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14.12.04
 


Publicado em 2001, The Complete Blue Note Sessions, de George Braith, duplo CD da Connaisseur Series, que agrupa os 3 LPs gravados para a Blue Note entre 1963 e 1964, é um autêntico achado. Não conhecia Braith se não de nome, sendo que os Blue Note há muito que estão esgotados, tal como os poucos mais que gravou para a norte-americana Prestige e para uma outra editora japonesa. George Braith é desconhecido para a maior parte do público, mas, como toda a gente, tem a sua própria história. Começou cedo. Menino prodígio, liderou o seu próprio combo aos 10 anos; tocou sax barítono e clarinete, tendo percorrido a década de 50 por entre os altos e baixos do bop. Em 1963, Alfred Lion, o produtor da Blue Note que andava há anos com Braith debaixo de olho, assinou com ele um contrato que previa a gravação de três discos. O acordo viria a dar origem à totalidade da música que hoje integra The Complete Blue Note Sessions.
Originalmente intitulados Two Souls in One, Soul Stream e Extension, respectivamente, o último deles gravado a apenas sete meses de distância do primeiro, os discos evidenciam um George Braith eclético no estilo. Absorvidas as principais influências do saxofone tenor do seu tempo, Braith evoca Roland Kirk na arte e na técnica de tocar dois sopros simultaneamente, stritch e tenor. Revela especial apetência pela forma do calipso e outros tempêros exóticos, que também se podem ouvir em Sonny Rollins; o soul de Turrentine e, em parte, a espiritualidade de Coltrane, de quem foi amigo e, segundo se conta, com ele tocou várias vezes, sem deixar rasto que se conheça. Seja como for, George Braith é muito mais que a soma de algumas daquelas parcelas. Depois de uma breve expatriação na Europa, da qual também não se conhecem registos, regressou a Nova Iorque para abrir um restaurante-jazz, estabelecimento que se foi aguentando até poder. Fechado este, diz-se que Braith, entretanto afastado dos palcos, dos ensaios e das gravações, desencantado com a cena, decidiu abrir um clube, ainda em funcionamento.
A vida e a arte têm destas injustiças, digamos assim: parte das razões que estão por trás da relativa penumbra em que viveu o saxofonista, resultou do facto de ele ter desenvolvido a capacidade de tocar dois instrumentos de sopro simultaneamente, imagem de marca associada a Rahssan Roland Kirk, músico mais moderno que Braith e seu contemporâneo. Estava assim aberta a via para que o artista passasse a ser imediatamente considerado e reconhecido como um Kirk de segunda escolha, um imitador, mais que um criador com estatuto próprio. Contudo, além da notória e evidente marca kirkiana (que Braith nunca renegou), lá estão também toda a sorte de influências e de outras marcas, o habitual jogo de espelhos de que é feita a arte, tanto nos momentos em que avança para novos territórios, como nos intervalos estruturantes, que consolidam as rupturas precedentes.
Esteticamente, a música que Gorge Braith gravou para a Blue Note não foge aos ventos do que à época estava em voga. Sintonizado com o momento, Braith investiu as suas energias criativas em cunhar três discos impregnados de soul jazz, com evidentes influências de R&B, estilo no qual o órgão Hammond B-3 teve um papel fundamental, que ajudou à definição do som típico dos anos 60. Situação comum aos três discos que compõem The Complete Blue Note Sessions, a cadeira do órgão é ocupada por Billy Gardner, originariamente um pianista, a quem George Braith, por três vezes, teria pedido que tocasse Hammond. Talvez por isso as sessões beneficiem de um toque mais leve que o habitual, sem que as notas sejam tão prolongadas como é próprio dos organistas de gema.
O outro elemento que contribuiu para fixar a impressão de Braith e, em sentido amplo, a marca de água do jazz clássico dos anos 60, é Grant Greene, um dos grandes artistas do passado que tende a ficar no esquecimento. Emblema do groovy soul jazz daquele tempo, Greene tinha um som de guitarra inconfundível, apesar do considerável número de praticantes da sua criação. Intervalando com o órgão e interagindo com os sopros, Greene combina a mestria adquirida nos bancos da escola bop, com a expressividade e a elegância extrema da suas frases curtas.
Two Souls in One, o primeiro LP da caixa, aquele em que a técnica dos dois sopros em simultâneo é mais utilizada, abre com um calipso, avança pelos blues e por temas de soul jazz, alternando originais de Braith, tradicionais e standards. Um dos originais de Two Souls in One é o magnífico "Braith-A-Way", o mais longo dos três discos, que se desenvolve em treze minutos de grande jazz, o momento de maior modernidade e abertura às novidades estéticas que marcavam a agenda naquela altura.
Cinco temas mais tarde, é a vez de Soul Stream. Gravado em 16.12.1963, três meses depois de Two Souls in One, permite conhecer em toda a extensão a qualidade do som de tenor de George Braith, posta de lado momentaneamente a predominante insistência no sopro duplo que se faz notar no disco anterior, "carência" que supre através das aparições de sax soprano e de stritch. Outra novidade é mudança de baterista; em vez de Donald Bailey, por impedimento deste, toca Hugh Walker. Não acrescem diferenças sensíveis em termos estéticos, a não ser a evidência de um estado de espírito mais relaxado e melancólico, talvez a acusar menos o peso de gravar para a Blue Note.Três meses depois, o quarteto grava Extensions, com nova substituição na bateria. Entra Clarence Johnston, logo de início bem ambientado ao quarteto, que nesta altura já tinha adquirido considerável rodagem e pleno de entrosamento. Johnston está manifestamente à vontade tanto nos tempos rápidos, como nas baladas, mas é Greene quem navega a todo o pano, entrecruzando-se com órgão e sopros.
Com Grant Greene e Billy Gardner, George Braith, improvisador e saxofonista inventivo, injustamente coberto de pó na memória dos homens, liderou um quarteto superior a muitos dos combos que à época eram inflamados pelo órgão e assinou três álbuns de grande valor musical, que viriam a adquirir estatuto de raridade apenas ao alcance de coleccionadores. Permaneceriam no esquecimento do público em geral, não fora a reedição sob a forma de Obras Completas.



 


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