Jez Nelson apresenta na edição de hoje do Jazz on 3 dois concertos taludos: primeiro, o power trioTyft, liderado pelo guitarrista islandês Hilmar Jensson, com os norte-americanos Andrew D'Angelo e Jim Black, seguido do quarteto nova-iorquino do saxofonista alto Rudresh Mahanthappa (Vijay Iyer, François Moutin e Dan Weiss), ambos gravados no mesmo local: The Wardrobe, em Leeds, Reino Unido.A partir das 11h30 PM de Londres.
«The earliest tape used comes from 1982 and the most recent is ten years old. AER is/was a name I gave to sound recordings on the Touch samplers (in particular) & this is an opportunity to "clear the cupboards" and make the best of them available in one location. None of them benefit from studio production; now that sound mastering software is relatively easy to come by, I suppose part of the point is that they are all cassette or minidisk recordings assembled on basic equipment. The main point is the personal experience involved» - Jon Wozencroft.
«Vou fazer três concertos com o meu novo projecto. São os Afterfall, do qual fazem parte Sei Miguel (trompete), Joe Giardullo (sax soprano), Harvey Sorgen (bateria) e Benjamin Duboc (contrabaixo). Estive Setembro passado em Woodstock, na casa do Joe Giardullo, de quem sou amigo há já alguns anos, e lá conheci o Harvey Sorgen. Estivemos a tocar um dia e foi muito fixe. Combinámos tentar arranjar uma oportunidade para concretizar este projecto. Nessa altura levei o disco Tone Gardens do Sei [Miguel], já com a pulga atrás da orelha, pois andava a tentar fazer um projecto que incluísse o Sei, e este pessoal é o ideal para o fazer. Falei com ele, que ficou entusiasmadíssimo, e portanto aí está. A música vai ser de improvisação total. O Benjamin despertou-me a atenção através dos discos (nomeadamente, um que ele tem na Creative Sources) e quando cá esteve no CCB resolvi convidá-lo. E pronto, vamos ver o que acontece». - Luís Lopes
Yesternow, Part 1 -> Right Off -> Agharta Prelude Black Satin
Great Ancestor, Part 1 -> Calypso Frelimo -> Ife -> Great Expectations -> Right Off, Parts 4 & 5 Encore: Hollywuud / Big Fun
Henry Kaiser / Wadada Leo Smith / Zakir Hussein / Michael Manring / Nels Cline / Chris Muir / Alex Cline / Tom Coster / ROVA Saxophone Quartet: Bruce Ackley, Steve Adams, Jon Raskin, Larry Ochs.
Trills de regresso à Archaic Horizon. Em 'Fetal Discoveries', Jonathan Jindra (Trills) entrega-se ao trabalho exclusivamente com sintetizadores vintage, dos quais saca os sons mais psicadélicos, fluidificados e fluorescentemente pró-setentistas que por aí circulam.«This beautiful sonic narrative flows from song to song, greatly enlivened with Trills infused and energetic style. He has injected even the softer ambient songs with electricity, creating a brilliant depth and character in each synth. Add to this alluring, projected and thematic array of imagery, and 'Fetal Discoveries' becomes a memorable album that won't be easily forgotten».
A sueca Ayler Records, editora independente dirigida por Jan Ström, pioneira dos discos digitais, anuncia a edição da segunda Digital Box. A sequência iniciou-se com o guitarrista e artista plástico nova-iorquino Jeffrey Hayden Shurdut. O segundo a ver o seu trabalho publicado por esta via é o saxofonista canadiano François Carrier. A edição inclui o liner book em formato PDF, para descarga.
«(...) Maybe it doesn't matter. Maybe jazz really is dead. Or perhaps Frank Zappa's diagnosis was correct, and it merely smells funny. Call me a cock-eyed optimist, but I happen to think the outlook is good. Jazz musicians of all stripes have spent the post-Jazz Wars era forging ahead with smart, visceral music that is reaching a new audience—our grounding in jazz fundamentals actually makes it easier for us to reach across genre barriers and engage with the wider musical culture, as jazz musicians have been doing throughout the music's history. The wounds inflicted during the Jazz Wars are already healing, and I suspect we will survive the current economic crunch as well. But even if the doomsayers are right, and jazz has, at long last, shuffled off this mortal coil, then let's at least have the decency to give her an honest autopsy».
Novidade na Musica Excentrica: o catalão Joan Bagés i Rubi apresenta um conjunto de quatro variações electroacústicas em torno dos universos de Xenakis e de Stockhausen. "These four pieces collect some of my ways of sound work, pieces for solo instrument, pieces for ensemble and pieces for interactive music and electroacoustic music."
Guitarrista originário de Chicago, residente em Madison, Wisconsin, EUA, Scott Fields tem estado muito activo, dando forma a uma das mais sofisticadas concepções musicais da actualidade nos domínios do avant-jazz e da música improvisada. Fields traçou para si próprio uma via original, que aponta em direcções diferentes das marcas mais distintamente assinaladas no panorama dos últimos 20 anos. O seu estilo não é o de um guitarrista típico do jazz, tradição que nem sequer bebeu no leite materno. Neste aspecto, e no que ao tratamento das seis cordas diz respeito, a sua fala apresenta mais afinidades com o discurso pianístico pós-Cecil Taylor, a partir do qual as noções de composição e improvisação passaram a misturar-se de forma homogénea. Nos últimos tempos Scott Fields tem investido muito do seu potencial e energia criativa em inúmeros projectos que exploram diferentes ideias, formatos e concepções ligados a outras tantas vertentes da música improvisada, com ligações, ainda que por vezes remotas, ao jazz. Sem contar com This American Life, gravado em quarteto (Scott Fields, Sebastian Gramss, Scott Roller e João Lobo) e editado este ano pela NEOS, Drawings, a mais recente saída de Scott Fields na Creative Sources Recordings (CS130), encontra o artista em plena exposição, como solista e orquestrador. A ideia de gravar este vasto conjunto de miniaturas para guitarra eléctrica Gibson SF-336 (Scott Fields Signature), numa longa sequência em que aparecem ligadas ombro a ombro, nasceu do encontro com o artista plástico alemão Thomas Hornung, no decurso duma residência artística algures nos Alpes Suíços. Depois de observar o processo criativo de Hornung, que desenha linhas finas a carvão sobre papel A4, ocorreu-lhe a ideia de incorporar os desenhos num projecto conjunto com o videastaArno Oehri, que também tomou parte na concepção. A ideia seria converter desenhos e esquissos numa partitura gráfica, com recurso à rica e variada sintaxe musical que a guitarra eléctrica adquire nas mãos de Scott Fields. Para este projecto, que tomou forma a partir de 2004, das 254 takes inicialmente gravadas, de que permaneceram 171 após triagem, Fields utilizou um conjunto de 98 peças, cuja duração varia entre os 7 segundos e pouco menos de 1 minuto. O fraseado da guitarra, além de breve, é simples e de traço fino e esguio, tal como nos esquissos de Hornung. A edição inclui ainda um vídeo de 55 minutos realizado por Arno Oehri, intitulado 301 Miniaturen. Enquanto obra de arte, no seu conjunto, Drawings acaba por ser uma realização interactiva de três artistas, a partir dos desenhos de um deles. Musicalmente, expõe uma faceta muito interessante e porventura menos conhecida de Scott Fields: o trabalho a solo conceptual sobre as seis cordas electrificadas.
posted by eduardo chagas
@ 26.8.08
«Sebastian Peter's 20 minute piece ‘Fließen’ was originally produced as a 8-channel sound-installation at Müllersches Volksbad, Munich and has been part the Natalie Singer ‘Well(e)ness’ radio art project at Bauhaus-University Weimar in early 2008. The composition is split into 5 parts each reflecting on water as a subject of environmental awareness, using field/water-recordings and digital sound. Peter slowly changes the sound of ‘Fließen’ by turning the clean image of sparkling waters into some muddy puddle, tempting to question our ideas of water as a free natural resource. While the original 8-channel installation was based on the tonal and spatial fragmentation (and continuous compression and of both sound and room) the new 2-channel version has reduced these features to stereo working best with headphones. Sebastian Peter currently lives in Weimar, Germany, studying and working in the fields of philosophy, electroacoustic music and media design. Cover artwork by Moritz Wiegand». - Frozen Elephants Music
A abertura do segundo ciclo de concertos da 25ª edição do Jazz em Agosto (o primeiro já havia sido aqui comentado), coube ao sexteto do trompetista norte-americano Taylor Ho Bynum. Músico de primeiro plano, ainda está a crescer como compositor e trompetista. Nesta última faceta, Bynum é capaz de pôr o instrumento a cantar ou simplesmente a produzir ruído abstracto, num idioma de muitas formas e complexidades. Quem tinha dúvidas deixou de as ter: a escrita e improvisação de Bynum é assumidamente marcada pelo trabalho do seu mentor e principal influência artística, Anthony Braxton, exprimindo-se por vezes numa tonalidade que vai buscar referências ao lado mais escuro de Bill Dixon. O contexto em que se exprime apresenta um tipo de formação fora do comum, com duas guitarras eléctricas (Mary Halvorson e Evan O'Reilly), viola/baixo eléctrico (Jessica Pavone), saxofone tenor/clarinete (Matt Bauder) e bateria (Tomas Fujiwara), de resultados interessantes, com solos incisivos sobre estruturas temáticas que se iam moldando à medida em que se explanavam, por entre linhas melódicas simultâneas em tons de calipso, rock e avant-jazz, elementos que entram na composição do jazz de câmara do sexteto, tal como soa em The Middle Picture, disco saído na Firehouse 12, em 2007. Ao longo dos temas, entre eles uma longa suite dedicada a Braxton, preponderou o som contrastante das guitarras, colocadas em cada um dos extremos da panorâmica – O’Reilly mais seco e roqueiro; Halvorson em afirmações de delicadeza robusta e sensibilidade angular – a fazer “cama” para a elaboração dos sons acústicos de cordas e sopros, com Bauder em noite inspirada, face a uma Pavone discreta e mais convencional, sob a marcação cerrada da bateria em modo de malha apertada. Um desacerto aqui ou ali, minudências sem importância, não chegaram para estragar a desafiante prestação do sexteto, talhado para ser ouvido noutro tipo de ambiente, de preferência dentro de portas.
Memorize the Sky, trio do saxofonista Matt Bauder, do contrabaixista Zach Wallace e do percussionista Aaron Siegel. Juntos, levam uma década de trabalho na procura do ponto de equilíbrio para a música que fazem. Graficamente, poder-se-ia representar graficamente por uma linha contínua e maleável que segue ao sabor da onda e vai sendo modelada através da adição ou subtracção de elementos, sem saltos bruscos, nem súbitas alterações morfológicas. Devagar, em passo lento e seguro, quase sem se dar por ela, a música instala-se e interpela quem a ouve. Há na música do Memorize the Sky um efeito ilusório que poderia sugerir facilitismo. Bem pelo contrário, é na austeridade da proposta, no minimalismo gestual e sonoro, fruto duma depuração que só o tempo, a estabilidade e a rodagem enquanto trio permitiriam, que reside o potencial exploratório das múltiplas relações tímbricas. É do suave desdobrar da cor em diferentes matizes e sobreposições, que nasce a profundidade da interacção instrumental e se monta o jogo com a percepção auditiva da assistência. Cativante, esta forma personalizada de música improvisada de base acústica, que se alimenta de tantas influências que é virtualmente impossível nomeá-las. Nem isso teria qualquer interesse. Mas é algures entre a música de câmara contemporânea e o jazz exploratório, que o Memorize the Sky crava e desfralda a sua bandeira.
Sylvie Courvoisier e o grupo Lonelyville vieram a Lisboa mostrar a sua música de câmara concertante. Excelente, dirão uns, aborrecida e entediante, direi eu. Essencialmente concentrada num tipo de desenho melódico extremamente ornamentado, a música que se ouviu resultou num pastiche saturado e saturante, um exercício de estilo que usa e abusa do arranjo supérfluo e esteticamente passadista, demasiado presa a uma estrutura de malha apertada que sufoca e não deixa entrar o ar. A fórmula, rígida nos pressupostos e explanação de ideias, permite antecipar que o concerto de hoje possa soar precisamente igual ao de amanhã, e assim sucessivamente, tirados a papel químico. tal como os solos sacarinos de Mark Feldman e Vincent Courtois, ambos no pior estilo de improvisação, avelhentado e passadista. Lamentavelmente, esta música não fala à mente nem ao coração, não faz sonhar nem transporta para lado algum, a não ser até ao bar mais próximo, para longe daquela coisa desengraçada. E que andava Gerald Cleaver (!) a fazer ali? Que faziam os bichinhos electrónicos de Ikue Mori, além de amarinhar pelos móveis de estilo e sujar um pouco aquele brinquinho de limpeza e irrepreensível arrumação suíça? Nada. Enfim, muito chata esta concepção de Madame Feldman, longe de outros fulgores bem mais apelativos. Causa perplexidade pensar que foi esta a mesma pianista que esteve no Jazz em Agosto de 2006, em triângulo com Ikue Mori e Susie Ibarra, o trio Mephista, grupo que deixou uma das melhores e mais duradouras impressões daquela edição. O algodão engana, afinal. A favor do pastelão “Lonelyville” e da sua gramática demasiado canónica e classizante, contou a competência dos músicos, todos eles exímios. O que, não se questionando, não chega para pintar um bom concerto. Nem vale a pena gastar mais tempo com isto.
Para meu gosto, outra das grandes e suculentas surpresas – talvez antes a confirmação de que a proposta poderia funcionar e de que a expectativa criada à sua volta faria sentido, ou se, pelo contrário, à maneira dos políticos, não passaria de promessa incumprida – chegou através da circunstancial associação do acordeonista francês Pascal Contet, homem de muitos mundos musicais, de Boulez à dança, e do contrabaixista norte-americano Barre Phillips, um veterano de 74 anos que tem um curriculum como provavelmente mais ninguém hoje no activo. Phillips, além de ter tido uma belíssima prestação nos diálogos com o acordeão, foi desconcertante e comovente na maneira afável e delicada como tocava as cordas do contrabaixo, sem um som a mais que fosse, sempre na justa medida de entoação e intensidade que cada momento requeria. Contet… que prodigiosa figura de músico improvisador, jovem, se comparado com Barre Phillips, mas pleno de sabedoria e respeito pelo parceiro de duo com quem partilhava o primeiro encontro em público. Sensacional e um dos melhores e mais emocionalmente compensadores momentos do Jazz em Agosto.
A fechar o ciclo, o Peter Brötzmann Chicago Tentet, designação que abriga um extraordinário grupo de músicos. Onze, como numa equipa de futebol, e não dez, como o nome faria supor. Brötzmann põe-se de fora? Não, ele é o maestro visível e invisível, o arquitecto deste edifício de sólidos alicerces, que tece as mais inebriantes relações espácio-temporais. É do centro da terra que lhe vem a energia que há 10 anos a esta parte envolve algumas das mais importantes figuras da música improvisada actual, versados todos no vernáculo do free jazz / improv. Não sei se foram tocadas duas ou três composições; sei apenas que foi hora e meia seguida de concerto, que teve de tudo: sopro titânico a plenos pulmões, diálogos excruciantes de Brötzmann à vez com os seus rapazes (enquanto, à distância e em segundo plano, Ken Vandermak dirigia as harmonizações); secção rítmica variada e complexa (contrabaixo, violoncelo e duas baterias), solos, duos, trios a arrumar e a desarrumar a loja, dispersão em cromatismo multicolor – aspectos postos em evidência pelas constantes permutas de posicionamento dos elementos móveis, pelas constantes variações dinâmicas, ora em combustão lenta, ora em explosão instantânea. Acima de tudo, valeu a força colectiva em cujos trâmites o Peter Brötzmann Chicago Tentet impressiona toda a gente, aficionados, iniciados e eventuais curiosos, com as suas inflexões e vertiginosas assimetrias. Música com memória, não deixa de convocar para este tempo ecos dos sons primaciais do que se veio a chamar jazz, é também uma música do presente e do futuro, reconhecível no acto de saber olhar retrospectivamente para os 10 anos de actividade, fermenta e deixa perceber que há espaço para maravilhar. E assim foi: de cada vez que tocava a reunir e o passo do groove acelerava, sentia-se emergir uma vibração que parecia vir do centro da Terra – outro nome para a alegre vitalidade desta música que fez a festa de encerramento do Jazz em Agosto/2008, aquela que certamente perdurará na memória de quem assistiu aos concertos, e que a guardará como uma das melhores edições dos últimos anos, pela elevada qualidade artística das propostas.
O conceito-base foi e continua a ser o da viagem de comboio pelas pampas argentinas. O projecto sonoro The Cherry Blues Project, desenvolvido a partir de Buenos Aires, Argentina, pelo duo homónimo de artistas da música experimental, arte sonora e videoarte. O trabalho foi originalmente publicado pela netlabel Audioatalaia em 2001, sob o título original de El Viaje Mistico. A ideia era apresentar o trabalho dos artistas sonoros portenhos, realizado a partir de gravações de campo e outros sons, conscientes e acidentais, ruído esparsos e fundos electrónicos relacionados com o mote principal: uma viagem de comboio pela Argentina. Em 2007 a netlabel berlinense Resting Bell pôs mais carvão na máquina e retomou a jornada com duas novas saídas, El Viaje Revisited Vol.1 e El Viaje Revisited Vol.2. Mas a viagem não terminou. De volta ao assunto, o projecto The Cherry Blues Project pediu entretanto a quarto artistas sonoros – Mensa, Jc+Gk, Peacemaker e Adrián Juárez – que pegassem no material conhecido e lhe dessem a volta que entendessem. As remisturas obtidas, a que se soma um tema inédito (Metitaciones Pt. 1), fazem parte da mais recente edição da Resting Bell: The Cherry Blues Project - El Viaje Remixed.
«Resting Bell is a netlabel. The presented music should be meditative, experimental, electric, peaceful, beautiful, exciting, acustic or grounding. It could be nearly anything».
Evan Parker, Agusti Fernandez, Paul Lytton, Joel Ryan, Marco Vecchi, Walter Prati, Philipp Wachsmann, John Edwards, Lawrence Casserley, Richard Barrett, Paul Obermayer
THE HELIOCENTRIC WORLDS OF SUN RA, VOL. 1 & 2 (ESP-Disk, 1965).
Em 1964, Bernard Stollman, fundador da ESP-Disk, propôs a Sun Ra a gravação de um disco. Sun Ra aceitou, e para dar ao produtor uma ideia do que tinha em mente, convidou Stollman para um concerto no seu loft, em Newark. Conta-se que Stollman ficou deveras impressionado com a performance do grupo e os pormenores ficaram logo apalavrados. No ano seguinte, a 20 de Abril, Sun Ra gravava Heliocentric Worlds, Vol. 1, e, sete meses mais tarde, a 16 de Novembro, Heliocentric Worlds, Vol. 2, algo que se supõe muito próximo do que fez Bernard Stollman querer registar a Arkestra numa época em que o afro-futurismo começava a dar os primeiros passos. Nesta segunda data, Sun Ra gravou material que não coube no LP original da ESP-Disk. As bobines com o remanescente andaram perdidas mais de quarenta anos, até recente descoberta e edição sob o título Heliocentric Worlds, Vol. 3 - The Lost Tapes. No total, os três volumes reúnem alguma da melhor música de sempre do homem de Saturno. Os dois primeiros regressaram à terra em reedição ESP-Disk de 2006.
Heliocentric; Outer Nothingness; Other Worlds; The Cosmos; Of Heavenly Things; Nebulae; Dancing in the Sun; A Sun Myth; A House of Beauty; Cosmic Chaos.
Sun Ra (piano, celesta, teclados, marimba, bongos, timpani); Marshall Allen (flauta piccolo, saxofone alto, percussão, bells); Danny Davis (fauta, saxofone alto); Robert Cummings (clarinete baixo, percussão); John Gilmore (saxofone tenor, timpani); Pat Patrick (saxofone barítono, percussão); Walter Miller, Chris Capers (trompete); Teddy Nance (trombone); Bernard Pettaway (trombone baixo); Ronnie Boykins (contrabaixo); Jimmi Johnson (timpani, percussão); Roger Blank (percussão).
Nascido em 1978, na Áustria, Neubau (conhecido nas horas normais de expediente por Arno Steinacher) desenvolve ideias ligadas ao pós-serialismo, que têm a ver com a aplicação de modelos matemáticos à criação musical, numa perspectiva menos laboratorial que aquela em cujo modelo se inspira - Studio für Elektronische Musik, Colónia, Alemanha, anos 50. Neubau procura conciliar este tipo de visão com outra em que é notória uma maior flexibilidade e variedade tímbrica e textural, com um desenho sonoro menos artificial e mais humanizado, que conjuga elementos dos mundos campestre e industrial, temperados de melancolia crepuscular. A ideia do compositor é criar impressões sonoras e visuais no ouvinte à boleia de clusters de sons naturais e fabricados pelo homem (as "mathematical sound rooms", além da presença da voz humana), nascidos de processos idênticos aos que se encontram na análise microscópica, na biologia molecular, nos modelos evolutivos, etc. Serialismo de rosto humano para o Séc. XXI? Pode ser.
Afiliado da Krabbesholm School of Art and Architecture, o dinamarquês Peter Bach Nicolaisen, sob o nome artístico de Stormhat, retoma o seu mundo particular de micro-organismos com os quais compõe sequências de imagens que revestem uma natureza mista de real e inventada. 'The Green Machine', saído na netlabel austríaca bleak, é um produto sensível e inteligente, trabalhado com o estado da arte da tecnologia digital, em que convivem sons híbridos de pássaros sintéticos, habitantes duma floresta de partículas de vidro, plástico e metal, com ruídos orgânicos, urbanos e industriais. Metabolismo complexo este, em que o produto de uma reacção é utilizado como reagente no momento seguinte. Postos em acção, os sons formam uma interessante narrativa biotecnológica de complexa construção.
«Stormhat is Peter Bach Nicolaisen from Denmark. Peter started out as an intellectual and has a university degree in history.in arts, his first works were psychedelic, op-art minimalistic paintings, while living in copenhagen. using canvas to express dreams and thoughts gained him a lot of reputation and fame. He then moved to jutland, to work as teacher in the krabbesholm schoold for art, architecture and design. he started a project around his garden, where he grows psychotropic and medical plants (amongst others more common as well), recording sounds and trying to catch atmosphere and different realities.he likes the mixture between the ugly and the beautiful, noise and silence, chaos and structure, time and space. The Green Machine is a mind soundtrack, a journey into different mindstates, an approach to transform awareness, trance, thinking and forgetting into soundscapes».
"Recorded at Atlanta's historic Fox Theater on July 5 2008, Tom Waits delivers a stunning and epic two-and-a-half hour performance, including songs he says he's never attempted outside of the studio before. Backing Waits is a five-piece group featuring Seth Ford-Young (upright bass), Patrick Warren (keyboards), Omar Torrez (guitars), Vincent Henry (woodwinds) and Casey Waits (drums and percussion). "They play with racecar precision and they are all true conjurers," says Waits. "They are all multi-instrumentalists and they polka like real men." - NPR Live Concerts Podcast.
Encerrado o primeiro ciclo do Jazz em Agosto/2008, este ano sob o mote das “Extensões”, importa fazer o balanço dos quatro concertos que decorreram entre sexta-feira (1/8) e domingo (3/8). Otomo Yoshihide New Jazz Orchestra. Programa quase preenchido na íntegra com a releitura de Out To Lunch de Eric Dolphy, apresentação que teve por base o disco homónimo editado em 2005 na Doubt Music, revisto e aumentado com as gravações de 2005 e 2006, em Tóquio e Berlim. Nesta reformulação da ONJO pontificam o alemão Axel Dörner (trompete), o holandês Cor Fuhler (piano) e o sueco Mats Gustafsson (saxofone barítono). Primeiro que tudo, é preciso uma boa dose de atrevimento e de competência criativa para deitar mãos à obra de Dolphy com o objectivo programático de acrescentar alguma coisa de relevante à música que o compositor fixou no disco de 1964, que ficaria para a história como a sua obra-prima absoluta. Otomo Yoshihide, homem que vem de fora do jazz (é ele o mentor da lendária formação de rock japonês, Ground Zero), já tinha mostrado ser o homem certo para o empreendimento, facto que veio confirmar no concerto de abertura do Jazz em Agosto/2008. As versões de Hat and Beard; Something Sweet, Something Tender; Gazzelloni; Out To Lunch e a melhor interpretação da noite, Straight Up and Down, respeitando embora o desenho melódico original, mal soltavam âncora, transfiguravam-se, para, com assinalável vocação exploratória, pelo lado experimental do free jazz moderno, descobrir diferentes perspectivas de encarar a temática original tal como no-la deixaram Eric Dolphy, Freddie Hubbard, Bobby Hutcherson, Richard Davis e Anthony Williams. Mais do que acrescentar-lhes movimento, colorido e extravagância, a ONJO virou-as literalmente do avesso. É certamente pelos caminhos mais atrevidos do jazz actual que segue o trabalho de Otomo Yoshihide com a ONJO, somando elementos que não faziam parte do original, como guitarra, voz, sho, electrónica e ondas sinusoidais, albergando tudo numa linguagem musical mais vasta e abrangente, que petisca à vontade no rock, na electroacústica noise/near silence, e na tradição japonesa, fosse ela antiga ou pop dos anos 60 – mistura dificilmente categorizável. Ao vivo assistiu-se ao trabalho de reelaboração estética dos japoneses, mais Axel Dörner, Cor Fuhler e Mats Gustafsson, com flexibilidade, imaginação e expressividade. Ficou como o melhor concerto da primeira parte do Jazz em Agosto/2008.
Aguardava com expectativa positiva o concerto do Min-Yoh Ensemble, grupo liderado pela excelente pianista japonesa Satoko Fujii, o que se veio a revelar o momento mais fraco deste primeiro segmento do festival. Executando um reportório que emerge duma leitura personalizada da tradição folk japonesa, uma reinterpretação dos clássicos, se se quiser, Fujii melhor teria feito se se tivesse escolhido outra geometria, apresentar-se em solo absoluto ou em duo com o trompetista Natsuki Tamura, e outro teria sido o resultado, já que havia manifestamente dois elementos a mais no palco do Anfiteatro ao Ar Livre. O trombonista Curtis Hasselbring, algo duro e pouco flexível na enunciação das linhas melódicas e na improvisação, não ajudou à fluidez do conjunto, emperrando o desenvolvimento de um música algo triste e bisonha, que requeria ser tratada com delicadeza. Neste aspecto, a acordeonista nova-iorquina Andrea Parkins, em noite desastrada (seria do jet lag?), insistia em empurrar o quarteto para a beira do abismo, tantos foram os desacertos, entradas fora de tempo, feed-backs, e em particular, a utilização ruinosa dos pedais de efeitos, que nada de positivo acrescentou para evitar o flop do som colectivo.
Surpresa agradável, pela qualidade musical, descontracção e descomprometimento, veio do trio PAAP (ex-Radar), composto por Makoto Inada (contrabaixo e voz), Yasuhisa Mizutani (saxofones alto e soprano) e Koichiro Katori (piano). Praticantes de um estilo híbrido de muitas matrizes, da música de câmara contemporânea, à improvisação dissonante e intencionalmente cacofónica, os japoneses tiveram uma prestação refrescante pela originalidade com que trataram tempo e espaço, e pelo uso espirituoso do ruído, das mutações dinâmicas inesperadas e das vocalizações ásperas, evocativas do teatro e da ópera japoneses.
Guerrilheiro militante sem causa, John Zorn despejou carregador atrás de carregador, numa fuzilaria de saxofone-metralhadora, imagem de marca que combina com as calças de camuflado que enverga habitualmente. Zorn é uma marca registada reconhecível em qualquer parte do mundo, até nos seus inúmeros imitadores. Não pondo em causa a sua competência como saxofonista e compositor, de quem conheço os momentos mais relevantes de uma obra discográfica de proporções gigantescas, as mais da vezes – e esta foi outra dessas vezes – tenho dificuldade em sintonizar-me emocionalmente com a atroadora adrenalina zorniana, sempre a abrir, sempre a despachar, em sequências fulminantes de citações e de si próprio (referências judaicas incluídas), exageros formais vazios de conteúdo, por muito que se escave para além da superfície e se aprecie um bom espectáculo fogo de artifício, com tudo o que de atractivo possa ter em termos de luz, cor e som. Outra perspectiva possível de encarar o fenómeno (aquela que procurei adoptar, à mingua doutra) seria a de levar as coisas na desportiva e atender ao lado caricatural e iconográfico da persona, ao apelo da imparável saraivada, aos flashes de adrenalina e à vertigem da velocidade estonteante da montanha russa. Da guitarra de Fred Frith poder-se-á dizer quase o mesmo, com as devidas adaptações. Mais sóbrio e menos histriónico que Zorn, das suas mãos nasceram os melhores momentos da noite, pese embora o uso e abuso dos seus próprios clichés, quanto mais artifício, menos ideias. Porém, se faltaram comunhão e convergência, nem tudo foi “palha” para o espírito; nos solos absolutos, Zorn e Frith transcenderam-se, deixando para trás os tiques da vanguarda conservadora em que se encapsularam, em particular no último dueto, altura em que descansaram os cavalos e, apeados, deram a ouvir um peça de labiríntica delicadeza, qual oásis no meio da aridez de uma noite quente. Com mil raios e coriscos!
Segue-se a segunda parte do evento, a abrir com um concerto em que aposto bastante: Taylor Ho Bynum Sextet, amanhã, dia 7 de Agosto, às 21h30, no Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Gulbenkian. (Foto: Nuno Martins)
Com Plasma – Digital estreia uma nova net.video.label portuguesa: a OFF/BRUMA. «A OFF/BRUMA é uma emissora de frequências estranhas.As ondas sonoras contraem-se num misto de distúrbio e desejo do branco para assim contorcerem-se de torso despido. Frequências totais do espectro sonoro e além. OFF – Branco. BRUMA - Negro».
Page One: a column by Bill Shoemaker What's New?: The PoD Roundtable A Fickle Sonance: a column by Art Lange The Book Cooks: George E. Lewis Far Cry: a column by Brian Morton Moment's Notice: Recent CDs Briefly Reviewed Travellin' Light: Jessica Pavone Free Jazz: The Point of Departure Contest
Para consolo dos seus prezados clientes e amigos, dentro de semanas a ((Flur)) vai receber reposições das caixas de Charley Patton e de Albert Ayler, colecções que há uns anos a Revenant Records lançou no mercado. Falo obviamente de Screamin' and Hollerin' the Blues, do histórico bluesman Patton, e de Holy Ghost - Rare and Unissued Recordings (1962-70), do não menos histórico Ayler. Preço? Pois aí é que está: € 39,50 cada boxinha, com 7 e 9 discos, respectivamente, mais as brochuras e memorabilia que enchem as ditas até não caber nem mais um papelinho. A edição é limitada, pelo que quem não se aviou no tempo em que as caixas custavam os olhos da cara, tem agora uma oportunidade soberana de se reconciliar com os mundos desconhecidos de Patton e Ayler a preços desavergonhados, para não dizer escandalosos. Vigiai, pois, vós que estais interessados, porque mal aportem ao cais de Santa Apolónia, vão-se as caixas em menos de um ai, e adeus, minhas encomendas; ou adeus ó vindima, consoante os casos. Emailai a ((Flur)) para os pormenores do avio: loja@flur.pt
«A singular collection of disparate musicians presents a a blockbuster exploration of multi-genre splicing and improvisation. This collaboration features Big Sugar Victorious's Santo diRizzia on cassette manipulation and acousmatics, Beardtongue's Joshua Manchester on extended drum techniques, Insecticide Lobotomy's Josh Sherman on custom electronics and no-input mixer mojo, Don Butler of HUNKER DOWN ROY on low-frequency electro-acoustic oscillator, and Otolathe's K. Paul Boyev on analog subtractives. Ha, then they all trade rigs and proceed to fuck shit up even more. Then Otolathe takes the result and digitally denatures or otherwise adulterates this potent broth».
2 de Agosto, 20:30, Galería DF Arte - Rua de San Pedro 11, baixo (Santiago de Compostela); 5 de Agosto, 20:30, dentro de la Muestra ArtEx Sonora en el MACUF (A Coruña)
«Yolanda Uriz (flautas) y Ángel Faraldo (live electronics) comienzan a trabajar juntos en enero de 2007. Desde entonces, han venido explorando diferentes modos de relacionarse el uno con el otro a través de la improvisación libre. Actualmente trabajan en la creación de un sistema de interacción bidireccional donde ambos posean las mismas capacidades de influencia y control sobre el material del otro. Hasta la fecha, han presentado su trabajo en La Haya, Utrecht, Amsterdam, Atenas y Madrid. Además de su formación a dúo, colaboran regularmente con otros improvisadores en trío y cuarteto (Orlando Aguilar, Lynn Cassiers, Yedo Gibson). Ambos son miembros de The Hague Improvisers Orchestra».
Há leitores do Jazz e Arredoresque se queixam de não conseguir aceder ao conteúdo do blog. que obtêm uma mensagem de erro. Consultei o patrão blogger e fui informado de que está em curso uma contenda informática entre o Internet Explorer e o Sitemeter, pelo que quem visita sítios onde ambas as marcas estão associadas pode experimentar dificuldade ou total impossibilidade de acesso. Sugiro, por isso, que experimentem o Firefox. Verão a diferença. Isto, sem que tenha negócios com a raposa (nem com o gato)... Só um pouco de inveja dele, talvez.
Editada em 2005 pela Cut como Timelines, Timelines_NY é uma partitura gráfica de música electroacústica escrita por Jason Kahn para um grupo específico de improvisadores, constituído pelo próprio Jason Kahn, e por Tomas Korber (guitarra e electrónica), Norbert Möslang (cracked everyday electrónica), Günter Müller (ipod e electrónica), Christian Weber (contrabaixo) e Tim Barnes (percussão). A longa pièce de resistence tem uma duração total de duas horas, o que exige muito de quem toca e de quem se propõe ouvir. Escutada na sua inteireza e de uma assentada, tem tanto de desafiante como de emocionalmente compensador. Quem não está familiarizado com estas estéticas e durações convém que faça algum treino prévio. Sempre são duas horas sem interrupção. É quase como correr a maratona.A versão agora publicada foi gravada a 15 de Maio de 2007, na Issue Project Room, Brooklyn, Nova Iorque. Edição quinquagésima da cdr/netlabelCon-v.
«The musicians are free to interpret the score as they wish. I only ask them to adhere to the dynamic ranges indicated and the timing of when to start and stop playing.The duration of “Timelines_NY” serves to move these works towards more the idea of an environment than a performance. I would like both the performers and audience alike to enter a place where the idea of time passing recedes into the background; where the focus lies with the sound, on a continuum without beginning or end».
Ontem à noite, na abertura do Jazz em Agosto/2008, Otomo Yoshihide e a New Jazz Orchestra, com os europeus Axel Dörner, Cor Fuhler e Mats Gustafsson, deram um grande concerto. Depois falamos. Hoje há Satoko Fujii com o Min-Yoh Ensemble, no Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Gulbenkian.
Número 15 (Julho) da Monk Mink Pink Punk, revista online dirigida e publicada por Josh Ronsen em Austin, Texas (nem tudo o que vem do Texas é necessariamente mau, como se sabe), sobre palavras, imagens, sons e ideias relacionados com a chamada música criativa improvisada. Este mês, Josh publica os resultados do inquérito What is the nature of Avant-Garde Music today (2007-2008)? Destaque para as entrevistas de Jim O'Rourke e Michael Northam; crítica de discos, e uma exposição de fotografias dos grandes mestres oriundos de Chicago, ou que por lá passaram e deixaram marca assinalável: Chicago Jazz in the 1970s - fotos de Richard Kendrick, como esta de Sun Ra, em 1977.