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6.8.08
 

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Encerrado o primeiro ciclo do Jazz em Agosto/2008, este ano sob o mote das “Extensões”, importa fazer o balanço dos quatro concertos que decorreram entre sexta-feira (1/8) e domingo (3/8).
Otomo Yoshihide New Jazz Orchestra. Programa quase preenchido na íntegra com a releitura de Out To Lunch de Eric Dolphy, apresentação que teve por base o disco homónimo editado em 2005 na Doubt Music, revisto e aumentado com as gravações de 2005 e 2006, em Tóquio e Berlim. Nesta reformulação da ONJO pontificam o alemão Axel Dörner (trompete), o holandês Cor Fuhler (piano) e o sueco Mats Gustafsson (saxofone barítono). Primeiro que tudo, é preciso uma boa dose de atrevimento e de competência criativa para deitar mãos à obra de Dolphy com o objectivo programático de acrescentar alguma coisa de relevante à música que o compositor fixou no disco de 1964, que ficaria para a história como a sua obra-prima absoluta. Otomo Yoshihide, homem que vem de fora do jazz (é ele o mentor da lendária formação de rock japonês, Ground Zero), já tinha mostrado ser o homem certo para o empreendimento, facto que veio confirmar no concerto de abertura do Jazz em Agosto/2008. As versões de Hat and Beard; Something Sweet, Something Tender; Gazzelloni; Out To Lunch e a melhor interpretação da noite, Straight Up and Down, respeitando embora o desenho melódico original, mal soltavam âncora, transfiguravam-se, para, com assinalável vocação exploratória, pelo lado experimental do free jazz moderno, descobrir diferentes perspectivas de encarar a temática original tal como no-la deixaram Eric Dolphy, Freddie Hubbard, Bobby Hutcherson, Richard Davis e Anthony Williams. Mais do que acrescentar-lhes movimento, colorido e extravagância, a ONJO virou-as literalmente do avesso. É certamente pelos caminhos mais atrevidos do jazz actual que segue o trabalho de Otomo Yoshihide com a ONJO, somando elementos que não faziam parte do original, como guitarra, voz, sho, electrónica e ondas sinusoidais, albergando tudo numa linguagem musical mais vasta e abrangente, que petisca à vontade no rock, na electroacústica noise/near silence, e na tradição japonesa, fosse ela antiga ou pop dos anos 60 – mistura dificilmente categorizável. Ao vivo assistiu-se ao trabalho de reelaboração estética dos japoneses, mais Axel Dörner, Cor Fuhler e Mats Gustafsson, com flexibilidade, imaginação e expressividade. Ficou como o melhor concerto da primeira parte do Jazz em Agosto/2008.
Aguardava com expectativa positiva o concerto do Min-Yoh Ensemble, grupo liderado pela excelente pianista japonesa Satoko Fujii, o que se veio a revelar o momento mais fraco deste primeiro segmento do festival. Executando um reportório que emerge duma leitura personalizada da tradição folk japonesa, uma reinterpretação dos clássicos, se se quiser, Fujii melhor teria feito se se tivesse escolhido outra geometria, apresentar-se em solo absoluto ou em duo com o trompetista Natsuki Tamura, e outro teria sido o resultado, já que havia manifestamente dois elementos a mais no palco do Anfiteatro ao Ar Livre. O trombonista Curtis Hasselbring, algo duro e pouco flexível na enunciação das linhas melódicas e na improvisação, não ajudou à fluidez do conjunto, emperrando o desenvolvimento de um música algo triste e bisonha, que requeria ser tratada com delicadeza. Neste aspecto, a acordeonista nova-iorquina Andrea Parkins, em noite desastrada (seria do jet lag?), insistia em empurrar o quarteto para a beira do abismo, tantos foram os desacertos, entradas fora de tempo, feed-backs, e em particular, a utilização ruinosa dos pedais de efeitos, que nada de positivo acrescentou para evitar o flop do som colectivo.
Surpresa agradável, pela qualidade musical, descontracção e descomprometimento, veio do trio PAAP (ex-Radar), composto por Makoto Inada (contrabaixo e voz), Yasuhisa Mizutani (saxofones alto e soprano) e Koichiro Katori (piano). Praticantes de um estilo híbrido de muitas matrizes, da música de câmara contemporânea, à improvisação dissonante e intencionalmente cacofónica, os japoneses tiveram uma prestação refrescante pela originalidade com que trataram tempo e espaço, e pelo uso espirituoso do ruído, das mutações dinâmicas inesperadas e das vocalizações ásperas, evocativas do teatro e da ópera japoneses.
Guerrilheiro militante sem causa, John Zorn despejou carregador atrás de carregador, numa fuzilaria de saxofone-metralhadora, imagem de marca que combina com as calças de camuflado que enverga habitualmente. Zorn é uma marca registada reconhecível em qualquer parte do mundo, até nos seus inúmeros imitadores. Não pondo em causa a sua competência como saxofonista e compositor, de quem conheço os momentos mais relevantes de uma obra discográfica de proporções gigantescas, as mais da vezes – e esta foi outra dessas vezes – tenho dificuldade em sintonizar-me emocionalmente com a atroadora adrenalina zorniana, sempre a abrir, sempre a despachar, em sequências fulminantes de citações e de si próprio (referências judaicas incluídas), exageros formais vazios de conteúdo, por muito que se escave para além da superfície e se aprecie um bom espectáculo fogo de artifício, com tudo o que de atractivo possa ter em termos de luz, cor e som. Outra perspectiva possível de encarar o fenómeno (aquela que procurei adoptar, à mingua doutra) seria a de levar as coisas na desportiva e atender ao lado caricatural e iconográfico da persona, ao apelo da imparável saraivada, aos flashes de adrenalina e à vertigem da velocidade estonteante da montanha russa. Da guitarra de Fred Frith poder-se-á dizer quase o mesmo, com as devidas adaptações. Mais sóbrio e menos histriónico que Zorn, das suas mãos nasceram os melhores momentos da noite, pese embora o uso e abuso dos seus próprios clichés, quanto mais artifício, menos ideias. Porém, se faltaram comunhão e convergência, nem tudo foi “palha” para o espírito; nos solos absolutos, Zorn e Frith transcenderam-se, deixando para trás os tiques da vanguarda conservadora em que se encapsularam, em particular no último dueto, altura em que descansaram os cavalos e, apeados, deram a ouvir um peça de labiríntica delicadeza, qual oásis no meio da aridez de uma noite quente. Com mil raios e coriscos!
Segue-se a segunda parte do evento, a abrir com um concerto em que aposto bastante: Taylor Ho Bynum Sextet, amanhã, dia 7 de Agosto, às 21h30, no Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Gulbenkian. (Foto: Nuno Martins)

 


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