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13.8.07
 

[CartazJazzemAgosto2007.jpg]

A tão aguardada actuação do Quartet Noir, grupo euro-americano que vem a trabalhar desde 1999, na noite de sexta-feira, dia 10, foi ao encontro das expectativas e resultou plenamente. No Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Gulbenkian, colocada em movimento a mistura equilibrada das experiências multifacetadas dos quatro membros, a complementaridade das diferentes sensibilidades estéticas, sobressaiu a veterania do saxofonista suíço Urs Leimgruber, cujo som de saxofone soprano emerge algures entre o final de Steve Lacy e o princípio de Evan Parker; e no interesse pela pesquisa de outras direcções que o saxofone tenor ainda tem para tomar. Ao piano, Marilyn Crispell, mais discreta que o habitual neste contexto como noutros – tendência que segue desde que, no início da presente década, começou a gravar para a ECM – ouviu mais do que tocou, não sei se por contemplativa disposição momentânea, se com a intenção de deixar brilhar os colegas, todos em noite inspirada. A par de Leimgruber, Joëlle Léandre esteve bem nos acertos com o percussionista Fritz Hauser, eficientes gestores do colorido tímbrico, disposto no vastíssimo campo de ductilidade sonora aberto à exploração que é a música do Quartet Noir. Um concerto feliz, produto multipolar resultante da interacção entre os músicos, nascido da cumplicidade criativa entre quatro grandes improvisadores.

Na tarde de sábado, 11, assistiu-se a um notável recital de contrabaixo solo, por Joëlle Léandre. Não exactamente contrabaixo solo, porque Léandre cantou e percutiu o instrumento. Numa abordagem de fora do jazz para dentro dele (mesmo se a contrabaixista por mais de uma vez já afirmou que o que toca não é jazz, sabemos que não, mas sabemos que sim, porque se fixa em territórios amplos em que já não se pode sequer falar de vizinhança de géneros, entre a new music, a livre-improvisação europeia e o jazz. Certo é que na música de JL se ouve tanto a tradição europeia como o legado afro-americano. E foi por aí que enveredou naquela tarde, quando improvisou sobre peças da sua autoria, dialogou consigo própria através da passagem de fita magnética e interpretou duas peças (canções) de John Cage e uma de Giacinto Scelsi. Melhor nas improvisações livres, interessante no canto sobre Cage e menos interessante nas peças com fita, onde permaneceu mais “presa” às linhas que seguiu, ela que prima pela exuberância agressiva e inquietação irreverente irreverência, necessariamente mais compatíveis com trâmites menos pastorais. Enfim, deu-nos a conhecer vários aspectos da sua arte, o que só enriqueceu a prestação daquela que pode justamente considerar-se uma das vozes mais marcantes do contrabaixo actual.

O quarteto vocal TIMBRE, outra formação euro-americana, deu um concerto agradável de seguir. Metade feminino (Lauren Newton e Elisabeth Tuchmann) e metade masculino (Oskar Mörth e Bertl Mütter), o grupo, que já leva vários anos de canto conjunto a cappella, foi-se aproximando do palco vindo da entrada do auditório, em avanços lentos e canto de notas longas e vizinhas. Chegados ao palco, cruzaram registos, timbres, amplitudes, dinâmicas, ritmos e harmonias, para formar um conjunto sonoro atraente, a que juntaram humor, particularmente Bertl Mütter, que também acrescentou sons de trombone.

O som de Ornette Coleman (saxofone alto, trompete) continua forte, e o fraseado, rápido, articulado e vigoroso, como se pode comprovar na noite de sábado, 11, no concerto de encarramento da edição de 2007 do Jazz em Agosto. Individualmente considerado, o músico esteve sempre à altura do seu passado de grande figura do jazz, que o fez avançar a partir de meados dos anos 50, quando a maior parte ainda não tinha descolado das formas arreigadas do bop e da improvisação sobre acordes. Os equívocos na noite do Grande Auditório da Fundação Gulbenkian chegaram do lado dos acompanhantes. Ornette Coleman surgiu em palco acompanhado de três baixistas (dois acústicos, Tony Falanga e Charnett Moffett, e um eléctrico, Al MacDowell) e de um baterista, Ornette Denardo Coleman. O filho de Ornette mostrou que pouco evoluiu desde que se estreou a tocar com o pai aos 10 anos (The Empty Foxhole, para a Blue Note). Pesado, “quadradão” e sem subtileza, com alguns erros de marcação, Coleman filho empobreceu a música. O amor de pai deveria ter limites... Tony Falanga teve pormenores de gosto duvidoso, ao chamar para ali trechos da Sagração da Primavera, de Stravinski, e das Suites para Violoncelo, de Bach, que soaram a tentativas deslocadas de convocar grandes “clássicos” (Ornette não carece daquela espécie de “legitimação”, a sua fonte é originária e, mais, original), e de evidenciar um virtuosismo que Falanga não tem por aqueles padrões, situações em boa altura resolvidas com o retomar do imparável tropel ornettiano. Mal se percebeu a necessidade de tanto baixo, quando, estando os três a tocar em pizzicato, a música se embrulhava numa amálgama indistinta de registos graves, sobre os quais Ornette entretanto irrompia fulgurante até resolver a bem o que poderia ter sido (assim entendi) uma relação criativa entre as diferentes abordagens do mesmo instrumento. Por outro lado, Ornette, que dispensou quase sempre o piano ao longo da sua longa carreira, chamou desta vez um baixo eléctrico para lhe fazer as vezes, sem que se tenha percebido o alcance da medida, já que pereceu quase sempre redundante. O que não teve solução foram os problemas de afinação entre o baixo eléctrico e o contrabaixo de Falanga, que amiúde se faziam notar, bem como a sensação geral de que o quinteto estava ali para despachar serviço e ir à sua vida. Paradigmática, foi a execução do clássico Lonely Woman, o inevitável e mais que esperado encore, aquele por que boa parte do público salivava desde o início. Em ritmo acelerado, Ornette desenhou a melodia, improvisou brevemente, toca a andar, apressado, curto na emoção ... e pronto. Sendo certo que Ornette Coleman não tem que provar coisa alguma, não chega emocionar-se a gente apenas com as memórias do passado da figura de fato azul turquesa e chapéu. Assim aconteceu, de Follow the Sound a Lonely Woman, com incidência maior na temática de Sound Grammar, o mais recente e excelente disco do Ornette Coleman Quartet, trabalho de plenitude, a que não falta coesão formal e material. Aquém desta marca recente, este Quintet que veio a Lisboa esteve perto de ter dado um grande espectáculo. Valeu sobretudo pelo som do saxofone alto de Ornette Coleman. De longe, o melhor homem em palco. Pena ter estado tão sozinho.

Foi mais uma edição do Jazz em Agosto, o melhor, mais plural e diverso festival de jazz que se organiza em Portugal, desde sempre atento tanto às propostas mais recentes deste género transfronteiriço e desta forma de soar a que ainda se chama jazz, como à memória dos grandes momentos do passado recente, que se recicla e refunda na actualidade, deixando entrever o que está para vir.

 


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