Image hosted by Photobucket.com
3.7.08
 
Nunca escondi o apreço que tenho pela obra de Pauline Oliveros, seja ela nos campos da música experimental, electrónica ou improvisada. De há muito reverencio o trabalho da fundadora do projecto Deep Listening Institute, um espaço multi-referencial onde, numa perspectiva global, se aborda a música nas suas mais variadas manifestações, nas relações com a literatura, as artes plásticas e as artes digitais, um viveiro de novas e interessantes experiências, que também é um espaço para a reflexão teórica, a performance, a gravação e a edição discográfica, sem descurar a promoção de novos artistas. Pauline, uma das grandes figuras da música do Séc. XX, tem uma extensa discografia, infelizmente pouco conhecida fora do meio em que trabalha, mas sem dúvida merecedora de uma atenção mais alargada. Neste disco de Janeiro de 2008, intitulado Accordion Koto (Deep Listening), Pauline Oliveros toca acordeão acompanhada pela kotista japonesa Miya Masaoka. Os resultados são deveras interessantes, não apenas pela invulgar combinação instrumental entre o acórdão e o koto, cordofone originário da antiguidade japonesa, que Masaoka ligou a um laptop preparado com um sistema de projecção laser, mas sobretudo pela experiência que o ouvinte pode ter ao apreender o som como uma esfera em flutuação que se expande e retrai em volume, algo que as artistas vão gerindo através da tensão que nasce dos sons delicados dos seus instrumentos, de uma maneira encantatória. Interagem entre si e connosco, de modo a afazer-nos participar activa e conscientemente no processo através do acto consciente e deliberado de escutar atentamente. Este é um tipo de experiência que tem muito a ver com a meditação, disciplina que ambas as artistas cultivam, e tem a ver com a concentra no acto de respirar e toma consciência dos detalhes mais particulares do mundo sonoro que existe dentro de nós e à nossa volta. O que vai ao encontro da atitude artística de Miya Masaoka, cujo interesse tem residido na investigação da microscopia sonora relacionada com elementos da natureza, como plantas, insectos e microrganismos; na projecção acústica das respostas fisiológicas do que é orgânico e das conexões que é possível estabelecer com formas de comunicação digital. O que chama a atenção para uma ideia central à música destas duas improvisadoras, a da procura do registo, em cada instante, da essência daquilo que é reconhecidamente familiar, porque inscrito na memória do ouvinte, e é feito regressar à superfície sob a forma de reminiscência, e do que é novo e irrepetível – a dialéctica entre o duradouro, sucessão de instantes passados, e o presente, que encerra em si o anúncio do imediato. Nada é estático; tudo está em movimento. E esta música celebra essa perene tomada de consciência.

 


<< Home
jazz, música improvisada, electrónica, new music e tudo à volta

e-mail

eduardovchagas@hotmail.com

arquivo

Setembro 2004
Outubro 2004
Novembro 2004
Dezembro 2004
Janeiro 2005
Fevereiro 2005
Março 2005
Abril 2005
Maio 2005
Junho 2005
Julho 2005
Agosto 2005
Setembro 2005
Outubro 2005
Novembro 2005
Dezembro 2005
Janeiro 2006
Fevereiro 2006
Março 2006
Abril 2006
Maio 2006
Junho 2006
Julho 2006
Agosto 2006
Setembro 2006
Outubro 2006
Novembro 2006
Dezembro 2006
Janeiro 2007
Fevereiro 2007
Março 2007
Abril 2007
Maio 2007
Junho 2007
Julho 2007
Agosto 2007
Setembro 2007
Outubro 2007
Novembro 2007
Dezembro 2007
Janeiro 2008
Fevereiro 2008
Março 2008
Abril 2008
Maio 2008
Junho 2008
Julho 2008
Agosto 2008
Setembro 2008
Outubro 2008
Novembro 2008
Dezembro 2008
Janeiro 2009
Fevereiro 2009
Março 2009
Abril 2009
Maio 2009
Junho 2009
Julho 2009
Agosto 2009
Setembro 2009
Outubro 2009
Novembro 2009
Dezembro 2009
Janeiro 2010
Fevereiro 2010
Junho 2011
Maio 2012
Setembro 2012

previous posts

  • COMA é a sigla de California Outside Music Associ...
  • The Green Kingdom comemora o primeiro aniversário ...
  • coen oscar polack na narrominded psychic investiga...
  • Open Ears MusicAdventure Jazz & Improvised MusicA...
  • Mike Patton, voz camaleónica de uma vastidão de pr...
  • González's Renegade Spirits with Famoudou Don Moye...
  • A nova improvisação electroacústica japonesa vai d...
  • Peça única (22’) de suave e lenta construção, num ...
  • Já ouviram falar no Conet Project? E em numbers st...
  • WOODS - 05.07.2008 Parágrafo, Cais do Ginjal, Caci...

  • links

  • Improvisos ao Sul
  • Galeria Zé dos Bois
  • Crí­tica de Música
  • Tomajazz
  • PuroJazz
  • Oro Molido
  • Juan Beat
  • Almocreve das Petas
  • Intervenções Sonoras
  • Da Literatura
  • Hit da Breakz
  • Agenda Electrónica
  • Destination: Out
  • Taran's Free Jazz Hour
  • François Carrier, liens
  • Free Jazz Org
  • La Montaña Rusa
  • Descrita
  • Just Outside
  • BendingCorners
  • metropolis
  • Blentwell
  • artesonoro.org
  • Rui Eduardo Paes
  • Clube Mercado
  • Ayler Records
  • o zurret d'artal
  • Creative Sources Recordings
  • ((flur))
  • Esquilo
  • Insubordinations
  • Sonoridades
  • Test Tube
  • audEo info
  • Sobre Sites / Jazz
  • Blogo no Sapo/Artes & Letras
  • Abrupto
  • Blog do Lenhador
  • JazzLogical
  • O Sítio do Jazz
  • Indústrias Culturais
  • Ricardo.pt
  • Crónicas da Terra
  • Improv Podcasts
  • Creative Commons License
    Powered by Blogger