instantaneamente uma imagem sonora em que predominou o bom gosto e a capacidade de síntese. A madeira e o metal, esculpidos e impressionados às mãos de José Oliveira, ganharam texturas e formas polifacetadas interessantes, miniaturas que se encaixaram no grande plano, enquadradas por um discurso suave e subtil, sem espavento nem tiques de imitação, embora fossem notórios alguns traços análogos aos que se podem encontrar nos britânicos percussionistas Eddie Prévost e Paul Lytton, ou no alemão Paul Lovens, por exemplo.
Alguma desatenção pontual num ou noutro ponto do desenvolvimento narrativo (estaria José Oliveira demasiado tenso?) – há males que vêm por bem, porque esses aspectos serviram para estabelecer um interessante contraste entre inquietação e serenidade –, não foram de molde a macular uma actuação sóbria e concentrada, focada na criação sonora e na apurada gestão do silêncio e da deflagração. Oliveira tem ideias e sabe expô-las.
Tanto quanto percebi, este terá sido o último concerto a solo de José Oliveira, o que lamento, pelas razões que ficam ditas e por mais estas: a sua capacidade de gestão do instante, de organização do espaço sonoro e de criar relações de intimidade com o público, mereceriam mais lastro e tempo necessário ao processo de reformulação.
José Oliveira toca sábado na ZdB, integrado na Variable Geometry Orquestra, formação alargada, dirigida por Ernesto Rodrigues.

 
jazz, música improvisada, electrónica, new music e tudo à volta

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