
A No Man's Land, de Berlim, vende LPs e CDs de editoras europeias e americanas a preços decentes. Encontrar os catálogos Empreintes Digitales, Long Arms, Grob, Matchless, Not Two, Okka Disk, PI Recordings, PSF Records, Victo ou INCUS amplamente disponíveis online na UE, e num só sítio, não é comum. Aceita cartões de crédito e PayPal.

Durante anos, Lee Santa fotografou Sun Ra, Ornette Coleman, Pharoah Sanders, Cecil Taylor e Jimmy Lyons, Rahsaan Roland Kirk, Albert Ayler, Burton Greene, David Izenzon, Perry Robinson (em trio no Studio We) e outros revolucionários do jazz. Entretanto, organizou o material e juntou-o a outro trabalho fotográfico. Desde Dezembro de 2005 que o está a mostrar a quem quiser ver.

Há dois discos de John Surman de 1970 que enchem as medidas a qualquer surmanista, sobretudo dos que, como eu, preferem a fase pré-ECM. “How Many Clouds Can You See?” (Deram, 1970), com um conjunto muito variado de músicos organizado em diversas formações, onde figuram Harry Beckett, Malcolm Griffiths, Mike Osborne, Alan Skidmore, Harry Miller, John Warren, John Taylor, Barre Phillips e Tony Oxley – e “The Trio” (Dawn, 1970), com John Surman (saxofones barítono e soprano, clarinete baixo), Barre Phillips (contrabaixo) e Stu Martin (bateria). Vamos por partes. Primeiro, “How Many Clouds Can You See?”, e depois, logo mais, "The Trio", estirada dupla de Surman, Phillips e Martin, uma obra-prima do jazz de todos os tempos. Ou serão duas? Não há calor que resista a tanta frescura.
Trinta anos medeiam entre “Wende” (Owl, 1976) e “All That Is Tied” (Tompkins Square, 2006), dois dos vários discos de piano solo de Ran Blake. De comum a ambos, além do vocabulário e do lirismo, há a mesma inquietação e o sentido de procura de uma linguagem cada vez mais depurada de tudo o que não é pertinente. Ficam os traços d
e gospel e os resquícios impressionistas de Debussy. Como em Monk, outra das influências reconhecíveis, as melodias de tons escuros fluem por entre acordes e intervalos, gerindo amplitudes dinâmicas que vão do murmúrio ao estrépito. Assim dispostos, os empolgantes trâmites da improvisação cruzam-se em ocasionais pontos luminosos até se desfazerem na bruma, encerrando o ciclo. Cada disco deste pianista solitário é uma epifania.

25th INTERNATIONAL TAMPERE JAZZ HAPPENING
Tampere, Finlândia, 2 - 5 de Novembro de 2006
Desde 1982 que o Tampere Jazz Happening se realiza todos os anos por alturas de Outubro/Novembro, na Finlândia. O cartaz habitual concentra-se nas diferentes tendências do jazz e da música improvisada actuais, tanto europeus como norte-americanos. Num ambiente que se pretende informal, Tampere promove a proximidade entre músicos e público em concertos de pequena lotação, que têm lugar durante um único fim-de-semana, entre quinta-feira e domingo. A 25.ª edição decorre entre 2 e 5 de Novembro deste ano.
2 de Novembro
- Opening of the photo exhibition: MAARIT KYTÖHARJU
- Percussion workshop: ADAM RUDOLPH
- Documentary film: “MY NAME IS ALBERT AYLER”
3 de Novembro
- Joona Toivanen - piano, Tapani Toivanen - bass, Olavi Louhivuori - drums;
- Raoul Björkenheim - guitar, Uffe Krokfors - bass, Markku Ounaskari - drums;
- ATOMIC (Fredrik Ljungkvist - saxophone, Magnus Broo - trumpet, Håvard Wiik - piano, Ingebrigt H. Flaten - bass, Paal Nilssen-Love - drums;
- DHAFER YOUSSEF DIVINE SHADOWS 4TET (TUN/NOR)
Dhafer Youssef - oud, vocals, Eivind Aarset - guitar, Rune Arnesen - batterie, Audun Erlien - bass
- MARC RIBOT SPIRITUAL UNITY (USA)
Marc Ribot - guitar, Henry Grimes - bass, Roy Campbel - trumpet, Chad Taylor - drums;
- BALKAN BEAT BOX (IS/USA)
Tomer Yosef - vocals, percussions, Ori Kaplan - saxophone, Eyal Talmudi - saxophone, Uri Kinrot - guitar, Ben Hendler - bass, Tamir Muskat - drums, sampler plus additional singers.
4 de Novembro
-HAARLA / AALTONEN / KROKFORS / CHRISTENSEN (FIN/NOR)
Iro Haarla - piano, harp, Junnu Aaltonen - saxophones, Uffe Krokfors - double-bass, Jon Christensen - drums;
- RAULIN & AVENEL & DRAME (FR/BF)
Adama Dramé - djembé, vocals, Jean-Jacques Avenel - contrabass, kora, François Raulin - piano;
- THE THING (NOR/SWE)
Mats Gustafsson - reeds, Ingebrigt H.Flaten - bass, Paal Nilssen-Love - drums;
- MOVING PICTURES (USA)
Hamid Drake - drum set, tabla, frame drums, congas, vocals, Joseph Bowie - trombone, percussion, electronics, Ralph Jones - tenor and soprano saxophones, flutes, bamboo flutes, Adam Rudolph - handrumset, wood flutes, kalimbas, cajon, udu, talking drum;
- SUSSAN DEYHIM “DESERT TORCH” (IR/USA)
Line-up t.b.a.
- ANDREW HILL NEW QUINTET (USA)
Andrew Hill - piano, Eric McPherson - drums, Greg Trady - saxophone, Ron Horton - trumpet, John Herbert - bass;
- ALEXI TUOMARILA TRIO (FIN)
Alexi Tuomarila - piano, Olavi Louhivuori - drums, Mats Eilertsen - bass;
- DALINDÈO (FIN)
Valtteri Pöyhönen - guitar, Petri Puolitaival - flute, saxophone, Jose Mäenpää - trumpet, vocals, Rasmus Pailos - percussion, Pekka Lehti - bass, Jaska Lukkarinen - drums;
- ISWHAT?! (USA)
Napoleon Maddox - human beat box, Jack Walker - tenor saxophone, Claire Daily - baritone saxophone, Joe Fonda - bass, Hamid Drake - drums.
5 de Novembro
- KORA JAZZ TRIO (SEN, GUI)
Djeli Moussa Diawara - kora, guitar, Abdoulaye Diabaté - piano, Moussa Cissoko - percussion;
- BURNT SUGAR THE ARKESTRA CHAMBER (USA)
- UMO PLAYS IRO HAARLA FEAT. VERNERI POHJOLA (FIN)
- FINAL JAM SESSION HOSTED BY RAOUL BJÖRKENHEIM


Borah Bergman, "Burst of Joy". Piano solo já com algum tempo (Chiaroscuro, 1976). Só existe em LP, mas a transcrição que possuo em cdr está em condições mais que aceitáveis. Há quem diga que este pianista é nada mais que técnica. Duvido seriamente, porque sempre lhe ouvi muito soul e blues. Não tão evidentes como em Cecil, por exemplo, mas dentro do campeonato da riqueza harmónica e do cabedal técnico, Borah está a par com aquele. Certo e seguro é que Borah só com uma mão (esquerda ou direita, tanto faz) toca mais e melhor que muitos com as duas... Bursts of Joy or Circles, Whirl and 8 (18:04); Three for the Left Hand Alone/ River Shadows (5:20); Three for the Left Hand Alone/ Oranges (7:28); Three for the Left Hand Alone/ Horizons (9:21). É Borah sem espinhas. Hipnótico.

A combinação pessoal e instrumental, antes de se ouvir o resultado, deixa prenunciar uma sessão em grande. E a expectativa não sai minimanente beliscada. Grande malha, esta do trio ad-hoc formado por Jeff Parker, Kevin Drumm e Michael Zerang. Os três cavalheiros de Chicago não fazem por menos: num intervalo dos seus inúmeros afazeres, deram um pulo ao estúdio Planet Sounds e registaram "Out Trios Volume Two” para a Atavistic, série inaugurada tempos antes com "Monsoon", de Lee Ranaldo, Roger Miller e William Hooker. O disco desenvolve-se em quatro longas improvisações – Lacerate (15:52), Electro (06:45), Onslaught (12:38) e Miss Big Meen (10:17) – preenchem um programa pouco recomendável ao ouvinte menos treinado para este tipo de preparações, à base de som electroacústico sem preocupações de enfeite ou arredondamento, de que estão ausentes os sinais identitários de qualquer das múltiplas manifestações do jazz. Noutro registo e num ambiente de abstraccionismo, Parker, Drumm e Zerang fazem soar guitarra, electrónica e percussões como se de uma unidade sonora se tratasse, um 3 em 1 muito bem cerzido e coerente, em que o que conta é encontrar uma boa base de entendimento a partir de estruturas noise reforçadas pela acção da maquinaria de Kevin Drumm, às quais as guitarras e a percussão acrescentam movimento, forma e densidade. É assim que o corpo digital se vai modulando, cabendo a Zerang dar-lhe o acabamento final, ligando-o à terra através de timbres mais reconhecidamente orgânicos. É desta dialéctica que nasce um dos pontos fortes de "Out Trios Volume Two”, além dos que permitem apreender um conjunto de novas pistas e soluções estéticas variadas com que se pintam as cores da música improvisada actual vinda dos lados do jazz mas que com ele poucas afinidades possui. "Out” é o adjectivo que aqui cabe por inteiro, mas não tão em extremo que chegue para a comprometer a coerência e a concisão do projecto.
Jeff Parker / Kevin Drumm / Michael Zerang – "Out Trios Vol.2" (Atavistic)

Para os fans dos Tortoise é um banquete. Para os que ainda não são, também. “Lazarus Taxon”, recém-editado pela Thrill Jockey, reúne em 3 CDs, mais 1 DVD, um conjunto amplo de raridades do grupo norte-americano, composto por material não editado de há 12 anos para cá, registos ao vivo, singles, EP’s, sobras de discos, e pela reedição do esgotado álbum de originais de 1995, “Rhythms, Resolutions & Clusters”, remisturado e remasterizado. Interessante apanhado de uma parte da actividade do grupo onde ainda residem Jeff Parker, John Herndon, John McEntire, Doug McCombs, Dan Bitney, e por onde passaram Dave Pajo e Bundy K. Brown. A edição, luxuosa, é ilustrada com um livrete de 20 páginas, onde se conta a história em texto e fotografia. Em Portugal a distribuição é da oportuna Dwitza!

No âmbito do programa artístico do Fórum Gulbenkian Imigração, dia 8 de Setembro, no Anfiteatro ao ar livre da Fundação Gulbenkian, às 21h30, actua CONTRA-BANZO, quinteto de Alípio C Neto (saxofones e flautas), Jean-Marc Charmier (trompete e acordeão), Felix de Barros (piano), Ben Stapp (tuba) e Rui Gonçalves (bateria).
«Banzo: (Do kimbundu ku banza, pensar, raciocinar) – Admirado, aparvalhado, pensativo. Termo usado para denominar o estado d
e depressão profunda com que os escravos desembarcavam dos navios negreiros no Brasil. Alípio C. Neto, saxofonista brasileiro (Floresta, Pernambuco) radicado em Portugal há uma década. É, hoje, uma das referências incontornáveis da linguagem do jazz feito em território português. Este quinteto multinacional é um espelho das relações sociais e multi-étnicas presentes em Lisboa».
Jean D.L. - To Look Out Of The Window (eDogm 014)

Típica sessão de free blowing do Exuberance, quarteto cooperativo do saxofonista tenor Louie Belogenis, com o trompetista Roy Campbell, o contrabaixista Hilliard Greene e o baterista Michael Wimberly. “Live at Vision Festival” (Ayler Records) capta a tórrida actuação do quarteto na oitava edição (2003) do festival nova-iorquino, concerto que se seguiu ao do duo de Peter Brötzmann e Milford Graves. Imagine-se a temperatura a que o forno já se deveria encontrar... . O conjunto das quatro peças de composição instantânea – Invocation (15'25), Procession (21'12), Evocation (4'55) e Incandescence (5'41) – espelham a bravura e a actividade electrizante de um grupo solidamente ancorado na energy music dos anos sessenta, ávido por praticar um neo-free que, sumariando todo o léxico do passado, actualiza os propósitos à luz das novas movimentação que, de Los Angeles a Nova Iorque, passando por Chicago, têm vindo a recolocar a improvisação livre de matriz norte-americana no centro das atenções do público e da crítica, por obra e graça da sua transformação e reconfiguração formal e substancial. Vinho velho em vasilha nova ou vinho novo em garrafa antiga, o que conta aqui é a qualidade do nectar. Por isso, ergo o copo e bebo com gosto à saúde destes paladinos do expressionismo no jazz de ontem, hoje e de amanhã. Extremismo radical? Nem por isso. Basta ouvir "Live at Vision Festival" para se perceber que a matéria-prima com que o quarteto trabalha são as emoções, ora suaves e dolentes, ora intensas e ao rubro.
Uma chapelada especial merece Jan Ström, pela oportunidade de dar a conhecer esta música, que, sem a sua militante actividade, provavelmente nunca teria passado para cá das portas do Vision Festival.

Pauline Oliveros, 50 anos dedicados à inovação nas artes da improvisação, música electrónica, ensino, investigação, meditação e prática das artes de ouvir, reagir e interagir musicalmente. Entre tantas outras obras, conta-se a interessante peça "Six for New Time (for Sonic Youth)", de 1999, incluída em "Goodbye 20th Century" (SYR), que é bem o exemplo da cartilha que alia a prática à teoria: Deep Listening. O disco alberga interpretações dos Sonic Youth de peças compostas por Christian Wolf, John Cage, Takehisa Kosugi, Yoko Ono, Steve Reich, James Tenney, George Maciunas, Nicolas Enfantine e Cornelius Cardew.
O sonho antes de acordar, quando as formas começam a ganhar contornos e a consciência começa a organizar os últimos fiapos de matéria irreal. Em “Hidden Name”, Stephan Mathieu e Janek Schaefer, cúmplices de anteriores apresentações públicas, como os festivais MUTEK/2002 (Canadá) e Musica Genera/2005 (Polónia), tornam perceptível essa passagem de forma plasticamente sedutora, oscilante e circular no movimento cíclico de ampla e planante espacialização. A acção passa-se no meio das paisagens naturais e ambiente bucólico de que beneficiaram os artistas aquando da estadia conjunta no Verão de 2005 na Manor Farm House, uma cottage propriedade de um compositor de música clássica, situada algures no Sul de Inglaterra. No local, Stephan Mathieu e Janek Schaefer usaram instrumentos acústicos e electrónicos, e gravações de campo. O som foi posteriormente tratado no York Music Research Center, estúdio em Inglaterra tecnologicamente apetrechado para o efeito. Do trabalho de composição, montagem e edição resultou uma música carregada de sugestões pastorais envoltas em finas camadas de neblina, que ora ameaça chuva eminente, ora anseia pelo sol que a há-de dissipar.
Na mistura é possível identificar estática e estalidos de discos vinyl, vozes humanas, canto de pássaros e uma infinidade de camadas sobrepostas de sons instrumentais (piano, violino, clarinete, violoncelo, flauta, acordeão, cítara, sinos…), transformados, processados e harmonizados em estúdio, via computador. Há aqui uma interessante dimensão conceptual de corpos em suspensão, que se vão transformando lentamente, texturas unidimensionais que se tornam progressivamente mais complexas ao sabor de movimentos lentos e formalmente despojados, em que o que conta sobretudo é a tensão que prenuncia algo que está para acontecer. O mistério adensa-se e permanece por desvendar, por muito que se ouça “Hidden Name”, um disco especial. Edição recente da portuguesa Crónica Electrónica, distribuída por Matéria Prima. Design de M. Carvalhais.

As ondas agitam-se na West Coast: há novo disco (quinto e duplo) do excelente Empty Cage Quartet, gravado ao vivo no Café Metropol de Los Angeles, em 30 de Dezembro de 2005. Jeff Kaiser (pfMENTUM) edita "Hello the Damage!". Um dos grandes deste ano, aposta minha. 
Jason Mears, Kris Tiner, Paul Kikuchi e Ivan Jonson, membros do ex-MTKJ Quartet, actual Empty Cage Quartet, parecem surgir do nada; porém, a fervura que levantam e a segurança com que evoluem denotam duas coisas importantes: primo, o facto de tocarem juntos há um bom bocado, o que faz com que os procedimentos internos fluam naturalmente. Qualquer hesitação ou eventual engasgamento resolve-se com os sinais invisíveis (mas perceptíveis) que os músicos trocam entre si, que também servem para “escrever” colectivamente a música em cada momento; secundo, estes californianos ouviram muita música. Deliberadamente incorporam memórias de alguns emblemas marcantes, como os pequenos grupos de Vinny Golia (quartetos e quintetos), mais próximos cronológica e geograficamente, ou o quarteto de Anthony Braxton, na versão com Kenny Wheeler, Dave Holland e Barry Altschul, antes de George Lewis fazer a sua aparição, substituindo o trompetista, e arrasar a assistência em Dortmund, 1976. O grupo de Mears, Tiner, Kikuchi e Jonson increve-se no continuum evolutivo que vem na linha do trabalho das citadas “grandes forças” goliana e braxtoniana, no que elas têm de mais profundo e inventivo, ao mesmo tempo que ensaiam voltas, quebras e mudanças discursivas que pertencem a um mundo comum.
O disco do Empty Cage Quartet é dos que ganha com sucessivas audições. Ao fim de algum tempo o patchwork sonoro ganha vida, adquirindo a rara qualidade de soar simultaneamente a clássico e a moderno.

Em 2003, o psicólogo e investigador britânico
Geoffrey Wills publicou no
The British Journal of Psychiatry, «
Forty lives in the bebop business: mental health in a group of eminent jazz musicians», um
estudo sobre psicopatologia tendo por base uma amostra de músicos de jazz da época do bebop. A partir de factos biográficos de
40 músicos de jazz, entre os quais Willis diagnosticou a existência de níveis de distúrbios psicopatológicos semelhantes aos encontrados em grupos de criadores de outras formas de arte, estabelecendo embora novas conexões entre criatividade e desequilíbrio psíquico, a partir do consumo de drogas e da disfuncionalidade familiar. Ou seja, já se sabia empiricamente que quanto mais desequilibrados, melhor; faltava só a bênção da ciência que estuda as complexidades da psique humana.
Charlie Parker (1920-1955),
apontado como paradigma desta tese, consumia quantidades elevadas de drogas e álcool, sofria de depressões, e no entanto a sua criatividade manteve sempre um nível muito elevado. O concerto no Massey Hall, em Toronto, que data de Maio de 1953, com Dizzie Gillespie, Max Roach, Chalie Mingus e Bud Powell – considerado um exemplo máximo da sua arte – aconteceu entre dois internamentos hospitalares por distúrbios psiquiátricos seguidos, um em Camarillo e outro no Bellevue Hospital, de Nova Iorque.
Também a ler no mesmo The British Journal of Psychiatry: «'Kind of Blue': Creativity, Mental disorder and Jazz», um estudo de Rob Poole (2003).

Ora aí está um documento a não perder: AZIONE, duplo CD+DVD do Gruppo di Improvvisazione Nuova Consonanza, editado por Die Schachtel. Um conjunto alargado de inéditos do grupo de Ennio Morricone, Ivan Vandor, Roland Kayn, Franco Evangelisti, Walter Branchi, Mario Bertoncini e John Heineman. Noise, electrónica e free jazz europeu de um período importante, que cobre os anos entre 1967 e 1969, inclusive. Qem já conhece "Musica Su Schemi" (Ampersand) sabe do que se trata.

Johann Bourquenez, da netlabel francesa eDogm, pianista membro do duo Tlön 5 que mantém activo com o saxofonista Eric Pailhé, instalou um slideshow de fotografias que fez durante a Primavera de 2006, em Xangai, China, onde se encontra a residir. Vale a pena deitar um olho.
"The Va
mpire's Revenge", a mais recente realização de Dom Minasi, compositor, guitarrista e impovisador, é um acontecimento de se lhe tirar o chapéu, ao nível da composição, arranjos e execução. Os dez temas deste concept album, inspirados em "Entrevista com o Vampiro", de Anne Rice, abordados numa perspectiva humorística (Who’s Your Dentist? e Just One More Bite, por exemplo), são todos da escrita inspirada de Dom Minasi, mais conhecido pelos Blue Note dos Anos 70, “When Joanna Loved Me” (1974) e “I Have the Feeling I’ve Been Here Before” (1975), e, mais recentemente, por uma incursão na CIMP em nome próprio (“Finishing Touches”) e por outra com Blaise Siwula ("Dialing Privileges"). Os arranjos de "The Vampire's Revenge", complexos desenvolvimentos das composições, servem de ponte entre a escrita e a improvisação, a cargo de um grupo alargado de 22 músicos, no total, dispostos em pequenos grupos a partir de uma base fixa de três, formada por Dom Minasi (guitarras de 6 e 12 cordas), Ken Filiano (contrabaixo e electrónica) e Jackson Krall (bateria). Todos os outros participantes têm o estatuto de convidados especiais, autêntico who’s who da cena improvisada de Nova Iorque: Perry Robinson (clarinete), Joe Giardullo (saxofone soprano), Jason Kao Hwang (violino), Tomas Ulrich (violoncelo), Joe McPhee (saxofone tenor), Sabir Mateen (saxofone tenor), John Gunther (saxofones), Ras Moshe (sopros), Blaise Siwula (saxofone alto), Mark Whitecage (saxofone alto), Paul Smoker (fliscórnio), Herb Robertson (trompete), Steve Swell (trombone), François Grillot (contrabaixo), Borah Bergman (piano), Matthew Shipp (piano), Carol Mennie (voz), Peter Ratray (recitação) e Byron Olson (direcção de orquestra).
Duas horas de música numa suite de improvisação gravada ao primeiro take (o som de Joe Rosenberg é nada menos que primoroso), balizada por secções escritas ancoradas no trabalho de Minasi, Filiano e Krall – a ponte através da qual se processam as trocas entre as participações individuais e o ensemble. Dom Minasi compôs as secções escritas tendo em mente cada um dos improvisadores escolhidos, de tal forma que, coerentemente, a música escrita acaba por soar a improvisada e vice-versa. Minasi evitou entrar pela via da jam session, criando melodias distintas entre movimentos, estruturas que se articulam com os tempos livres (chaos in time) numa linguagem versátil e inovadora, cuja gestão ficou inteiramente a cargo de cada solista. O acabamento especial nas peças de maior fôlego, em que chegam a participar 15 músicos de uma vez, é dado pela direcção de Byron Olson, responsável pela harmonização das transições.
Dom Minasi - The Vampire’s Revenge (CDM Records)

Georg Graewe (piano), Ernst Reijseger (violoncelo) e Gerry Hemingway (bateria). Trio de jazz-improv de câmara, elevado à máxima potência. Com largo rasto deixado em editoras tão diversas como a Hat Art, Sound Aspects, Music & Arts, Random Acoustics ou a Nuscope, em Abril passado o trio estreou-se na Winter & Winter com este sétimo título, "Continuum", Phases 1 a 10.

Lisbon Improvisation Players (LIP) featuring Dennis González
ao vivo no Hot Club de Portugal, 16 e 17 de Agosto/2006

Zé Eduardo, Rodrigo Amado, Bruno Pedroso e Dennis González
(fotos: Crista)

Mike Westbrook não há-de certamente ser um estranho para quem ouve jazz para além dos nomes mais óbvios e que imediatamente saltam ao caminho. O britânico, compositor, regente de orquestra e pianista, anda há tanto tempo na cena e a fazer coisas tão importantes que desconhecê-lo sem merecer castigo só em caso de surdez ou de tenra idade. De anos de vida leva Westbrook 70, contados e medidos há pouco tempo. De actividade, mais de 50, sempre com um pé na forma, outro a pisar terreno desconhecido. Em Março passado, a BBC Radio 3 (Jazz on 3) emitiu parte de um concerto gravado em estúdio, o mesmo que agora repete, na íntegra. Com Mike Westbrook participam Kate Westbrook (voz), Chris Biscoe, Pete Whyman (saxofones), Tim Harries (contrabaixo) e Seb Rochford (bateria). View From the Drawbridge.

Destination Out: Cecil Taylor, "For Olim" e "Winged Serpent"

unlimited XX nov. 10.11.12. wels austria
the queen mab trio (can, nl)
ig henneman, lori freedman, marilyn lerner
guitar quartet (usa, gb, i, f)
fred frith, camel zekri, paolo angeli, janet feder
wadada leo smith & golden quartet
feat. woody aplanalp, john lindberg, nasheet waits
mohammed jimmy mohammed "takkabel!" (eth)
feat. mesele asmamaw, asnake gebreyes
irène schweizer & hamid drake (ch, usa)
here comes the sun (ö, d)
gunter schneider, barbara romen, kai fagaschinski
charming hostess (usa)
jewlia eisenberg, marika hughes, cynthia taylor
carla kihlstedt & stevie wishart & fred frith (aus, usa, gb)
iswhat?! (usa)
napoleon madax, jack walker, claire daly, joe fonda, hamid drake
wolke is immer 5 (d, a, i)
margareth kammerer, c. kurzmann, m. thieke, kai fagaschinski
zeena parkins "kitsu-ne" (usa)
thermal (gb, d)
john butcher, thomas lehn, andy ex
attwenger feat. fred frith (a, usa)
markus binder, hans-peter falkner, fred frith

"
Sound" (1966-67) - John Cage & Roland Kirk
LISBON IMPROVISATION PLAYERS (LIP)
Rodrigo Amado_saxofone
Dennis González_trompete
José Eduardo_contrabaixo
Bruno Pedroso_bateria
HCP, Lisboa, 16 e 17 de Agosto

Entretenimento de Verão. Como fazer castelos na areia à beira-mar. A ferramenta da
gnod, cuja inteligência artificial funciona para literatura, música e cinema, dá para passar um bom pedaço a tentar perceber as ligações e as associações de ideias que a máquina estabelece, umas mais óbvias, outras menos, outras ainda totalmente improváveis. Ou talvez não. Por exemplo, para
Sun Ra deu-me
isto.

Consta que o David S. Ware Quartet, depois da digressão europeia de 1999 – aquela em que estreou o então novo baterista, Guillermo E. Brown, e que incluiu Lisboa no roteiro com um concerto no CCB que jamais esquecerei – uma vez regressado a Nova Iorque, teria pensado em aproveitar o balanço e gravar um disco de originais. A sessão ficou marcada para o dia seguinte à chegada. Porém, David Spencer Ware, Matthew Shipp, William Parker e Guillermo E. Brown estavam cansados demais para encetar nova aventura do DSWQ, pelo menos ao nível do investimento em energia que cada novo disco requer. Vai daí, ter-se-ão dado conta de que a única via possível seria enveredar por um programa inteiramente dedicado às baladas e a outros movimentos lentos, sem abandonar os restantes sinais identitários de uma das mais carismáticas formações do free jazz actual. Não sei se foi como antecede (versão oficiosa), ou se foi opção deliberada do quarteto mudar pontualmente para um registo mais intimista, o certo é que o disco foi gravado em 1999 e está às portas da rua. “Balladware” tem edição marcada para 26 de Setembro, na Thirsty Ear (the Blue Series).

Os 47 minutos de “Exile”, disco do cornetista Dan Clucas (Albuquerque, New Mexico) a bordo do quinteto Immediately, ouvem-se como um "ai que mal soa". Com Brian Walsh (clarinete e saxofone tenor), Noah Phillips (guitarra eléctrica), Michael Ibarra (contrabaixo) e Rich West (bateria), assinou um dos melhores discos de 2005. Exemplo da vitalidade do jazz da Costa Oeste dos EUA, “Exile”, gravado em Los Angeles, recebe influências de vários pontos cardeais: Vinny Golia, mais próximo, e a tríade Monk-Ra-Ornette, que por aqui paira sem localização concreta e determinada. Clucas, também membro dos grupos Dead Air, Brassum (de Mark Weaver), Congress e Ockodektet (de Jeff Kaiser), inspira-se no som de trompete de Bobby Bradford, a quem dedica um dos seis temas de “Exile”. Apesar de já ser um nome feito em dezena e meia de anos de percurso, Clucas conseguiu surpreender a comunidade com a sua escrita e improvisação originais, direcção musical eficiente e som colectivo potente, concentrado e amadurecido. Sem dúvida, um dos bons trunfos artísticos da pfMENTUM, editora de Jeff Kaiser, outro grande compositor e trompetista da West Coast.

A sair muito em breve:
- Frode Gjerstad Trio, com W. Parker e H. Drake - The Other Side (Ayler Records);
- Peter Brötzmann/ Sonny Sharrock - TBD (Atavistic / Unheard Music Series);
- Fred Anderson - Neighbours (Atavistic / Unheard Music Series).
Pedro Gonçalves, Bruno Pedroso, Rodrigo Amado e Dennis González
(Fotos: Crista)


«(...) Rome à la fin du XVIe siècle est avec Florence le berceau des premières expériences musicales issues de cette conception nouvelle de l'art «représenté», partagée par les intellectuels, artistes et penseurs. Dans la musique, cette tendance s’accommode d’un art spécifiquement romain: celui de la diminution, de l’improvisation vocale. Cette technique certes ancienne - dans toute l'Europe on chantait «à livre ouvert» depuis longtemps - trouve à ce moment un extrême développement mettant en relief le caractère solistique de l'improvisation. C’est pourquoi l'on trouve à Rome probablement les plus beaux exemples de diminutions vocales, souvent sur des faux-bourdons, que de très rares éditions ont heureusement immortalisés. Plus tard dans le siècle, André Maugars, vantant la supériorité des compositions italiennes sur les françaises, décrit encore cette pratique comme étant l’apanage des musiciens romains: "Mettons, Monsieur, la main sur la conscience, et jugeons sincèrement si nous avons de semblables compositions [en France] ; et quand bien nous en aurions, [qu'] il nous faudrait un long temps pour les concerter ensemble, là où ces musiciens italiens ne concertent jamais mais chantent tous leurs parties à l’improviste"». - Vincent Dumestre Le Poème Harmonique, direction Vincent Dumestre (Alpha)

Dando sequência aos eventos Netaudio’05, de Berna, e ao subsequente Netaudio V2.05, que se realizou em Colónia, Londres acolhe a terceira edição do festival Netaudio’06, The London Netlabel Festival – encontro mundial de artistas, activistas e editoras do mundo da edição e distribuição musical via Internet, em formato digital. Dias 15 e 16 de Setembro, em Londres (Candid Arts Centre e Electrowerkz), tem lugar a festa da música electrónica nas suas variadas expressões, com concertos, instalações audiovisuais, debates e uma feira do conhecimento que permitirá aceder ao último grito da tecnologia ao serviço das netlabels. Participam os seguintes artistas: Autistici (Reino Unido), Barem (Argentina), Cheju (Reino Unido), Digitalverein (Alemanha), DNCN (Reino Unido), Dual Perception (Alemanha), Gagarin (Reino Unido), Hopen (Suiça), Kabale und Liebe (Holanda), Kollektiv Turmstrasse (Alemanha), Krill.minima (Alemanha), L'embrouille (França), LRAB (Reino Unido), Mathon (Suiça), Megaheadphoneboy (Reino Unido), Mint (Reino Unido), Miss Fitz (Alemanha) Molair (França), Pheek (Canadá), Phiorio (Reino Unido), Planet Boelex (Finlândia), Quip (Reino Unido), Receptor (Chile), Sepia Hours (Bélgica), Si_Comm/S.E.T.I/N-Spaces (Reino Unido), Sr. Aye & Decolora (Espanha), Steevio & Suzybee (Reino Unido), 3Carbine (Reino Unido), Stalker (Alemanha), Tea*more (Alemanha), Urban Force (Alemanha).

Debutada em Maio de 2005 no Festival International de Musique Actuelle de Victoriaville (FIMAV), no Canadá, a «Composition No 345» voltou a ter em Lisboa um tratamento de leitura, hermenêutica e improvisação idêntico ao que ali recebera, servida pelo mesmo naipe de instrumentos e instrumentistas do recente Anthony Braxton Sextet, uns e outros pouco usuais no figurino braxtoniano de hoje ou de antanho: Anthony Braxton (saxofones alto, soprano e sopranino), Taylor Ho Bynum (trompetes e trombone), Jay Rozen (tuba e percussões) Jessica Pavone (violino), Chris Dahlgren (contrabaixo), Aaron Siegel (bateria e vibrafone). A peça exibida expõe em toda a diversidade o que se poderia chamar de Braxton‑síntese virado para o futuro, ou “ancient to the future”, como diriam os Art Ensemble of Chicago. Sem apresentar uma revisão do tipo colagem das referências de uma carreira já longa e das mais profícuas, nem uma viagem à vol d’oiseau sobre os diferentes marcos de um percurso único, porém, incluiu sinais mais ou menos nítidos dos tempos fundacionais da AACM de Chicago, das primeiras “3 Compositions of New Jazz”; da Creative Construction Company, com Leroy Jenkins e Wadada Leo Smith; passou pelo estádio do Quarteto com Marilyn Crispell, Mark Dresser e Gerry Hemingway (London, Conventry, Bermingham...), e sobrevoou as meditações matemáticas fortemente geometrizadas da Ghost Trance Music. Sem se deixar aprisionar por uma abordagem explicitamente ligada a qualquer daquelas formulações, ou outra porventura mais encostada quer à tradição do jazz, quer à da composição escrita contemporânea, liberto dos compromissos estéticos próprios e alheios, mantém contudo bem vivos e presentes todos os elementos que compõem o seu “sistema” musical, actualmente virado para a descoberta de outros sons, em particular do noise, de que é exemplo a recente, e antes insuspeitável, actuação ao vivo no Victoriaville com os Wolf Eyes, especialistas na matéria, e que gerou um dos maiores bruás no meio da música improvisada. Fazendo jus a esta inclinação, perto do final da peça, o contrabaixo com arco e pedal a fundo de Chris Dahlgren, com o resto da banda no seu encalço, concorria com os aviões que sobrevoavam o espaço aéreo, com vantagem para o contrabaixista.
Porque Braxton, goste-se mais ou menos da sua música, é sem dúvida um compositor e um improvisador que inventou a sua própria linguagem; a partir de múltiplas influências, é certo, soube transformá-la ao longo dos diferentes ciclos por que passou a obra do Professor, permitindo ao ouvinte antecipar novidades para os tempos que se avizinham. Braxton multi-dimensional, o velho Braxton e o novo Braxton, menos interessado em balanços que em fixar um olhar prospectivo, deu sinais de que, com estes músicos, um grupo coeso e de elevado nível técnico e artístico, está pronto para cavar ainda mais fundo. Não há muito mais a dizer sobre Anthony Braxton que ainda não tivesse sido dito. Quanto a esta actuação em particular, apenas acrescentaria que foi uma viagem física, emocional e espiritual extraordinária, como só pode proporcionar um músico com a espessura artística de Anthony Braxton, um dos maiores teóricos, pensadores e criadores da música do último meio século.
Esta foi a melhor maneira de encerrar a edição de 2006 do Jazz em Agosto, festival que este ano apresentou um cartaz cuja qualidade média atingiu um nível bastante elevado.
Anthony Braxton Sextet
Sábado, 12 Ago 2006, 21:30 - Anfiteatro ao Ar Livre da F. Gulbenkian

Da esquerda para a direita: John Tchicai, Evan Parker, Steve Lacy, Willem Breuker e Peter Brötzmann, ao vivo no Deutsches Theater, Berlim, 1978. Vinte e sete anos depois, em 2005, Evan Parker e John Tchicai encontraram-se de novo em Londres, onde Tchicai se deslocara para uma sessão "with strings" com John Coxon e Ashley Wales (Spring Heel Jack). O grande saxofonista afro-dinamarquês, que tocou com Albert Ayler, John Coltrane ("Ascension"), Archie Shepp e Don Cherry, gravou uma série de duetos com uma secção de cordas para a Treader, editora dos Spring Heel Jack. Entretanto, teve ainda tempo para gravar uma série de duetos e conversar animadamente com Evan Parker, para a BBC Radio 3. Esta semana o "Jazz on 3" emite ambas as sessões em webcast.

Sexta-feira à noite, sexto dia do
Jazz em Agosto/2006. No Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Gulbenkian, actuou o
Claudia Quintet, do baterista
John Hollenbeck, com
Chris Speed (clarinete e saxofone tenor),
Ted Reichman (acordeão),
Matt Moran (vibrafone) e
Drew Gress (contrabaixo).
Claudia não aqueceu nem arrefeceu. Talvez tivesse aquecido há uma década atrás, quando estava no auge a moda de grupos como Pachora, Sex Mob (Chris Speed é comum aos três, Claudia incluído) e outros antigos emblemas da
Downtown de Nova Iorque, que então faziam furor. Eram tempos em que na Casa Branca mandava um saxofonista... . Mas isso foi chão que deu uvas e o que antes era excitante, hoje, mesmo actualizado com pozinhos
a la Tortoise, grupo que actualmente não valeria uma deslocação daqui para ali, soa aborrecido e demasiado previsível no uso diversos códigos de linguagem que incorpora. As composições – todas saídas da mesma forma, atmosferas mescladas de jazz progressivo, pop, fusion, new age e post-rock, melodias orelhudas enfadonhamente bem encarreiradas e com muita falta de sal, batida
groove-oriented – não guardam surpresas (parece até que há uma congénita aversão ao risco) nem acidentes nas curvas do caminho. No entanto, tudo é muito competente e bem tocado, irrepreensível até, e cheio de piscadelas de olho ao ouvinte, captando a sua cumplicidade simpática ou condescendente.
Poucos foram os momentos de empolgante improvisação, pois o grupo optou por navegar sempre ao longo da costa, a cumprir quase estritamente o que vinha escrito no papel e está registado em disco. Foi só levar ao micro-ondas. Contou a favor um ou outro solo de
Chris Speed, com tempo e espaço para fazer umas flores (melhores e mais vistosas no clarinete que no sax tenor, cujo som careceu de projecção) e um ou outro solo de
Ted Reichman no acordeão, instrumento que, afora isso, não estava ali a fazer praticamente nada.
Matt Moran cumpriu como colorista, e
Drew Gress, bom, preferia tê-lo ouvido noutro contexto, por exemplo no seu quarteto com Tim Berne, Uri Caine e Tom Rainey, propulsor e mais flexível, não tão abafado pela marcação da toda poderosa e omnipresente bateria.
De todo o modo, assistir ao Claudia Quintet não foi perda de tempo; aceita-se como quem toma uma refeição ligeira, um snack apto a ser consumido em noites de Verão. Mas com cuidado, não vá a gente comer o plástico colorido do embrulho junto com o pastel de massa tenra. Maior ainda teria sido o risco para quem, distraído, achasse graça à graciosidade
nerdish de Hollenbeck, exposta e repetida nas explicações que entendeu dever dar sobre os temas e outras matérias avulsas. O que afirmara musicalmente, de tão acessível e facilmente compreensível, explicado estava, sem necessidade mais delongas, alusões
a latere e suplementares contributos para uma boa apreensão da mensagem. Um inesperado bónus de
stand-up comedy. Quem disse que não houve surpresas?
Claudia Quintet
Sexta-feira, 11 Ago 2006, 21:30 - Anfiteatro ao Ar Livre da F. Gulbenkian

Nasceu torto mas foi-se endireitando, o concerto do Craig Taborn's Junk Magic, que ontem à noite actuou no Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Gulbenkian, ao quinto dia do Jazz em Agosto/2006. Ao segundo tema, som frouxo, sem pulso nem intenção, sentia-se a água perigosamente a subir do lago ao fundo e a invadir a plateia, dando origem àquela que ameaçava vir a ser uma memorável “banhada” desta edição do festival. Mas não, ao terceiro ensaio, o quinteto de Craig Taborn (piano, teclados, samplers), Mat Maneri (viola), Mark Turner (saxofone tenor), Erik Fratzke (baixo eléctrico) e Dave King (do trio The Bad Plus, em bateria acústica e electrónica) logrou corrigir o tiro, realinhar a trajectória e avançar tranquilamente até final.
O conceito que Craig Taborn pretende trabalhar com o Junk Magic vem de trás, das experiências que começou com o Hard Cell e até antes, com The Shell Game, de Tim Berne e Tom Rainey. Partindo de alguns pressupostos estéticos comuns, Taborn alarga os espaços por entre os interstícios da composição, abrindo-os à criatividade da improvisação controlada, donde resulta um trabalho em que o jazz e as suas memórias (nas quais se incluiu um sampler da recitação de David Moore incluída no disco de 1967 de Muhal Richard Abrams, “Levels and Degrees of Light”) convivem com a composição contemporânea e a contaminação electrónica, acentuada pelos loops e pela “sujidade” colorida do piano eléctrico.
Talvez porque o grupo se tivesse ressentido das entradas e saídas de pessoal, ocorridas desde a gravação do disco homónimo para a Thirsty Ear, em que figurava Aaron Stewart em lugar do inexpressivo Mark Turner que se ouviu na Gulbenkian, a que se somou o recrutamento de Erik Fratzke, em baixo eléctrico; ou porque esta música conviva melhor com o conforto intra-muros do estúdio, notaram-se alguns desequilíbrios entre momentos em que tudo estava a funcionar muito bem, e outros que roçaram a decepção e o aborrecimento. Ainda assim, e longe de ter sido um concerto marcante, de um modo geral entreteve satisfatoriamente, com bom gosto e a promessa de mais trabalho e investigação numa área particular do electro-jazz para o Séc. XXI, esta em que o Junk Magic se posiciona, ainda à procura de uma saída da floresta de clichés que abundam neste suposto “mundo novo”.
O ponto mais alto da actuação de um grupo que, aqui e ali, deixou soltas algumas ligações entre pontas – o que se resolve com maior rodagem – foi o trabalho do excelente Mat Maneri, tanto nos uníssonos com Turner e Taborn, como nos cruzamentos oblíquos sobre os teclados, o homem que mais parecia querer remar contra a maré, que ora subia até ao peito, ora se deixava ficar pelo tornozelo. Até que se chegou ao encore, altura em que, acertadas as posições e oleada a máquina, finalmente o grupo assumiu o controlo absoluto, terminando como deveria ter começado. Sintomaticamente, voltou a ouvir-se a citação de Muhal Richard Abrams.
Craig Taborn's, Junk Magic
Quinta-feira, 10 Ago 2006, 21:30 - Anfiteatro ao Ar Livre da F. Gulbenkian

Só agora soube da
notícia da morte do
pianista Irving Sidney Jordan, mais conhecido por
Duke Jordan, ocorrida a 8 de Agosto, em Copenhaga, Dinamarca. Jordan, que contava 84 anos, nasceu em Nova Iorque a 01.04.1922, e vivia em Copenhaga desde 1978. Histórico do bop, tocou com Charlie Parker, Sonny Stitt, Stan Getz, Sheila Jordan e muitos outros, tendo dirigido os seus próprios combos. Gravou intensamente para a editora dinamarquesa
SteepleChase, onde se encontra registada
parte apreciável da sua extensa obra discográfica. "Flight to Denmark" (1973), com Mads Vinding e Ed "Mr. Taste" Thigpen, é ainda um marco na história recente do trio de piano.
RIP, Duke.

BaseLitz
Experimental / Psychedelic / Electronica.
Esta semana, de Tijuana, México, pela mão de Pedro César Beas e Carlos Garcia, para a comunidade global via podcast: "Aunque Bugge Wesseltoft es probablemente más conocido por su trabajo en New Conception of Jazz, su carrera musical ha incluido proyectos con Jan Garbarek, un dueto con Sidsel Endresen y Samsa’ra. Samsa’ra reúne tres generaciones de músicos: Bjørnar Andresen (bajo acústico y efectos), Paal Nilssen-Love (batería) y Bugge Wesseltoft (Piano, Prophet synth).
Finalizamos nuestro programa con el primer trabajo publicado de Pharoah Sanders, una producción del sello ESP de 1964".


A noite de 24 de Fevereiro de 1973, no Village Vanguard, em Nova Iorque, assinalou a estreia de um novo grupo do pianista Keith Jarrett. Ao trio base, com Charlie Haden e Paul Motian, que vinha estruturando desde Julho de 1971, altura em que saltou em andamento do grupo de Miles Davis, Jarrett adicionou um percussionista ocasional, Danny Johnson, e, aspecto maior a considerar, o saxofonista tenor Dewey Redman, como extensão do trio, espécie de guarda avançada ou ponta de lança com que o pianista esperava tornar a sua música mais expansiva e acutilante.
Das actuações no Vanguard saiu “Fort Yawuh”, o primeiro disco de Keith Jarrett para a Impulse!, registo daquela que ficou para a história como uma das mais brilhantes actuações do “quarteto americano”, grupo que perdeu em atenção mediática e de audiência em favor das aventuras europeias a solo e com Jan Garbarek (o celebrado “quarteto europeu”, com Palle Danielsson e Jon Christensen), a que a máquina da ECM, com a qual iniciara uma relação contratual em 1971, deu toda a projecção possível.
Eclipsado por álbuns como “The Köln Concert”, “Belonging” ou “My Song”, que correspondem sensivelmente ao mesmo período (“My Song”, um pouco mais tardio), “Fort Yawuh” passou discretamente, tendo vindo progressivamente a ser reavaliado em alta com o passar dos anos, à medida em que o olhar atento e retrospectivo tem permitido redescobrir os tesouros que encerra. E são valiosos, como síntese de um rico e variado percurso anterior, adivinhando-se o cuidado que o pianista pôs na construção, a partir da diversidade de estilos e modos de fazer, de um som personalizado.
As fontes de inspiração mais imediatamente reconhecíveis são Miles, Bill Evans e Ornette Coleman, ritmicamente melhorado com alusões afro-funk-groove. É neste último segmento que Dewey Redman foi pensado para fazer particular sentido, dada a sua estadia junto de Ornette. A Jarrett interessava explorar algumas das ideias harmónicas e melódicas do mestre de Fort Worth, Tex
as, e desafiar-se a si próprio e à nova equipa, expandindo a música em diferentes direcções. “Quando se tem dois homens do quarteto Ornette Coleman [Haden e Redman], onde nunca se ouviu um piano, e cujo líder é agora um pianista, it´s a very touchy situation”, disse Jarrett ao crítico e jornalista Michael Ullman. A reedição de “Fort Yawuh” acrescenta o tema Roads Travelled, Roads Veiled, a peça mais longa, com a duração de 20 minutos que, por falta de espaço, não fez parte da edição original. Keith Jarrett aparece a tocar saxofone soprano, passando o grupo, após intróito em piano solo e enunciação do tema, a dois sopros, contrabaixo e percussões de inspiração afro. Jarrett essencial.
No ano seguinte, em Outubro de 1974, o mesmo quarteto americano + 1 (que aqui passou a ter Guilherme Franco no lugar de Danny Johnson) viria a gravar “Death and the Flower” também para a Imp
ulse!, disco de pendor mais abstraccionista, por comparação quer com “Fort Yawuh”, quer com os discos que Keith Jarrett vinha cunhando para a ECM com o quarteto europeu. Neste caso, no desenvolvimento de parte das ideias de “Fort Yawuh”, flautas e percussões afro-asiáticas conferem maior exotismo e espaços mais abertos, em que os aspectos ligados à meditação passam a ser tidos em conta, antecipando os contrastes marcantes com as futuras realizações de Keith Jarrett, sobretudo em trio. Pelo meio, tempo houve para Keith Jarrett dar largas ao interesse pelos grandes espaços de improvisação free a partir de breves linhas melódicas, sobretudo ao vivo, antes de regressar ao espaço concentracionário que, por comparação, passou a ser o Standards Trio que mantém activo até hoje, alive and kicking. “The magic number for improvisation”.
Ambos os discos surgem agora reedição conjunta e remasterizada, revista e aumentada, da britânica BGO Records, entidade especializada neste tipo de programas.

Quem conhecesse o trabalho precedente destes afincados trabalhadores da música electroacústica do Velho Continente, publicado, além da Potlatch, na Grob, Confront, Erstwhile, Rossbin, Zarek, Matchless, For 4Ears, Emanem ou na Ambiances Magnétiques, anteciparia que, com danças ou algo afim, a sua música dificilmente se haveria de parecer. Quem aqui dança são os neurónios do ouvinte, estimulados pela actividade sonora do trio, mesmo que o bulício gerado, feito de rumores que se propagam quase em segredo, em nada se pareça com o que possam sugerir os títulos das três peças.
Rondo (15'45), Bolero (11'04) e Tumble (25'21) desenvolvem-se em movimentos de lento arrastar por entre espaços interiores, caminhos cruzados e sinuosos, com uma geometria que, parecendo aleatória, esconde todo um mundo de rigor e disciplina. É nesses ambientes que se produzem e se organizam blocos de sons microscópicos reminiscentes de vida mecanizada e industrializada, que se agita num burburinho metálico, actividade que faz todo o sentido enquanto forma relevante de organização sonora.
A gestualidade, suave e longa, quase não permite identificar as fontes sonoras, que tanto podem ser a electrónica (Durrant não utiliza o violino, fica-se pelo software, samplers, sintetizadores e tratamento sonoro electrónico), como as chamadas extended techniques aplicadas ao saxofone tenor de Bertrand Denzler, ou a manipulação de objectos, peles e pratos da bateria que o alemão Burkhard Beins tão bem realiza.
A virtual impossibilidade de percepção da fonte sonora que produz cada som em cada momento, sendo relevante em si mesma, perde interesse em favor de uma escuta concentrada na actividade colectiva, aquela que, valorizando o rio em detrimento dos seus afluentes, parte à procura das mais excitantes aventuras no mundo da nova música improvisada.

Como me dizia há dias o R. T., este disco, ouvido, teima em não sair do leitor de CD's. São 17 peças para piano de Jorge Peixinho (1940-1995) interpretadas pelo pianista Miguel Borges Coelho. Produção e edição dupla da Numérica (2005), por encomenda da Câmara Municipal de Matosinhos nos 10 anos da morte do pianista e compositor. Jorge Peixinho, "Música para Piano". In Memoriam. «Eu creio que nunca conheci ninguém tão empenhado no seu ofício, e no que era da sua lavra, como Jorge Peixinho. Não pensava noutra coisa – a música, a que fazia ou fizeram os outros, era nele uma obsessão. Junto dele não era possível falar ou fazer senão música. Não que Jorge Peixinho fosse um desses homens a quem Debussy censurava o facto de só saberem música. Não era isso, mas como era muito escasso naqueles anos o interesse pela música contemporânea, o Jorge tinha de deitar mão a tudo: compor, procurar intérpretes, ensaiar, descobrir o lugar onde executar a peça, até possivelmente telefonar aos amigos a lembrar-lhes a data do concerto. Para tudo isso ele encontrava energia, entusiasmo, um ardor que vinha da fé no que fazia, que impressionavam, sobretudo a mim, que sou um homem tranquilo, com um ritmo que nada tinha de comum com o seu. Tanta energia gasta, tanta paixão desbordante, tal capacidade de indignação só podiam levá-lo ao fim que teve – rebentou como fruto queimado por sol ardente. Que melhor fim, para quem viveu tão apaixonadamente a sua arte, a sua vida?»
- Eugénio de Andrade, in Jornal de Letras, 30/08/95

Dan Warburton, Marcelo Aguirre, David Cotner, Nate Dorward, Massimo Ricci, Nick Rice, Derek Taylor, regressam com a edição de Agosto da sensacional revista online Paris Transatlantic ("Global Coverage of New Music"): Editorial; Interview with JOHN ROCKWELL; Between the Notes: Tristan Murail; Reissued: Robert Fripp; Reissued: The Topography of the Lungs; On Die Stadt: Aidan Baker / Asmus Tietchens / CM von Hausswolf / Fovea Hex; nmperign / Jason Lescalleet; JAZZ & IMPROV: Harry Miller's Isipingo / Eneidi, Kowald, Smith, Spirit / The Mentones / Aaron Moore / GOD / Alfred Harth / Bruce Russell / Wright, Djll, Rainey, Feeney / Hans Tammen & Christoph Irmer / Spiderwebs; CONTEMPORARY: Ben Johnston / Pioneers of Electronic Music; ELECTRONICA: Maurizio Bianchi / Jorge Haro / Ronnie Sundin / Sudden Infant / M. Holterbach

"No Choice", recente edição da francesa Minium, é o título do novo disco de dois dos mais interessantes pianistas da actualidade, Bill Carrothers e Marc Copland, ligados por 20 anos de cumplicidade criativa. Dois americanos em Paris, por assim dizer. Que tocam Carrothers e Copland? Clássicos e originais com outras autorias, que vão de Ornette Coleman (Lonely Woman, em dois takes, a abrir e a fechar a sequência), a Neil Young (The Needle and the Damage Done), passando por Thelonious Monk (Bemsha Swing), Miles Davis (Blue in Green, divido em chorale/canon e theme/variations), Ellington e Strayhorn (Take the A Train), Wayne Shorter (Masqualero). Apesar do único original de ambos (Dim Some), o programa é todo ele de standards no sentido amplo que lhe quis dar Philippe Ghielmetti, quando idealizou uma secção da Minium ("Standard Visit”, de que este é o primeiro volume) exclusivamente dedicada à revisitação de material que o tempo se encarregou de ir tornando popular. Excelente dois em um, "No Choice" é um mar de tranquilidade, fruto da escuta atenta e recíproca de dois artistas que se respeitam e sabiamente se complementam numa leitura moderna, por via dos arranjos, da tradição clássica do piano jazz.
Sem exibição de virtuosismos estultos, pelo meio de uma tão grande variedade de moods e ambientes, Carrothers, no canal esquerdo, e Copland, à direita, conseguem encontrar o adequado ponto de equilíbrio na convergência para uma poética intimista de cores outonais. Complexa no mistério da profundidade emocional, a música flúi naturalmente num movimento com duplo sentido, para dentro e para forma das melodias, decantando técnica e imaginação num recital a quatro mãos sensíveis e inteligentes. Bonito serviço.


Extraordinário recital de improvisação livre de Lê Quan Ninh, percussionista franco-vietnamita com formação académica em piano e percussão, no Auditório 2 da Fundação Gulbenkian, no âmbito do Jazz em Agosto / 2006. Em palco, Ninh dispôs um único timbalão sobre o qual esculpiu sons resultantes da vibração de uma série de corpos (pratos, taças, pinhas, bolas, arcos…) numa sinfonia de pele, metal e madeira em que se equilibram texturas, timbres e uma intensa exploração dinâmica. Impressionantes a fisicalidade, respiração, fulgurâncias e o tremor que vem da mistura de diferentes frequências sonoras. Um caso raro de sensibilidade, intuição e competência técnica, Ninh arrisca tudo e escapa à codificação das correntes mais dominantes da música improvisada actual, através da procura de um posicionamento que, sendo embora influenciado pela actividade de outros percussionistas, adquire uma substância e um formalismo únicos, cujo núcleo transporta informação com referências às correntes do free jazz, da composição contemporânea e da improvisação europeias, reconhecíveis em determinadas afinidades. E, sobretudo, de um esforço e dedicação na procura simultânea de um caminho estético livre de academismos estultos, e da sua própria voz, numa área musical e num tipo de instrumentação em que a indiferenciação é um risco elevado a ter em conta.
A solução encontrada é a da permanente interrogação através uma poética de combate político pela liberdade (de criação, de expressão, de afirmação do individual face ao colectivo), a que não é estranho o pensamento político libertário. Combate em que a música pode ter um papel determinante enquanto força que elimina barreiras entre os homens, tarefa em que o artista adquire um papel determinante enquanto agente de transformação social através do som. Lê Quan Ninh dedicou o concerto às pessoas que estão a sofrer no Líbano.
Lê Quan Ninh
Domingo, 6 Ago 2006, 18:30 - Auditório Dois da Fundação Gulbenkian

A sustentação é do contrabaixista Gerald Benson e do baterista Michael Wimberly. A inspiração continua a vir de Albert Ayler. Charles Gayle, fixado exclusivamente no saxofone alto, novo modelo em plástico de cor branca, toca peças suas, umas escritas outras apenas improvisadas, e material com história e peso simbólico no mundo do jazz, como Cherokee, Giant Steps, Softly in a Morning Sunrise (emparceira bem com a versão de John Coltrane no Village Vanguard, em 1961) e What's New.
A arte de Gayle continua a dar bons resultados, como este gravado ao vivo no Glenn Miller Café, em Estocolmo, Suécia, a 12 de Fevereiro de 2006. O mais "convencional" dos discos de Charles Gayle? Provavelmente sim, depois de "Shout!", título que imediatamente antecede "Live at Glenn Miller Café", descontando o solo de piano de permeio. A maior aproximação ao convencionalismo (no sentido que se pode aplicar a Charles Gayle) nada o diminui; apenas permite descobrir o outro lado de um saxofonista herdeiro da melhor tradição do free jazz (o disco encerra com Ghosts, de Albert Ayler) um aspecto mais da sua complexa idiossincrasia. Ou como o rastilho curto, a explosão e a chama viva de outrora (Silkheart, Knitting Factory e Les Disques Victo guardam todos os vestígios relevantes) se transformam no magma incandescente de hoje. O calor, a energia produzida e a autenticidade são os mesmos de sempre. Viva Gayle!
Charles Gayle Trio - Live at Glenn Miller Café (Ayler Records, 2006)

Anunciado como estreia mundial, o trio ad-hoc formado por Fred Frith (guitarra eléctrica), Lê Quan Ninh (percussão) e Larry Ochs (saxofones tenor e sopranino), tinha, além desse aliciante de partida, a curiosidade suplementar de poder ver como é que estas três personalidades, tão fortes e influentes quanto diversas, iriam combinar e em que medida tal reunião daria ou não bons frutos, considerando os riscos associados à prática da música espontaneamente criada. E deu mesmo, apesar dos altos e baixos inerentes quer ao facto de os três artistas nunca terem tocado juntos, quer à diferença de linguagens que habitualmente praticam. Lê Quan Ninh, mais que apenas fisicamente ao centro, foi o esteio e o impulsionador da cerrada explanação musical do trio. Pesem embora as hesitações de Larry Ochs, inicialmente desambientado e a tentar encontrar maneira de entrar e de criar o seu próprio espaço no entendimento que Frith e Ninh estabeleceram logo de início, a partir do primeiro quarto do concerto o saxofonista norte-americano conseguiu recuperar a tempo de garantir a passagem do duo em trio, partindo então para descoberta e exploração de interessantes momentos de improvisação que encerraram a tarde condignamente. Larry Ochs / Fred Frith / Lê Quan Ninh
Sábado, 5 Ago 2006, 18:30 - Auditório Dois da Fundação Gulbenkian

Na noite do mesmo dia 6, no Anfiteatro ao Ar Livre actuou o
Mandarin Movie, projecto que
Rob Mazurek, trompetista e cornetista, e também artista plástico e multimédia, estreou em 2005. O sexteto confeccionou em directo a sua mistura potente e bem orquestrada de free-jazz, rock’n’roll e noise electrónico, exibindo uma permanente atitude experimental contida dentro de parâmetros regulares e melodicamente acessíveis. Com um
Alan Licht inspirado na escolha das malhas sonoras na guitarra eléctrica, geralmente de muito bom gosto e eficácia, e o trombonista
Steve Swell no despique ou em séries de duetos com o trompetista, partindo das coordenadas do disco de estreia, que dividiu a crítica entre apologistas e detractores, Mazurek expôs e dirigiu a sua mais recente realização, usando essencialmente a técnica da colagem de referenciais de muitas origens estéticas (além das mencionadas, Miles eléctrico, o funk e a
fusion dos anos 70, e o post-rock mais pesado dos 90), sem cair no pastiche e na armadilha da facilidade
pour épater le bourgeois. Os dois baixistas,
Matthew Lux e
Jason Ajemian, um acústico, outro eléctrico, reforçados pela batida subtil ainda que pesada de
Frank Rosaly, balancearam o grupo para o ataque sem tréguas que se abateu sobre o público do anfiteatro durante cerca de duas horas, por cuja passagem mal se deu.
Mandarin Movie
Sábado, 5 Ago 2006, 21:30 - Anfiteatro ao Ar Livre da F. Gulbenkian

Foi há relativamente pouco tempo. Apenas em 2004 tive o ensejo de ouvir Evan Parker tocar temas, isto é, a improvisar num contexto de acordes pré-definidos. Foi com Dave Greene, contrabaixista britânico, que naquele ano desafiou Parker para tocar um programa que incluía composições suas e de Thelonious Monk, em quarteto, com Iain Dixon, saxofone e clarinete, e Gene Calderazzo, bateria, membros do Dave Greene Trio. A sessão foi gravada no Gateway Studio de Londres e emitida pela BBC Radio 3. Não estou certo de alguma vez ter sido editada e se, enquanto tal, consta da imensa discografia que o saxofonista britânico tem vindo a registar ao longo das quatro últimas décadas. Também com Kenny Wheeler, trompetista e compositor que Evan Parker admira mais que todos no presente (assim o disse em discurso directo durante um debate realizado em anterior edição do Jazz em Agosto) teve algumas colaborações com base em material pré-escrito. Tirando um ou outro episódio isolado, todas as outras intervenções a que assisti ou a que tive acesso remoto encontraram o saxofonista em ambiente 100% improv, fosse a solo, duo, trio, quarteto, e daí para a frente, o que se quisesse.
Não estava pois à espera de reencontrar Evan Parker (foto: Caroline Forbes), menos ainda a solo, a tocar dentro (e fora) de temas, alguns deles fazendo parte do cancioneiro tradicional do Jazz, Segundo as leis idealizadas em tempos idos, Evan Parker enunciou as melodias segundo os códigos do género, prestando simultaneamente uma homenagem a criadores do Jazz (Monk, Coltrane) e dando a revelar o seu fascínio com a temática por eles tratada, necessariamente segundo outros processos. Uma vez mais se pôde assistir à magnífica exposição do seu “movimento perpétuo” em tempo real, a impressionante habilidade técnica e mecânica, o raciocínio rápido e fulgurante, a capacidade de sobrepor várias linhas melódicas em simultâneo sem perder o fio à da narrativa, enfim, arte e artifício juntas numa só realidade - o grande acervo técnico e emocional de um saxofonista, que apenas por distracção se pode apelidar de frio e cerebral. À parte estes aspectos, que confluem para compor a sua persona enquanto saxofonista, Parker sabe usar os cânones e as convenções para, invocando os seus símbolos e fantasmas, ir ao âmago da estrutura, desmontá-la em mil pedaços e remontá-la novamente em directo, servindo-se de uma ferramenta quádrupla: talento, imaginação, capacidade de emocionar e prodigioso apetrechamento técnico. Não se deixou, porém, ficar por aqui: quem soube, através dele e do saxofone soprano, ouviu as vozes de John Coltrane, Steve Lacy, Lol Coxhill, Roscoe Mitchell e até Sidney Bechet. Actuação memorável, a arrumar no arquivo vivo da memória.
Evan Parker solo
Sexta-feira, 4 Ago 2006, 18:30 - Auditório Dois da Fundação Gulbenkian
A escala é monumental, a energia avassaladora, a emoção quase esmaga o ouvinte de quem se requer considerável fôlego, abertura de espírito e disponibilidade mental para se deixar transportar na imensa trip que constitui “Ascension”, opus magum de John Coltrane. A sua realização mais audaciosa, o cume mais alto do Everest que construiu ao longo de uma década – a Paixão segundo Coltrane, considerada por parte da crítica do tempo (1965) e de agora como algo de inaudível. “Ascension” não se trata apenas de um tratado sobre a emoção em estado bruto; a obra condensa a experiência, a procura incessante, as crenças espirituais, as obsessões e o ideário de um homem e da sua música revolucionária, que tem inspirado legiões de improvisadores em todo o mundo.
O trabalho a que se propuseram os quatro cavaleiros do ROVA Saxophone Quartet (Bruce Ackley, Steve Adams, Jon Raskin e Larry Ochs) a que juntaram um distinto grupo de improvisadores para o colossal empreendimento – Rova::Orkestrova presents John Coltrane's Electric Ascension – traduziu-se num passo enorme e de elevado risco, pois estava em causa a ideia de, através de novos arranjos, reinterpretar uma das mais prodigiosas concentrações de sons articulados do Jazz do Séc. XX. E outro passo mais à frente relativamente à primeira versão, datada de 1995 (John Coltrane's Ascension - Rova Saxophone Quartet, edição Black Saint), pelo lado apoteótico e pela descida aos subterrâneos mais profundos que a equipa de exploradores dirigida por Larry Ochs logrou conseguir. A aposta, tal se pôde constatar em 2003, quando o projecto foi finalmente estreado e registado em disco, resultou inteiramente ganha e sucessivamente confirmada de então para cá numa série de concertos na qual se incluiu a abertura da edição de 2006 do Jazz em Agosto, Festival Internacional de Jazz da Fundação Calouste Gulbenkian, que este ano “celebra a vertente histórica de John Coltrane, nascido em 1926 e desaparecido em 1967, uma presença que o jazz contemporâneo faz perdurar” (do Programa). No palco do Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação, co-dirigida por Jon Raskin e Larry Ochs, tivemos uma versão de Rova:Arkestrova que, além do quarteto de saxofones nas variantes soprano, alto, barítono e tenor, incluiu o japonês Otomo Yoshihide (Ground Zero, New Jazz Orchestra/Ensemble/Quintet), o guitarrista californiano de Los Angeles, Nels Cline (Wilco, Nels Cline Singers, etc); Fred Frith, guitarrista exímio, aqui em baixo eléctrico, tal como no Naked City, de John Zorn), a violinista Carla Kihlstedt (Tin Hat, Sleepy Time Gorilla Museum, John Zorn, Roscoe Mitchell, etc); uma segundo violino, Jenny Scheinman (Bill Frisell, Cecil Taylor). Fora do baralho de 2003 mas fazendo parte do line-up de 2006, Andrea Parkins (acordeão e samplers) e o baterista Tom Rainey – membros do trio que, com Nels Cline, a 4 de Agosto actua à mesma hora e no mesmo local –, o trompetista japonês Natsuki Tamura e o mestre alemão da improvisação electrónica Thomas Lehn, que já haviam participado no projecto em 2005, numa presentação em Wels, Áustria.
Entre as investidas potentes do colectivo de 13 músicos, que chegaram a alturas tamanhas, minuciosas construções se foram erguendo, montículos de sons electrónicos agitados pela trepidação da secção rítmica de Fred Frith e Tom Rainey, a demencial e tortuosa corrente eléctrica da guitarra de Nels Cline em diálogo esquizóide ora com o acordeão de Andrea Parkins, ora com as cordas dos violinos, o tempero ácido e eficaz da electrónica de Thomas Lehn e do turntablismo de Otomo Yoshihide, que pontuava com acerto as descargas cintilantes do trompete de Natsuki Tamura, a dinâmica balanceando entre o “a todo o vapor” e andamentos mais tranquilos, que nalguns casos evocaram latitudes musicais como o Mediterrâneo e o Médio Oriente, solos energéticos de múltiplas formas e movimentos texturais, o regresso à inquietante bonança para de novo retomar a grande massa das descargas de electricidade em regime de alta tensão.
Um pequeno esforço de concisão nalguns dos quadros desta imensa exposição, que passou para além da hora habitual, teria apenas aperfeiçoado um pouco mais uma prestação de se lhe tirar o chapéu. Como dispensável teria sido a apresentação de um novo arranjo de “After de Rain”, também de John Coltrane, após ter sido servido um prato com aquela magnitude. Se tivessem invertido a ordem dos factores este ligeiro reparo deixaria de fazer sentido.
Mais do que exímia na arte de entender e transformar a gramática de John Coltrane, a Rova::Arkestrova é extraordinária no modo como descobre e revela segredos e detalhes recônditos de uma obra monumental, peça central do legado de um dos maiores criadores do jazz de sempre. Profundo, gigantesco e fascinante trabalho de transformação e transfiguração que faz jus à inquestionável perenidade de “Ascension”. Para recordar com prazer (ou execrar) 100 anos que se viva.
Rova::Orkestrova - Electric Ascension
Quinta-feira, 3 Ago 2006, 21:30 - Anfiteatro ao Ar Livre da F. Gulbenkian
Variable Geometry Orchestra
ao vivo no Teatro D. Maria II, Lisboa
ernesto rodrigues, violin, viola; guilherme rodrigues, cello; hernâni faustino, double bass; sei miguel, pocket trumpet; eduardo chagas, trombone; miguel bernardo, clarinet; alípio c neto, tenor saxophone; nuno torres, alto saxophone; jorge lampreia, soprano saxophone, flute; rui horta santos, electric guitar; armando pereira, accordion; adriana sá, electronics; rafael toral, electronics; travassos, tapes; césar burago, percussion; monsieur trinité, percussion; josé oliveira, drums - 25/06/2006. gravação de rafael del pozo. cortesia de abdul moimême.

Eri Yamamoto na Blue Series da Thirsty Ear, a editora independente norte-americana que tem como curador outro grande pianista, Matthew Shipp. Yamamoto, a pianista de “Luc’s Lantern”, disco recente do trio de William Parker, com Michael T. A. Thompson, também editado pela Thirsty Ear. As boas companhias em que a senhora anda. “Cobalt Blue”, com David Ambrosio, contrabaixo, e Ikuo Takeuchi, bateria, o seu habitual trio de piano inspirado nas subtilezas bop de McCoy Tyner, Keith Jarrett ou Herbie Hancock, sem imitação. Seis composições originais, uma de Cole Porter (I Love You), outra de George Gershwin (They Can't Take That Away from Me) e uma melodia tradicional japonesa constituem o refrescante programa de “Cobalt Blue”.

O Troy não me deixa mentir...
«The IMI Kollektief demonstrates the global power of improvised music's appeal, specifically that strain lovingly referred to as jazz. Supported by an abiding preference for boisterous free-bop, the IMI Kollektief traffics in a menagerie of sonic pleasures. Brazilian tenor saxophonist Alípio Carvalho Neto, French trumpet player Jean-Marc Charmier, Belgian vibraphonist Elsa Vandeweyer and the Portuguese rhythm section of bassist João Hasselberg and drummer Rui Gonçalves deliver a feisty program of infectious melodies infused with pneumatic swing.
Taken from a line by Seamus Heaney, Snug As A Gun is a thrill ride through histories both real and imagined. The sprightly circus-theme bounce of “Proof Boum Boum” and the title track invoke the sort of manic, noir inflected chase music so fondly adapted from Raymond Scott by such visionaries as Phillip Johnston and John Zorn for their genre-pillaging works. But this ensemble doesn't rely on cut and paste tricks for shock value, their's is a wholly organic approach. Unafraid of tradition, the ensemble mines rich territory with Vandeweyer's vibes evoking the experimental zeal of the more adventurous 1960's Prestige and Blue Note sessions.
The ostensible leader of the ensemble, Neto's Brazilian heritage materializes on occasion, such as on the driving “Thierry na Caatinga.” Many of the tunes' quirky angularities and oddball meters invoke the influence of Steve Lacy. Oscillating between deconstructed funk rhythms, sprightly group interplay and energetic swing, “The Hole in My Sole” blends divergent genres. With whip smart horn charts, propulsive rhythms and energy to spare, the IMI Kollektief premiers with a bang».

O
veterano saxofonista sueco Lars-Göran Ulander publicou há pouco tempo um disco muito interessante na Ayler Records. Ouvido o disco, só se pode a gente espantar com o facto de este “Live at Glenn Miller Café”, gravado em duas noites de Agosto, em 2004, ser o primeiro que Ulander, realizador de programas para a Rádio Nacional Sueca, gravou como líder – ele que desde 1963, discretamente, tem vindo a acompanhar músicos suecos, os mais internacionalmente reconhecidos dos quais sejam o pianista Per Henrik Wallin e o percussionista Sven-Åke Johansson, tendo ainda participado numa gravação do Phil Minton Quartet.No caso vertente, o do Glenn Miller Café – clube de Estocolmo que o produtor Jan Ström refere como sendo o seu “number one studio’” – Lars-Göran Ulander, o autodidacta que estudou Arnold Schoenberg e Paul Hindemith, surge à cabeça de um power trio que tem como restantes vértices o extraordinário baterista Paal Nilssen-Love e o “histórico”, mais conhecido por via da alemã ECM, Palle Danielsson, contrabaixista que acompanhou Keith Jarrett, Charles Lloyd e outros grandes nomes. Temos então Lars-Göran Ulander, músico nas horas vagas, totalmente amador, a entender-se na perfeição com os outros parceiros pro, mesmo nunca antes tendo tocado juntos, salvo o curto ensaio de som realizado à boca de cena, para preparar o único tema não totalmente improvisado da sessão.
O desafio a que o trio se propôs foi o de explorar temas de estrutura completamente aberta, entre o free e o modal, se se quiser, conseguindo manter a fervura sempre em lume brando, qualquer que seja o andamento. A música beneficia da assertiva comunicação de Danielsson e Nilssen-Love, que amparando a colocação das camadas de saxofone alto, suporta uma proveitosa conversação a três, inspirada no rasto que nos deixaram Dolphy, Ornette e McLean. E Mingus, cujo “What Love” recebeu um tratamento que, por si só, mereceria a audição do disco, um dos melhores que ouvi este ano. Boa notícia é também que este grupo, ante os resultados artísticos obtidos, resolveu continuar a trabalhar, o que aconteceu em 2005 e prossegue em 2006.


Art Ensemble of Chicago, ao vivo em 2004 no Iridium jazz Club. Seis noites de concertos resumidas pela Pi Recordings às duas horas de um CD duplo, "Non-cognitive Aspects of the City - Live at Iridium", gravado entre 30 de Março e 4 de Abril no clube nova-iorquino. Da lendária formação resistem Roscoe Mitchell, Joseph Jarman (tirou uma sabática e voltou a entrar) e Famoudou Don Moye, que entrou para o AEC em 1970. No lugar de Lester Bowie (1941-1999), Corey Wilkes; no de Malachi Favors Maghostut (1937-2004), Jaribu Shahid. O espírito AACM permanece o mesmo, tal como a divisa "Great Black Music Ancient to the Future".