De entre os recentes lançamentos da editora portuguesa Clean Feed - um conjunto de edições de se lhe tirar o chapéu, valha a verdade - The Whimbler, do Gerry Hemingway Quartet, é sobejamente merecedor de toda a atenção que lhe puder ser dada. Concentradamente, de preferência, para melhor apreender a riqueza dos detalhes.Depois de ter tocado durante mais de uma dezena de anos no quarteto de Anthony Braxton, com Marilyn Crispell e Mark Dresser, é natural que para Gerry Hemingway este tipo de combo, em relação ao qual foi afinando um tipo de escrita versátil no aproveitamento da vasta gama de potencialidades expressivas do quadrilátero, constitua o veículo ideal para pôr em prática o seu ideário em matéria de composição e improvisação. Não admira, pois, que a mesma lógica de utilização racional de recursos tivesse já imperado no anterior Devils Paradise (CF010), oportunidade para Hemingway fazer alinhar o trombone de Ray Anderson, o sax tenor de Ellery Eskelin e o contrabaixo de Mark Dresser.
Mergulhando a fundo no som de Gerry Hemingway, Ellery Eskelin, Herb Robertson e Mark Hellias, há dois aspectos particularmente apelativos numa primeira audição, que se confirmam com as passagens subsequentes: a rara e especialíssima relação dos músicos entre si e com o espaço, e a forma como articuladamente engrenam em laboriosa produção de tempo. Em The Whimbler, uma profusão de pontos luminosos e cintilantes convivem com zonas recônditas em que predominam sombras de misteriosa envolvência, como projecções que se sucedem no cenário da nossa imaginação.
Há muito de telepático na forma como o quarteto articula o discurso colectivo com as intervenções individuais, sob a batuta de mestre Hemingway, cujas composições, cruzando diferentes estilos (free bop, funk, swing...), parecem ter sido escritas tendo em mente cada um dos participantes. A comparação com Devils paradise, uma vez mais, põe às claras esta intencionalidade, com reflexo imediato no modo como as quatro peças se encaixam umas nas outras à medida e interagem livremente como membros de um único e orgânico ser.
Não será exagerado dizer que o estado da arte da música improvisada moderna emergente do jazz desemboca aqui, a caminho de algo que se vai ciclicamente renovando pela mão de artistas da qualidade de Gerry Hemingway, Ellery Eskelin, Herb Robertson e Mark Hellias.
Seguramente, The Whimbler é uma das mais estimulantes edições do corrente ano e um dos melhores discos de sempre de Gerry Hemingway.
Gerry Hemingway Quartet - The Whimbler (Clean Feed, 2005)
Os dizeres da contracapa deixam adivinhar uma sessão ao vivo daquelas que o ouvinte fica com a pulga atrás da orelha imaginando a noitada que deve ter sido no Tonic, na noite de 7 de Abril de 2004. É que Kevin Norton, percussionista, vibrafonista e compositor, para o efeito, reuniu um quarteto all star, com o trompetista Dave Balou, companheiro habitual da pianista japonesa Satoko Fujii e do trompista Tom Varner; o saxofonista tenor originário de Tucson, Tony Malaby, e o contrabaixista John Lindberg, aluno de David Izenzon e de Dave Holland, membro fundador do String Trio of New York. Quatro magníficos artistas versados na arte de bem tocar em quaisquer contextos, do mais agressivo ao mais doce, do tradicional ao menos convencional.À imagem do líder e fundador, Kevin Norton, o Bauhaus Quartet privilegia a improvisação sobre sólidas estruturas pré-sugeridas, rampas de lançamento para o quarteto se alcandorar aos píncaros, assim valorizando substancialmente a escrita de Norton. É desta tensão dialética entre composição e improvisação que brota a energia e a imaginação criadora com que se esculpe Time-Space Modulator.
Malaby consegue aqui uma das suas melhores marcas de sempre. Basta ouvir o tema de abertura, Mother Tongue, para perceber que é ele o homem mais adiantado no terreno, seguido de perto por um Dave Balou empenhado em preencher espaços com pinceladas curtas e em trocar notas com Malaby num despique muito interessante de seguir.
O apoio à linha da frente beneficia da grande categoria técnica da dupla Norton-Lindberg, que cumpre os mais elevados padrões que se conhecem em matéria de interacção contrabaixo/bateria. É neles que reside o centro agitador da actividade criativa, e é a partir do impulso rítmico que se forma o contraponto saxofone tenor/trompete, e se desenha uma paisagem musical leve e desanuviada, despida de ornamentos. Bem ao estilo Bauhaus, que procura da melhor relação entre forma e função e entre forma e modo de produção. Este objectivo de simplificação perpassa por todas as 8 composições de Time-Space Modulator. Nelas, a criação abstracta é intencionalmente posta ao serviço da funcionalidade do quarteto, fazendo sobressair os aspectos pragmáticos da criação musical - o lado artesanal por excelência.
É seguindo este propósito que Kevin Norton, Dave Balou, Tony Malaby e John Lindberg, artesãos do instante musical, escolhem materiais, lançam as bases e, pedra sobre pedra, levantam as paredes de um belo e vistoso edifício de cor e som. Espantoso trabalho na sua concepção e execução.
Kevin Norton's Bauhaus Quartet - Time-Space Modulator (Barking Hoop, 2005)

A inspiração vão buscá-la a outros trios que deixaram marca assinalável no jazz inventivo a partir da década de 70 - Air, Art Ensemble of Chicago e The Revolutionary Ensemble. Entretanto, procuram novas formas de dar corpo à arte da improvisação enquanto ente colectivo apostado em construir a unidade a partir da diversidade. Falo de Vijay Iyer, Steve Lehman e Elliot Humberto Kavee, o trio Fieldwork. Em Setembro passado o trio gravou Simulated Progress para a PI Recordings. O disco será posto à venda a partir de 17 de Julho, embora já esteja disponível através da página da PI.
Hailed as one of today’s truly original and groundbreaking ensembles by publications as diverse as The Wire, Mojo, the San Francisco Chronicle, and the Village Voice, Fieldwork sets forth a dynamic, high-impact group sound that’s unlike anything you’ve ever heard. Simulated Progress, the band’s second release, brings together three of creative music’s most exciting young composer-performers – Vijay Iyer on piano, Steve Lehman on alto & sopranino saxophones, and Elliot Humberto Kavee on drums & percussion – who use the collaborative organizational model of a rock band to advance a unique vision of 21st century music.
Simulated Progress significantly ups the ante from the band’s 2002 debut Your Life Flashes, in no small part due to the additional compositional contributions of Kavee and new saxophonist Steve Lehman alongside those of Iyer, and the sonic expertise of noted hip-hop & rock producer Scott Harding (aka Scotty Hard). From the understated resolve of “Infogee Dub” to the visceral power of “Gaudi” and the stealth navigation of “Trips”, it becomes clear that this ensemble is on to something new, challenging, and immensely satisfying: a coherent, organic music that is miraculously ordered in some places, deceptively chaotic in others, and always masterfully arranged for this rare instrumentation.
Fieldwork offers an electrifying new model for improvised music, in which collective engagement with pre-composed rhythmic and formal materials takes priority over the traditional model of individual solos. The band employs an intensive rehearsal regimen that allows them to internalize these technically demanding musical materials, while at the same time collectively developing and refining a group aesthetic. To that end, each exhilarating track on Simulated Progress showcases the band’s spontaneous arrangements and transformations of highly specialized compositional source materials. Their music is informed by underground hip-hop, electronica, contemporary classical music, polyrhythmic ideas from African and South Asian music, and the American jazz tradition – but it avoids sounding like any of these musics; it just keeps sounding like Fieldwork. -
PI Recordings
David S. Ware em meados dos anos 90. A pujança telúrica do saxofonista tenor norte-americano em todo o seu esplendor. Matthew Shipp, William Parker e Whit Dickey fazem o resto. Earthquation (DIW).
Snips repõe em circulação o primeiro concerto solo de Steve Lacy nos EUA. Uma fórmula que o grande saxofonista soprano explorou intensamente nos intervalos das suas investigações sobre a obra de Thelonious Monk (algumas delas a solo), e dos vários grupos que formou no decurso dos anos 70. Antes, em 1971, Lacy gravara Lapis (Saravah), o seu primeiro disco de soprano solo, temporalmente muito próximo de For Alto de A. Braxton (1969). As gravações contidas em Snips datam de Março de 1976. Não há como o belo chilrear de mestre Lacy para abstrair das conversas sobre o défice. Superavit garantido.Steve Lacy - Snips (Jazz Magnet)
Disc 1: 1. Hooky / 2. The New York Duck / 3. The 4 Edges: Outline (Air) / 4. The 4 Edges: Underline (Fire) / 5. The 4 Edges: Coastline (Water) / 6. The 4 Edges: Deadline (Earth) / 7. Snips. Disc 2: 01. Pearl Street / 2. Tao: Existence / 3. Tao: The Way / 4. Tao: Bone / 5. Tao: Name / 6. Tao: The Breath / 7. Tao: Life On Its Way / 8. Revolutionary Suicide.
Wildflowers: The New York Loft Jazz Sessions Complete

É corrente ouvir-se dizer que o jazz americano dos anos 70 é para esquecer, que a fusion tomou conta das operações deixando pouco ou nenhum espaço para outras formas de expressão dentro do género, e outras meias verdades que são hoje lugar comum. Mas a história tem outras nuances mais complexas que esta linearidade simplista e falaciosa.
Por exemplo, em meados dos anos 70, particularmente em Nova Iorque, o jazz apresentava uma vitalidade pouco comum em décadas anteriores e posteriores. À míngua de contratos para tocar em locais públicos, salas de concertos, bares, etc, e de oportunidades de gravação, parte da comunidade musical nova-iorquina decidiu emigrar para a Europa em busca de melhores condições de vida e criação artística. Outra parte enveredou por actividades paralelas mais ou menos relacionadas com o jazz, como a leccionação e a participação em sessões de estúdio de artistas pop e soul. Outra ainda, resistiu, resolveu ficar e remar contra a maré. Beneficiando de uma baixa no mercado imobiliário nos subúrbios da Big Apple, estes músicos procuraram formas alternativas de mostrar a sua arte ao público, assim contornando a pouca receptividade de empresários e promotores de concertos para divulgar música considerada de diminuto valor comercial.
Foi neste ambiente que na Lower Manhattan surgiu o movimento que veio a ser designado por Loft Jazz, liderado por músicos como Sam Rivers, David Murray, os membros do Art Ensemble of Chicago e do World Saxophone Quartet, Cecil Taylor, e engrossado por dezenas de outros artistas cujo contributo para o esforço comum não deve ser menosprezado. Em matéria de espaços de actuação e de gravação, ficaram para história, entre outros, o estúdio de Sam Rivers, Rivbea (de Rivers e Beatrice), o Ali’s Alley, de Rashied Ali, e o Joe Ladies’ Fort, de Lee Wilson - autênticos laboratórios artísticos em que se reuniam músicos veteranos com as novas e emergentes gerações, mantendo intensa actividade, pese embora parte dos media ter entretanto decretado a morte do jazz.
Durante 10 dias do mês de Maio de 1976, no estúdio de Sam Rivers, localizado em Bond Street, teve lugar um festival cuja gravação deu origem à edição de 5 álbuns. Os Lp´s, produzidos por Alan Douglas, coligiram as várias horas de música tocada naquele espaço por uma impressionante equipa de músicos, alguns dos mais representativos daquele tempo, como Sam Rivers, David Murray, David S. Ware, Roscoe Mitchell, Anthony Braxton, Byard Lancaster, Oliver Lake, Jimmy Lyons, Julius Hemphill, Henry Threadgill, Fred Hopkins, Sunny Murray, Don Moye e Steve McCall.
Anos passados, os originais 5 Lp’s editados pela Douglas, foram reunidos numa caixa de 3 CD’s, sob o título Wildflowers: The New York Loft Jazz Sessions Complete (Knit Classics - KF, 2000), que cobre por completo a edição original e dão a conhecer ao público actual a música de uma época que quase caiu no esquecimento. Ao longo dos 22 temas reunidos no triplo CD, complementados por anotações relativas a cada tema e por um bem documentado ensaio do jornalista Howard Mandel, fica-se com uma mais que razoável panorâmica de como soava o jazz/improv daquele tempo em Nova Iorque. Um documento único e imprescindível, que, além da música, encapsula o ambiente que se vivia nela e à volta dela. Wildflowers: The New York Loft Jazz Sessions Complete (Knit Classics - KF, 2000)
Disc One: 1) Jays: Kalaparusha McIntyre- tenor saxophone; Chris White- bass & electric bass; Jumma Santos- drums; 2) New Times: Ken McIntyre- alto saxophone; Richard Harper- piano; Andrei Strobert- multiple percussion; Andy Vega- conga; 3) Over the Rainbow: Sunny Murray- drums; Byard Lancaster- alto saxophone; David Murray- tenor saxophone; Khan Jamal- vibes; Fred Hopkins- bass; 4) Rainbows: Sam Rivers- soprano saxophone; Jerome Hunter- bass; Jerry Griffin- drums; 5) USO Dance: Henry Threadgill- alto saxophone; Fred Hopkins- bass; Steve McCall- drums, percussion; 6) The Need to Smile: Harlod Smith- drums; Byard Lancaster- tenor saxophone; Art Bennett- soprano saxophone; Olu Dara- trumpet; Sonelius Smith- piano; Benny Wilson- bass; Don Moye- conga; 7) Naomi: Ken McIntyre- flute; Richard Harper- piano; Andy Vega- conga & percussion; Andrei Strobert- multiple percussion; 8) 73° Kelvin: Anthony Braxton- alto & contrabass saxophones, clarinet; George Lewis- trombone; Michael Jackson- guitar; Fred Hopkins- bass; Barry Alstchul- drums; Phillip Wilson- percussion; 9) And Then They Danced: Marion Brown- alto saxophone; Jack Gregg- bass; Jumma Santos- conga.
Disc Two: 1) Locomotif No. 6: Leo Smith- trumpet; Oliver Lake- alto saxophone; Anthony Davis- piano; Wes Brown- bass; Paul Maddox- drums; Stanley Crouch-drums; 2) Portrait of Frank Edward Weston: Randy Weston- piano; Alex Blake- bass; Azzedin Weston- conga; 3) Clarity 2: Michael Jackson- acoustic guitar; Oliver Lake- soprano saxophone & flute; Fred Hopkins- bass; Phillip Wilson- drums; 4) Black Robert: David Burrel- piano; Stafford James- bass; Harold White- drums; 5) Blue Phase: Ahmed Abdullah- trumpet; Charles Brackeen- tenor & soprano saxophones; Masujaa- guitar; Leroy Seals- electric bass; Rickie Evans- acoustic bass; Rashied Sinan- drums; 6) Short Short: Andrew Cyrille- drums; Ted Daniel- trumpet; David S. Ware- tenor saxophone; Lyle Atkinson- bass; 7) Tranquil Beauty: Hamiet Bluiett- clarinet & baritone saxophone; Olu Dara- trumpet; Butch Campell- guitar; Billy Pastterson-guitar; Juney Booth- bass; Charles Bobo Shaw- drums; Don Moye- drums; 8) Pensive: Julius Hemphill- alto saxophone; Abdul Wadud- cello; Bern Nix- guitar; Phillip Wilson- drums; Don Moye- percussion.
Disc Three: 1) Push Pull: Jimmy Lyons- alto saxophone; Karen Borca- bassoon; Hayes Burnett- bass; Henry Maxwell Letcher- drums; 2) Zaki: Oliver Lake: alto saxophone; Michael Jackson- electric guitar; Fred Hopkins- bass; Phillip Wilson- drums; 3) Shout Song: David Murray- tenor saxophone; Olu Dara- trumpet & flugelhorn; Fred Hopkins- bass; Stanley Crouch- drums; 4) Something’s Cookin’: Sunny Murray- drums; David Murray- tenor saxophone; Byard Lancaster- alto saxophone & flute; Khan Jamal- vibes; Fred Hopkins- bass; 5) Chant: Roscoe Mitchell- alto saxophone; Jerome Cooper- percussion, saw & drums; Don Moye- drums.
«Ó da Guarda»!
Supersilent na Guarda!
Pelo Teatro Municipal da cidade, entre 7 e 9 de Julho, passarão:
Vitor Joaquim e Lia
(7-7-2005, 21h30)
ZNGR Electro-Acoustic Ensemble
(8-7-2005, 21h30)
Supersilent
(9-7-2005, 21h30)
«Ó» - Colectivo de Improvisação da Guarda
(9-7-2005, 23h00)
Chicago Underground Trio, SLON
Rob Mazurek, corneta, computador; Chad Taylor, bateria; e Noel Kupersmith, contrabaixo e computador – o Chicago Underground Trio.Slon, saído em 2004, é um disco politicamente empenhado, nascido durante a «No War Tour», realizada na Europa em Abril de 2003, digressão que antecedeu a invasão do Iraque pelas tropas norte-americanas. Não falta a dedicatória a “todas as pessoas que perderam as suas vidas às mãos do imperialismo dos EUA”. Agit-prop sob a forma de música instrumental.
Musicalmente, Slon inspira-se em duas grandes matrizes: o electro-jazz de Miles Davis e o free jazz tal como Ornette Coleman o definiu, com uns matizes de world ao melhor estilo de Don Cherry, e vestígios do espírito fundador da Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM), de Chicago.
A originalidade de Slon está no equilíbrio que consegue entre aquelas influências, na qualidade das composições, arranjos e interacção entre os membros do trio. Assim se produziu um disco intenso e poderoso, em que as estruturas harmónicas e rítmicas do jazz se deixam envolver e expandir pela manta electrónica, criando um produto homogéneo, capaz de agradar a um público de bom e variado gosto, mais interessado na exploração experimental que na fidelidade aos cânones do jazz acústico.
Pessoalmente, Slon é o melhor Chicago Underground (duo, trio, quarteto e orquestra) que ouvi até à data; aquele em que a integração acústica e electrónica foi mais longe, o que melhor transcende as fronteiras entre géneros e mais consequentemente se liberta das convenções, em busca de novas formas de expressão para a música improvisada moderna. Preciosos 43’30’’.

Para o serão, duas propostas de free electronica publicadas há pouco tempo pela Live Reports, uma secção da netlabel ucraniana Nexsound, dirigida por Andrey Kiritchenko. O primeiro de dois concertos é uma improvised live jam da dupla de artistas do experimentalismo electrónico, Kotra & Kateryna Zavoloka na A&T Trade Shop, em Kiev, Ucrânia, a 19 de Fevereiro de 2005. O segundo, um pouco mais antigo, é um concerto daquele que é considerado um dos expoentes da nova música electrónica ucraniana, Andrey Kiritchenko, gravado no Ultrahang Festival de Budapeste, Hungria, em 27 de Setembro de 2003.
Aretha Franklin subiu ao cume mais alto com este álbum de 1968. Lady Soul e as meninas do coro, as Sweet Impressions. E toda a banda, com especial destaque para os naipes de cordas e de metais, que muito ajudaram a fazer deste disco uma obra-prima da soul music. Como não, com temas do quilate de Chain of Fools, People Get Ready, (You Make Me Feel Like) A Natural Woman, Ain't No Way, etc. The Queen... .Aretha Franklin: Lady Soul (Atlantic, 1968)
SonicScope 2005
free electronica e música experimental improvisada1-2 julho 05 - 21h30
1 de Julho, sexta-feira:
.Draftank + Vitor Joaquim
.Francisco Janes + Carlos Pereira
.David Maranha
2 de Julho, sábado:
.Allto
.Iodo
.Sei Miguel
Fonoteca Municipal de Lisboa
Praça Duque de Saldanha, Edifício Monumental, Lj. 17, LisboaEntrada livre
Depois de uma conversa com REP ontem ao encontro dos Wolf Eyes, hoje apeteceu-me revisitar aquela que descobri ser uma paixão comum: Jethro Tull. Hesitante, opto por Benefit (1970), o terceiro dos Tull e o meu primeiro, há bué. Em relação a This Was (1968) e a Stand Up (1969), nota-se que Ian Anderson ganhou autoridade vocal e segurança instrumental na confecção desta excelente mistura de blues, folk e rock progressivo, com uma pitada de jazz. 35 anos depois, Benefit ainda dá coices. Para muitos, este é o melhor Jethro Tull de sempre. Pode ser que sim.
With You There To Help Me (6:19) / Nothing To Say (5:14) Alive And Well And Living In (2:48) / Son (2:51) / For Michael Collins, Jeffrey And Me (3:51) / To Cry You A Song (6:15) / A Time For Everything? (2:44) / Inside (3:49) / Play In Time (3:49) / Sossity; You're A Woman (4:42)
In days of peace
sweet smelling summer nights
of wine and song;
dusty pavements burning feet...
(Abertura de With You There To Help Me)
Ian Anderson / Martin Barre / Glenn Cornick / Clive Bunker
WOLF EYES na ZdB
Tudo o que se tem dito e escrito sobre a música dos Wolf Eyes é de menos para caracterizar o concerto de sexta-feira à noite na ZdB, em Lisboa. A besta soltou-se e fez um estrago taludo. Sessão de free rock/power noise levado ao paroxismo, muito para lá dos limites conhecidos, sem que Nate Young, Aaron Dilloway e John Olson jamais tivessem perdido o domínio sobre a hipérbole sanguinária. No fundo, eles apenas apontam baterias e fazem zoom sobre a besta que há em nós, encarnando-a e mostrando-nos o reflexo. Músculo, sangue, presas, som brutal numa luta corpo a corpo de que se sai inexoravelmente exausto mas satisfeito. Apoteose de violência romântica por mor de uma devastadora experiência sensorial. A bela e o monstro são uma e a mesma entidade que grita as tripas todas cá para fora. Transcendemente.
Jack Kilby, nascido no Kansas em 1923, inventor dos circuitos integrados que levaram à criação dos microprocessadores, morreu esta semana aos 81 anos. Kilby, Prémio Nobel de Física em 2000, criou em 1958 o primeiro circuito integrado, em que todos os componentes constituíam uma só peça de material semicondutor de tamanho microscópico. A invenção de Kirby conduziu à criação de microprocessadores que actualmente fazem parte de quase todos os aparelhos digitais da comunicação moderna, designadamente computadores, e esteve na base da revolução informática.
Kirby disse ter tido consciência de que a sua invenção haveria de ser importante para a indústria electrónica, mas confessou não ter antecipado o real impacto que ela acabaria por ter no mundo actual. Poucas pessoas mudaram realmente a face do mundo em que vivemos. Kilby foi uma delas.
Dennis González Portuguese Trio na Trem Azul, sáb. 25, 19h30.
Dennis González / Zé Eduardo / Sónia "Little B" Cabrita
Confesso-me um admirador da obra a solo do saxofonista Evan Parker. O caminho não foi fácil. A princípio, como aconteceu com a música de tantos outros criadores, a estranheza foi total e a rejeição imediata só não aconteceu porque de há muito entranhei a singela lição de Anthony Braxton, segundo a qual também na música improvisada o grande desafio está em tomar o nosso mais recente limite, a última fronteira musical que conhecemos, e, a partir dela, tentar ir mais além. E assim sucessivamente.Por isso, a odisseia aparentemente inultrapassável que constituíram as primeiras horas de audição de saxofone soprano solo de Evan Parker, com ou sem a técnica (que nele é estética) da respiração circular - que consiste em soprar ininterruptamente durante o tempo que se quiser ou aguentar, continuando a respirar pelo nariz e expelindo o ar pelo bocal do instrumento, segundo a elementar regra de circulação entre vasos comunicantes - transformaram-se em momentos de extremo desafio, apenas vencidos graças à prática de exercício auditivo regular. Foi esse treino que me permitiu descobrir um mundo maravilhoso de infinitas possibilidades: a grande música improvisada do saxofonista britânico, baseada em motivos geométricos de elevada complexidade. Uma linguagem musical altamente personalizada que se estruturou em mais de 30 anos de actividade.
Vem isto a propósito de Conic Sections, disco gravado por Parker em Oxford (1989), editado naquele mesmo ano pela britânica AhUm. De entre os muitos solo que Evan Parker gravou, este é talvez um dos mais emblemáticos da modalidade.
A ler: o ensaio de Francesco Martinelli sobre a discografia de Evan Parker (1994).
Signal to Noise, n.º 38, Verão de 2005.Música improvisada, experimental, electroacústica, avant-jazz e avant-rock, principalmente.
Uma estreia empolgante! Este é de ir às lágrimas...
Cold Bleak Heat - It's Magnificent, But It Isn't War The debut from a subterranean assembly of today's most active: Connecticut's prevailing operator of the alto/ tenor saxophones, Paul Flaherty; the seemingly ten-handed/ footed drummer Chris Corsano (Sunburned Hand of the Man, Six Organs of Admittance), definitely today's leading light in pure spectrum propulsion; sound sculpting trumpeter Greg Kelley (nmperign, Heathen Shame), who opens into full-force gales during this session; and Earth-boom grounding acoustic bassist Matt Heyner (No Neck Blues Band, Test), whose tone/shape-shifting agility wrangles all these wild horses into one field. These four actioners embody a cosmic shuffle of unresolved parallel. Cold Bleak Heat is a wake up call to the evolving life of the avant garde. And on the inside Dredd Foole lays a verse-based telling of the CBH story as only he can.> Family Vineyard Records.
Thollem McDonas, Solo Piano
«Ler nas entrelinhas e tocar fora delas» - a divisa do pianista Thollem McDonas. Neste seu mais recente trabalho para a Pax Recordings, é aquele lema que dá o mote e a chave interpretativa para uma extasiante excursão de 47 minutos pelas ideias que resumem o pensamento musical do mestre pianista da Bay Area de S. Francisco.
Esta primeira incursão a solo de Thollem McDonas surge na sequência da sua participação em vários grupos, ambientes e contextos, entre os quais o excepcional duo com o baterista Rick Rivera, parceria que deu origem a dois excelentes discos, I'll Meet You Halfway Out In The Middle Of It All e Everything's Going Everywhere, de recente edição.Nesta medida, a arte de Thollem abarca vários géneros e estilos sem se ater a nenhum em particular. Fortemente influenciado pela tradição do piano clássico dos últimos 50 anos, o pianista trabalha meticulosamente nas profundezas do património comum à composição e à improvisação, que faz emergir e elevar a alturas pouco comuns de se ouvir. Não que o compositor/improvisador pretenda exibir um qualquer estulto tecnicismo maneirista ou o malabarismo de fazer o pleno da variedade estilística.
O resultado a que se chega é a consequência natural de Thollem ser intrinsecamente um pianista ecléctico no gosto e no modo de dizer, no que é facilitado por possuir uma técnica inventiva altamente elaborada, ferramenta que lhe permite conferir à música uma extraordinária flexibilidade e variabilidade dinâmica. Ler nas entrelinhas e tocar fora delas... .
O disco, gravado entre as 11h00 e as 19h30 de 18 de Março de 2005 (sic), inclui 13 peças originais de aparência ora dura e vibrante, ora frágil e delicada nos seus contornos. Piano Solo é uma viagem musical em que se desfiam as experiências vividas pelo artista ao longo dos últimos 15 anos de actividade e que são simultaneamente um balanço e o delinear de coordenadas para o futuro. Tal como nos anteriores álbuns com Rick Rivera, os temas de Solo Piano privilegiam uma comunicação directa e imediata com o ouvinte, convidando-o a um relacionamento seguramente perdurável no tempo.
Atenção! É já amanhã, sexta 24 de Junho, que os WOLF EYES actuam em Lisboa, na ZdB!
Para saber mais sobre este camartélico trio:
«O papel que os Wolf Eyes terão a longo prazo na história é obviamente especulativo. Contudo, será difícil encontrar um punhado de artistas ou bandas nesta primeira década de milénio que possam vir a ter o mesmo peso deste trio. Pela simples razão de terem lançado um álbum pela Sub Pop (o fabuloso «Burned Mind», de 2004) depois de anos a editar edições limitadas em cassetes, CD-R’s, picture discs e LPs (com uns CDs pelo meio), a difusão alcançada por este lançamento, pode fazer muita cabeça insuspeita abrir completamente ao meio.
Não será um momento como o que a banda de Kurt Cobain viveu, ou mesmo os próprios Mudhoney quando «Superfuzz Big Muff» saiu (aliás, as vendas até agora são relativamente modestas), mas pelo simples facto de centenas ou milhares pelo mundo fora poderem reconsiderar questões tão básicas como a validade do ruído ou os limites do que é propriamente música parece salutar. Não deixa de ser curioso ver a Rolling Stone ou a Spin fazerem curto-circuito a tentar alinhar esta banda. Enquanto isso a Wire põe-os na capa de uma edição e Anthony Braxton, algures na Suécia num festival cujo cartaz partilhava com a banda, comprava todo o «merchandise» Wolf Eyes de que a banca dispunha.
Os Wolf Eyes são Aaron Dilloway, John Olson e Nate Young, três carismáticos cidadãos do estado de Michigan. Filhos da cena de Ann Arbor dos Couch de Marlon Magas (uma continuação raramente contada do no-wave) de meados dos anos 90 ou Universal Indians, bem como do festival de aberrações, ridículo e sujidade das várias encarnações dos Caroliner, os Wolf Eyes conseguiram edificar um universo único e riquíssimo, tanto em meios empregues quanto em resultados.
Os seus sons saem de uma parafernália de instrumentos sem par. Ao vivo, podemos vê-los com um tubo de aspiração de saliva «micado», um gongo amplificado, um maço medieval, uma guitarra com aspecto extra-terrestre e toda uma panóplia de caixas de ruído e pedais «homemade», em pilhas impressionantes. O som é puramente analógico, bafiento, assombrado; a música é pesadelos, filmes de terror levados a sério, sangue, medo, pavor. Ou como se o terror tivesse uma batida que desse para «headbanging».
Predecessores – até certo ponto, dada a idiossincrasia do projecto - podem ser encontrados nas ruminações mais oblíquas dos Butthole Surfers, nos britânicos Whitehouse, no ruído mitra do histórico Dylan Nyoukis (em nome próprio mas particularmente na sua obra enquanto Prick Decay), ou ainda nos míticos Smegma, anciões misteriosos do som puro, causadores de estranhezas multiplicas de há três décadas para cá (um par de colaborações entre o projecto e os Wolf Eyes saíram nos últimos dois anos).
O efeito surte há já algum tempo. Desde o início dos Wolf Eyes que a banda adensou ao impacto de um noise complexo, rico, real, vivo e humano. Veja-se o grau mítico a que o nova-iorquino No Fun Fest chegou (a banda foi cabeça de cartaz no primeiro ano), ou a quantidade de editoras de ruído analógico que surgiram em tempos recentes. Ao lado dos Hair Police, Double Leopards, Prurient, Sightings, Dead Machines ou To Live And Shave In L.A., são os pais e os porta-estandartes de um exército de miúdos disseminados pelos Estados Unidos, a encontrarem o seu próprio ruído e a compreenderem que som é música + infinito, enquanto tentam encontrar expressões físicas sónicas para a confusão que os corrói.
Estreia absoluta em Portugal de uma das bandas mais revolucionárias do presente milénio». - ZdB
Louis Armstrong (na foto, prova de contacto anotada pelo punho de Gottlieb), Duke Ellington, Charlie Parker, Billie Holiday, Dizzy Gillespie, Earl Hines, Thelonious Monk, Stan Kenton, Ray McKinley, Benny Goodman, Coleman Hawkins, Ella Fitzgerald, Benny Carter... . The Golden Age of Jazz.
Sun Ra. Uma visita à página de Suso Navarrete, um dos maiores expertos na Matéria:O que se costuma chamar labour of love. Amor à arte de Sun Ra.
Saludos, Suso!
Cosmic Equation
Then another tomorrow
They never told me of
Came with the abruptness of a fiery dawn
And spoke of Cosmic Equations:
The equations of sight-similarity
The equations of sound-similarity
Subtle Living Equations
Clear only to those
Who wish to be attuned
To the vibrations of the Outer Cosmic Worlds.
Subtle living equations
of the outer-realms
Dear only to those
Who fervently wish the greater life.

Nova Iorque, 1969. Para trás tinha ficado a banda de Herbie Mann, e a Sonny Sharrock (1940-1994) há muito que apetecia algo mais sanguíneo, que musicalmente acompanhasse as ondas de calor que brotavam do vulcão político da América daquele tempo. Faltava só convencer o pianista Dave Burrell, o contrabaixista Sirone e o percussionista Milford Graves, porque a Linda Sharrock já fugia o pézinho para aqueles lados. No disco entraram também Ted Daniel, trompete, Richard Pierce, contrabaixo e Gary Sharrock, sinos. Black Woman e Portrait Of Linda In Three Colors, All Black, de entre todos, são os temas mais obviamente inspirados na cantora, mulher de Sonny. O álbum é hoje um clássico e um dos melhores de sempre do grande guitarrista free que foi Sonny Sharrock. Talento imenso que se pode confirmar através da audição dos projectos de fusão em que participou a partir de meados dos anos 80, com Bill Laswell - Last Exit e Material. Edição original da Vortex/Atlantic. Sonny Sharrock - Black Woman
Louis Moholo, percussionista sul-africano, gravou Bush Fire em 1995 com os britânicos saxofonista Evan Parker e contrabaixista Barry Guy (canal direito), e com Pule Pheto e Gibo Pheto, dois jovens sul-africanos pouco vistos nestas andanças, respectivamente em piano e contrabaixo (canal esquerdo).
Free jazz politicamente empenhado, que mistura um leve aroma sul-africano, muito ténue, com o lado mais energético do jazz vanguardista europeu tocado por um quinteto de alta qualidade. Grupo formado a partir de um concerto em trio de Parker e Moholo, representantes das duas grandes áreas da música improvisada britânica (jazz e improv), com o pianista Pule Pheto, na sequência do qual, surgida a oportunidade de gravar, o trio pensou em alargar‑se a quinteto com a adição dos dois contrabaixistas. O resultado vale bem a pena ser ouvido vezes sem conta.
Louis Moholo/Evan Parker/Pule Pheto/Gibo Pheto/ Barry Guy Quintet - Bush Fire (Ogun)

Nos discos da Hiena, sai para a semana um novo solo de James Blood Ulmer, Birthright, que se segue a No Escape From The Blues. «Thick as molasses, aromatic as cigar smoke, Ulmer’s voice has an eerie beauty» - Mojo. São 14 blues a doer: Take My Music Back To The Church / I Can’t Take It No More / Where Did All The Girls Come From? / I Ain’t Superstious / White Man’s Jail / High Yellow / The Evil One / Geechee Joe / Love Dance Rag / Sittin’ On Top of the World / My Most Favorite Thing / Devil’s Got To Burn.
James Blood Ulmer - Birthright (Hyena Records).
DIA 25 DE JUNHO, 19h30 NA TREM AZUL JAZZ STORE
CONCERTO
DENNIS GONZÁLEZ PORTUGUESE TRIO
DENNIS GONZÁLEZ / ZÉ EDUARDO / SONIA "LITTLE B" CABRITA(10% DE DESCONTO NOS DISCOS - NOVO STOCK DE VINlL)


Intuition. Lennie Tristano cunhou esta preciosidade para a Capitol já lá vão 56 anos. Ficou para história como o pontapé de saída para a criação do som cool no jazz. Com Tristano, em sexteto, actua parte da sua escola: Lee Konitz, Billy Bauer, Warne Marsh. E também o contrabaixista Arnold Fishkin, que alterna com os bateristas Harold Granowsky e Denzil Best. Graças à reedição espanhola, voltamos a poder ouvir Intuition, Digression, Crosscurrent, Marionette e outras peças do acervo Tristano e da sua leitura muito particular do bop, com as características complexidade rítmica e muito trabalho harmónico. Intuition e Digression, os temas que fecham o disco são dois bons exemplos do pioneirismo de Lennie Tristano ao nível da improvisação liberta dos acordes, corolário das suas experiências anteriores com Konitz e Marsh. É quase incrível que Tristano e companhia fizessem algo assim em 1949.
A primeira parte do disco é preenchida com o álbum de Warne Marsh, Jazz Of Two Cities, de 1956, uma raridade até há pouco só acessível a coleccionadores obstinados. À frente do combo pelejam os tenores Warne Marsh e Ted Brown, secundados pelo pianista Ronnie Ball, uma velha glória daqueles tempos em que, na Costa Oeste dos EUA, se trilhava a modernidade do jazz. Cool, mas não gelado.
A recente edição espanhola de Intuition (Capitol/Time Life) tem a mesma capa que a original, embora tingida de azul.
A Newsletter de Junho.
Algumas das peças de Japanstoryboardformulaoneracing, projecto na área da música electrónica do artista francês Con7, parecem mais esboços para memória futura que trabalhos rematados. Apesar de, a espaços, parecer enveredar por caminhos muito batidos desde meados dos anos 90, sobretudo nos aspectos formais decorrentes do uso minimalista da lo-fi electronica, o som apresenta no entanto um surpreendente ar de modernidade, projectando-se no futuro. Num género compósito de synth-pop, click'n'cuts, ambient, noise, minimal electronica, experimental computer music, techno e o mais que se consiga identificar ou aparentar, em que abundam propostas de contornos mais trabalhados, não será porventura dos projectos mais arriscados nos seus propósitos, mas também não se pode dizer que desmereça um ouvido atento, curioso e descomprometido. Sobretudo, vale o esforço de regressar a cada nova passagem, porque a dado momento surge a grata impressão de se estarem a ouvir sons que se haviam esfumado da vez anterior. Pontos decisivamente a favor serão a forte sugestão visual, com algumas notas de florescência na cor, o despojamento formal e substancial, e a coerente articulação dos milhares de sons servidos por Con7 em Japanstoryboardformulaoneracing.Con7 - Japanstoryboardformulaoneracing (tube'017)
Quem tenha um interesse sério no free jazz, historicamente considerado e nas várias formas por ele assumidas na actualidade, não deve perder o que o programa Jazz on 3 da BBC Radio 3 emite em webcast a partir de hoje à noite e durante toda a semana. O que se anuncia é deveras interessante e passa por assistir via áudio ao resultado da presença em Londres, mais de 30 anos passados sobre a última vez, do saxofonista afro-dinamarquês John Tchicai, convenientemente conduzido aos estúdios da BBC por Jez Nelson, que promoverá o encontro histórico entre John Tchicai e Evan Parker, um dos lideres do free jazz/improv britânico, aqui investido nas funções de entrevistador.Parker entrevista Tchicai? Parece que sim. Vai ser essa uma das partes do Jazz on 3 desta noite e das outras que se seguirem, até à próxima sexta-feira. Entremeando a conversa, poder-se-ão ouvir temas gravados pelo entrevistador e pelo entrevistado, quando juntos tocaram em Maio último, em Londres.
A coisa promete e é suficientemente motivadora para deixar um jazzómano de orelha coladinha à telefonia. Ou por outra, às colunas do PC.
Originalmente editada pela ora extinta Auvidis Montaigne, eis reeditada a importante obra de Iannis Xenakis (1922-2001) La Legende d'Eer, composição electroacústica escrita entre 1977 e 1978, a partir de sons instrumentais, noise e electrónica. A obra foi propositadamente composta para ser executada na inauguração do Centro Georges Pompidou, em Paris, dentro de uma estrutura arquitectónica (Le Diatope) desenhada pelo próprio Iannis Xenakis, com luzes lazer e outros efeitos visuais.A versão agora publicada pela Mode Records foi preparada por Gerard Pape, director do estúdio CCMIX de Xenakis em Paris. Consta que a master original analógica foi transferida sob orientação de Pape para formato digital de alta resolução a 96khz/24-bits, com o objectivo de revelar os detalhes que, segundo a produção, haviam ficado escondidos na anterior edição em CD (1998).
Sobre La Legende d'Eer escreveu Richard Scott na WIRE: "It is difficult to think of another contemporary composition which carries the sheer force of 'The Legend of Eer.' It is a gigantic, awesome, staggering piece; certainly I haven't heard anything to touch it with electronic music's short, if dense, history". Iannis Xenakis - Electronic Works 1: La Legende d'Eer (Mode Records)
Cada gravação de Whit Dickey tem dado a conhecer ao público um novo conceito de ente colectivo que ciclicamente se refunda e reorganiza em termos de se poder apresentar como tal. Desde Transonic (1998), o primeiro álbum de Dickey como líder, que assim tem sido. Repetiu-se em Big Top e Coalescence, e agora volta a ser verdade com In a Heartbeat. Não se trata de magia; é trabalho, investimento e organização.É nesta estratégia que assenta a manufactura de In a Heartbeat. Processo global que exige dos membros do quinteto mais que simples cumplicidade e orientação convergente: a criação musical sinergética, na qual, por definição, o produto final é superior à soma das partes que o compõem.
Neste caso, as partes são, além de Whit Dickey que, à excepção do tema de abertura, de Carla Bley, assina a totalidade das composições e assegura as componentes propulsiva e cromática da percussão, Rob Brown, saxofone alto; Roy Campbell, trompete; Joe Morris, guitarra; e Chris Lightcap, contrabaixo.
Os quatro são companheiros habituais de Dickey na cena jazz/improv de Nova Iorque, músicos que mantêm entre si uma relação marcada não por valores de hierarquia, mas por um certo igualitarismo, em que cada voz, na sua individualidade e diversidade próprias, assegura o tempo e o espaço necessário à expressão individual e à contribuição para o som colectivo.
A composição musical de Whit Dickey, ainda que a sua função seja a de fornecer enquadramento para a actividade do quinteto, baseia-se em profundos conhecimentos técnicos, capacidade de interacção e interdependência, condições essenciais ao seu processo evolutivo. Tais pontos de partida, que colocam ao mesmo nível a composição escrita de base, e a que resulta da improvisação instantânea, validam o processo criativo, conferem um forte sentido de originalidade e estabelecem sinais distintivos de pertença a um estádio superior de desenvolvimento da música improvisada moderna.
Composição a composição, todo o trabalho está dividido em séries de actividades ou processos. Cada processo está ligado a outro processo e o resultado de um constitui o material de trabalho de outro, todos relacionados entre si pela solidez dos arranjos, sem que qualquer deles seja indissociável ou viva independentemente do viver de todos juntos.
Whit Dickey, mestre baterista, possui um som característico em que são evidentes a mistura homogénea entre força e sensibilidade e a fluidez do tempo, intensidade emocional e rigor formal, textura e volume, variedade de andamentos, características que assimilou em profundidade durante o período em que integrou o quarteto de David S. Ware, de onde partiu para pôr em prática o objectivo de dar sentido à necessidade de compor e dirigir, a partir de dentro, as suas próprias composições.
Rob Brown tem com Dickey uma das melhores e mais profícuas relações musicais. Traduzida na prática, Rob Brown é responsável pela faísca que acende o rastilho do animado discurso colectivo, hábil no encadeamento lógico das diferentes linhas musicais geradas pelas investidas entre luz e sombra da trompete de Roy Campbell, da guitarra pontilhística de Joe Morris, e da fluidez do contrabaixo de Chris Lightcap. Mestres da gestão do tempo e do espaço que lhes é concedido e daquele que conquistam em benefício do esforço comum, diverso na multiplicidade de padrões rítmicos e fraseados melódicos, qualidades que os fazem sobressair individualmente num mar de executantes dos mesmos instrumentos.
Neste quadro, a música do Whit Dickey Quartet é muito mais que a reprodução ou actualização das formas e definidas há sete anos atrás, aquando da publicação de Transonic. O que se ouve em In a Heartbeat resulta, afinal, da discussão interna e do amadurecimento colectivo à luz da experiência individual, que inclui um olhar consciente sobre os caminhos do jazz actual.
A vontade e o entusiasmo de tocar e de partilhar a música com o ouvinte, determina os superiores níveis de criação artística patentes em In a Heartbeat. Garante retornos apreciáveis, consequência da maturidade artística e da ambição criativa, verdadeiros motores do progresso estético.
THE COMPLETE BLUE NOTE SAM RIVERS SESSIONS
Entre 1964 e 1967, o melhor de Sam Rivers. Inclui os originais Fuschia Swing Song (Jaki Byard, Ron Carter e Tony Williams), Contours (Herbie Hancock, Freddie Hubbard, Carter e Joe Chambers), A New Conception (Hal Galper, Herbie Lewis e Steve Ellington), Involution e Dimensions & Extensions (Donald Byrd, James Spaulding, Cecil McBee e Julian Priester). Mosaic Records.
Steffen Andersen, contrabaixo; Hugh Steinmetz, trompete; Franz Beckerlee, saxofone alto; Bo Thirge Andersen, bateria; Niels Harrit, serra (mas afinada).Recorded in Copenhagen 1966-67. For many, perhaps most, free music fans outside Denmark, this disc will be a revelation. But The Contemporary Jazz Quintet was an active part of the European free jazz movement. There is simply nothing else like this sound in the whole gamut of free music. This is unprecedented music, totally fresh and pulsing, at times frightening in its intensity. Music of its time. Music of our time. Startling music. Any time.
Mainada! Cru e duro como poucos ouvir se podem. New Thingíssimo, é preciso não confundir com o contemporâneo New York Contemporary Five, de Archie Shepp. Atavistic/Unheard Music Series, 1966/1967.

» SLY & ROBBIE - confirmados no MUSA!
A mítica dupla rítmica Sly & Robbie está a caminho do MUSA!
Ao fim de 27 anos de carreira recheados de êxitos, será a vez de Carcavelos e do Festival MUSA receber no dia 2 de Julho estes verdadeiros gurus acompanhados pela Taxi Band e pela voz de Bunny Rugs, o vocalista dos Thirdworld.
Tendo o reggae como ponto de partida nas suas carreiras, o baixo que ouvimos em “Stir It Up” de Bob Marley é o de Sly. Ao longo destes 27 anos a dupla viajou por vários estilos musicais fruto do trabalho com os mais variados artistas desde Mick Jagger, Madonna, Bob Dylan, Lou Reed e Peter Tosh (no sucesso mundial “Don´t Look Back”), Grace Jones, Joe Cocker, Simply Red, entre outros, não esquecendo as suas incursões pelos novos estilos do reggae que passam invariavelmente pelo drum n´bass e pelo dub.
Estes dois senhores da música reggae, fundadores da mítica banda de reggae Black Uhru (Liberdade Negra), apresentaram uma nova abordagem do reggae que veio a influenciar toda geração de artistas de todo o mundo. Simultaneamente conseguem que o reggae deixe de ser expressão circunscrita à Jamaica e se transforme em expressão universal. Com Sly Dunbar na bateria, Robbie Shakespeare no baixo e Bunny Rugs na voz estão criadas as condições para um dos mais marcantes concertos de reggae em Portugal.
A maior secção rítmica do reggae não perdeu imaginação nem energia e, ainda hoje, Sly & Robbie esbanjam criatividade. Será um concerto a não perder não somente pela nação rasta mas por todos aqueles que gostam de boa música independentemente do género em causa.
Local: Recinto da Feira de Carcavelos, Carcavelos
Horário: Abertura de portas 18h30
Data: 1 e 2 de Julho de 2005
Bilheteira: 1 dia: 4 euros 2 dias: 6 euros
Bilhetes à venda na FNAC, Lojas Abreu, www.ticketline.pt e no próprio dia no local do evento.
Gravado em Fevereiro deste ano, desconheço se Zero Degree Music (CIMP) é a última realização discográfica de Adam Lane, considerando a multiplicidade de projectos com que se vê a braços por estes dias. Tenho como certo é que se trata de um dos melhores discos que ouvi ao jovem contrabaixista de entre Los Angeles e Nova Iorque. Em trio, com Adam Lane, tocam Vinny Golia (saxofones soprano e tenor) e o baterista Vijay Anderson. «We play a free swing, hard bop, avant swing similar to Mingus and Ellington on the Money Jungle record, but with a bit more of a modern feel», nas palavras certeiras do jovem líder. E eu acrescentaria que o groove rock de Adam Lane projecta-se por inteiro na música que compôs para este trio, a que mestre Vinny acrescenta considerável valor. Além disso, que já não seria negligenciável, esta é uma das poucas oportunidades de o ouvir tocar saxofones tenor e soprano em grupos de reduzida dimensão.
Tiro o boné a estes três, por Zero Degree Music.
O pianista e compositor belga Wim Mertens celebra 25 anos de carreira e volta a Portugal para apresentar ao vivo Un Respiro, o novo álbum. Estão previstos três concertos. Hoje à noite (15/6), actua na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Segue-se o Centro Cultural de Belém, a 17 de Junho, e o Teatro Aveirense no dia seguinte.Wim Mertens, piano solo e voz.
O Boom Boom do ATOMIC é simplesmente boombástico. Cinco músicos suecos e noruegueses, Fredrik Ljungkvist, Magnus Broo, Håvard Wiik, Ingebrigt Håker Flaten e Paal Nilssen-Love, dedicam-se com afinco e denodo ao que melhor sabem fazer: tocar muito e muito bem. A última das nove peças é uma cover de Pyramid Song dos Radiohead.
Espaço, energia, flexibilidade, vibração, humor. E uma imensa pulsão criativa. Que mais se pode pedir a um disco? Ken Vandermark explica uma quantidade de coisas importantes sobre o ATOMIC, o mesmo que vai estar no Jazz em Agosto deste ano. Praise the Lord!
Rick Lopez dá alvíssaras por estes discos:
Marilyn Crispell:
Eric Andersen / Istanbul / EMI 1A 064-11-9196-1 (LP)
Various Artists: Sampler A.V. Arts - Vol. 1 (Knitting Factory - MUWORKS) Musiche, No. 13 (Mag & CS) 1992 IT
William Parker:
Associated Big Band / Stork
Jackson Krall: & the Secret Music Society / Stork
Jemeel Moondoc: The Evening of the Blue Men / Muntu
William Parker/Tom Tedesco: Painter's Autumn / Centering
Cecil Taylor: Nicaragua: No Parasan / Live in Willisau '83 / Nica
Glenn Spearman:
Emergency: "Best of Emergency" (Kwela) 1974 (LP)
Emergency: "Hommage to Peace" (America) 1973 (LP)
Paul MURPHY: "Outward Bound" / Omnisonic (LP)
PRESIDENT'S BREAKFAST: "President's Breakfast" 1994 (LP or CD?)
URNA: "Crossroads" (OM) 1996 (LP or CD?)
David S. Ware:
Abdul Hannan / The Third World / Awareness AH-1 (LP) (CD)
Andrew Cyrille and Maono / Junction / WHY NOT WN-014 STEREO/PA 7157 (LP) JAP
Maneri, pai e filho. Ternura genial.

«(...) There are really only two types of jazz guitarists: the chord nerds who drool over 'Have You Met Miss Jones' and the tone scientists like Ribot who recognize Ayler as kin to Charlie Patton and Dock Boggs (...)».
Isto e mais que isto diz Francis Davis no último Village Voice, a propósito do álbum Spiritual Unity, do tone scientist Marc Ribot, com o trompetista Roy Campbell Jr. e o baterista Chad Taylor (PI Recordings). Spirits rejoice!

The Stockhausen Affair
(Texto de Jorge Lima Barreto, escrito em 2001)
Karlheinz Stockhausen, german composer, born in 1928, is one of the major figures of the whole music history; he has been in the vanguard of the contemporary music through the second half of the XXth Century.
It happens that after the terrorist action in New York, a journalist incidiously extrapolated a sentence from the content of a speech by Stockhausen on this very topic, thus it was assumed that the composer had consider the action such actions against U.S.A. as ‘the hugest work of art ever’.
We can compare his sentence to the one of the futurist Marinetti which claimed that ‘the war is beautiful’’ – but contrary to Marinetti bellicose, Stockhausen intended to show just how disgusting and horrible is to destroy countries, its people and its buldings; for the terror and the abomination prevailing – there is no good nor bad war – war represents the self-destruction of human society. The war and its most coward ramifications in terrorism - the evil, the atrocity, the threat, the nightmare, are the means of Lucifer actions, the aphoristic literary-musical character, whom the master was referring in his class – in this context, the suicide and hideous assault to the WTC Towers would be the masterpiece of Lucifer’s art.
A wide movement pro and contrary to the musician developed, mainly though the internet, and there flowed malevolent plays and plots from the part of some more ordinary minds, remaining indifferent to the radical refutation by Stockhausen, who immediately confirmed to have pronounced this sentence in the context of an explanation concerning to his opera ‘Licht’ and its mephistofelic character ‘Lucifer’.
Immediately, due to some moral and political fundamentalisms; all the Stockhausen activities – concerts, workshops, classes, conferences – were stalled.
This matter can’t, by no means, be faced with a light spirit – the universal and utopistic reality of his music denies any impugnation of pro-terrorism promoted by his detractors. And, it is with full authority that Stockhausen recovers the wagnerian concept of music as total art (Gesamkunstwerk) – Stockhausen composed ‘Gesang des Junglinge’, the most beautiful piece in the whole electroacoustic music history, which quotes the biblical myth of Daniel in the furnace; in ‘Stimmung’ he recovers vocalisms from the eastern worlds; he wrote ‘Ceylon’, the magical reverence to autoctone music; in ‘Hymnen ’ he created a concretist work consisting on an assemblage of innumerous national anthemns of all the geographic quadrants.
Scenegraphy, videography, filmography, circus, rite, myth, containing every race in the world and heralding their melting; multimedia, informalism, improvisation, conceptualism, fluxus, TV show, concert via satelite, the helicopters considered as music instruments, cybernetic, algorithm, the birth of a flower, the cosmic flight and the ecunemism. Life as Opera, today.
Stockhausen assumed attitudes of spiritualism and pan-religiosity, from the humble prayer to the dream, or sensual libations; defender of the pacifism and individual freedom – his biography illustrates one of the most extraordinary creators of the XXth Century.
Stockhausen controls the whole of his musical world as a divinity and supreme entity of the image and the sound-in-itself; the graphism, the mail, the publishing of scores, the musical production, the recording process, the mixing and the mastering, the selection of the performers and the conduction; he takes care of every aspect from beginning the end; sonic, visual, theatrical and, more recently, the artistic distribution.
He elaborated installations, conceived props and multimedia sceneries, coordinated performart actions, built acoustic and electronic instruments, imagined projects for light-shows; calligrapher, mimeographer, sound designer, tonemeister. He conveys the event in real time and turns it to an aesthetic element; sonic worlds, apocalyptical visions, melodic microcosm, galaxy of patterns assembled from the musics of the world; phenomenal innovations on musical notation; feasts, trance, meditation, epiphany, dance.
Without any musicological and multicultural reservations, Stockhausen has been the hugest revolutionary in contemporary music. He erased the epitomised neo-realism in the so-called nationalistic musics and, conciliated, among other divergences, Judaic-Christian/Muslim, or the western / eastern dicotomy… With no doubt, he is, as well, the most famous of all the classical contemporary composers due to his distinct figure, to the manner he cultivated his own personna – by declaring himself as immortal genius and, simultaneously, by ruling an independent and idyllic life in permanent creation, and in his love for nature – living in freedom with is family and his technical staff in the village of Kurten. He has always been adventurous in his comments and vignettes over lords of the war and the capitalism; the fantastic resurrection of Monteverdi, Bach, Mozart, Beethoven in the multidiscipline of the cybernetic age; he speaks in a scientific, aphoristic and poetical language, structurally related to the concepts of metaphysics in music – lying in the virtual space, between the anthropological reality and the imagery, the most delirious and beautiful.
In his works of singular postmodernism, glorious and magnificent pieces, he invented postures and elaborated morphologies; his glorious speech is co-inhabited by primitive techniques and informatic sophistication; there arise the Bible and the Coran, the most varied languages and idioms, the hidden ethnic instruments are beside the digital technology and the hum of the breeze.
Musicians such as Webern, Lennon, Ayler, were murdered by the terrorist stupidity and we can’t admit, ethic or aesthetically, that under its banner grant icons as the contemplative Buda or the WTC are destroyed, or that Africa is let alone dying of hunger – we want to listen to music and not to promote the radioactive.
The social communication, the press, the radio, TV, Net, etc, in some of its minority, still staggering but already committed to genocide ideologies of the moment, doesn’t look at means to reach the ends and tries to sequestrate to the sordid settings of the conflict – no-one more than Stockhausen loves New York, the urban façade of the new times, the limitless creativity and the mirror of the whole world-wide cultures; the Babel, as it was considered by the surrealists and the reggae; its two towers and its racial melting pot, and the alibi to the confrontation between forms of fundamentalist and totalitarian powers, due to a diabolic and spectacular action. The machiavellian weaving of the rich and the despair of the hunger convey to the suicide terrorism.
And this was what Stockhausen meant to emphasise in his polemic and overrated sentence. The semiology and the poetry of his music and its character, Lucifer, in the very moment of the huge emotional reaction to the news of the terrorist mission in N.Y.C.The art of Karlheinz Stockhausen, the wise and innocent person who never handled a gun, has been a relentless battle for the human rights.Hail music and not War – is the message that we must hold from this cryptic assertion, misrepresented by the journalistic terrorism to instigate the chasing of the witches. – Everyone, artists and intellectuals included, has the right and the duty to denounce War, independently of the flag – war is the supreme form of terror – and Art is the fulfilling of Love.
When Shostakovitch attended the premiere 0f ‘Licht, in Moscow, he told to Stockhausen: ’your music is the peace, the concentration of the peoples.’
> Lisbon, 2001 - Jorge Lima Barreto
De cada vez que o tempo e o modo se gastam, alguém se encarrega de os renovar e reformular. Tal é o caso do trio de piano que Enrico Pieranunzi juntou para gravar o disco que adequadamente titulou Special Encounter, que o é na escolha dos temas - três clássicos muito batidos, My Old Flame, Why Did I Choose You? e You’ve Changed, aqui surpreendentemente refrescados; três originais de Charlie Haden e cinco composições de Pieranunzi, especialmente talhadas para a ocasião.Especial, também pela atmosfera de horas mortas, daquelas em que todos os gatos já foram pardos e cujas cores se começam a fixar e distinguir aos primeiros raios de luz.
Especial ainda pela presença própria de cada músico, Pieranunzi a puxar pela veia baladeira extrema, pungente nos tempos lentos, ideais para exibir a gama completa das tonalidades escuras, sem jamais cair no arroubo sentimentalão; Charlie Haden e o toque aveludado da madeira antiga, riscando três peças de finura melódica, Nightfall, Waltz for Ruth e Hello My Lovely; e Paul Motian discreto e suave no pisar. Mal se vê mas bem se sente por debaixo da camada superficial. Juntos avançam pelas ruas desertas com a confiança própria de quem assim tocou uma vida inteira, mesmo que este seja o seu primeiro encontro especial e ele se inspire no lado mais sombrio e introspectivo do piano de Bill Evans.
Música comovente, carregada de lirismo, romance e nostalgia, que, cúmplice, nos leva de uns lugares para os outros, percorrendo memórias e geografias. E que tanto pode ser a última da noite como a primeira da madrugada.
Enrico Pieranunzi, Charlie Haden, Paul Motian - Special Encounter (CamJazz, 2005. Distr. Dwitza)

Anthony Braxton cumpriu 60 anos de idade no passado 4 de Junho.
Marc Chénard, no La Scena Musicale, elaborou um interessante retrato do artista. No último quadrimestre deste ano, a Wesleyan University, onde A. Braxton lecciona, promove uma série de iniciativas alusivas ao evento.

Tarde preguiçosa. Está-se bem estirado sobre a relva à sombra dos pinheiros mansos. Sem interrupções, ouço de uma ponta à outra os dois discos que registam o trabalho de Anthony Braxton sobre originais de Charlie Parker. É certo que Hot House é de Tadd Dameron, e A Night in Tunisia e Bebop, de Dizzy Gillespie, mas pertencem ao acervo de Parker.
Original de 1994, reeditado em 2004 pela HatOLOGY. Tenho a impressão de que perdi algumas partes enquanto "meditava" profundamente sobre os mistérios da criação pela arte. Nada que não possa ser reparado com outra demão. Aqui vai mais uma volta por Hot House; A Night in Tunisia; Dewey Square; Klactoveesedstene; An Oscar for Treadwell; Bebop; Bongo Bop; Yardbird Suite; Passport; Scrapple from the Apple; Mohawk; Sippin' at Bells e Koko.
Uma mão-cheia de temas de Parker relidos pelo espírito livre de Anthony Braxton, que tanto mergulha nas convenções do bebop, como se deixa voar livremente nas asas de Bird. Este Project continua a ser um dos meus preferidos de Braxton a tocar outra música que não a sua.
Anthony Braxton (sax alto, sopranino, clarinete contrabaixo), Ari Brown (saxes tenor e soprano), Paul Smoker (trompete, fliscórnio), Misha Mengelberg (piano), Joe Fonda (contrabaixo), Han Bennink (bateria no disco 1), Pheeroan AkLaff (bateria no disco 2).
Ao vivo na Rote Fabrik, Zurique, Suiça, a 21 de Outubro de 1993 e no Großer Sendesaal WDR, Colónia, Alemanha, a 22 e 23 de Outubro do mesmo ano.
Anthony Braxton's Charlie Parker Project 1993 (HatOLOGY, 2004)
Cantanhede, de 9 a 12 de Junho, é a Dixieland Town.
O primeiro quarto de Idle Wild, o novo disco de Dennis González, trompetista, compositor e professor de Dallas, Texas, com o grupo Spirit Meridian, é preenchido por uma elegia dedicada a Malachi Favors Maghostut, contrabaixista do Art Ensemble of Chicago, falecido em Janeiro de 2004.
Elechi, poema musical escrito por González, na sua toada dolente, tribal e ritualista, convoca os espíritos ancestrais que sempre habitaram a música de Malachi Favors/AEC, dando o mote para os outros temas, em que se cruzam influências dos dois principais movimentos para o progresso da música negra improvisada na América – a Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM), de Chicago, e o Black Artists Group (BAG), congénere de St. Louis.
Um encontro estético e ideológico Norte/Sul, num qualquer lugar imaginário, simbolizaria o que o texano nos oferece em Idle Wild. Cenário a que não são alheias quer a presença de Oliver Lake, ele próprio um fundador do BAG, quer outras influências matriciais, com a de Ornette à cabeça. Temos então que de Idle Wild se pode dizer que se filia marcadamente numa linha estética que descende directamente do AACM/BAG e de Ornette Coleman.
O disco, gravado em Nova Iorque em Agosto de 2004, desenvolve-se como uma suite em 6 partes, atravessada pelo espírito de unidade temporal e geográfica, síntese da diversidade das partes que o compõem. A musicalidade de Dennis González trás à memória outro notável trompetista texano, Bobby Bradford, paradoxalmente um quase reverso de González, sobretudo pela exuberância discursiva e amplitude de volume.
À evocação cheia de soul da memória do contrabaixista Favors, segue-se um tema de intervenção política anti-Bush, musicalmente com raízes na leitura do blues de Ornette, como que a dizer à América e ao Mundo que nem tudo o que vem do Texas é necessariamente mau e prejudicial. Bush Medicine é, sem dúvida, a mais ornettiana das composições de Idle Wild, a que fazem jus as radiosas intervenções de Dennis González e Oliver Lake, vistos juntos e ao vivo no Jazz ao Centro de 2004, aqui secundados ritmicamente pelo dream team de Ken Filliano e Michael T. A. Thompson, dupla de recursos ilimitados.
Os restantes temas de Idle Wild – Dust e Song – incluindo o tema-título, retomam a mescla de notas e impressões maioritariamente sulistas no tempero, à boa maneira das estéticas derivadas do BAG, alternando aspectos de maior estruturação figurativa com outros de pendor acentuadamente abstraccionista, equilíbrio de que Oliver Lake vem a ser o primeiro responsável.
O tema que conclui a sequência, Document for Toshinori Kondo (nome do trompetista japonês que participa, entre outros, no Die Like a Dog de Peter Brötzmann), composto a meias por González e pelos seus rebentos Aaron e Stefan, integrantes da formação hardcore Yells at Eels, encerra de forma solar o ciclo que a sombra crepuscular de Elechi havia iniciado, simbolizando a vida e a esperança que ciclicamente se renovam.
Tudo pesado, nada do lado dos contras; tudo do lado dos prós: a beleza e flexibilidade das linhas melódicas, o arrojo dos arranjos e a riqueza e versatilidade rítmicas fazem de Idle Wild um disco que não hesito em qualificar de excelente, criado por um super grupo de quem a breve trecho se esperam as mais excitantes aventuras.
Dennis González's Spirit Meridian - Idle Wild (Clean Feed, 2005)
Em concerto na Trem Azul, Rua do Alecrim - Lisboa
Arthur Chorosky » saxofone tenor e electrónica
Artur Pereira » bateria e percussão
J. Trindade » cassettes
Hugo Grave » baixo
9 de Junho, 19h30
CASA DA MÚSICAJUNHO, 17 > SUN RA ARKESTRA
JUNHO, 30 < LOUIS SCLAVIS NAPOLI'S WALLS

... E depois do Jazz ao Centro, em Coimbra, ei-los na ZDB, em Lisboa, para uma noite que ficará na memória dos que quiserem deslocar-se à Rua de Barroca, 59, ao Bairro Alto. Rodrigo Amado regressa em força com a secção rítmica que abrilhantou as duas fantásticas jam sessions de Coimbra. Quem não viu o que se passou no Salão Brasil sábado passado não acreditaria se ouvisse dizer que a malta dançou. Sim, por uma noite o jazz voltou a ser música de dança! Vá lá ver para crer. A foto é do Nuno Martins.
Rodrigo Amado (PT) + Ken Filiano (EUA) + Lou Grassi (EUA)
Rodrigo Amado - saxofones
Ken Filiano - contrabaixo
Lou Grassi - bateria
Rodrigo Amado
Líder da formação Lisbon Improvisation Players, com a qual gravou dois cd's para a editora Clean Feed, Rodrigo Amado é um dos músicos mais activos na cena do Jazz de vanguarda nacional. Tocou e gravou com músicos como Steve Swell, Lisle Elis, Paal Nilssen-Love, Kent Kessler, Steve Adams, Paul Dunmall, Dennis González, Joe Giardullo, Alex Cline, Bobby Bradford, Vinny Golia, Dominic Duval, Mark Whitecage, Peter Epstein, Carlos Zíngaro, Greg Moore, Phill Niblock, Sei Miguel, Rafael Toral, Nuno Rebelo, Manuel Mota, Ulrich Mitzlaff, entre outros.
Ken Filiano
Considerado pela critica como "um músico de primeira linha", Ken Filiano tocou e toca intensivamente nos Estados Unidos, Canadá, Europa e América do Sul, nos mais prestigiados festivais, e tem participações ao lado de nomes como Warne Marsh, Vinny Golia, Barre Phillips, Richard Grossman, Alex Cline, Nels Cline, Joelle Leandre, Bill Perkins, John Carter, Bobby Bradford, Roswell Rudd, Ted Dunbar, Jimmy Cleveland, Don Preston, Joe LaBarbera e o grupo Rova Saxophone Quartet.
Filiano grava habitualmente para as etiquetas CIMP, Cadence, Clean Feed ou Nine Winds, e foi precisamente nesta última que gravou recentemente o seu primeiro disco solo, "Subvenire", referenciado com 4 estrelas no All Music Guide.
Lou Grassi
Conhecido internacionalmente pelo seu trabalho em ambas as áreas do jazz, tradicional e de vanguarda, Lou Grassi desenvolveu uma actividade intensa que atravessa todo o espectro do jazz, do ragtime à improvisação livre. Dos anos 70 à actualidade, Lou trabalhou, entre outros, com Borah Bergman, Rob Brown, Roy Campbell, Eddy Davis, Charles Gayle, Vinny Golia, Burton Greene, Gunter Hampel, Johnny Hartman, Phillip Johnston, Chris Jonas, Sheila Jordan, William Parker, Roswell Rudd, Paul Smoker, Steve Swell, Mark Whitecage, e muitos outros. Gravou dezenas de discos e é unanimemente considerado como um dos grandes mestres do drumming moderno.
Tudo isto na ZDB, quarta-feira, 8 Junho, às 23h00.
Festa do Jazz, entre 2 e 4 de Junho, na primeira parte dos já afamados Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra, edição de 2005. Terceira de um ciclo iniciado em 2003, que beneficia das sinergias resultantes da parceria entre o Jazz ao Centro Clube e a Câmara Municipal de Coimbra, entidade apoiante desde a primeira hora.
Surpresas, confirmações e mais surpresas, na pluralidade de ofertas que atravessaram os três dias e noites vividos em Coimbra, entre o recital solo e a orquestra, assumida aposta na diversidade e na abrangência de estilos e linguagens do jazz actual.
A primeira das propostas surpreendentes chegou pelas mãos de
João Paulo, a quem coube abrir o festival. Surpresa, não pelo lado da técnica e da inventividade musical que lhe são de há muito reconhecidas, mas pela elevada maturidade e apuro estilísticos, menos marcados pela porventura excessiva proximidade à leitura jarrettiana do piano de outrora. João Paulo, em noite de grande inspiração, escolheu um programa entremeado de improvisação livre e reinterpretação de temas da tradição popular portuguesa, reafirmando-se como um dos valores mais seguros e relevantes do piano jazz em Portugal.
Logo após a prestação de João Paulo, subiu ao palco o quarteto de recente formação liderado pelo baterista norte-americano
Lou Grassi, o
Avanti Galoppi. Com Grassi, tocaram
Herb Robertson, trompete de bolso,
Rob Brown, saxofone alto, e
Ken Filliano, contrabaixo. O Avanti Galoppi, ao vivo, não se afastou do que se conhece do disco homónimo editado pela CIMP em 2004. Equilibrando em combinações diversificadas um certo swing moderno, a escrita musical de todos os membros, a improvisação serviu de força aglutinadora da multiplicidade de similitudes e contrastes. Jazz vanguardista de recorte melódico e pujança rítmica, cuja explicação didáctica foi dada pelo quarteto no dia seguinte, perante escasso público estudante e outro simplesmente curioso e interessado em ouvir de viva voz como se faz e porque se faz.
Ao segundo dia aportou a Coimbra o quarteto de
Michel Portal, Louis Sclavis, Sébastien Boisseau e Daniel Humair. Como escrevi num texto de antevisão deste concerto, o que nos foi dado ver e ouvir foi a exibição ao vivo e em directo do funcionamento de uma máquina complexa e altamente sofisticada, que swinga e improvisa colectivamente a um nível de excelência. Pouco mais há a dizer de um programa irrepreensível, de tão eficaz e bem tocado. Uma eloquente reafirmação da história e da contemporaneidade do jazz francês, com Portal e Sclavis em mano-a-mano, exibindo tudo o podem e sabem fazer com o saxofone soprano e o clarinete baixo, escorados pela extraordinária marcação rítmica de Sébastien Boisseau e Daniel Humair. Sai sempre bem, ainda que às vezes pareça um pouco ligado ao piloto automático.
A fechar a primeira parte do ciclo, duas propostas: primeiro, a do
Rudresh Mahanthappa Quartet, saxofonista alto que já está no topo da sua arte, mas ainda com capacidade de crescimento e de maturação artística. Rudresh soou sempre bem, tanto na velocidade estonteante da montanha russa, como nos temas que apelaram ao lirismo, sem cair na pieguice. Mesmo um ou outro pormenor maneirista não estragou uma exibição de grande categoria, cheia de técnica, fôlego, sensibilidade, e, sobretudo, muita emoção, que é o que mais conta. Rudresh muito ficou a dever à articulação com o piano de Vijay Iyer, o distinto «long time partner in crime», como o saxofonista a ele se referiu. A noite foi também de François Moutin e de Elliot Humberto Kavee, pelo acompanhamento vigoroso em contrabaixo e bateria.
A maior e mais gratificante das surpresas do festival – as demais não constituíram propriamente grandes surpresas, inscrevendo-se antes no domínio da confirmação do que já se conhecia em disco – foi a assim designada
JACC Workshop Orchestra (JWO). Um decateto organizado sob a forma de cooperativa ad-hoc de músicos portugueses, que aceitaram o desafio de serem dirigidos por
Adam Lane, compositor e improvisador norte-americano, especialmente requisitado pelo Jazz ao Centro Clube para, durante três tardes, com um notável grupo de jovens músicos portugueses ou a trabalhar em Portugal, preparar a apresentação ao vivo das composições originais de Adam Lane, o homem da
Full Throttle Orchestra. Acima de tudo impressionou o elevado nível artístico desta orquestra, constituída por músicos de Norte a Sul do país, que habitualmente não tocam juntos e que em tão pouco tempo conseguiram a rodagem e a elasticidade interpretativa que nem sempre se encontra nas formações que ensaiam e praticam regularmente.
Uma nota final para distinguir, além das duas enormes e emocionantes
jam sessions em que participaram os músicos envolvidos, a animação de rua, uma exposição de fotografia de
Nuno Martins no Teatro Académico Gil Vicente, alusiva às anteriores edições do JAC, e o lançamento da nova revista do Jazz ao Centro Clube com periodicidade bimestral – a
Jazz.pt.
Foi bonita a festa, pá! Excelente primeira parte dos Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra / 2005, que muito deve à capacidade de iniciativa do Jazz ao Centro Clube e ao entusiasmo do seu presidente,
Pedro Rocha Santos, que encabeça uma equipa de carolas merecedores de público reconhecimento. Venha a segunda parte. O programa segue dentro de poucos meses. Outubro é já depois do Verão.
Jazz ao Centro - Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra / 2005 (1ª Parte)

ROMANO MUSSOLINI
Romano Mussolini, nascido em Forti, 1927, é um dos mais destacados pianistas do Jazz europeu e dos mais eminentes da História do jazz italiano ; também renomado pintor iniciou a sua carreira precocemente registando no gramofone do seu irmão Vittorio, autor do primeiro livro sobre Jazz em italiano e um dos críticos pioneiros desta música quando escrevia na revista “il disco”. Desde logo a sua fama se tornou transatlântica e quando músicos como Lionel Hampton ou Dizzy Gillespie vinham a Itália ou em digressão europeia o convidavam pela excelência do seu estilo pianístico. É interessante assinalar que Romano foi no pós-guerra membro do Partido Socialista, como seu pai, Benito Mussolini, havia sido de 1912 a 1918 como director do jornal Avanti; há uma história contada por Vittorio sobre Il Duce: tendo estado preso durante 2 anos teve oportunidade de aprender a tocar flauta, com tal intuição musical que quando saiu em liberdade já abordava Vivaldi… .
De estilo singular, Romano Mussolini teve alguns estudos de contraponto e harmonia, mas foi num empreendimento autodidacta e por saturadas audições dos mestres do teclado do jazz que ergueu o seu extraordinário idioleto, de fraseado incisivo, à maneira de Oscar Peterson e Erroll Garner. Fluxo pulsante, marchetado de melodias, no mais puro mainstream, ancorado nos blues e na musica tradicional transalpina; um sentido pujante do swing e a implementação de agrupamentos inolvidáveis do Jazz europeu: em 1948 num “Quinteto” com Ugo Calise; na década de 1960 fundou o célebre “Romano Mussolini All Stars”; em 1963 receberia o Prémio da Crítica pelo seu disco “jazz allo studio 7”. Nesse interim tocou ao lado das vedetas Chet Baker, Tony Scott e Buddy Collette em celebrados concertos e discos.
A sua internacionalização foi portentosa e actuou em todos os quadrantes planetários – a propósito, tocou em Lisboa no Teatro Monumental em 1966 com a sua “Jazz Band” – casado com Maria Sciolone, irmã de Sofia Loren, nesse concerto celebrou o nascimento de um filho.
Ainda hoje activo, Romano Mussolini permanece uma figura iconográfica do jazz europeu, participou na Orquestra multinacional “Euro 2000”, de Maastricht e, editou este ano o seu último disco “lost last love” em tons de pastel... .
Uma copiosa discografia faz justiça ao seu imenso talento.
Jorge Lima Barreto
As Freestyle Jazz Series, que Peter Cox tem vindo a realizar no clube CBGB's, em Nova Iorque, chegam ao fim no próximo 31 de Julho. O problema é, como se sabe, de maior amplitude: primeiro foi o TONIC; agora, o CBGB também está em risco de correr de vez os taipais em Setembro. Duas das casas mais emblemáticas de Nova Iorque no que à moderna música improvisada diz respeito, estão com a corda ao pescoço. Se o encerramento não é em si mesmo uma inevitabilidade (digo eu), deve ser muito difícil viver e programar num tem-te-não-caias contorcionista permanente. Tempos difíceis, estes. Enquanto isso, os clubes de jazz para turista florescem um pouco por todo o lado.
Diz Peter Cox, em fim de festa:
It is sad but true. It is by no means definite but the looming rent hike to $40 thousand dollars a month is an almost impossible hurdle. CBGB's has asked me to stop my regular program so that in August they may devote all stages to fund raising benefits. I pray this might work and i hope you can support the cause in any way possible. The second and quite less reason is that i am just flat out fatigued and more than a little broken hearted over the dwindling turnouts and severe lack of major publication press. (NY Timeout being an exception). It has been a constant struggle to present these shows each week. I have tried my hardest to put on the best shows possible with No outside funding. I have always wanted the music to carry itself. I have tried every imaginable format. I have spent alot of personal money. I have done everything in my power to keep this running and relevant. Ending it will be a very sad moment for me.There is so much i want say here so please excuse me if it rambles at points.
I want to thank CBGB's for taking me in, after my tenure booking the old Internet Cafe on 3rd street ended. They have been so supportive. I cannot stress how great they have been and how much they have tried to help me make this successful. Most people to do not realize what a struggle it is to run a venue like CBGB'S. What owner Hilly Krystal has achieved in the last 30 years is amazing. It has taken a lot of gots and stamina. I respect him more than probably anyone else in the music business.
I want to thank the musicians that have played the series. So many great musicians have graced the tiny stage in the basement. I have heard some awsome music there which will live with me forever. I have never been able to offer them anything other than a place to perform their craft. It was so gratifying on the nights when i could actually hand these musicians some sort of real monetary renumeration (read: $). Likewise it broke my heart to see such amazing talent sometimes perform for little or no money. When that happened, I always felt like i didn't do my job well. I would also like to apologize to the musicians that i couldn't get in as regularly as they would have liked (or sometimes at all). It was never personal. The hardest aspect of booking this series was having to tell musicians i didn't have a place for them. But again i tried to do the right thing wherever i could.
I want to thank Haley, the bartender for working just about all my shows. Lets face it, this auduence is a not a huge drinking crowd and she made little money from it. Most of the rest of the staff couldn't even stand the music. And yet she was very loyal and understanding. I love her for this. And by the way there are still 11 more shows - so please tip her well.
I want to thank All the sound man that worked my shows. I want to thank all the soundman that worked upstairs in the Gallery and had to put up with my tirades because it was too loud upstairs and the bleed to downstairs was intolerable. I want to thank Micheline for believing in me when i would tell her i thought i might pull in a big crowd.
I want to thank Richard & Roberta Bergman for being there just about every Sunday for 4 years! Their constant support was probably the most integral to keeping my hopes alive. I have found two very great friends in them. I owe them more than just a dinner.
You too, Peter Cox.
Os últimos concertos:
8 de Junho
7pm - Eyal Maoz String Band w/Dana Leong, Shanir Blumenkranz, Alan Grubner, Mathias, Kunzil
8pm - Ayelet Rose Group
9pm - Richard Huntley, Cameron Brown & Emil Hess
10pm - Ben Gerstein Collective: Ben Gerstein, Jacob Sacks, Jacob Garchik, David Binney, Eivind Opsvik, Thomas Morgan, Dan Weiss
12 de Junho
7pm - Henry Warner Trio
8pm - Briggan Krauss Group
9pm - Dennis Gonzalez + Ze Eduardo Unit (Ze Eduardo - bass / Jesus Santandreu - tenor / Sonia “Little B” Cabrita - drums / Dennis Gonzalez - trumpet, Elsa Roch - oboe)
15 de Junho
8pm - Industrial Jazz Group (L.A.)
9pm - Solar
10pm - Ronnie Burrage Trio feat: Salim Washington, Ed Schuller, Rob Shepps
11pm - Gold Sparkle Trio
18 de Junho
7:00pm Mary Halvorson, Jessica Pavone, Brian Chase, Matt Welch, Jason Cady, Matt Bauder, Brett Deschenes
8pm: Noisetet: D. Silverman, David Phelps, Shawn McGloine, Yael Acher, Dee Pop & the Sculpturemotion Project
9pm - Billy Bang, Todd Nicholson Shoji Hano
10pm - Becky Schmoyer Group
26 de Junho
7pm - David Aaron’s Short Memory
8pm - Andrew Lamb,Tom Abbs, Warren Smith
9pm - Eddie Gale Trio w/Ken Filiano & Dee Pop
10pm - Mike Baggetta & Kris Tiner
6 de Junho
8pm - Mostly Others Do the Killing
9pm - Freedomland: Daniel Carter, Dave Sewelson, David Hofstra, William Parker & Dee Pop (with special guests)
10 de Julho
7pm - Roy Campbell, Steve Swell, Sabir Mateen, Klaus Kugel, Hill Greene
8pm - Tyshawn Sorey New Quartet: Liberty Ellman, Jacam Manricks, Carlo DeRosa
9pm - Tyshawn Sorey's Obliquity: Russ Lossing, Loren Stillman, Carlo DeRosa
17 de Julho
7pm - Hanuman Sextet: Andy Haas, Don Fiorino, Mia Theodoratus, Matt Heyner, David Gould, Dee Pop
8pm - Other Dimensions in Music: Roy Campbell, Daniel Carter, William Parker, Rashid Bakr (2 sets)
24 de Julho
7pm - Dan DeChellis, Reuban Radding, Dee Pop
8pm - Amanda Monaco Quartet
9pm - Daniel Carter, Francos Grillot, Matt Lavelle, Federico Ughi
10pm - Ehran Elisha Trio
31 de Julho
The Freestyle Jazz Finale All Stars featuring: Susan Alcorn, Tatsuya Nakatani, Joe Giardullo, Audrey Chen, Daniel Carter, Dom Minasi, Roy Campbell, Hayes Greenfield, Daniel Levin, Ursel Schlict, Matana Roberts, Reuben Radding, Louie Belogenis, Kevin Norton, Joe Morris, Andy Haas & Sabir Mateen.

Terry Riley, o pai do minimalismo, que abriu caminho para John Adams, Philip Glass, Steve Reich e outros da mesma estirpe, autor de «A Rainbow in Curved Air», faz 70 anos a 24 deste mês!
Sexta-feira, dia 3 de Junho, um grupo heterogéneo de músicos oriundos de diversas áreas da composição e da improvisação, que inclui John Zorn, a violoncelista Joan Jeanrenaud (ex-Kronos Quartet), Tracy Silverman, Zakir Hussain, e muitos mais, toca no campus de Universidade da Califórnia para homenagear mestre Riley, o homem para onde convergem todas as músicas. (Mais informação). Lisbon Concert, solo piano recorded live at Festival dos Capuchos, July 16, 1995.
Introduzidos alguns acertos de promenor quanto às salas, é definitivo: JAZZ EM AGOSTO / 2005 > Fundação Calouste Gulbenkian:
1ª semana
5 (sex) – 21:30
Anfiteatro ao Ar Livre
GLOBE UNITY ORCHESTRA (Alemanha/Reino Unido)
Manfred Schoof (tp), Jean Luc Cappozzo (tp), Evan Parker (ts, ss), Gerd Dudek (ts, cl), Ernst Ludwig Petrowsky (ts, as, cl), Rudi Mahall (b cl), Paul Rutherford (tb), Johannes Bauer (tb), Alexander von Schlippenbach (p), Paul Lytton (drms), Paul Lovens (drms)
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6 (sáb) – 15:30
Sala Polivalente CAMJAP
JEAN-MARC FOLTZ/BRUNO CHEVILLON (França)
Jean Marc Folz (b cl, cl), Bruno Chevillon (b)
6 (sáb) – 18:30
Grande Auditório
ALEXANDER von SCHLIPPENBACH/EVAN PARKER/PAUL LOVENS (Reino Unido/Alemanha)
Alexander von Schlippenbach (p), Evan Parker (ss,ts), Paul Lovens (drms)
6 (sáb) – 21:30
Anfiteatro ao Ar Livre
GEBHARD ULLMANN’s TA LAM ZEHN (Alemanha)
Hinrich Beermann (bs), Daniel Erdmann (ss, ts), Thomas Klemm (ts,fl), Jürgen Kupke (cl), Joachim Litty (as, b cl), Michael Thieke (b cl, ss), Heiner Reinhardt (b cl), Volker Schlott (as, ss), Gebhard Ullmann (b cl, ss, fl), Hans Hassler (acordeon)
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7 (dom) – 15:30
Sala Polivalente CAMJAP
JEAN LUC CAPPOZZO/AXEL DÖRNER/HERB ROBERTSON (França/Alemanha/EUA)
Jean Luc Cappozzo (tp), Axel Dörner (tp), Herb Robertson (tp)
7 (dom) – 18:30
Grande Auditório
IRÈNE SCHWEIZER/PIERRE FAVRE (Suíça)
Irène Schweizer (p), Pierre Favre (drms)
7 (dom) – 21:30
Anfiteatro ao Ar Livre
ATOMIC (Noruega)
Fredrik Ljungkvist (ts, cl), Magnus Broo (tp), Havard Wiik (p), Ingebrigt Haker-Flaten (b), Paal Nilssen-Love (drms)
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2ª semana
10 (qua) – 21:30
Anfiteatro ao Ar Livre
SOUND OF CHOICE + IXI STRING QUARTET (Dinamarca/França)
Invisible Correspondance
Hasse Poulsen (el g), Fredrik Lundin (ts, fl, electronics), Lars Juul (drms, electronics), Regis Huby (vln), Iréne Lecoq (vln), Guillaume Roy (viola), Alain Grange (cello)
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11 (qui) – 15:30
Sala Polivalente CAMJAP
ENSEMBLE RAUM (Portugal)
Direcção Paulo Dias Duarte
Paulo D.Duarte (el g), Eduardo Lála (tb), Mário Franco (ctb), José Meneses (ts,ss), João Lencastre (drms), Nuno Gonçalves (b cl), Gonçalo Conceição (cl), Manuel Luís Cochofel (fl), Fausto Ferreira (p)
11 (qui) – 18:30
Grande Auditório
MARK DRESSER/DENMAN MARONEY/MICHAEL SARIN (EUA)
Mark Dresser (b), Denman Maroney (p), Michael Sarin (drms)
11 (qui) – 21:30
Anfiteatro ao Ar Livre
JERRY GRANELLI’s V16 PROJECT (Canadá, EUA,Alemanha)
Jerry Granelli (drms, electronics), J.D. Granelli (el b, b), Christian Kögel (el & acoustic g, sampler), Kai Bruckner (el & acoustic g, sampler)
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12 (sex) – 15:30
Sala Polivalente CAMJAP
JORGE LIMA BARRETO (Portugal)
Sintagmas do Jazz
(piano solo e rádio ondas curtas)
12 (sex) – 18:30
Grande Auditório
HANS KOCH/MARTIN SCHÜTZ/FREDY STUDER (Suíça)
Hardcore Chamber Music
Hans Koch (cl, b cl, ac, sampling, electronics), Martin Schütz (el cello 5 strings, acoustic cello), Fredy Studer (drms, perc)
12 (sex) – 21:30
Anfiteatro ao Ar Livre
JAGA JAZZIST (Noruega)
Mathias Eick (tp, el b, keyboards, vibrafone), Harald Froland (g, effects), Even Ormstad (b, keyboards), Andreas Mjos (vibrafone, g, drms, electronics), Line Horntveth (tuba, perc), Martin Horntveth (drms, electronics), Lars Horntveth (ts, b cl, g, keyboards), Andreas Schei (keyboards), Ketil Einarsen (fl, perc, keyboards), Lars Wabo (tb, perc)
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13 (sab) – 15:30
Sala Polivalente CAMJAP
ERIK FRIEDLANDER (EUA)
Maldoror
(violoncelo solo)
13 (sab) – 18:30
Grande Auditório
MEPHISTA – SYLVIE COURVOISIER/IKUE MORI/SUSIE IBARRA (Suíça/Japão/EUA)
Sylvie Courvoisier (p), Ikue Mori (electronics), Susie Ibarra (drms)
13 (sab) – 21:30
Anfiteatro ao Ar Livre
PHILLIP JOHNSTON and GARY LUCAS – FAST’N’BULBOUS (EUA)
The Captain Beefheart Project
Gary Lucas (el g), Richard Dworkin (drms), Phillip Johnston (as), Rob Henke (tp), Joe Fiedler (tb), Dave Sewelson (bs), Jesse Krakow (b)
A MÚSICA DE SERRALVES
Desde há meio século que a Fundação Gulbenkian se mantém hegemónica na sua intervenção cultural; de tal forma que sem as suas iniciativas para as novas músicas, no seu carácter mais variado mas especialemente votadas ao classicismo contemporâneo, praticamente nada teria acontecido de especial entre nós - é certo que desde os finais da década de 1980 surgiram em Lisboa a Culturgest e o CCB, com actividades meritórias, entre outras instituições que inflectem no progresso musical de impossível recenceamento neste escopo.
Mas, no Porto, a Fundação Serralves tornou-se um pólo de absoluta importância, local, nacional e internacional.Se nas artes plásticas foi o farol, com inúmeros eventos, considerando, outrossim, o video, o cinema, a performarte e a instalação, na música, teve o seu epigonismo pela qualidade e pelo vanguardismo.A aposta esteve mais votada em generalidades da música de hoje, consideração multíplice, de relacionamento entre a tecnologia e a estética hodiernas, com carácter transgressivo, inovador, por certo comprometida na promoção de factores da pósmodernidade.
Em 1996, uma homenagem a Jorge Peixinho pela Oficina Musical e pelo Grupo de Música Contemporânea de Lisboa (fundado pelo malogrado compositor) reafirmou o epítome da contemporaneidade da música portuguesa.
Em 1997 concretizou-se um ambicioso e relevante "Ciclo de Música Electrónica" com obras de Cândido Lima, António de Sousa Dias, João Pedro Oliveira e Telectu, live com o saxofonista Daniel Kientzy.
Em 1998 celebrou-se o génio do compositor Giorgi Ligeti num Ciclo homónimo, e com representações de trabalhos os mais significativos pelo Quarteto Mandelring e Volker Banfield.
No ano 2000 a "Semana Emanuel Nunes", numa realização do Ictus Ensemble, dava-nos uma retrospectiva do que foi o maior compositor português do Século XX, que se consagrou no estrangeiro (mutatis mutandis Paula Rego e Helena Vieira da Silva) - trabalhos, debates, publicações inusitadas. O retrato foi estabelecido por grandes virtuosos como o flautista PY Artaud, entre outros.
No primeiro ano do Século XXI foi também a vez de notáveis intérpretes trazerem até nós figurações eventualmente inéditas de compositores de hoje: casos de Jay Gottlieb para Glass, Cage, Antheil e John Adams; Christoph Prégardien e Siegfried Mauser para Shubert Schumann, Rihm e Killmayer; Drumming, grupo de percussão e Henri Bok para Donatoni e Cesar Camarero; Pedro Burmester, Fausto Neves e Drumming num concerto em torno de George Crumb... Em 2004, excutantes do Teatro Nacional S. Carlos deram-nos a conhecer facetas do americano Morton Feldman.
Após o desaparecimento do consagrado "Ciclo de Nova Música Improvisada" da Fundaçãoo Gulbenkian e da realização errática e radicalmente meritória dos "Fonoteca Files" da CML, em Serralves creditou-se uma elite de novos improvisadores internacionais com um fulgor actualizante (e.g. Sainkho Namtchylak, 2001; 20º Aniversário de Telectu com Eddie Prévost, John Edwards e Tom Chant, 2001; Pantychrist de Justin Bond, Bob Ostertag, Jon Rose; Maggie Nicols/Irene Schweizer/Charlotte Hug, em 2003; Zeena Parkins e Bruno Chevillon, 2004).
O evento mais visível, embora controverso, oscilando entre o estereotipo e inovação, recalcitrante em figuras já reconhecidas em outros festivais nacionais e algumas novidades exponenciais, portanto com certo desequilíbrio estético-jazzístico, por vezes eximindo-se da qualificação genuína do Jazz, que ainda persevera, está na rubrica "Jazz no Parque" - acontecimento estival e anual, nos luxuriantes jardins.
Podemos, com parcimónia, fazer uma resenha do que de mais relevante lá passou: Carlos Zíngaro/ Roger Turner/ Tom Cora (1994); Paul Motion & The Electric Be Bop Band (1996), David Holland Quintet (1997); John Surman/ John Taylor e, Humair/Sclavis/Chevillon (1998); Cecil Taylor, que terá sido a apoteose do certame, (1999); o exaltante Willem Breuker Kollektief (2000); a Vienna Art Orchestra (2001); o celebrado Herbie Nicols Project (2003); o empolgante Gerry Hemingway Quartet (2004) ... .
Declinando para um mundo maravilhoso da Música Experimental, que lida com outros materiais, estruturações inabituais, condicionalismos cénicos e praxiológicos bizarros, foi, como prato forte de Serralves, que aconteceram inœmeras apresentações; citemos algumas entre as mais significativas: Charlemagne Palestine (1999); Tony Conrad (2000); Pauline Oliveros (2001); Paul Panhuysen e o multimedia Lee Ranaldo/ Rafael Toral com imagem de Leah Singer e João Paulo Feliciano, 2002; Yamatsuka Eye (2003); Terry Fox e Ryoji Ikeda (2004); sobretudo a instalação concerto de Alvin Lucier, "Vespers", em 2004... .
Em estética avulsa art rock estiveram presentes em Serralves e em sessões memoráveis: John Cale (2000); Ultra-red (2001); Mouse On Mars (2004); Television (2004)... .
Esta gloriosa variedade, ilustração da vida musical carismática e/ou marginal, faz de Serralves o lugar da vanguarda no sentido da iluminação, do caminhar pelos trilhos da aventura e da magnificência - mais que rememoraões, uma série de propostas musicais revolucionárias, dignas da actividade artística geral desta Fundação.
Jorge Lima Barreto
SPA 2005
(Texto originalmente publicado no JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias)
Duas audições seguidas do novo disco de Paul Flaherty deixaram-me muito bem impressionado e com vontade de regressar amiúde. Bom material, sem dúvida. Antes de ouvir Kaivalya Vol. 1, salta de imediato à vista que o lendário saxofonista de New England substituiu os habituais cúmplices Randall Colbourne e Chris Corsano, pelo veterano peso-pesado do free jazz, Marc Edwards.Paul Flaherty parece estar em maré de mudança na sua carreira. É que além de muito tocar com os dois primeiros, o que já faz há décadas com vestígios nas micro-editoras Zaabway e Ecstatic Yod, ultimamente tem diversificado projectos, entre outros, com Wally Shoup, Thurston Moore, Spencer Yeh e a Vibracathedral Orchestra.
Gosto particularmente do som cru, potente e espesso de Paul Flaherty. Matéria-prima que requer a atenção e a máxima competência do percussionista que com ele se faça ao caminho. Não é para qualquer um, mesmo entre os mais capazes, digo eu. Marc Edwards é talvez o que melhor resulta na combinação com o poder sonoro do saxofonista, sem desprimor para Coulbourne e Corsano. Questão de gosto pessoal, provavelmente.
Apesar de ser um príncipe, um primus inter pares dos bateristas de mãos livres, Edwards tem permanecido em relativa obscuridade, pelo menos no que aos discos diz respeito. Participante em Dark to Themselves e na histórica digressão europeia de Cecil Taylor que resultou na gravação daquele marco do free jazz (1976), há poucos anos atrás empolgou a comunidade em Red Sprites and Blue Jets (CIMP), em trio com Sabir Mateen e Hilliard Greene.
Na Alpha Phonics, editora por si fundada, Edwards lançou até à data dois discos: Black Queen e Time & Space, Vol. 1. De resto, das poucas oportunidades que se tem de ouvir Marc Edwards, sobrelevam as colaborações com o David S. Ware Quartet (Flight of I), surgidas na sequência do Apogee, trio com Cooper-Moore e DSW, muito antes de surgirem Whit Dickey, Susie Ibarra, Hamid Drake e Guillermo E. Brown. Marc Edwards permanece como o melhor e mais completo bateur que passou pelas fileiras de S. Ware, em minha opinião. Em actividade discreta prossegue o quarteto que Edwards reuniu, que inclui Tor Snyder, guitarra, Sabir Mateen, saxofone tenor e Hilliard Greene, contrabaixo. M. Edwards é também autor de um livro sobre meditação transcendental. Kaivalya Vol. 1 apanha os gigantes Flaherty e Edwards, dois dos ícones mais representativos da criatividade excêntrica no vasto mundo do jazz, em grande forma. Até estes guerrilheiros da free improv têm os seus momentos de ternura. Improvisando, esculpem seis figuras de extravagante beleza lírica, mesmo quando esse lirismo é um pouco pesado, exibindo arestas por limar.
Este primeiro volume de Kaivalya enche as medidas e deixa um rasto de curiosidade para saber que surpresas nos reservará o segundo, a ser editado pela Cadence Jazz Records lá para o Outono, ao que me dizem. Não se perde pela demora: há um verão inteiro para conhecer bem Kaivalya, Vol. 1.