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8.10.07
 

O panorama do pop/rock continua agora como há um par de anos atrás: sem grande interesse, face à homogeneidade que atacou o género, fatalidade que o alimenta e que dele se aproveita em modo de autofagia. Quanto mais parecidos os projectos, tanto pior para a diversidade, e, aparentemente, tanto melhor para o negócio, porque as pessoas geralmente gostam do que já conhecem, e fugir da padronização é exercício não isento de riscos. É por assim ser que a emergência de um projecto como The Fiery Furnaces acaba por se revelar uma ilha luxuriante num arquipélago de breves dimensões. Cada disco dos manos Eleanor e Matthew Friedberger é como uma campainha de Pavlov, capaz de nos pôr a salivar mal se escutam os primeiros minutos. Que magia existe nesta fórmula? É difícil dizer, mas boa parte dela reside no facto de o duo, passado a trio com a contribuição em bateria de Robert d’Amigo, desenvolver um estilo híbrido de feição progressiva, uma estranha alquimia de genéros e subgéneros, tudo evidências do catalogo pop das últimas décadas, que aqui e ali recupera vagas memórias das bizarras Lene Lovitch e Nina Hagen, menos histéricas, bem entendido (new wave, portanto), rock progressivo, kraut e não só, improvisação japonesa, e mais uns quantos segredos que os Fiery Furnaces sabem gerir e administrar, por cima dos quais se dispõem melodias que captam a atenção e agarram o destinatário por uma ponta. Os arranjos, centrais na música dos FF (bonitas, as sobreposições de órgão e piano, e as guitarradas à Jimmy Page/Led Zeppelin), são tratados como miniaturas refinadas e fazem boa parte da diferença. Outro aspecto que salta à vista são as letras, textos com qualidade literária que Eleanor Friedberger canta com um tom equilibrado, irónico e desenjoativo, a que o mano dá uma mão, sobretudo nos refrões. Música e palavras casam bem e formam uma unidade incindível, o alfobre de ideias que atravessa todo o disco de um modo que – voltando ao princípio – é raro poder ver-se. Tudo isto soa ao mesmo tempo a familiar e a estranho, no modo como a dupla reformula a estrutura da canção pop, mercê das mudanças de tempo e de instrumentação, com predomónio dos teclados, acústicos, eléctricos e electrónicos – que, curiosamente soam a coisa orgânica – mas também das guitarras e percussão. Há aqui uma atmosfera que vem do imaginário infantil e adolescente, filtrada pela imaginação estranha e adulta desta sociedade de irmãos em comandita. Ouvi pouco pop/rock este ano, pelas razões acima assinaladas. Não me foge muito o pezinho para vulgaridade que vai por aí. Mas olhai que este Widow City é tudo menos vulgar e vale mesmo a pena o tempo e o dinheiro dispendidos. Ainda por cima aguenta todas as audições que se lhe quiser dar. Edição da Thrill Jockey, com distribuição em Portugal pela Dwitza. Saiu em CD e também em LP duplo, com capa à antiga. O que cá vai dentro merece esse mimo.

 


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