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21.1.08
 
O Freedom of the City Festivala festival of radical & improvised music – co-organizado por uma 'tróica' formada por Martin Davidson, da Emanem, por Eddie Prévost, da Matchless Recordings, também percussionista, e por Evan Parker, já agora, da Psi, e também saxofonista tenor e soprano, é hoje um dos acontecimentos mais relevantes do Reino Unido (e da Europa, vamos lá) de entre os realizados em prol da música improvisada tocada ao vivo. Desde há uns anos que tem vindo a fazer o seu caminho e chegado à mais recente edição, de 6 e 7 Maio último, tem já um considerável acervo de documentos sonoros que registam o que por lá se tem passado de mais interessante. A segunda parte deste disco de um quarteto fenomenal que dá pelo nome de Barkingside, e compreende o clarinetista Alex Ward, Alexander Hawkins (piano), Dominic Lash (contrabaixo) e Paul May (percussão) vem justamente do concerto que abriu o segundo dia de festividades londrinas. Apostei neste grupo e já ganhei. Comecei pelo tema 3 (Carnauzer), gravado no Red Rose, espaço que acolhe o Freedom of the City. São 24 minutos de mão-cheia, de um total de 60 que o disco comporta, divididos por duas outras composições instantâneas (Alopekis e Basenji). Os acontecimentos sucedem-se lentamente a princípio. Mal se ouve um ai, um suspiro. Depois, passos irregulares de contrabaixo, um bater de castanholas, o piano pinga aqui e ali, o clarinete pipila e chilreia por um bando de pardais à solta, os putos, os putos. Não são bem putos, já fazem a barba, andam nisto há tempo suficiente para ter memória e, é seguro, ouviram muita música improvisada. Surpresas não faltam. Há daquelas que são meias só, outras inteiras. Gestos inesperados, evoluções insuspeitas, mesmo para quem se ache batido e versado nas linguagens europeias do improviso. Alex Ward, nesta lei que vale só para consumo da casa, é um dos mais inventivos clarinetistas que já ouvi. O segundo que me acode à memória é o alemão Michael Thieke, de outro género, menos expansivo talvez. Também gosto de Kai Fagaschinski, outro alemão da nova escola. De volta ao quarteto, Martin Davidson escreve que são todos excelentes jovens improvisadores, o que subscrevo, a viver em Londres e que, apesera do nome por que se apresentam em público, Barkingside, nunca na vida algum deles se deslocou ao homónimo subúrbio londrino. Graçola da rapaziada, está-se a ver. É bom sinal. Se não tiverem sangue na guelra e força onde devem ter nesta altura, onde e quando é que a haveriam de ter? Num registo mais formal e a puxar ao “crítico”, subvertem as noções tradicionais de 'pitch' e intervalo, numa performance de imensa fisicalidade e maturidade estilística. Blheac! Falta dizer que os outros dois temas foram gravados no Bateman Auditorium, em Cambridge, Setembro de 2006. E para terminar o arrazoado que já vai longo, direi como um amigo me perguntou uma vez a propósito já não sei de quê: “devia haver mais discos destes, não achas?” Acho, acho. Não exactamente assim, pois, mas lá perto. Que é chegar longe. Barkingside acabou de sair na Emanem.

 


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