
Vitor Joaquim apresenta os 6ºs Encontros de Música Experimental - EME. Palmela, 4-7 de Outubro.Será possível determinar o ponto de fronteira que delimita a música composta da música improvisada? Ou mesmo, o ponto onde cessa o domínio da música e se inicia o do som? Existirá porventura uma fronteira, em qualquer dos casos? Fará sentido avaliar e separar a criação em função dos meios utilizados? Um piano não poderá ser tomado como um instrumento de elevada complexidade quando tocado por um nativo da Nova Guiné? Um computador portátil não representará a mesma proporção de análise aos olhos de um europeu médio?
A estas e outras questões, diferentes pessoas, dar-nos-ão diferentes respostas. E todas elas, em função do momento, do seu estado de espírito e sobretudo da memória que foram construindo ao longo dos anos (cultural em geral, e musical em particular).
Em valores absolutos, podemos dizer que a maior diferença entre um piano e um laptop está no peso de cada um.
Mais do que respostas ou verdades absolutas, pretendem estes EME lançar questões a partir de trabalhos de artistas com propostas musicais, sonoras e visuais bastante diversificadas. O campo de intervenção, vai muito para além da música, abrindo-se também às artes visuais e digitais ligadas ao vídeo e à dinâmica “hard disk, live processing”. Por fim, uma componente de dialogo entre escolas e criadores através da rubrica Encontro com Criadores.
Objectivo: o alargamento de fronteiras e um sentido de procura incessante, onde as ideias de sucesso ou fracasso não fazem grande sentido. A ideia de descoberta sobrepõe-se a qualquer ditadura estética, e quanto ao discurso –ou estilo- cada um tem o seu! Tal como os rostos.
Estes EME, pretendem pois ser um lugar de reflexão por oposição a um lugar de certezas, questionar mais do que responder, e sobretudo estimular, na esperança de que uma vez criado o estímulo, surja a reacção. E então sim, ver-se-á fechado o ciclo e chegado o momento da renovação, por meio de um novo ciclo: novas formas, novos criadores, novos públicos, públicos renovados.

Grande parte da música disponibilizada para descarga gratuita e directa através do site Avant Garde Project é uma bênção para o melómano interessado na chamada new music - clássica do Séc. XX, experimental e electroacústica. A esmagadora maioria dos projectos musicais agora ao alcance de um clique nunca foi editada em CD, e os LP’s de onde foi rippada e torrentada, muitos deles, são hoje iguarias apenas ao dispor de meia-dízia de conhecedores endinheirados e com tempo de andar atrás deles. Por essas e por outras, ter sido colocada à nossa inteira disposição é caso para dar pulinhos de contentamento físico-emocional. Coisas que valorizamos sobretudo na idade adulta. São mais de duas dezenas de projectos musicais de grande valor estético e artístico, postos ao alcance de quem, tendo gosto por sons fora da comum vulgaridade, apenas tenha que dispor de um pouco de espaço livre no disco do computador, e se quiser, de uns cd-r para fazer umas cópias, ou de um leitor de mp3 para atafulhar com o que é bom, barato e vale milhões. Entre outras peças de Josef Anton Riedl, Mauricio Kagel, Robert Erickson, Jacob Druckman, Philippe Mion, Morton Subotnick, Ezra Sims, New Phonic Art, Ben Johnston, Bernd Alois Zimmermann, Aribert Reimann, Dieter Schnebel, Luis de Pablo, John Cage, Jean-Claude Eloy e Harry Partch. É só procurar no arquivo do AGP.

Very RARE, edição revista e aumentada. A energia que este disco destila é bem o paradigma do drumming de Elvin Jones (1927-2004) e da especial idiossincrasia deste quarteto, com Sir Roland Hanna, piano, Art Pepper, saxofone alto, Richard Davis, contrabaixo, e o Dear Old Elvin, príncipe do full power com máxima sensibilidade e delicadeza. Ainda que este não seja o melhor Pepper que se conhece, longe disso, o saxofonista está bem, talvez um pouco “apertado” pelo impulso de Elvin, quem sabe. A primeira parte é uma sessão de estúdio de 1978, gravada em Nova Iorque. O remanescente do disco, que no total quase chega aos 70 minutos, inclui um concerto no Yomiuri Hall, em Tóquio, 1979, com dois saxofonistas, Frank Foster e Pat LaBarbera, e o baixista Andy McCloud III. O piano foi substituído pela guitarra de Roland Prince. Esta edição da Evidence Music inclui uma interessante versão de 26 minutos do clássico de Coltrane, A Love Supreme. Onde? A bom preço, na Evidence e na CD Universe. 

Levado ou não pela onda dos códigos, que faz furor e enche livrarias e páginas de jornal ad nauseam, nem mesmo Rudresh Mahanthappa escapou ao sortilégio de um bom códigozinho (la mode oblige...?), que os há para todos os gostos e feitios. Inspirado em Code Book, livro recente do criptógrafo Simon Singh, best seller do momento, Mahanthappa pegou na ideia e pô-la em música. O novo disco, homónimo, aí está, na Pi Recordings.

Gravado ao vivo no CBSO Hall de Birmingham, em Outubro de 2004, Out of the Darkness, é o mais recente disco do pianista e compositor britânico John Law com o Cornucopia Ensemble. Um octeto “clássico” (dois violinos, Rita Manning e Emlyn Singleton; Andy Parker, viola; Nick Cooper, violoncelo; Bruce Nockles, trompete; Melinda Maxwell, oboé; David Purser, t
rombone; e John Orford, fagote), acrescido de um quarteto de jazz, com John Law, piano, Andy Sheppard, saxofones tenor e soprano, Chris Laurence, contrabaixo e Paul Clarvis, percussão. New music e free jazz convivem em síntese natural longo das 7 peças que constituem o políptico Out of the Darkness, apresentado em concerto como uma das obras mais ambiciosas e fascinantes de John Law. Notas do saxofonista e compositor Jon Lloyd. Produção de George Aslam para a sua editora, Slam Productions.

A Radio 3 da BBC faz sessenta anos este sábado e resolveu celebrar a ocasião emitindo obras encomendadas realizadas ao longo dos anos. Jez Nelson, do Jazz on 3, foi aos arquivos e recuperou uma pequena parte desse material. Assim, na emissão de hoje, e em webcast ao longo de toda a semana, a partir da meia-noite, poder-se-ão ouvir excertos de três encomendas a músicos britânicos de três gerações distintas: a primeira, de 1965, é uma composição de Richard Rodney Bennett, A Jazz Calendar; seguir-se-á That’s Right, de John Surman, gravada em 2000, e, para acabar em beleza, uma peça do tubista Oren Marshall (na foto), Ten Tall Tales. Este o prato principal. Mas também haverá Graham Collier, The Charles River Fragments, de 1994; Tim Berne, Untitled (Still); Brian Irvine, Montana Strange, e Kenny Wheeler, com Long Suite 2005, peça gravada no Queen Elizabeth Hall por ocasião do 75º aniversário do mestre trompetista, que partilhou o palco com estrelas como Lee Konitz, Dave Holland e Norma Winstone. Hoje, no Jazz on 3, quando for meia-noite em Londres.

Jazz'In Tondela 2006
Tondela, 4 a 7 de Outubro. ACERT.


Do saxofonista Rent Romus – fundador da Edgetone Records, produtor, director executivo da outsound.org, curador da SIMM Music Series, membro da Ultra Independent Recording Coalition e dinamizador de um sem-número de actividades relacionadas com a música improvisada californiana – há muito que se aguardava por uma segunda saída com o grupo Lords of Outland, depois de Destinations Suite, de 2000. Várias encarnações, entradas e saídas depois, eis que Romus reinstalou os Lords num novo figurino criativo, repartido pelos 12 temas do novo CD, Culture of Pain. As primeiras impressões, uma vez assente a poeira inicial, são confirmadas pelos subsequentes mergulhos de cabeça nesta extraordinária visão sobre a cultura da dor, revelam o lado demoníaco caricatural que, quer o vibrato do saxofone alto, quer a voz electronicamente processada de Rent Romus, instilam e simultaneamente exorcizam, num registo ambíguo entre seriedade e paródia.
Por sobre a cauterização de uma vasta wasteland, na qual já não possível traçar as antigas fronteiras do jazz, cujo corpo jaz exangue, o grupo procura reanimar e repovoar o espaço deixado vago com os resíduos daquele género, infundindo-lhes coerência e vida pulsante. Um estado em que é a liberdade de expressão sónica a reconstruir o tempo e o espaço multi-dimensional em moldes que, sendo embora reconhecíveis por referência ao passado, são já de uma outra dimensão, um passo que vai do fugaz presente em relação ao que está para vir.
Os efeitos de articulação entre luz e trevas materializam-se em multiplas combinações sonoras, amplificadas através de efeitos especiais criados por sons febris e extravagantes nascidos do cruzamento das guitarras eléctricas de C. J. Reaven Borosque e Ray Shaeffer, e da percussão restolhante de Phillip Everett. O conjunto efervescente é temperado por pinceladas da electrónica de belo efeito e por descargas eléctricas de noise controlado, que deixam o ouvinte com um sorriso irónico ao longo da hora de duração do disco.
O ambiente geral é o de um certo psicadelismo bizarro, que, preservando a qualidade experimental e de pesquisa desta música, serve de veículo de expressão às inquietações artísticas da mente obsessiva de Rent Romus, que simultaneamente fazem parte da cultura pop californiana.
Saliente-se o relevante contributo de um conjunto de convidados, eles próprios membros da comunidade de improvisadores do Norte da Califórnia: Jim Ryan, em saxofone tenor, Darren Johnston, trompete, Scott Looney, piano, e Damon Smith, contrabaixo, membros da Jim Ryan Forward Energy, acrescentam espírito de aventura à base flexível dos Lords of Outland.
Free music moderna e poderosa, disciplinada e harmonizada sob a direcção de Rent Romus, rende homenagem a uma das mais marcantes influências do líder – Albert Ayler, cujo fantasma passeia alegremente ao longo de todo o disco, materializando-se na releitura de Universal Indians e Saints, composições originais do saxofonista de Cleveland, Ohio.
Culture of Pain, grande sucesso artístico, é um acontecimento visionário na redefinição de novas coordenadas para a música improvisada que provém do jazz, sem compromissos nem preconceitos. “No rules, no borders”. Imperdível.
Rent Romus's Lords of Outland - Culture of Pain (Edgetone Records, 2006)
Village of the Pharoahs e Love in Us All, de, respectivamente, 1973 e 1974, os dois últimos discos da fase Impulse! de Pharoah Sanders, agora reeditados em CD pela Impulse! japonesa (Universal Music Japan). Não há razões para reclamar, a não ser do preço. Hot, hot, hot!

Roswell Rudd, lendário trombonista norte-americano, disponibiliza composições suas para quem quiser descarregar e tocar. Basta ir a Artists/Roswell Rudd/Compositions, na página da Soundscape. The pieces range from minimal lead sheets to more complete scores; I call them all consolidated scores. These compositions are melody-driven cartoons of people, places and situations . Use them by all means! Roswell Rudd, NY Sept 06

O grupo galego de improvisação livre VOLONTÈ, de Roberto Mallo Garcia (guitarra e efeitos), Rafael Mallo Garcia (bateria e percussão), Óscar Vilariño (baixo e efeitos) e Miguel Prado (guitarra e efeitos), depois de muito porfiar dentro de portas vai finalmente debutar ao vivo na cidade da Corunha (Fórum Metropolitano), no próximo 4 de Outubro. A performance de estreia servirá de banda sonora instantânea para o filme Celovek's Kinoapparatom, do realizador russo Dziga Vertov. VOLONTÈ NO FORUM METROPOLITANO DA CORUÑA
Volontè é un grupo coruñés adicado á música improvisada que debutará en directo no Fórum Metropolitano da Coruña o día 4 de outubro. No concerto o grupo porá banda sonora á película muda Celovek´s Kinoapparatom (O home da cámara) do realizador ruso Dziga Vertov (1895 – 1954).
O home da cámara está composto de esceas da actividade cotiá de San Petersburgo, sobre todo tomas das rúas pero tamén do traballo e a vida doméstica. Anacos de realidade tomados de improviso (Vertov chámaos “frases fílmicas”) que alternándose uns con outros nunha rápida sucesión trazan unha especie de alegoría real que identifica o vértigo da modernidade urbana e os seus contrastes sociais e económicos co proceso mésmo da documentación e edición cinematográfica.
O grupo Volontè nace na Coruña no 2005 ao unirse o guitarrista Roberto Mallo ao seu irmán Rafael Mallo (batería) e con Óscar Vilariño (baixo), compoñentes ambos do grupo Triquinoise (actualmente coñecidos como Devalo). Despóis de xuntarse para improvisar durante varios meses, convidan ao guitarrista Miguel Prado; compoñente ao mesmo tempo de Triquinoise/Devalo e Triángulo de Amor Bizarro. Unha vez como cuarteto, realizan varias gravacións que poñen a disposición do público a través do seu podcast: volonte.podomatic.com. Despois de case un ano de existencia deciden facer a sua presentación ao público poñendo banda sonora á película de Dziga Vertov Celovek’s Kinoapparatom.
O concerto terá lugar na sala de cine do Fórum Metropolitano da Coruña o mércores 4 de outubro ás 20:30. A entrada será de 3 €.

Acaba de me entrar pela casa adentro o novo do David S. Ware Quartet, Balladware. Novo de 1999, bem entendido, embora só agora editado. Revisões de Yesterdays, Dao, Autumn Leaves, Godspelized, Sentient Compassion, Tenderly e Angel Eyes. Edição Thirsty Ear.
The David S. Ware Quartet wanted to capture the energy of it's extended late 1999 European tour which also marked the first time drummer Guillermo E. Brown was in the group, so they scheduleed a recording session the day after they came back to the States. But the fickle finger of fate wagged at them, for they were all exhausted, effectively wiping out a high energy performance. So after a few futile attempts to record, the DSW Quartet came to a realization that the only way to match their energy level was in a ballad mode which caught everyone by surprise. The session was exlclusively done in this manner and has never been replicated by them since nor ever will. This session reveals a rarified side of the DSW Quartet whose beauty and majesty transcends all notions of free jazz.

Outra novidade interessante, na onda da redescoberta (ou descoberta) de gravações inéditas que se foram perdendo no tempo, é a deste At UCLA 1965, de Charles Mingus, que ontem, 26 de Setembro, foi publicado pela Sunnyside Records. A edição original, em LP duplo na East Coasting Records, de 200 exemplares, há muito que estava esgotada. Mingus lidera um concerto/workshop na UCLA com um octeto que incluiu Jimmy Owens, Lonnie Hillyer, Hobart Dotson, Charles McPherson, Julius Watkins, Howard Johnson e Dannie Richmond. A intenção inicial de Mingus era apresentar um conjunto de composições novas no festival de Monterey de 1965, uma espécie de suite pensada e estruturada com princípio, meio e fim. Sucedeu porém que, decorrida meia-hora, e sentindo Mingus que a audiência do Monterey não estava a prestar atenção ao que se passava em palco, resolveu interromper o concerto, arrumar a pasta e levantar ferro e ir pregar para outra freguesia. A segunda oportunidade surgiu logo na semana seguinte, com o convite para tocar na Universidade da Califórnia, Los Angeles, e então sim, expor a sequência na íntegra. A actuação, perante uma assistência entusiástica composta por jovens universitários, em que Mingus, além de tocar, desanca nos músicos entre outras razões por não terem estudado o papel, foi gravada por amadores; daí que o som seja tudo menos famoso, com tremelçiques e distorções amiude. At UCLA 1965 vale sobretudo pela qualidade musical e pelo valor documental do registo.

Frank Wright Unity: Live At The Moers Festival 1974. Absolutamente inédito, este disco do reverendo Frank Wright e seu quarteto, gravado ao vivo no Moers em 1 de Junho de 1974. A gravação do concerto, que até agora fazia parte dos arquivos pessoais do pianista Bobby Few, acaba de ser lançada oficialmente pela ESP Disk, em versão integral e som ao nível dos melhores padrões de meados de 70. Frank Wright (saxofone tenor), Bobby Few (piano), Alan Silva (contrabaixo) e Muhammad Ali (bateria e percussão). Disponível, para já, na página da ESP Disk e na Downtown Music Gallery. Um grande acontecimento editorial deste Outono.
Space.
Saiu na Staubgold o novo disco de Rafael Toral, músico com carreira e espaço próprios na música experimental de base electrónica feita por portugueses em Portugal, e no estrangeiro, com luminárias como John Zorn, Christian Fennesz, Thurston Moore, Phill Niblock, Keith Rowe, Alvin Lucier, Evan Parker, David Toop, Jim O’Rourke ou a MIMEO / Music In Movement Electronic Orchestra. É talvez do ponto de vista do jazz que este disco melhor se compreende, até por referência ao trabalho anterior de Rafael Toral. Como o músico assinala, em instâncias de fusão entre jazz e electrónica, o passo adiante na relação entre os dois sistemas seria o jazz em electrónica. Este é o ponto de partida conceptual para a recente jornada sonora de Rafael Toral, novo ciclo que ora se inicia. Encerrados que estão os anteriores, sem que encontre abismos ou evidências de corte radical com os discos que marcaram a última década – Wave Field (Moneyland, 1995), Aereola Frequency (Perdition Plastics, 1998), e especialmente Violence of Discover and Calm of Acceptance (Touch, 2001), à cabeça de um importante ciclo ambiental – urge agora dar ordem às novas inquietações e preparar‑lhes adequada tentativa de resposta, através da colocação de uma série de novas questões a que Rafael Toral chama Space Program, o seu breviário criativo para os tempos que se avizinham, de que Space constitui porventura a trave-mestra. Toral é um prático. Posta a guitarra entre parêntesis, ela que tão fielmente serviu o programa ambient, socorre-se das ferramentas que concebe e manufactura, e faz por progredir na exploração das p
ropriedades físicas do som, matéria-prima de Space. A ligação artística a Sei Miguel é outra das chaves interpretativas da obra. É pelo jazz e seus sintagmas pós-Miles Davis, enquanto combinações de unidades da mesma e múltipla linguagem musical, que ambos vão. A participação do trompetista (e de Fala Mariam em trombone) no último dos três temas sublinha o concept de Toral e epitomiza esta ideia, mais que de convergência, de sobreposição no mesmo regime de dois sistemas de valores, som e silêncio, jazz e electrónica, que passam a ter um futuro e uma arqueologia comuns.
Ponto a ponto, átomo a átomo, os sons são agregados através de espaços de silêncio, que resumem o momento anterior e anunciam o passo seguinte. Através do uso de sons glaucos provenientes de teclados etéreos, Toral gere cor e textura com habilidade, via modelação sistémica e criação de ambientes hipnótico-futuristas, cromaticamente sedutores. Os espaços deixados por preencher só acentuam o dramatismo da orquestração. Voam vistosos pássaros celestes por entre poeira de estática e cristais que vibram à sua passagem. Sugestões de beleza zen carregada de radiação eléctrica, liquefacção sonora, domínio do imponderável ou da gravidade reduzida. Fica-se siderado no espaço sideral.
Edição da Staubgold, distribuída em Portugal pela ((flur)).
Rafael Toral apresenta o disco na ZDB a 21 de Outubro p.f.
Improvisação livre, tendência electroacústica berlinense deste início de século. Boris Baltschun (sampler), Axel Dörner (computador, trompete) e Kai Fagaschinski (clarinete) formam um trio de músicos empenhado em trabalhar sobre a essência e a musicalidade dos fenómenos sonoros. Realizam um interessante trabalho de pesquisa e investigação sobre texturas, granulados, superfícies lisas, finas ou espessas, linhas oblíquas, intersecções e sobreposições de planos, combinações e recombinações de timbres, diferentes durações e intensidades – tudo concorre para criar uma sensação de movimento, lento ou rápido consoante a “velocidade” mental que o ouvinte lhe queira ou possa imprimir. Porém, nada se move aqui; por isso a ilusão é perfeita. A ideia de Baltschun, Dörner e Fagaschinski, pode ter sido a de formular uma proposta que tem por base o uso do som enquanto valor acústico não concretamente referenciável a notas musicais, combinando-o, num contexto pré‑melódico, com notas longas, isoladamente consideradas. Deste modo estabelecem-se interessantes intercâmbios e transposições entre aqueles dois campos, de onde nascem módulos e estruturas que causam perplexidade pela forma como se estruturam e se organizam com o fito de interpelar o ouvinte, não apenas quanto à identificação da fonte ou fontes sonoras que se fazem ouvir num dado momento (em cada instante), mas – e sobretudo – para tentar apreender os vários níveis em que se desenvolve a macro-construção deste complexo mecanismo. Há em No Furniture (Creative Sources 009) uma curiosa geometria de limites ocultos que se vai revelando à medida que progride no tempo. E é justamente o tempo que dá forma ao espaço em cada instante, que lhe fixa os subtis contornos e direcções de expansão, como as linhas exteriores que desenham os módulos Chair (12'47), Table (16'38) e Bed (16'07). Três quadros de uma composição espacial, que, tal como a mobília, servem necessidades humanas, sejam elas básicas ou mais elaboradas.

VARIABLE GEOMETRY ORCHESTRA

23SET2006. ZDB, Lisboa

Quanto maior for a memória do ouvinte, mais vasto é o vasto acervo de memórias do jazz e da música improvisada reconhecíveis no nomadismo da Variable Geometry Orchestra (VGO), todo um amplo espectro de sinais de música moderna, actuais e de outros tempos, que lhe servem de inspiração e de motor interno.

Sob a direcção de Ernesto Rodrigues, a VGO, actuando um vez mais no palco da Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, pôs em prática o seu trabalho de modelagem sobre massa sonora compacta e homogénea, entrecortada por breves solos, pontos de partida para “conversas” no interior de pequenos conjuntos, secções organizadas como naipes circunstancialmente subdirigidos por Patrick Brennan, à direita, e Alípio C. Neto, do lado esquerdo.

Jogos interactivos de improvisação, linhas melódicas, permutações, ensaios de contraponto, simultaneidade, provocação e resposta, contraste e aproximação, grito, transe, imprecação, dança caótica de cordas, teclas, sopros e electrónica, batidos por fogachos, labaredas rítmicas, explosões de címbalos, ou simplesmente dispostos sobre as brasas de percussão. Preparações alternando entre a ocasional chuva de meteoritos sobre os telhados da vizinhança e o bombardeamento sonoro em larga escala, acentuado pelo uso de notas longas, exacerbação súbita, paroxismo transformado em drones fantasmagóricos que se fundem em extensões de magma sonoro, a perder de vista.

Apostado em aprofundar o trabalho sobre variações dinâmicas – uma das vias de orientação a seguir na incessante busca de diferentes soluções para este puzzle gigantesco –, a orquestra consegue ser tão eficaz na acção devastadora do seu poderio sonoro, como na subtil e delicada enunciação, emergente da estrutura massiva e dos profundos alicerces em que se estrutura o vasto campo de experimentação e de improvisação colectiva.

Com a VGO a viagem é sempre longa e sem escala. Em cima do palco, mais de 30 músicos pintaram a manta, detonaram cargas de profundidade em longos crescendos de intensidade, curvas de frequências que estimulam neurónios e insuspeitas secções da alma, sem no entanto revelar o núcleo essencial do segredo que colectivamente transportam e que a ninguém individualmente é dado o poder de conhecer.

Qual nave que se projecta no espaço, que visa ir cada vez mais longe na exploração do desconhecido, a Variable Geometry Orchestra, ultrapassando os seus próprios limites musicais e os obstáculos físicos do meio que a suporta, permite ver e sentir o mistério que está para lá de um ponto qualquer. Não se sabe como, nem para onde se vai a seguir; mas o que quer que seja que lá está emite sinais de vida.
Livre, selvagem e surpreendente.

Hello Pessoal!
Mais um acontecimento inexcedivel, ontem, com a VGO!!!
Não tão cataclítico como na minha primeira vez (Trem Azul), nem tão telúrico
como na segunda (Teatro D. Maria II), mas como numa montanha russa, tão variado,
imprevisto, intenso e até simples, cheio de oportunidades individuais, a
mostrar que a calmaria também existe e que o silêncio, ou quase, também é
possível; que num todo se transformam em arrebatamento planante, a terminar
numa praia, com um largo sorriso de contentamento e felicidade por mais este glorioso acto desta nossa orquestra de variáveis geometrias.
Venham mais!!
SEMPRE!
Um abraço a todos e OBRIGADO!
Rui Portugal (fotos)

ernesto rodrigues_violin, viola, conduction; guilherme rodrigues_cello; hernâni faustino_double bass; eduardo raon_harp; nuno rebelo_portuguese guitar; sei miguel_pocket trumpet; marcello maggi_trumpet, trombone; eduardo lála_trombone; eduardo chagas_trombone; ben stapp_tuba; bruno parrinha_clarinet, alto clarinet; miguel bernardo_clarinet; patrick brennan_alto saxophone; nuno torres_alto saxophone; lizuarte borges_alto saxophone; alípio c. neto_tenor saxophone; joão viegas_tenor saxophone; rui horta santos_tenor saxophone; peter baastian_poetry; ivan cabral_didgeridoo; mara mccann_voice; luís lopes_electric guitar; antónio chaparreiro_electric guitar; armando pereira_accordion; miguel martins_melodica; rodrigo pinheiro_piano; travassos_tapes; carlos santos_electronics; joão silva_field recordings; nuno moita_electronics; césar burago_percussion;
monsieur trinité_percussion, objects; josé oliveira_drums.

Setembro, que ainda corre, é mês de aniversário desta casa de pasto. Agradáveis, as surpresas irrompem de onde mais se espera. Neste caso, do lado de João Santos, todos o sabem, melómano, music writer, divulgador e distribuidor no mercado luso de interessantes edições discográficas sob o ainda discreto nome Dwitza.
Nos oitenta anos de John Coltrane:
Apanhou-me desprevenido mas, como sempre, com a camisola do clube de fãs colada ao corpo este segundo aniversário do Jazz e Arredores. O blog, mais do que ocupar um espaço vazio, acabou antes por inventar um inteiramente novo. E esse lugar – suspenso no imaginário do seu próprio enunciado – trata de se renovar e reorganizar a um ritmo que, de tão orgânico, não ilude quanto à sua natureza. Na prática, sublimou a topografia do género e é ao mesmo tempo seu retrato e seu inverso, seu prefácio, seu diário, sua versão corrigida e aumentada, sua crítica. Tão inflamado quanto discreto, o seu discurso não tem paralelo. Mas não sei o que o elogiará mais: se chamá-lo de isento ou parcial. Talvez – como nós, seus leitores – tenha um pouco de ambos. Mas nunca se esgotará em nada que simultaneamente não confunda e esclareça pela força da sua própria humanidade. Claro que, nessa perspectiva, encerrará em si mesmo visões discordantes ou complementares, sublinhará convergências e divisões. Porque – além dos concertos, dos discos, das palavras dos artistas – define-se num sistema de partilha, permeável e aberto, independente mas resultante das expectativas deixadas por quase um século de música gravada e tantas vezes vulnerável nas questões que levanta. Nunca vulgar, é raramente óbvio o Jazz e Arredores.
Também eu à sombra de Ra (conferir a minha modesta coluna Mundos Heliocêntricos, ao longo destes cinco anos de revista Op), assumo a tendência de procurar o essencial das coisas no que aos meus olhos surge apenas como seu indício; o que, arriscando a comparação e possível injustiça, servirá muito obliquamente para traduzir o fundamental da atenção dispensada pelo Eduardo a tantos autores, sites, músicos, eventos, etc, que não insistiriam sequer num alinhamento com a história do jazz ou que nem aí reconhecerão o seu centro de gravidade. Esse olhar – entre os de outros próximo dos interesses de Dan Warburton, Bill Shoemaker ou dos colaboradores do Bagatellen - mais do que mero fruto de uma era está antes em plena sintonia com o motor de paixões que em princípio nos une a todos. Tardou esta saudação, mas segue à boleia do aniversário de um eterno pai espiritual nestas andanças: John Coltrane. Como ele disse “There is never any end. There arealways new sounds to imagine; new feelings to get at”. Há que assumi-lo como evangelho. Obrigado Eduardo por continuares a imaginar.
João Santos

A triste notícia de hoje é a de que morreu o saxofonista, flautista e professor Jimmy Vass. Lembram-se dele? É natural, tem estado muito esquecido ultimamente. Mais uma daquelas perversas injustiças da história do jazz, tão lesta a promover a mediania e a mediocridade aos píncaros, como a esquecer os seus melhores filhos, apenas porque a imprensa do establishment – movendo-se por critérios tantas vezes extra-musicais, onde quem manda, directa ou indirectamente, são corporações poderosas como o Lincoln Center, e outros centros museológicos que se movem à força de muito buck – serve essencialmente para promover os Marsalis desta vida, deitando borda fora quem tanto contribuiu, se não para fazer avançar o jazz, pelo mais para lhe dar consistência, solidez e afirmação. Desta vez foi Jimmy Vass, homem sem nome próprio porque tudo deu a Charles Mingus (Fables of Faubus), Andrew Hill (Blue Black, Evolving, Divine Revelation), Rashied Ali (Moonflight, NY Ain't So Bad: Ali Plays the Blues), Richard Muhal Abrams (Blues Forever), Ronnie Boykins (The Will Come, Is Now), Charles Earland, Sunny Murray e muitos mais. RIP Jimmy Vass, "You ARE your music".

«Seeking the Mystical Inside the Music» - Ornette Coleman entrevistado no New York Times, edição de 22 de Setembro de 2006.

Elton Dean Headless Quartet (Culture Press). Elton Dean, Alex Maguire, Roberto Bellatalla e Tony Bianco, ao vivo em 1998. “Headless: We improvise, we organize collectively, we aim at Nothing, to discover the obvious”. O Headless Quartet é a base de outro grupo de Elton Dean, Headless Squad, composto por músicos sedeados em Londres que tinham por hábito improvisar nas tardes de domingo no Vortex Jazz Club, da capital inglesa. A música, encomenda de Enzo Hamilton para edição na Culture Press Records, e gravada no Vortex, possui o mesmo tipo de energia, intensidade e de exposição que a de outro quarteto homólogo, o Mujician, de Paul Dunmall, Keith Tippett, Paul Rogers e Tony Levin. O Headless Quartet improvisa longamente a partir de breves motes, assinaláveis no início e no fim dos três temas (Nasty.... Not Nice; Like Bacon; e Web Of Wyrd), que duram entre os 16 e os 25 minutos. A par de Elton Dean, que sopra com a mesma bravura dos melhores tempos do Soft Machine, ora doce e melódico, ora áspero e agressivo, Alex Maguire, pianista que também participa no quinteto Wishful Thinking (Alípio C. Neto, Johannes Krieger, Alex Maguire, Ricardo Freitas e Rui Gonçalves), que opera a partir de Lisboa, é o focal point do disco, tanto na distribuição de jogo, como na maneira encantatória como protagoniza alguns dos melhores momentos de improvisação, suportado noutros dos pontes fortes do momento – a secção rítmica de Bellatalla e Bianco. Alex Maguire, incompreensivelmente desvalorizado no ranking dos grandes pianistas da actualidade, das Ilhas Britânicas ou de fora delas, é um artista impressionante de verve, inventividade e capacidade de comunicação. O Headless Quartet é apenas uma boa amostra do seu imenso talento.

Sábado, 23.09, às 22h30, na GaleriArmazém (Rua da Vinha, 26, Bairro Alto, Lisboa), actuação a solo do saxofonista norte-americano Patrick Brennan, que na mesma noite participa no concerto da Variable Geometry Orchestra, na Galeria Zé dos Bois (Rua da Barroca, 59).
A 26, Brennan toca no LUSO CAFÉ (Travessa da Queimada, 14) com Manuel Mota e Rui Horta Santos (guitarras).
Sábado, 23 de Setembro, 23 horas

VARIABLE GEOMETRY ORKESTRA
ernesto rodrigues_violin viola conduction; guilherme rodrigues_cello, pocket trumpet; hernâni faustino_double bass; eduardo raon_harp; nuno rebelo_portuguese guitar; sei miguel_pocket trumpet; marcello maggi_trumpet; eduardo lála_trombone; eduardo chagas_trombone; ben stapp_tuba; bruno parrinha_clarinet, alto clarinet; miguel bernardo_clarinet; jorge lampreia_soprano saxophone, flute; patrick brennan_alto saxophone; nuno torres_alto saxophone; lizuarte borges_alto saxophone; alípio carvalho neto_tenor saxophone; joão viegas_tenor saxophone; rui horta santos_tenor saxophone; peter baastian_alto saxophone, poetry; luís lopes_electric guitar; antónio chaparreiro_electric guitar; armando pereira_accordion; miguel martins_melodica; rodrigo pinheiro_piano; travassos_tapes; carlos santos_electronics; plan_turntables; joão silva_field recordings; nuno moita_electronics; césar burago_percussion; monsieur trinité_percussion, objects; josé oliveira_drums, acoustic guitar.
Galeria Zé dos Bois. Rua da Barroca, 59 - Bairro Alto, Lisboa.


PICA, PICA. Soletrar este título traz-me à memória referências vagas ouvidas há anos sobre a gravação de um trio de Peter Brötzmann (saxofones alto, tenor e barítono, tarogato), Albert Mangelsdorff (trombone) e Günter “Baby” Sommer (bateria), como exemplo de uma grande actuação de Mangelsdorff (era dele o nome que me era apresentado como o senhor absoluto da sessão) em 1982, num LP homónimo da Free Music Production (FMP). Sim senhor, é justo destacar a voz do grande trombonista alemão, pela expressividade e uso criativo (e inovador) das técnicas do trombone; porém, o que aqui vale essencialmente é o trio, sem prejuízo das intervenções solísticas dos músicos, com destaque para o interessante despique entre os sopradores, contrastes e aproximações de um Brötzmann menos incendiário do que é costume e de um Mangelsdorff a puxar para territórios afins do jazz e da música contemporânea. Sommer, fino como sempre, sabe exactamente quando deve estar calado e quando deve estrondear, puxar pelos parceiros, sublinhar um ou outro aspecto, dar cor e acentuar uma ou outra nuance. Nada a mais, nada a menos.
Gravado ao vivo em Stadthalle, Unna, Alemanha, no âmbito do “Jazzfest Unna” de 1982 (Brötzmann nas notas conta que despacharam 20 litros de cerveja durante a actuação…), o LP de então passou agora a CD por obra e graça de John Corbett e do programa Unheard Music Series, da Atavistic. Com os mesmos três temas da edição original, Instant Tears (20’43), Wie Du Mir, So Ich Dir Noch Lange Nicht (17’05) e Pica, Pica (3’59), o disco é do melhor Brötzmann e Mangelsdorff de sempre. Bestial! O meu exemplar custou $ CAN 16 (€11), na Verge.

Já está à venda a última gravação, póstuma, de Derek Bailey (1930-2005), “To Play: The Blemish Sessions” (samadhisound). Derek Bailey, guitarra eléctrica e acústica, em sessão de estúdio efectuada no Moat Studio, Londres, a 18 de Fevereiro de 2003. Resultado da colaboração pedida por David Sylvian, que interpelara o guitarrista no sentido de o provocar artisticamente enquanto cantor. Da sessão de 18.02.2003 Sylvian escolheu três temas para incluir no CD “Blemish” (The Good Son; She is Not; e How Little We Need to be Happy). “To Play: The Blemish Sessions” é então composto pelo remanescente do trabalho de Bailey encomendado por Sylvian, à excepção de um tema comum a "Blemish".
«As fate would have it this was to be the last solo studio session Derek was to record before the onset of illness,” recalls Sylvian. “That might make the session valuable in itself but it’s the quality of the work that’s outstanding. The conversational quality, the apparent ease of facility in that ongoing search for what remains elusive. You witness up close the struggle and fluency, frustration and facility. It’s an intriguing dichotomy illustrated so beautifully on this recording. I’m reminded of the title of that Bill Evans recording Conversations with Myself. This is an external manifestation of one man’s internal dialogue. A struggle for eloquence using all the considerable skills at his disposal. Always attempting to push beyond the confines of the vocabulary, even one self-invented for this very purpose. That quixotic mission necessarily accompanied by plenty of humor and self-deprecation. A means of getting oneself out of the way, of not taking oneself too seriously but dedication to the process for it’s own sake perhaps?”
To Play’s title was suggested by writer/musician and longtime friend of Bailey’s, David Toop, after hearing the recordings, which he says are among his favourite solo recordings of the artist. Toop explains: “after my last face to face conversation with Derek, I was so struck by his emphasis on ‘just playing’ as a deep philosophy at the core of his work, and some of the anecdotes of his early life, that I thought of writing a stage play. My idea was that Derek would play within the play. I suggested this to him and he seemed agreeable, at least. The idea came to nothing, partly because of other commitments and partly because I don’t have a great love for most theatre and so couldn’t seem to get started on it, but I still like this word Play (much Beckett in there) in relation to Derek’s activity.
To play might mean: to do it now, as you are; to improvise, to use what is at hand; to enter into a game, not just to act according to someone else’s set of rules, but to invent processes, ways of doing things, protocols; to imagine new ways of being together, of proceeding. Derek Bailey did not fuck this up». - press release.

Steve Lacy Quintet, "Esteem". Live In Paris 1975.
Lacy, Potts, Irene Aebi, Kent Carter e Kenneth Tyler. Lacy, americano na primeira década de Paris, num disco inédito, gravado ao vivo em La Cour des Miracles e resgatado aos arquivos em fita do famoso quinteto. Parece que há muito mais tesouros destes à espera de quem os descubra, lhes limpe o pó e os ponha a circular. Em boa hora John Corbett começou esse trabalho para a Unheard Music Series / Atavistic.
The first in a series of recordings from Steve Lacy's cassette archive authorized by Irene Aebi.
"When Steve Lacy passed away in June, 2004, he left behind an archive of more than 300 private recordings - mostly cassette tapes of concerts dating from the 1970s up until his final months. Many feature his longtime quintet and subsequent sextet, as well as trio, duo and solo performances; some revisit old friendships, some present unique collaborations, while others document special projects that never quite found their way to the recording studio. In all of these, the same adventurous spirit prevails, the same calm integrity. This series, The Leap: Steve Lacy Cassette Archives, aims to make available significant performances in a remarkably fertile career. It will showcase Lacy with his regular associates as well as others, playing music heard elsewhere in different contexts and also music only heard just once. By so doing, may it deepen the listener’s sense of a singular body of work." - Jason Weiss, editor, Steve Lacy: Conversations.
Esteem features Lacy’s working quintet one lively night at La Cour des Miracles, a Paris club the group frequented at the time. The musicians were in residence there for most of February, 1975, and again through much of December. Featuring Lacy (soprano sax), Steve Potts (alto/soprano saxes), Aebi (cello/violin), Kent Carter (bass), and Kenneth Tyler (percussion). Lovely 10-panel folder, showcasing paintings by Chicagoan Jason Karolak.
"Space", de Rafael Toral, visto e ouvido por Brian Olewnick, da Bagatellen, Agosto passado. (Atenção à Wire de Outubro - "The Portuguese composer has jettisoned his electric guitar on the first stage of an ambitious, long-haul electronic Space Program. Dan Warburton visits mission control"). E também "Tone Gardens", belo disco de Sei Miguel, com Fala Mariam, Rafael Toral e César Burago. Os “Gardens” continuam a receber boas críticas da imprensa internacional online.
Luciano Vaz Correa, amigo, violoncelista e improvisador do Rio de Janeiro:
Por ocasião da minha última visita à maravilhosa cidade de Lisboa tive a oportunidade de tocar com músicos locais, dentre eles Eduardo Chagas.
Qual não foi minha surpresa ao descobrir que, além de improvisador, Chagas é o responsável pelo blog Jazz e Arredores que já está completando dois anos de intensa atividade em nome da música e da arte.
Parabéns Mestre Chagas e quem me dera que no Brasil houvesse mais jornalistas como você. Abraços,
(Lucky) Luciano Vaz

O New York Times noticiou e a página da MacArthur Foundation confirma: a violinista Regina Carter e John Zorn, saxofonista, compositor, fundador e director artístico da Tzadik e do clube nova-iorquino The Stone, estão entre os laureados de 2006 com a MacArthur Fellowship, prémio criado por John D. McArthur para distinguir personalidades que revelem "extraordinária originalidade e dedicação na sua actividade criativa", e que tem vindo a ser promovida pela MacArthur Foundation. Este ano os “genius awards” estendem-se a diversas áreas, ciência, literatura, medicina e artes plásticas e performativas, no valor de 500.000 dólares. Segundo o PÚBLICO de hoje, John Zorn virá a Portugal (Braga, Teatro Circo) a 27 de Outubro, como "maestro e desenhador de som" da estreia de "Moonchild", do grupo de Mike Patton, Trevor Dunn e Joey Baron, em espectáculo único.
Festival Música Viva 2006
Intersecções de novas linguagens e estéticas musicais
Metamorfoses da criação musical contemporânea
De 23 de Setembro a 27 de Outubro de 2006, em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian, no Instituto Franco-Português, no Mosteiro dos Jerónimos, no Centro Cultural de Belém e no Teatro Maria Matos.
Na Esquilo Records, entre outras novidades setembristas, o terceiro disco (duplo) do trio luso-espanhol constituído por Ferran Fages (gira-discos acústico, motores, timbalão), Ruth Barberán (trompete, objectos amplificados) e Alfredo Costa Monteiro (acordeão, aparelhos), "Semisferi".
Neste muito esperado seguimento para os dois álbuns lançados na
Rossbin e
Creative Sources, o trio português / espanhol surge na sua máxima força com uma visão refinada das estruturas improvisadas. Jogando com tensão, dinâmica e textura,
Ferran Fages, Ruth Barberán e Alfredo Costa Monteiro encontram o seu caminho através de instrumentos como o gira-discos acústico, o trompete, o acordeão e vários objectos. Este álbum é composto por dois discos: um disco de estúdio (gravado em Barcelona) e um disco ao vivo (gravado em Paris), melhor evidenciando as capacidades e contradições do trio em ambos cenários.
Edição em numa caixa de cartão de luxo gatefold com arte original em serigrafia.
Limitado a 300 cópias.

50 minutes of absolutly free improvisationby two well-known french improvisators, exploring the soundsrelations and combinations with a perfect recording quality.

Nestes tempos em que a música improvisada assume por inteiro a sua faceta multidireccional, quem distribui jogo são as pequenas editoras, contribuindo para revitalizar o meio musical, tanto ao nível de novos nomes e propostas estéticas, como da apresentação de outras que, não inovando, sulcam mais fundo caminhos anteriormente percorridos.
É neste duplo contexto que se inscreve o trabalho da norte-americana 577 Records, que tem como produtor executivo o percussionista Federico Ughi, seguindo o figurino há algum tempo estabelecido, de editoras dirigidas por músicos, como veículo para a sua própria expressão e, simultaneamente, dar a conhecer trabalhos de artistas com os quais mantêm relações de afinidade estética e pessoal. No caso, cumplicidades relacionadas com o free jazz e com a integração da composição e da improvisação numa estratégia que privilegia a aventura do discurso colectivo, desapegado dos modelos clássicos das linguagens que o jazz foi assumindo ao longo dos tempos. É nesta medida que a editora de Federico Ughi, desde 2001 tem vindo a editar trabalhos de Matt Lavelle, Nathan Hanson e Matthew Heyner, como da veterania nova-iorquina representada por William Parker, Daniel Carter, Steve Swell, Sabir Mateen, ou pelo poeta e declamador Steve Dalachinsky. A mais recente edição da 577 Records foca um trio italo-britânico, ou totalmente britânico, se se quiser, visto que, independentemente da origem geográfica, os músicos intervenientes vivem e trabalham em Londres, praticando dentro da estética de escola inglesa da música improvisada. Estreia do pianista Gabriele Meirano, apoiado nesta primeira incursão por dois nomes fortes: Jim Dvorak, em trompete, e Roberto Bellatalla, contrabaixo, dois veteranos da cena britânica com extensa obra discográfica desde os anos 70 para cá. “‘Friendly’ Fire” tem a edição limitada a 200 exemplares.

O afro-futurismo está na ordem do dia, seja na criação artística seja na comunidade académica e científica. Esta última propõe-se analisar a diáspora africana à luz da matriz cultural de confluência de vários elementos culturais, na qual convivem o rudimentar e o tecnológico, o ético e o estético.
Todos os caminhos partem de ou passam por Sun Ra, pela sua mitologia e cosmologia interplanetária. É isso que os organizadores do Simpósio “Traveling the Spaceways: The Astro Black and Other Solar Myths” pretendem estudar e debater durante dois dias, 11 e 12 de Novembro, tendo por objectivo compreender o impacto do afro-futurismo na cultura urbana de hoje, em particular na América.
Painéis de discussão, concertos e outras actividades correlativas preencherão por inteiro os dois dias de trabalhos, com um programa ambicioso que inclui comunicações como “Aesthetics of Postwar Chicago and The Sun Ra Diaspora: Art After Ra", a participação do biógrafo de Sun Ra, John Szwed, da Universidade de Yale; do discógrafo de Ra, Robert Campbell, da Clemson University; do crítico e jornalista britânico, autor de “Blutopia”, Graham Lock. Serão expostos originais de composições de Sun Ra recentemente descobertos. Não faltará música de Sun Ra, tocada pelo Fred Lonberg-Holm Trio, pela flautista de Chicago, Nicole Mitchell, e por um grupo formado por Ken Vandermark propositadamente para actuar no Simpósio, que terá lugar no Hyde Park Art Center, em Chicago.

Ainda a tempo, sempre a tempo, Pedro "((flur))" Lourenço, com uma ilustração de que é autor:
Parabéns amigo chagas e parabéns jazz e arredores.
um abraço,
pL
Má notícia: a alemã Subsource - netlabel for electronic music culture, fechou as portas.
Dear Sublistener,
after nearly seven years of providing quality electronic ambient music for
free subsource will stop it's work. No new music will be released at this
place. Past Releases will be kept online as long as possible. Thanks to all
listeners, supporters and of course the artists for the good work. We had
great times during this project.
over and out
Dirk Murschall

Ars Nova Workshop (ANW). Desde 2000, organiza e apresenta concertos de jazz e música experimental na região de Filadélfia, EUA. Esta associação sem fins lucrativos é um exemplo de sucesso na intermediação entre artistas e público. Para dar uma ideia da intensa actividade da organização, e da abrangência estética que lhe está na base, no passado recente promoveu concertos e workshops com artistas e grupos como Joel Harrison, Death Unit, Baikida Carroll, Charles Gayle, Oluyemi Thomas, Ken Vandermark, Wilbert de Joode, Veryan Weston, Jack Wright, Matthew Shipp, Malachi Thompson, Big Satan (Tim Berne, Marc Ducret e Tom Rainey) Ellery Eskelin, Andrea Parkins e Jim Black, Sonny Fortune e Rashied Ali, The Steve Lehman Quartet (Jonathan Finlayson, Drew Gress e Tyshawn Sorey), Rob Mazurek, John Hollenbeck, Scorch Trio, Jorrit Dijkstra, Pauline Oliveros and the Deep Listening Band, Henry Threadgill's Zooid, John Tchicai, Scorch, Wadada Leo Smith, Marshall Allen, Ethnic Heritage Ensemble, Arthur Doyle e tantos outros.
Seguem-se Wally Shoup Trio, Khan Jamal/Grachan Moncur III Trio, Yellow Swans, Brötzmann/Bennink Duo e os mais que já estão programados e anunciados na página da Ars Nova Workshop.
Jazz e Arredores, 2 anos
À memória de Virgínia de Castro Sá
(10.06.1964 – 17.09.2006)
Estas flores são para ela

Sétima emissão da "dada rádio - música e comunicação insurgente":«
Robotobibok, grupo polonês [improviso de jazz e electronica] Laurent de Wilde [tecladista francês em seu primeiro disco de jazz “organotrônico” , time for change de 2000, no próximo programa rolarei o segundo e assim…. O querido som de Erik Truffaz, o cara que sem eu conhecer me apresentou a linguagem jazz+electronica+jungle em uma coletanea de dois discos, Bending New Corners e The Dawn E pra fechar o som transmetropolitan do Sofa Surfers no disco Encounters… Spider irá gostar! E no final um plus com Gogol Bordello, o punk “cigano” vindo da Ucrânia…. ouça a dada radio transforme-se!»

A editora canadiana Spool Records acaba de publicar “Open Spaces” (Line 27), disco de François Carrier, Dewey Redman, Michel Donato, Ron Séguin e Michel Lambert. “Open Spaces” condensa o melhor de três noites de concertos do grupo, realizados no Quebec, em 1999. Dewey Redman faleceu em 2 de Setembro, pelo que esta gravação póstuma, inédita até à data, constituirá talvez uma das últimas oportunidades de testemunhar a extraordinária arte do saxofonista norte-americano.
Dave Burrell é um caso à parte como pianista. Talvez só Andrew Hill possa, como ele, reclamar tanto peso da história do jazz em cada movimento de improvisação. Mas só ele pode reivindicar ter tocado transversalmente com toda uma frisa de grandes saxofonistas, constituída por Albert Ayler, Archie Shepp, Pharoah Sanders, Roscoe Mitchell, Marion Brown e David Murray, e ter pertencido à primeira vaga da New Thing, permanecendo ainda no activo. E de que maneira!
Mal refeito das ondas de choque provocadas por “Expansion”, o muito premiado álbum de 2004 do Full-Blown Trio, com William Parker e Andrew Cyrille, fico satisfeito por saber que Dave Burrell deve estar quase a lançar a nova gravação que realizou para a High Two Recordings, com outros contrabaixista, Michael Formanek, e baterista, Guillermo E. Brown, do David S. Ware Quartet. Pelo meio, saiu este “Consequences” na Amulet Records, algo inesperado disco em duo com o baterista Billy Martin, membro do trio avant-funk Medeski, Martin & Wood.
Um mano-a-mano de dois mestres, marcado para a abertura da edição de 2006 do Vision Festival, em Junho passado, “Consequences” foi gravado ao vivo em Filadélfia, em Outubro de 2005. Burrell percorre o teclado de uma ponta à outra, secundado pelo suave sublinhar de Martin, num entendimento perfeito ao longo dos cinco temas. Sobressai o “sotaque” característico do pianista, que vai buscar elementos ao stride e ao ragtime, processando-os em ambiente out, através de uma personalizada leitura expressionista dos acontecimentos, muito abrangente, na qual prima um lirismo muito particular – uma das marcas do som de Burrell que o tornam quase imediatamente reconhecível. Belo disco, “Consequences”. Dos melhores que ouvi este ano.

De vez em quando vai-se ao armário, limpam-se o capacete, o escudo e as armas, e durante 40 minutos matam-se saudades. Paranoid, de 1970, grande disco dos Black Sabbath. É ou não é?
1977 foi um ano muito activo para John Stevens (1940-1994). Nesses doze meses gravou que se fartou e não teve mãos a medir com concertos um pouco por toda a parte. Com o John Stevens’ Away (Robert Calvert, David Cole, Nick Stephens e Ron Herman), a Dance Orchestra (Robert Calvert, Jeff Young, Nigel Moyse, David Cole, Nick Stephens e Ron Herman), o trio com Barry Guy e Trevor Watts - este último, seu companheiro no Spontaneous Music Ens
emble (SME) entre 1968 e 1976 - por junto gravou 13 álbuns, se a aritmética e a memória me não pregam partidas. Que os discos não se vejam muito aí pelo mercado, é outra coisa, problema que advém das crónicas disfunções entre a oferta e a procura. Mas uma volta pela net, com pesquisa fina e algum dinheiro no cartão de crédito, podem fazer maravilhas e trazer para casa parte do riquíssimo espólio de um dos mais influentes músicos do jazz/improv das Ilhas Britânicas. Uma das minhas mais recentes aquisições foi NO FEAR, aproveitando a oportuna reedição da britânica Hi4Head Records – um pacote que incluiu, além de "No Fear", "Application Interaction And..." e "Mining The Seam - the rest of the Spotlite Sessions". Incrível disco, este "No Fear". Sobre ele escreveu Steve Lake ainda em 1977: «To play music as radical as this in Philistine Britain is to court financial insecurity and the hostility of the showbiz oriented press and broadcasting media». Pois foi, e ainda continua a ser assim.
De nada adianta d
estacar aqui as capacidades técnicas e poéticas desta gente, já muito celebradas, mas nem sempre ouvidas, a estrutura macro e o ínfimo detalhe de uma obra extraordinária, o som decidido de Trevor Watts, a grande inspiração de Barry Guy, que nunca hesita ante o desconhecido e o espaço em aberto - um trio que, do princípio ao fim do disco, não cessa de surpreender, em 1977 ou em 2006.
"No Fear" pode ser adquirido directamente à Hi4Head Records, por £ 10, ou via Canadá, através da Verge Music, por $ CAN 19.00, ou seja, € 13. Enquanto não chega, pode a gente entreter-se com a audição de Conversation Piece, de John Stevens, Allan Holdsworth, Jeff Clyne e Gordon Beck, edição em LP, obtenível, à falta de outra via mais conforme com o formato clássico, através de download (160 Mb) a partir da página da Mininova. "Conversation Piece": 1. Conversation Piece Part I (22:34); 2. Conversation Piece Part II (17:14); 3. Phil - A tribute to Phil Seaman - (19:32); 4. Home (9:59).
Chema Chacón, que desde Madrid, dirige, coordena, edita, faz o design gráfico e a maquetagem, traduz, escreve, revê, imprime e distribui essa peça de labour of love total que é a revista ORO MOLIDO ("fanzine dedicado a la música improvisada libre, arte sonoro y nueva música"), realizador e apresentador do programa de rádio MÚSICA DIFÍCIL (Onda Latina, 87,6 FM - Madrid, e Radio Rivas, 95,4 FM - Rivas Vaciamadrid):
¡¡Enhorabuena Eduardo!!, la dedicación que prestas a tu blog jazzearredores
es la de un auténtico entusiasta, conocedor y amante de las músicas que más
me interesan. Es lógico que visitemos tu página y la leamos tantos amigos:
aquellos que procuramos estar al tanto de cuanto acontece en el mundo de la
improvisación. Aprecio tus comentarios y deseo celebres muchos y afortunados
cumpleaños al frente de tu blog.
Grandes abrazos desde Madrid,
Chema Chacón.

Esta manhã comprei o Sol. O jornal, claro. Para sintetizar, diria que este n.º 1 no melhor parece o Expresso, para pior; e no menos bom parece o defunto Independente, não dos tempos do MEC e do "Paulinho das Feiras", mas de quando já se arrastava pela mão de Serra Lopes. Colam-lhe o rótulo de imaginativo e outras tiradas publicitárias, mas tal não corresponde à realidade. Aliás, o Arquitecto Saraiva, se fosse imaginativo, era arquitecto, não era director de jornais e autor de uns editoriais que benza-os Deus. Folheei, folheei o produto, já penosamente enfastiado, e fui dar à Música (secção Cultura, Ciência e Tecnologia) na expectativa do que a imaginação e a irreverência do Sol me poderiam proporcionar, leitor ávido que sou. Valente gargalhada. Com tanto pregão, promessa de irreverência e sei lá que mais, nada, nem para a amostra. Que há então em matéria de música que o Sol entenda com interesse editorial para levar até aos seus leitores? Quem já sabe não diga. Nem mais nem menos que um textinho desenxabido de Ana Markl sob esse subproduto musical que só merece referência por estar na moda, os esganiçados e falsetosos Sissor Sisters, pura pastilha elástica pop, e outro texto de André Cunha Leal a anunciar um concerto da violoncelista Natália Gutman na Casa da Música. E pronto, sobre música, "no país e no mundo", como diz o Rodrigo Guedes de Carvalho no telejornal da SIC, estamos conversados, não vá o leitor empanturrar-se demasiado, coitadinho, e sofrer uma apoplexia logo ao romper da aurora de um "novo jornalismo".
Compreende-se a intenção de fazer um jornal leve, mas quanto à música (e às outras artes, acrescentaria), de tão leve e frívolo, o “Sol” fica a pairar no ar, sem substância nem densidade, e a gente com pouca vontade de o voltar a agarrar. Para ser justo, vou conceder-lhe uma segunda oportunidade, a ver se me consigo iluminar com o próximo número. E a ver se o jornal é capaz de evoluir da actual pobreza franciscana, do grau zero do jornalismo cultural destes pouco auspiciosos vagidos. Grafismo frouxo, conteúdo sofrível. Jornal para o Séc. XXI? Nem pó.

Happy Birthday, Jazz e Arredores!
Thank you very much George, but have you been drinking again? No?! Well, last time I saw you on TV you appear to .. well, you know...

Apesar dos preços escandalosos, quem puder assista ao duo Chick Corea $ Gary Burton, a 22 de Setembro no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Um lugar decente custa "apenas" € 60, como se de uma superprodução operática se tratasse. Por outro lugar, balcão lateral de "visibilidade reduzida" (vá lá, não se pode dizer que o logro seja total), alegremente esportulam 38 bicos ao pagode "maravilhado". Quem não sofra de varizes, paga "só" € 25 para estar de pé. Atenção, como as portas abrem uma hora antes do espectáculo, só cobram propriamente a hora de concerto; a de espera é um bonus. Conclusão: vão gamar para outro lado. Resta uma consolação para os incautos: se o concerto não for inesquecível pela música, será certamente pelo preço. Jazz para "pato bravo" e estrela (de)cadente do jet set luso, yo! A Lili Caneças certamente não vai perder. "O jézze é giríssimo, sei lá...". Agora a sério: o gajo que, segundo o prospecto informativo, "recebeu vinte cinco vezes seguidas o prémio de melhor Vibrafonista, atribuído pela revista especializada Downbeat" (25 seguidas?! Uau! Temos homem!) vale a pena. Mais ainda, quando vem emparelhado com outra luminária, que além do peso de Miles Davis e outros, traz consigo uma "aura musical (...) baseada nos génios da música clássica Beethoven e Mozart". Afinal, olhando por junto para o pacote, bem vistas as coisas, é quase dado. E a verdade é que estes moços precisam de ter uma reforma confortável. Seja generoso. Contribua. Vá lá...


"El 25% de los aficionados a la música clásica fuma canutos"
Redacción - Madrid, 15.09.2006
Mundo Clasico
"Más de un 25 por ciento de los amantes de la música clásica ha probado el cannabis, según un estudio de la University de Leicester que publica la BBC. Según el estudio, los más aficionados a las drogas son aquéllos que frecuentan los club de _DJ_, mientras que los aficionados al _blues_ son los más castigados por conducir bajo los efectos de estupefacientes.
El estudio, basado en 2.500 entrevistas se publico originariamente en la revista_Psychology of Music_ y concluye con que los aficionados a los musicales son los menos asiduos a las drogas y los menos dados a realizar actos criminales. Los aficionados a la música _disco_ y al _hip hop_ son los que más suelen cambiar de pareja sexual, debido (probablemente) a que es más fácil ligar en una discoteca que en el Auditorio Nacional, aunque éste último está incluso menos iluminado que cualquier discoteca y facilita así la relación más carnal entre butacas".
Na foto, um melómano em plena preparação para assistir a um concerto da London Symphony Orchestra no Royal Albert Hall.

Está à porta o First Annual Umbrella Music Festival, de Chicago. Entre 11 e 16 de Outubro p.f., a festa faz-se entre músicos nativos da Windy City e visitantes de outros pontos do país e do mundo, que vão actuar um pouco por toda a cidade: Chicago Cultural Center, Elastic Arts Foundation, The Hideout, The Hungry Brain, Gallery 37 Center for the Arts e Velvet Lounge (de Fred Anderson), numa organização da Umbrella Music, organização fundada por músicos de Chicago numa base cooperativa, com o objectivo de dinamizar actividades ligadas ao jazz e à música improvisada. Confirmadas estão as presenças de Evan Parker, Matt Wilson, Ned Rothenberg, Myra Melford, Mark Dresser, John Hollenbeck, Chris Speed, Kevin Drumm, Ingebrigt Haaker-Flaten, Nate Wooley, Fred Lonberg-Holm, Jason Roebke, James Falzone, Tim Mulvenna, Issa Boulos, Jason Adasiewicz, Aram Shelton, Josh Berman, Frank Rosaly, Dave Rempis, Anton Hatwich e Tim Daisy. Chicago is the Place…

Da Polónia, emd.pl/records. O propósito é claro e bem determinado: editar música improvisada e experimental, jazz, electrónica e outras formas afins, em embalagens originais, design condigno e preço simpático (€ 10/13, incluindo portes de envio). Como tiro de partida, a emd.pl publicou cinco títulos: 001 - The Hub, Live at Gugalander; 002 - Various Artists, Alt+F4; 003 - Artur Nowak, Guitar Granulizer; 004 - Robert Piotrowicz, Rurokura and the Final Warn; e 005 - Xavier Charles / Robert Piotrowicz, ///. Também disponibiliza o catálogo da polaca Musica Genera, que inclui artistas como Otomo Yoshihide, Zbigniew Karkowski, Lionel Marchetti, eRikm, Axel Dörner, Cor Fuhler, Jerome Noetinger, Taku Sugimoto, Burkhard Stangl e Christof Kurzmann.

Matthew Shipp no Jazz On 3 da BBC Radio 3, gravado ao vivo no Red Rose em Julho deste ano. Será talvez a oportunidade de ouvir “One” (Thirsty Ear), o mais recente álbum a solo do pianista do David S. Ware Quartet. No Red Rose, Shipp também ataca standards, como On Green Dolphin Street e Angel Eyes. A actuação é antecedida (e este é outro aliciante) por uma conversa entre Evan Parker e Matthew Shipp.

"Jazz aos Quadradinhos", coluna foto-escrita sem periodicidade certa, regista os devaneios pessoais do fotógrafo João Henriques. Edição especial de aniversário do Jazz e Arredores, presenteado (grato!) com a beleza que encima esta história, Famoudou Don Moye (Art Ensemble of Chicago) captado por João Henriques no Guimarães Jazz de 2005:
Certain Blacks - Art Ensemble of Chicago, 1970, ed Universal France 2004, é a minha velinha pró Eduardo soprar, certamente treinando para funções mais musicais, nas quais se ainda não um expert - como aqui nos Arredores - ao menos um tenaz gladiador! Este disco do Art Ensemble of Chicago em tudo me lembra este blog. "Certain blacks do what they wanna", é o mote do tema primeiro, em que tal como nestes arredores, tudo também se faz de gozo e a jazzar, gozzar será a palavra certa, cunhada aqui na hora. Até quando o mestre grita "we've gotta pay attention to what the fuck we're doing" como um ensembler grita aos restantes, no final do tema. Parabéns ao rebento, irreverente mas atento, polémico mas original, de escrita fina mas não bic cristal! Certain blacks...
Rodrigo Amado // Gail Brand // Acácio Salero
Hot Clube de Portugal, 13.09.2006
(Fotos: Crista)
Roberto Barahona, a partir de Monterey, Califórnia, dirige o site Puro Jazz, que é também o nome do programa semanal de rádio (sábados e domingos, Radio Beethoven - 96.5 FM), Santiago do Chile). Infatigável divulgador e aprumado baterista de jazz:
Felicitaciones, parabéns, enhorabuena a jazzarredores, se me hace difícil
pensar cómo sería mi día si no lo iniciase con una visita a este magnífico blog de mi amigo y compañero de batalla jazzística Edú.
Con toda la información que existe en Internet, nada se compara a sus oportunos escritos e informativas noticias diarias de lo que sucede en el mundo de la improvisación. No hay manera de saber al instante qué discos se han publicado y cómo es, me ayuda a evitar compras erradas.
Desde Monterey, California, un gran abrazo,
Roberto Barahona
www.purojazz.com
Variable Geometry Orchestra
ao vivo na Bomba Suicida (Festival Mascavado)
Lisboa, 15.07.2006(Fotos: Carla Silva. Click para aumentar / click to enlarge)
Ernesto Rodrigues (viola, direcção), Guilherme Rodrigues (violoncelo), Hernâni Faustino (contrabaixo), Sei Miguel (pocket trumpet), Eduardo Chagas (trombone), Miguel Bernardo (clarinete), Jorge Lampreia (flauta, saxofone soprano), Lizuarte Borges (saxofone alto), Abdul Moimême (saxofone tenor), João Viegas (saxofone tenor), Luís Lopes (guitarra eléctrica), Adriana Sá (electrónica), Carlos Santos (electrónica), Travassos (tapes), Peter Baastian (saxofone alto), Armando Pereira (acordeão), César Burago (percussão), Monsieur Trinité (percussão) e José Oliveira (bateria).
Rui Neves, director artístico, comissário e programador de importantes iniciativa ligadas ao jazz e à música improvisada em Portugal, como o Jazz em Agosto da Fundação Gulbenkian ou os Fonoteca Files da Câmara Municipal de Lisboa, DJ de Jazz e radialista activo, se houvesse uma rádio à altura dos acontecimentos:
«Caro, como frequento com regularidade o teu blogue - que considero o melhor que existe em Portugal na sua área - já tinha reparado que já lá vão dois aninhos, é obra, sabendo-se que a manutenção de qualquer blogue credível exige ao autor bastante devoção, pois é de devoção que se trata.
O Jazz e Arredores conforta os que como nós defendemos uma verdadeira
alternativa, responsável, culta e sempre actualizada daquilo que está bastante
fora dos circuitos dominantes. Para este tipo de necessidade é que o Jazz e
Arredores serve utilmente. Long live, Eduardo Chagas!»
Rui Neves
João Santos (JS), da distribuidora discográfica Dwitza, atento ao espírito da época, chama a atenção para a pertinência da questão formulada pelo trompetista norte-americano Dave Douglas, numa entrada do blog que mantém no site da editora Greenleaf Music: "Is there a writer who can take on the project of an unbiased overview of music since the end of the Vietnam war? The typical problem with this project is defining jazz -- the music is so stylistically broad. Where do you draw the lines? What do you include and what leave out? That has remained the stubborn, unanswerable question, though many would insist they have the answer. I believe history can be told without obsessing over definitions. If you are only capable of representing this one way it'll be impossible to take it all in and understand what's happened. It's a generation of multiplicity, and it's the generation that made us what we are today".
À questão reagiram vários leitores, entre os quais o pianista Ethan Iverson, no blog da página do trio The Bad Plus. Na oportunidade, Iverson aproveitou para avançar com uma lista pessoal de discos preferidos, tomndo como termo inicial não o fim da Guerra do Vietnam, mas outra data: "I offer up a list of records that I copied off my shelves last week when The Bad Plus was taking a break. I’m going to cheat a little bit: instead of the end of ‘Nam, I’m going to start in 1973 (the year of my birth) in order to sneak in a few more records". Entretanto, Iverson convidou os leitores do blog a enviarem-lhe as suas próprias listas de discos, as quais vieram posteriormente a ser organizadas num interessante e curioso Jazz Records '73-'90, guia discográfico online, relativo a um período da história que ainda hoje gera bastos equívocos e incompreensões, tantas vezes desconhecido ou nem sempre devidamente valorizado, tanto deste lado, como na América. Pertinente, aditou JS: “Esta história só ficará bem percebida com o input de críticos europeus (e de gente das editoras escandinavas, inglesas, italianas, francesas, alemãs, etc, que, melhor do que as norte-americanas, documentaram o período".
Como ilustração desta história e do interesse que este tipo de questões suscita junto do público, que revela o potencial da cultura dos blogs e do intercâmbio de informação entre pessoas via Internet, JS contou-me um episódio ocorrido sábado passado em Nova Iorque, protagonizado por um amigo seu. Tendo-se dirigido ao balcão da Downtown Music Gallery, perguntou por "Air Time" (Nessa, 1977), disco do trio Air (Henry Threadgill, Fred Hopkins e Steve McCall), constante do tal "guia". Como resposta, obteve que tinham acabado de vender uma cópia, e que teriam de verificar se havia mais. “Teve sorte, ficou com o último, mas as outras duas pessoas que estavam na loja também queriam o mesmo disco…”.

Saudades das férias? Ahm? Não admira, que estes tempos de entrada nos eixos têm sempre um lado penoso. É preciso paciência para aturar o chefe, a menina Margarida que fala demasiado alto, o Sr. Fonseca da reprografia, e os eteceteras que duram um ano inteiro. O que nos vale, entre outras coisas, são discos destes, que amenizam as contrariedades e ajudam a levar a carta a Garcia, libertando o espírito. Pauline Oliveros interpreta bem a ideia de que a música tem essa força libertadora. "The Roots of the Movement"(hatHOLOGY 591) recital solo de acordeão, ou, para ser mais preciso, “accordion in just intonation in an interactive electronic environment created by Peter Ward”, disco que a artista gravou em estúdio na Suiça, em 1987. Nada a ver com o uso tão em voga do instrumento enquanto tentativa de instilar vida em corpos depauperados, cujo apelo é dirigido mais à carteira que à mente ou ao coração. O caso aqui é outro e releva das pesquisas sonoras que Pauline Oliveros tem vindo a realizar ao longo das últimas décadas. Novos mundos sonoros, novas perspectivas abertas na senda de outros grandes exploradores, como John Cage ou Sun Ra, o que Pauline nos oferece aqui é o resultado dessas investigações realizadas em campos que ainda têm muito por explorar.
Com a Planície Alentejana em fundo, chega António Branco, do Improvisos ao Sul, vício diário de que não prescindo. Junta-se à roda:
Venho juntar a minha voz à de Raul Castro...
Por ocasião do 2º aniversário do "Jazz e Arredores", que se comemora na próxima segunda-feira, não queria deixar de te endereçar os meus mais sinceros parabéns pelo magnífico trabalho que tens vindo a desenvolver em prol da música que amas.
Um trabalho de profundo conhecedor e estudioso destas matérias, sempre pautado pela seriedade, elegância, atenção, rigor, actualidade.
Continua a ser, de muito longe, o melhor espaço dedicado às músicas improvisadas que se faz em Portugal. Um espaço de absoluta referência.
Como sabes, sempre fui, e continuarei a ser, um fiel leitor do "Jazz e Arredores".
Olha que este texto poderia ter sido escrito em qualquer dia do ano.
Um grande abraço do
António Branco
Muita generosidade, meu rapaz, isso sim.
Abdul Moimême, par lui-même. Patria o Muerte, Venceremos!
Um pouco do sol da Califórnia, com o tubista e improvisador de mérito Ben Stapp, amigo e leitor diário do Jazz e Arredores:
a great resource for finding new currents and voices in todays jazz scene. a blog that inc
orporates context as well humor into its reviews; a blog that takes responsibility in representing the rare underground jazz movement that is authentic to Lisboa; describing a movement that seldom has a chance to breath in our westernized, consumer-like, standarized listening environment; a blog that captures in words and poetry an intense and growring avante-garde movement; a blog that is essential in giving support to our creative music scene; feliz anniverario Sr. jazzearredores!

Jan Ström (na foto, ao lado de Evan Parker), director da Ayler Records, assina o livro e entra na festa do segundo aniversário do Jazz e Arredores:
My best congratulation to the important anniversary – Two Years!
The critical period is past and I’m sure the site will live a long life
which is important for a grooving interest of modern improvised music. We all, the artist and the rest of us who are supporting the music, are depending on sites like “Jazz E Arredores”.
Good luck in the future!
Kindest regards
Jan Ström
Ayler Records

Atenção principal focada no povo da AACM, sobretudo nas altas figuras dos maduros Roscoe Mitchell, Muhal Richard Abrams e George Lewis, a pretexto da recente gravação conjunta, de que já ouvi uns laivos e não espantaria ninguém se dissesse tratar-se de um dos grandes motivos de interesse do jazz gravado este ano, ou vai uma aposta? Mais assuntos na Signal to Noise desta estação: Keiji Haino, Tetuzi Akiyama, Loren Connors, Glenn Weyant; também a já aqui aflorada Edgetone New Music Summit, mais as habituais secções, largas dezenas recensões críticas, opiniões, comentários, etc, e a excelente prosa do costume, fazem o n.º 43, Outono, parecer primaveril.
Na comemoração dos 2 anos do Jazz e Arredores, Taran Singh, músico, crítico, blogger, jornalista (All About Jazz), radialista (Taran's Free Jazz Hour) e divulgador:
«i'm kinda' surprised to learn that it's only the second anniversary of Jazz e Arredores, for all the knowledge it contains. dear eduardo, broda, thank you for this mine of information that is Jazz e Arredores. it's a constant filler of gaps in my avant-garde culture. i often wonder where you get all that interesting & useful info from, about things that i'd never hear of from any other source. and the blog looks great with all those big pictures.
whenever i feel jaded and need to lighten up and learn something exciting bout the international creative music scene, i go for a dose of Jazz e Arredores».

John Coltrane Jazz Festival. Apontado para 2 deste mês, foi entretanto adiado e já tem nova data (23 de Setembro), coincidente com o Dia do Trabalhador, que nos EUA se comemora em Setembro. Em Filadélfia, terra do meste, vão tocar, entre outros, Archie Shepp, James Spaulding e Stanley Cowell, coltraneanos de gema. "Giant Steps Over Philly".

Rodrigo Amado_saxofone tenor
Gail Brand_trombone
Lisboa, 13/9_23h00
**** (four stars)
«The experimental and improvised world would not go round if it were not for the individual dedicated writers in the world.
Eduardo Chagas is another of those journalists. He writes for other various publications, but no matter if those publications publish what he writes, Eduardo makes his voice heard at his online Blog Zine Jazz e Arredores. Fast becoming a Portal for Portuguese new music fans this site offers insight and clear knowledge of the vast forms that exists out there. You can bet if you send him your most recent work he will give it a clear listen, do his research, and if he is able to write about it, write about it intelligently with integrity.
Hats off to Mr. Chagas!
Highly recommended»

La Montaña Rusa, programa de rádio de Santy Molina, está com um ar pro que impressiona. Uau! O bom gosto e a dedicação militante são os mesmos desde 2001, quando começou a arranhar o éter, que é como quem diz, a net. Agora, que promoveu La Montaña Rusa a portal de rádios, alberga cinco propostas diferenciadas: além de La Montaña Rusa, de Santy, dedicado ao jazz feito em Espanha, há El Jardín de las Delicias, de José Maria; Ambient, Chill Out y Lounge, por DJ Pirulo; La Lira de Apolo, música grega, por Giorgios; e Libertad Jazzera, o free visto e ouvido por Bernie, que na mais recente emissão cuidou de passar Peter Brötzmann Machine Gun (Second Take), Arthur Doyle Conspiracy Nation, Albert Ayler Universal Indians (Alt. Take), Sun Ra Somewhere There, Simon H. Fell, Movement 1. Prelude, e Tony Oxley Section 11.
ricardo freitas
iNTeRLúNioGonçalo Lopes_clarinete baixo, clarinete
Eduardo Lála_trombone
Ricardo Freitas_baixo eléctrico
Raimund Engelhardt_tabla, percussão O que será o período entre luas? O espaço de tempo enquanto o diabo esfrega o olho?... Um caminho obstinado ao encontro da luz! Pelas portas escancaradas do jazz actual, no contexto de um espaço de influências espartilhado, uma expressão e fluir mediterrânicos, sem lugar para exotismos. Operando sobre a infusão de impurezas, filtragem e reflexão sobre diversos estímulos, na procura de um discurso interiorizado, sistematizado e uno. Equilíbrio e interpenetrabilidade entre material composto, contrapontístico, e a improvisação, da sua forma mais estruturada à sua expressão mais livre. Espessura tímbrica proporcionada pelo clarinete baixo de Gonçalo Lopes e o trombone de Eduardo Lála, com possibilidades muito particulares que se expandem na improvisação. No pulsar da percussão, um encontro feliz com a versatilidade e desenvoltura da tabla indiana, tornada possível pela existência perto de Tavira de um alemão, Raimund Engelhardt, com conhecimento profundo da tradição clássica indiana, e não só. Tanto quanto se sabe, um caso único.
Novo projecto de Ricardo Freitas. A 13/09, na Guilherme Cossoul, Lisboa.

«Outrora considerados os profetas do novo rock, os Tortoise são actualmente os bodes expiatórios para todos os males do pós-rock, da música de Chicago, de todas as promessas de eldorado que o grupo anunciou há mais de dez anos. Desde «TNT» (e a saída de Dave Pajo) que Tortoise é sinónimo de alucinação derivativa, sendo óbvio que para isso contribuiu o progressivo afastamento das matrizes mais rock que o grupo tinha até então. Mas a verdade é que Tortoise sempre foi um veículo de ambições desmesuradas, maiores que a vida, maiores até que as vidas dos fabulosos músicos que integram a banda. Então, por isso, torna-se claro com todas as letras que «A Lazarus Taxon» seja obrigatório, porque permite avaliar peças soltas, lados obscuros, ensaios esporádicos de uma carreira inteira. Com predominância pela fase inicial, temos hipótese de perceber que o rock sempre foi um dos vários ângulos dos Tortoise, e que por isso mesmo aconteceu «Millions Now Living...»; compreendemos porque os concertos são metamorfoses geniais do seu espólio; notamos que o estúdio é um laboratório de mutação genética; e, como se constuma dizer por aí, os Tortoise são os melhores remisturadores da sua própria música. «A Lazarus Taxon» (título paleontológico para a omissão de um organismo durante uma fase evolutiva, para reaparecer numa fase posterior) é uma compilação de um percurso fragmentado que foi sempre mais rico e prolixo que os álbuns deixavam compreender. O maior destaque é, claro, a disponibilidade de «Rhythms, Resolutions & Clusters», de 1995: um EP portentoso, visto sob a influência de Jim O'Rourke e Steve Albini. Depois há golpes de remisturas, temas de singles e EP editados apenas em tournées, temas de compilações ou edições estrangeiras; e o DVD traz praticamente todos os vídeos e actuações ao vivo. Seja qual for a fase preferida da carreira (os Tortoise despertam essa qualidade menosprezada), esta caixa que se anuncia como limitada é um bem precioso para captar uma das forças principais da música indie americana da última década. Como curiosidade, a capa (um acidente de automóvel num túnel) é de Arnold Odermatt, um polícia suíço reformado que ganhou alguma notoriedade artística pelas suas fotografias de locais de acidentes. Bela metáfora para a música dos Tortoise». - flur tem, na Av. Infante D. Henrique, Armazém B4 (junto à Bica do Sapato e ao Lux), em Santa Apolónia, Lisboa.

«Together the 3 albums represent very different approaches to much of the same material. The 1st "Nuclear Bomb, Cave Painting" is a studio recording primarily presenting many ideas without development incorporating much silence throughout. The 2nd "Poor Stop Killing Poor" is a live recording in Detroit this past spring, the concert was played straight through without pause and with much improvisation. The 3rd album "Racing The Sun, Chasing The Sun" consists of the 1st half of two different live recordings from this past year welded on top of each other, woven in and out» - Thollem McDonas.

Falava há dias de Marion Brown, esse príncipe do saxofone alto, e a Impulse! japonesa, atenta ao que aqui se passa, e que não dá ponto sem nó, vá de apanhar a boleia e reeditar VISTA (Generation Sound Studios, New York City), peça de 1975, menos conhecida da discografia oficial de Marion Brown. Electric Brown, por assim dizer. Anthony Davis e Stanley Cowell, piano eléctrico Fender Rhodes, Harold Budd, celesta e gong, Reggie Workman, contrabaixo; e dois percussionistas, Ed Blackwell e Jimmy Hopps, a fechar a formatura.


Está prestes a sair o novo disco de Rodrigo Amado, TEATRO. Inaugura uma nova editora, a European Echoes, fundada e dirigida pelo saxofonista português. Inclui quatro temas gravados no Teatro Nacional de S. João, no Porto, na sessão que antecedeu o concerto que o trio de Rodrigo Amado (saxofones tenor e barítono), Kent Kessler (contrabaixo) e Paal Nielssen-Love (bateria) deu no Spectrum, ciclo de música improvisada, em Fevereiro d
e 2004. Esteticamente filiado numa longa descendência que vem de finais de 50 para cá, num movimento contínuo com altos e baixos que recrudesceu assinalavelmente a partir da década de 90, altura em que o free jazz conheceu um enorme impulso revitalizador, com epicentro simultâneo na Europa e nos EUA, Teatro foi gravado à primeira por músicos que nunca antes haviam tocado juntos enquanto trio. O resultado está à vista e impressiona favoravelmente a vários títulos, de que destacaria a fluidez discursiva, a qualidade musical e o elevado nível de coesão e interacção.
De fio a pavio sente-se que os músicos se instigam reciprocamente a progredir, sem acerto prévio, em insuspeitas direcções, confiando apenas na intuição e na experiência uns dos outros. Receita falível, é certo, mas quando em boas mãos, funciona e gera resultados como os que se podem ouvir em Teatro.
Do local de gravação, aos títulos, tudo remete para o universo teatral, imaginário reforçado pela dedicatória ao avô de Rodrigo Amado, Fernando Amado (1899-1968), dramaturgo, encenador, crítico, professor e entusiasta do teatro amador.
Tema a tema, o disco conta-se em quatro composições instantâneas, da introdutória The Iconoclast (19’30), em que o saxofonista começa por enunciar uma melodia simples, ao estilo de Fred Anderson, a dar o mote classizante, e a toma depois como pretexto para se lançar nos braços da improvisação livre, impulsionado pelo fluxo rítmico de Kessler e Nielssen-Love ao longo dos vários andamentos. Depois de um breve interlúdio, passa-se a Pandora's Box (16’30), em que a urgência de dizer dita o tempo mais rápido. Seguem-se Teatro (7’16) e Chasin’ Pirandello (5’59), temas que sintetizam e consolidam as ideias antes explanadas. Rodrigo Amado, afirmativo e a soprar com gana e convicção, opta nas duas composições finais por trocar o saxofone tenor pelo barítono, mantendo o discurso a meia-voz, lume brando que melhor serve os propósitos do trio. Da placidez contemplativa à imparável avalanche rítmica, ricos e variados são os ambientes em que se constrói a vida de que o disco capta e retém o pulsar instantâneo.
Disco de free jazz maduro, de base melódica, “Teatro” deixa uma impressão agradável e duradoura no ouvinte. Um clássico moderno “em cena” dentro de pouco tempo na novel European Echoes. Grafismo de Rui Garrido. Fotografia de Joaquim Mendes.

... E como não há quatro sem cinco, tomai lá outra Territory Band, a quinta e certamente não a última. Se não amarram as mãos a Vandermark o homem esvai-se em discos... . Destes, ainda bem, que as Territory Bands, no cômputo geral, têm apresentado o melhor e mais ousado Vandermark dos últimos anos. "New Horse for the White House", Territory Band-5 (Okka Disk) em triplo CD (!), dois volumes de estúdio e um ao vivo. Concordo, à falta de melhor, troque-se o burro por um cavalo (novo). Já votaram por antecipação Ken Vandermark, Johannes Bauer, Axel Dörner, Per-Ake Holmlander, Lasse Marhaug, Paul Lytton, Paal Nilssen-Love, Jim Baker, Fredrik Ljungkvist, Dave Rempis, Kent Kessler e Fred Lonberg-Holm.

Ânimo! Uma gravação inédita com o lendário Denis Charles ao vivo em 1998, fazendo parte do Astrogeny Quartet do pianista John Blum (que discaço a solo tem este na Drimala, senhores!), com Antonio Grippi e William Parker, foi encontrada e publicada por Michael Ehlers na Eremite Records. Uma. Outra, o vibrafonista Khan Jamal volta com o Creative Arts Ensemble, em "Drumdance to the Motherland", gravação de 1972, com Alex Ellison, Dwight James e Billy Mills. Também na Eremite. Aí vão duas notícias para animar a malta e afastar os pensamentos sombrios do 11 de Setembro, cinco anos passados sobre a hecatombe.

Eric Dolphy

Inserido no programa de artes e de cultura artística do Fórum Imigração da Fundação Gulbenkian, como forma de dar visibilidade às obras criadas e produzidas por artistas imigrantes que vivem e trabalham em Portugal, às 21h30 de sexta-feira, 8 de Setembro, no Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, actuou Contra-Banzo, de Alípio C. Neto.
Do percurso sólido e seguro que tem vindo a afirmar no contexto nacional no qual se inscreve a actuação deste quinteto, resulta à evidência que um dos méritos do saxofonista e compositor brasileiro Alípio C. Neto, há uma década a viver em Portugal, é o de saber acercar-se de músicos competentes, versáteis e tecnicamente bem apetrechados, capazes de cultivar um estilo multifacetado que resulta, afinal, da coerente combinação de uma variedade de estilos e formas de dizer.
Outro ponto a favor é o da composição. Neste aspecto, Alípio lida habilmente com elementos das correntes dominantes do jazz, do tradicional ao mainstream, passando pelo free, world music, e por várias manifestações da fusion, sinais que incorpora numa linguagem personalizada, sem que o produto final saiba a colagem, mercê da complexa arquitectura interna e do bom acabamento exterior das composições. Qualidade reforçada por uma modulação minuciosa e por arranjos elaborados, apoiados por uma execução fluida, robusta e cristalina, expansiva e intensa na explanação, em que primam interessantes passagens dinâmicas e progressões cromáticas ascendentes e descendentes, do tipo imaginário Don Cherry meets Igor Stravinski.
Assinalem-se as intervenções individuais, emergentes dos arranjos, com contenção, em vez de se espraiar em longos solos, apoiadas no fraseado complexo de Felix de Barros. Com a mão conscientemente a fugir-lhe para as proximidades do piano bop, esteve bem na alternância de passagens suaves e vigorosas – a ponte segura entre a base rítmica dinâmica e flexível de Ben Stapp, jovem tubista a crescer a olhos vistos, e Rui Gonçalves, que até convincente prova em contrário, continua a ser o melhor baterista de jazz (talvez por não o ser de raíz...) a actuar em Portugal – dois músicos que mostraram saber entender-se bem na gestão da intensidade dos fluxos rítmicos, mesmo tendo a seu desfavor um som de palco a que faltou corpo e um pouco mais de potência.
Ademais, um trio sóbrio e muito eficaz no serviço para a linha da frente, onde Jean‑Marc Charmier (trompete) e Alípio C. Neto (saxofone tenor) recebiam a informação, trocavam ideias entre si e alternavam papéis com total complementaridade ao nível dos tempos, timbres e estilos. Um, terra, macio e aveludado, a frase arredondada; o outro, fogo, rápido, sinuoso e sincopado, acrescentaram fantasia às interessantes passagens e progressões cromáticas ascendentes e descendentes que iam e vinham do centro para a periferia, e vice‑versa, em constante mutação, postos os recursos técnicos e a inventividade ao serviço da criação colectiva.
Música aberta às mais variadas influências, viva e extrovertida na procura do contacto personalizado com o ouvinte, esta nova proposta de Alípio C. Neto, embora assente maioritariamente em composições já trabalhadas, arranjadas e apresentadas noutros contextos pessoais e instrumentais, mantém intactas a frescura e originalidade primordiais. Ao mesmo tempo que deixa entrever novas direcções a explorar por um grupo que, de aparição única, poderia e deveria evoluir para o trabalho regular, a caminho da criação de uma identidade forte, de que já deu alguns sinais. O mais importante é que há faísca e passagem de corrente eléctrica.

Ei, antes que me esqueça, lembro que a 18 de Setembro, um dia antes do aniversário da minha filha, que é também o de Alípio C. Neto, este estabelecimento cumpre dois anos de laboração ininterrupta. Goste-se mais ou menos do estilo (eu sou dos que gosta mais, claro está), inegável é que o “Jazz e Arredores” tem estado muito activo. Prova disso são os dois mil posts que a contabilidade do blogger acusa, bem como as centenas de concertos referenciados, os mais de mil discos recenseados, e as notícias e comentários sobre inumeráveis assuntos ligados ao jazz e à música improvisada, numa perspectiva que não é nem generalista, nem popular, nem populista.
Pela reacções que me vão chegando, curiosamente mais do estrangeiro que de Portugal, tenho que reconhecer o impacto positivo que o blogue tem tido junto de muita gente interessada nos fenómenos e momentos menos mediatizados que ocorrem naqueles géneros, facto que, aliado à satisfação que me dá fazê-lo diariamente, assumo como razões mais que suficientes para continuar a cultivar este amor cósmico pela música improvisada.
Agradeço a atenção dos 87.000 que, voluntária ou involuntariamente, houveram por bem passar por cá nestes dois anos, em especial aos amigos e visitantes mais assíduos pelo apoio e incentivo dispensados, nos casos em que tal tem acontecido. Quanto aos que, por incapacidade de fazer, se entretêm a desfazer o que outros tentam construir, "os cães ladram e a caravana passa", como diz o povão na sua popular sabedoria.
Continuam a ser bem-vindas as sugestões e as notícias de concertos e outros eventos, as quais, indo ao encontro do meu gosto e sensibilidade pessoais, terei todo o gosto de divulgar.
Coube-me o n.º 823 da edição de 999 exemplares de CINC, disco homónimo do trio sob o qual se acolhem Paul Lytton, Ken Vandermak e Phillipp Wachsmann. Quem edita é a Okka Disk, de entre material gravado ao vivo em Poitiers, França, e Ljubljana, Eslovénia, em 2004. Tinha jurado a mim mesmo tão depressa não adquirir mais Vandermark, que as prateleiras ajoujam com discos dele e com ele, mas cedi facilmente à tentação desta nova equipagem, que tem tanto de improvável (ou nem tanto, visto que Lytton e Vandermark já haviam gravado em duo "English Suites", para a Wobbly Rail) como de irresistível. Ainda só provei o conteúdo, um pouco à pressa, confesso, mas para já deixou-me de orelhas fitas nestes preparos, em que os britânicos acolhem o norte-americano e o levam a visitar a família. O mesmo é dizer, a rever o espírito e capacidade de transformação da apelidada escola inglesa, a mesma que, de forma diferente do que se passa no jazz, combina os elementos de surpresa com as finas subtilezas, quase místicas, da música improvisada deste lado do Atlântico. A ver se as boas impressões iniciais vêm a ser confirmadas pelas subsequentes audições e transformar o que ainda é apenas uma suspeita numa certeza a toda a prova: a de que este é um grande disco, virado para a reflexão interior, simultaneamente pessoal e musical.

Novo disco da nova formação de Roscoe Mitchell. Muito diferente de outros grandes trios do mestre de Chicago, de que destacaria dois, um com Malachi Favors e Gerald Cleaver, e outro com Ulf Åkerhielm e Gilbert Matthews, desta vez, com Roscoe Mitchell, que toca a tocar a habitual variedade de saxofones, flautas e percussão, desta vez vêm Harrison Bankhead (contrabaixo, violoncelo) e Vincent Davies (bateria). Mais uma manifestação do génio criativo de Roscoe Mitchell e da extrema compatibilidade de três sofisticados improvisadores, em CD duplo.“No Side Effects”, Roscoe Mitchell Trio. Da francesa RogueArt, via canadiana Verge Music. Acabado de chegar, não lhe dou descanso.

No âmbito do programa artístico do Fórum Gulbenkian Imigração, dia 8 de Setembro, no Anfiteatro ao ar livre da Fundação Gulbenkian, às 21h30, actua CONTRA-BANZO, quinteto de Alípio C Neto (saxofones e flautas), Jean-Marc Charmier (trompete e acordeão), Felix de Barros (piano), Ben Stapp (tuba) e Rui Gonçalves (bateria).
«Banzo: (Do kimbundu ku banza, pensar, raciocinar) – Admirado, aparvalhado, pensativo. Termo usado para denominar o estado d
e depressão profunda com que os escravos desembarcavam dos navios negreiros no Brasil. Alípio C. Neto, saxofonista brasileiro (Floresta, Pernambuco) radicado em Portugal há uma década. É, hoje, uma das referências incontornáveis da linguagem do jazz feito em território português. Este quinteto multinacional é um espelho das relações sociais e multi-étnicas presentes em Lisboa».

Destination Out prossegue o inestimável trabalho de dar a conhecer gravações raras ou cuja edição há muito se esgotou. Desta vez a atenção recai sobre "Geechee Recollection", de Marion Brown, gravação de 1973 para a Impulse! Marion Brown, saxofones e clarinete; Wadada Leo Smith, trompete; James Jefferson, contrabaixo e violoncelo; Steve McCall, bateria; William Malone, autoharp, piano; e A. Kobena Adzenyah, tambores africanos. Com uma discografia vastíssima mas maioritariamente “escondida”, porque ou nunca foi passada a CD, ou, uma vez esgotadas, às gravações não foi dada outra oportunidade de se darem a ouvir pelo público, o certo é que Marion Brown (n. 1935), autor de obras-primas como "Three for Shepp" (Impulse!) e "Porto Novo" (Freedom/Black Lion), tocou com Sun Ra e participou em "Ascension", de John Coltrane, é mais um daqueles artistas de grande estatura que o tempo parece querer arrumar a um canto, tendência que importa contrariar, avivando a nossa memória. Marion Brown está vivo, embora muito debilitado por causa dos graves problemas de saúde por que tem passado, que o obrigaram a várias cirurgias e a prolongada convalescença.

Dewey Redman
(17.05.1931 – 02.09.2006)
«WKCR Jazz presents a memorial broadcast in remembrance of Dewey Redman this Monday, September 4 from 2 a.m. to 9 p.m.
Born in Ft. Worth, Texas, Redman was a tenor saxophonist perhaps best known for his work with Ornette Coleman; the two had known each other since childhood and performed together frequently in the late 1960s and early 1970s. A formidable presence in many musical styles, he has also recorded with Paul Motian, Charlie Haden's Liberation Music Orchestra, Pat Metheny, and extensively with Keith Jarrett.
Redman was known not only as a first-rate soloist, but as a prime interpreter of Ornette Coleman's music and a gifted composer in his own right. He is survived by his son, prominent tenor saxophonist Joshua Redman». RIP.
“What I reach for first when I play is sound. Technique maybe, but there is technique in sound.” – Dewey Redman
Obituários no New York Times e no Jazz Police.


Procurei e encontrei aqui: Pharoah Sanders - Live Leverkusen 1999
1. Giant Steps, 26'10
2. Morning In Soweto, 23'28
Pharoah Sanders, saxofone tenor
William Henderson, piano
Alex Blake, contrabaixo
Hamid Drake, bateria

A 12 de Setembro (daqui a uns dias) sai oficialmente o novo disco de Ornete Coleman, "Sound Grammar". Havia 10 anos que Ornette não lançava um disco novo (o último fora "Sound Museum", em 1996). Este que agora edita trata de registar um concerto ao vivo em Ludwigshafen, Alemanha, em 2005. Com o saxofonista tocaram Denardo Coleman, bateria, e dois contrabaixistas, Greg Cohen (pizicatto) e Tony Falanga (arco). Revisitações de Turnaround e Song X, a par de novas composições, como Call to Duty, Only Once, Waiting for You, Jordan, Sleep Talking e Matador. Aos 76 anos (1930, Fort Worth, Texas), Ornette parece não querer deixar de colocar questões e de investigar para além do que já se conhece, prosseguindo o seu objectivo de vida: “I seek to play pure emotion”. A edição é da Sound Grammar, por si acabada de fundar propositadamente para o efeito.
O que vai na alma do leitor de mp3: 1. Last Exit – Iron Path (Virgin); 2. Mephista (Sylvie Courvoisier, Ikue Mori e Susie Ibarra) no Jazz em Agosto de 2005; 3. Variable Geometry Orchestra, 25 de Junho de 2006 (Teatro Nacional D. Maria II); 3. Mauricio Kagel – Acustica (Deutsche Grammophon); 4. Acid Mothers Temple, The Abbey Pub 2004; 5. Art Ensemble of Chicago, Live at Fabrik, Hamburg 1987.

Em escuta matinal, a gravação não editada comercialmente do célebre concerto de Richmond, Virgínia, a 25 de Maio de 1977: Grateful Dead at The Mosque. Considerado por muitos o melhor de 1977 dos Grateful Dead (tendo em conta os picos mais altos de 69-71, 73-74, 77-78 e 89-91), o concerto, com perto de três horas de duração, separadas por dois intervalos, organizou-se em dois sets: Set 1: Mississippi Half Step; Jack Straw; They Love Each Other; Mexicali Blues; Peggy-O; Cassidy; Loser; Lazy Lightning; Supplication; Brown Eyed Women; Promised Land. Set 2: Scarlet Begonias; Fire On The Mountain; Estimated Prophet; He's Gone; Drums; The Other One; Wharf Rat; The Other One; The Wheel; Around & Around. Encore: Johnny B. Goode. // Jerry Garcia - guitarra, voz; Bob Weir - guitarra, voz; Phil Lesh - baixo, voz; Bill Kreutzmann - bateria; Mickey Hart - bateria; plus Keith Godchaux - piano; e Donna Jean Godchaux - voz.

Mingus at Antibes. Quarenta e seis anos depois, em Lisboa, à mesa com Alípio Carvalho Neto. Conversa casual sobre este disco de Charlie Mingus e histórias com ele relacionadas, a propósito de questões tão velhas quanto aquela do "disco para a ilha deserta". Mingus At Antibes, gravado ao vivo no Antibes Jazz Festival, Juan-les-Pins, Sul de França, Julho de 1960. Falámos de "Wednesday Night Prayer Meeting", de "Better Git It In Your Soul" e das notórias inclinações gospel de Mingus. De “What Love?”, “What Is This Thing Called Love” e “I'll Remember April” (com Bud Powell). Das novas soluções harmónicas e melódicas ali ensaiadas pelo compositor, que traduziam um pensamento virado para a frente, ancorado numa forma de expressão com profundas raízes na tradição; do som do contrabaixo, escuro e ruminante; dos gritos e palmas de Mingus a puxar pelos rapazes, Eric Dolphy, Booker Ervin e Ted Curson, os homens da frente, e Dannie Richmond, em toda a parte. Good spirits.

Quem ainda não se aviou com a Jimmy Lyons Box Set, caixa de 5 CDs com perto de 6 horas de música de um dos mais importantes e influentes saxofonistas e improvisadores do último meio século, e que constituiu enorme sucesso editorial, tem agora uma excelente oportunidade para o fazer, visto que a Ayler Records está a realizar uma promoção deveras interessante: a aquisição conjunta da Jimmy Lyons Box Set e do Jimmy Lyons Sessionography Book, livro que lista e identitifica uma a uma, mais de 350 actuações do mestre, tudo por um preço assaz conveniente. Vantagens de quem se deixa ficar para o fim...


Na emissão do Jazz on 3 de hoje, que pode ser ouvida em webcast ao longo de toda a semana a partir do site da BBC Radio 3, o prato forte (!) é uma substancial actuação do saxofonista britânico Paul Dunmall à cabeça do trio Zoochosis, na ocasião acrescentado de um quarteto de metais, composto por dois trombones (Chris Bridges e Hilary Jeffreys), trompete (Jonathan Impett) e tuba (Dave Powell). Em Julho passado, a convite de Jez Nelson, Paul Dunmall foi para o estúdio Phoenix Sound, em Londres, com os membros do extraordinário Zoochosis, Paul Rogers, contrabaixo, e Trevor Taylor (da Future Music Records – FMR, actualmente em “massive sale”), percussão e electrónica, registando uma inédita versão de Zoochosis + 4, grupo com que Dunmall pretende gravar e actuar ao vivo mais frequentemente, visto que os resultados parecem ter agradado a toda a gente envolvida no projecto.
Para conhecer o trio Zoochosis, sugiro a audição do disco homónimo, publicado para FMR: «Paul Dunmall (saxophones), Trevor Taylor (percussion & electronics), Paul Rogers (7 string ALL double bass) “Zoochosis”: You’re likely to find this word used by animal rights activists in reference to what they see as the degrading effect of zoos on the animals they contain. Many animals, especially the large carnivores, become deeply depressed, even psychotic, as the result of captivity. Symptoms of zoochosis include nervous pacing, head rocking, and self-mutilation. In this recording the three musicians experiment with a different form of Improvisation than they have been known for, by multitracking different sections over a period of time instead of in one live session. This has been done deliberatley to 'build' various sections and atmosheres in a form of composition created yet still by Improvisation. The results are stunning!!!!»

Firehouse é o nome do quinteto nórdico liderado pelo guitarrista John Lindblim. Com ele alinham Fredrik Ljungkvist (saxofone tenor e clarinete), Magnus Broo (trompete), Johan Berthling (contrabaixo) e Kjell Nordeson (bateria). A princípio torci o nariz, receando o enésimo repisamento desse estilo tão batido, sobretudo na década de 70, que é o jazz-rock. nada de menos certeiro. Neste caso, o grupo consegue evitar a maior parte dos clichés associados àquele tipo de fusion e arrancar um disco muito bom, gravado ao vivo no Glenn Miller Café, de Estocolmo, em Janeiro de 2004. Estilisticamente, o Firehouse situa-se numa linha de continuidade que vem de James Blood Ulmer e passa por Terje Rypdal, fixando-se nas proximidades estéticas actuais de grupos como Exploding Customer ou Atomic, em versão eléctrica. Outra boa ideia de Jan Ström via Ayler Records. Energia, bom gosto e rebeldia q.b..

Para acompanhar a audição do rap do momento, "Funk PCC 2006", do Primeiro Comando da Capital, organização criminosa muito activa que actua em S. Paulo, Brasil, a entrevista de Marcos Willians Herba Camacho, o “Marcola”. A entrevista foi alegadamente concedida na prisão e obtida via telefone por Roberto Cabrini, da TV Bandeirantes, em Maio passado. Há quem a tome por genuína, como também há quem a tenha como “bolada” por Arnaldo Jabor, pois a voz ao telefone não é de Marcola. "Dantas, PCC e o preço da metáfora".
«O Primeiro Comando da Capital (PCC) encontrou mais uma forma de aterrorizar os paulistas. Agora, ataca-lhes os ouvidos. Há um mês, os camelôs de todo o estado passaram a vender um CD clandestino intitulado Funk PCC 2006. O tema principal de suas quinze canções é o incentivo ao assassinato de policiais, alcunhados de "verme". Assim mesmo, sempre no singular. Como não podia deixar de ser, o disco faz apologia do crime, prega o uso de armas e o consumo de drogas. O CD vem embrulhado em um papel ilustrado com o desenho de um homem mascarado segurando um fuzil e um revólver. Na estampa, constam o nome do autor, um tal DJ Juninho, e um aviso: Aqui o barato é loco. As músicas do PCC encabeçam a parada de sucessos das cadeias. Chegam aos presos pelas mesmas brechas por que passam armas, drogas e celulares. Nas últimas semanas, as letras do batidão do crime também viraram moda entre as crianças e adolescentes das favelas paulistas».