
Em breve nota de prova, mencionei há dias o tube'96, e, distraidamente passei como cão por vinha vindimada pelo volume anterior, e que com aquele faz par, o EP Sandshoes (tube'95). É o trabalho do artista português Long Desert Cowboy, aka Landfill, aka Daniel Catarino, uma das minhas mais recentes e interessantes descobertas no que à produção lusa de música invulgar diz respeito. A melhor maneira de desfrutar destes cenários que misturam fábulas de um certo oeste imaginário, com o da nossa própria imaginação, e de os pôr a dialogar proficuamente, é ouvir os dois volumes de seguida e repetir a façanha tantas vezes quantas a mente pedir. Há qualquer coisa de irresistível neste novo electro-psicadelismo. Parabéns ao Daniel Catarino e ao Pedro Leitão, da test tube.

Gravado em Abril de 2003, com Frank Lowe já só com um pulmão (viria a morrer daí a meses), Above and Beyond representa o culminar de uma relação musical de mais de duas décadas e meia, entre Billy Bang e Frank Lowe. Quatro temas (Silent Observation; Nothing but Love; Dark Silhouette; At Play in the Fields of the Lord) compõem esta sessão gravada ao vivo no Urban Institute for Contemporary Arts, de Grand Rapids, Michigan, e inspirada no loft jazz de Nova Iorque, anos 70. O quinteto, taludo, inclui, além do violino e do sax tenor de Bang & Lowe, o piano de Andrew Bemkey, o contrabaixo de Todd Nicholson, e a bateria de Tatsuya Nakatani. Above & Beyond: An Evening in Grand Rapids foi o canto do cisne para o extraordinário mas pouco conhecido Frank Lowe, desaparecido em Setembro daquele ano. Uma despedida em grande, mesmo se, como é natural, a potência e a intensidade sonoras do seu saxofone não fossem, não podiam ser, as mesmas de outros tempos. Lowe revela aqui o seu lado mais soul, espiritual e introspectivo. Os 24 minutos de Dark Silhouette valem pelo disco todo. O resto, pode ser entendido como um bónus. Edição da canadiana Justin Time.

Saída recente na
EMANEM,
The Geometry of Sentiment reencontra o saxofonista britânico
John Butcher, inventor da sua própria linguagem a partir das descobertas de
Evan Parker e de outros grandes, nos ambientes a solo da sua predilecção, algures na Europa (2004) e no Japão (2006). Nas suas incursões a solo, Butcher interessa-se por espaços co

m características especiais em matéria d
e ambiente acústico, como igrejas, museus, galerias de arte, cavernas, grutas, gasómetros (!), etc, escolhidos de modo a permitir melhor evidenciar determinados aspectos do som e interagir com o eco e a reverberação natural, como aconteceu em
Cavern with Nightlife, disco editado na sua
Weight of Wax, para o qual desceu às profundezas de uma caverna japonesa. Ouvido tanto em soprano como em tenor, com e sem processamento sonoro, Butcher a solo é um prazer para os ouvidos. Extrai do saxofone sons que ainda há um tempo não se suspeitava possíveis de ouvir de um tal instrumento, e sem perder o fio condutor do discurso musical, mesmo quando o assunto versado é a mais comlexa teia de texturas e granulados. Um dos melhores momentos do disco, sem dúvida, é
But More So (for Derek Bailey), sentida dedicatória ao guitarrista britânico desaparecido em 2005. Para desabrochar,
The Geometry of Sentiment precisa de atenção cuidada e audição repetida.


EMANEM
4141 Trio of Uncertainty 'Unlocked' (2007)
with Veryan Weston, Hannah Marshall & Satoko Fukuda
4142 John Butcher 'The Geometry of Sentiment' (2004/6)
4143 Elliott Sharp & Charlotte Hug 'Pi:k' (2004/5)
4144 Paul Rutherford 'Berlin Solos 1975' mostly previously unissued
4145 Pascal Marzan & Roger Smith 'Two Spanish Guitars' (2006/7)
PSI
07.04 VA 'Free Zone Appleby 2006'
Paul Lovens, Rudi Mahall, Evan Parker, Paul Rutherford,
Alexander von Schlippenbach, Aki Takase, Philipp Wachsmann
07.05/6 fORCH 'spin networks' (2005) 2-CD set
Richard Barrett, John Butcher, Rhodri Davies, Paul Lovens,
Phil Minton, Wolfgang Mitterer, Paul Obermayer, Ute Wassermann
07.07 Evan Parker 'Hook, Drift & Shuffle' (1983) reissue
with George Lewis, Barry Guy & Paul Lytton

tube' 096 - Long Desert Cowboy: Western Spaghetti
Distraí-me um bocado e os rapazes da Test Tube largaram por aí fora e já vão na edição 97 da sua imprescindível netlabel. Que trabalho! Este EP (ou LP curtinho, se se preferir) de Daniel Catarino feito à base de guitarras, sintetizadores e delays (assim parece) tem graça e eficácia na criação de ambientes cinematográficos reconfigurados. Catarino, cujo trabalho desconhecia em absoluto, vai buscar tralha à memória das imagens em movimento, inventadas por ele ou por outros, e remonta-as à sua maneira, criando ambientes leonescos que acabam por resultar em meia hora de música daquela que vale a pena ouvir. E repetir.

Tch, tch, tch… mais de seis horas de festa negra. Mistura maligna de funk pesado com free jazz, groove e afro-jams até cair redondo de cu, ou de cu redondo, consoante os casos. Miles Davis nos anos 70, eléctrico, claro. E muito bom. Um fartote, mas ... repetido. Porque The Complete On the Corner Sessions inclui material já saído em edições e reedições, compilações e recompilações, por exemplo, do próprio On the Corner, versão simples, em Get Up With It, e em Big Fun. Mas também há outtakes, masters que ficaram a beberar até Teo Macero decidir que ficavam mesmo de fora, e material avulso, sobrante de muitas horas de estúdio, de entre 1972 e 1975. O melhor de tudo é que há inéditos com fartura, autênticas jóias milesianas que nunca antes tinham visto as luzes do dia ou da noite. Miles Davis, Michael Henderson, Mtume, Al Foster, Reggie Lucas, Dave Liebman, Carlos Garnett, Herbie Hancock, Chick Corea, Jack Dejohnette, Pete Cosey, Badal Roy, Bennie Maupin, John McLaughlin, e já chega para dar uma ideia da “fauna” que habita esta floresta. A edição da Columbia é da mesma ordem das que têm estado a sair, desde Bitches Brew até Live at The Cellar Door, oito se contei bem, uma deluxe box com 120 páginas de bonecada, fotografias e notas de Bob Belden, Tom Terrell e Paul Buckmaster. O “monstro” é caro, se tivermos em conta que, fora as novidades, que não são nada de descurar – e a Columbia, que a sabe toda, joga sempre com esse tipo de “isco” para agarrar o conhecedor pelas partes – o material mais importante ("há que dizê-lo com frontalidade") e interessante anda por aí a circular disperso nas reedições que entretanto têm estado a sair em catadupa, e pode assim ser encontrado noutras fontes, sem necessidade de esportular tanto graveto para ter a big picture lá em casa. Para fazer vista, afinal, porque é da experiência comum que, em matéria de caixas, quanto mais discos lá vierem dentro menos se ouvem. Paradoxal? Sim, e depois? O pacote complete, já era de esperar, inclui versões que nunca haviam sequer sido pensadas para publicação, pois que de meros esboços se tratava, conjuntos de ideias para trabalhar melhor se fosse caso disso. Mas pronto, juntas, a gula do consumidor e a avidez da editora são imparáveis. Para os incondicionais e coleccionadores é de não hesitar ou sequer olhar um segundo para trás. Para a turba, há que pensar nas prioridades, na quadra que se aproxima, nessas trivialidades. Mas uma boa e simples reedição de On the Corner já é coisa que se ouça com gosto. Mais barriga que ouvidos, para quê?!

The Ric Colbeck Quartet - The Sun Is Coming Up (Fontana, 1970)
Ric Colbeck (trompete); Mike Osbourne (saxofone alto);
Jean-François Jenny Clark (contrabaixo); Selwyn Lissack (bateria)
1 - Aphrodite; 2 - Subdued; 3 - The Sun is Coming Up; 4 - Lowlands
Issued in the UK only in 1970. Ric was an interesting white cat who came to the U.S. to blow some free e-motion with NYC loft dwellers. He’s most well known for his amazing playing on the great Noah Howard’s first ESP-Disk release (ESP 1031). The picture of Ric on the Noah Howard LP shows a man with race-car shades and a “cool” haircut playing his horn while a ciggie burns nonchalantly from his relaxed grip. A very hip dude. And very FREE. His only solo recording is this Fontana LP which he recorded while cruising through Europe. He connected with South African drummer Selwyn Lissack (whatever happened to…) and the UK’s famous avant-altoist Mike Osborne and bassist J.F. ‘Jenny’ Clark (student of 20th century compositionists Luciano Berio and Karlheinz Stockhausen) to create this exceptional and complex masterpiece. - Thurston Moore

A OUVÊ trabalha de forma glocal. Isto é, localmente mas tendo sempre em conta a interconexão global. A razão de existir da OUVÊ é a comunidade local - Lisboa. Pretende, portanto, importar e exportar, interligar a cidade com as novas tendências da arte lúdica, de forma a promover o desenvolvimento do panoramo lisboeta, dando-lhe uma maior visibilidade.

Damian Stewart, aka Frey

Belo disco de piano solo, este Ghosts of Bernard Herrmann, que Stephan Oliva (n. 1959) fez sair na Illusions. Aos onze títulos que os produtores Philippe Ghielmetti, Stéphane Oskeritzian e Gérard de Haro escolheram, Oliva acrescentou talento, leitura e improvisação, e a emoção que lhe advém da sua própria experiência cinéfila. Já em 1998 se atrevera a um primeiro olhar sobre Vertigo, no disco 4 da série Jazz'n (E)motion, na qual também participaram os pianistas Martial Solal, Steve Kuhn, Alain Jean-Marie e Paul Bley. Ghosts of Bernard Herrmann é um relato na primeira pessoa das impressões que lhe ficaram das imagens cinematográficas com as quais a música de Bernard Herrmann (1911-1975) tão intimamente se relaciona, a ponto de lhe (nos) dar a ver o invisível, ler o que se passa na mente das personagens, sentir o que elas sentem nos filmes de Joseph L. Mankiewicz (The Ghost and Mrs. Muir), Robert Wise (The Day the Earth Stood Still), Henry Levin (Journey to the Center of the Earth), François Truffaut (Fahrenheit 451), Henry King (The Snows of Kilimanjaro), Orson Welles (Citizen Kane), Alfred Hitchcock (Psico; Vertigo), Brian de Palma (Sisters; Obsession) e Martin Scorcese (Taxi Driver), tendo este último filme ficado como a obra derradeira de Herrmann.
Fazendo jus ao título, Oliva utiliza o piano como meio de convocar os fantasmas ligados tanto à personalidade musical de Bernard Herrmann, como à complexidade orquestral da sua música. Sem preocupações de fidelidade rigorosa à partitura original (o que designa por “deformações subjectivas da memória, da improvisação e da transposição para piano das obras orquestrais”), joga com a recriação de ambientes, a gestão do espaço e do silêncio, evoca os diferentes moods que para sempre ficaram colados às imagens dos mestres do cinema. A emoção cinéfila assim recuperada revela-se indestrinçável das imagens que a música serviu em primeira mão (ou de que as imagens se serviram), mas, ao mesmo tempo, ganha vida própria, torna-se autónoma e independente pelas mãos do pianista e compositor francês, considerado um dos melhores da sua geração, dentro e fora do jazz. Ghosts of Bernard Herrmann reflecte tanto a universalidade da música de Bernard Herrmann, como o enorme talento do pianista Stephan Oliva. Passei a acreditar em fantasmas desde que vi The Ghost and Mrs. Muir (O Fantasma Apaixonado), de Mankiewicz, filme de 1947. Agora conheço a parentela alargada. Luso-distribuição pela Dwitza!
NÚMERO-PROJECTA '07
8º Festival International de Cinema, Música
e Multimedia de LISBOA
Centro Cultural O SÉCULO, 8 Novembro 2007 (Concertos)
Cinema S. JORGE, 9 e 10 Novembro 2007 (Concertos)
Cinema QUARTETO, 8 a 14 Novembro 2007 (Cinema e Serviço Educativo)
+ info: <http://www.myspace.com/numeroprojecta>
Quinta, 8 Novembro @ CENTRO CULTURAL O SÉCULO
22h30 Kemika Fields (live, PT)
23h15 Mista Jules (live, PT)
00h00 Plagia (live, PT)
01h00 Hedonic2 (DJ set, PT)
Sexta, 9 Novembro @ CINEMA S. JORGE
21h30 Photonz (concerto, PT)
22h15 Rafael Toral (concerto, PT)
23h00 Cluster (concerto AV, DE)
00h00 Frank Bretschneider (concerto AV, DE)
01h00 No-domain (concerto AV, ES)
Sábado, 10 Novembro @ CINEMA S. JORGE
21h00 Atomic Tour Project (filme-concerto, PT)
22h15 Oriol Rossell (concerto AV, ES)
23h00 Ikue Mori (filme-concerto, JP)
00h00 Sutekh (concerto AV, USA)
01h00 D-Fuse (concerto AV, UK)
Organização: NÚMERO-ARTE E CULTURA & VIDEOMORPHOSE
Programação de Música: VARIZ <http://www.myspace.com/variz>

Guimarães Jazz
Depois do êxito das edições anteriores, o Guimarães Jazz volta a apresentar, em 2007, um programa consistente e eclético, tão rico quanto diversificado, que mantém o festival no topo dos mais importantes acontecimentos jazzísticos do ano em Portugal e no estrangeiro. Nomes do jazz como Pharoah Sanders, Ravi Coltrane, Jan Garbarek, John Scofield, Ahmad Jamal e Charles Tolliver compõem o cartaz da 16ª edição do festival que se realiza de 08 a 17 de Novembro, no Centro Cultural Vila Flor.

Tales of Music and the Brain - Oliver Sachs
wnyc.org: "Dr. Oliver Sacks has been writing about patients with unusual and fascinating case histories since the 1970s. In his new book, Musicophilia, Dr. Sacks explores music and its relationship to the human brain, while introducing new and fascinating characters – from the man who, after being struck by lightning, found a new passion for piano, to Parkinson's patients who receive music therapy."

Jason Corder (Off the Sky) de novo na netlabel alemã AUTOPLATE, com a cabeça nas nuvens. "Cumulae Movement" revolves around the formation of a well-known weather phenomenon know as cumulous clouds. According to Jason he wanted to "create a movement of sound that mimicked the nature of these billowy, slow, shape-shifting atmospheric giants". So this rather long, dense piece simulates the time that Jason spent watching the clouds slowly progress across his field of view.

Aqui vão algumas das 188 fotos que tirei em mais um fabuloso concerto da Variable Geometry Orchestra. Foi um dos concertos que mais gostei de "ouver" e registar. Foi aquele em que mais fotos tirei - de facto, acho que nunca desliguei a máquina (mesmo correndo o risco de ficar sem pilhas) e devo ter visto o concerto mais através da máquina que directamente pelos meus olhos !!! As fotos poderão ser semelhantes, mas reportam sempre diferentes tempos e sons que fazem a grandeza do concerto e da Orquestra. Foi também o concerto mais homogéneo e em que o Ernesto se apresentou mais dirigente, condutor e mentor do melhor colectivo global que a orquestra já formou. Enfim... a VGO surpreende-nos sempre, e é essa sua capacidade que faz com que eu procure não falhar um concerto, mesmo nos dias em que velhas glórias da música e do jazz também se encontrem a tocar em Lisboa, como ontem aconteceu!!!
Um abraço a todos e VGO Sempre!
Rui Portugal










VARIABLE GEOMETRY ORCHESTRA
Galeria ZDB, Lisboa. 20 de Outubro de 2007

THE STONE – ISSUE TWO Fred Frith and Chris Cutler --- The second issue Benefit for The Stone presents the Fred Frith/Chris Cutler set from the Henry Cow reunion weekend of December 2006. Ecstatically endorsed for release by Frith and Cutler, this is likely the best music this historic duo has ever made! Recorded live at The Stone, this limited edition CD is available online only through the Downtown Music Gallery, Tzadik and Ipecac. All proceeds from the sale of this CD will go directly to support The Stone. Only with your help can we keep The Stone alive.


A editora norte-americana Esp-Disk continua a dar seguimento ao ambicioso projecto auto-revitalização, tanto através edições novas, que dão sequência ao trabalho que, com longos hiatos e episódios de alguma confusão relativa aos direitos sobre as gravações originais, como da reedição remasterizada de material precioso que faz parte dos arquivos de Bernard Stollman, algum dele há muito esgotado. É o caso de Sunny Murray, disco homónimo do lendário baterista da New Thing. Sunny Murray contribuiu decisivamente para a evolução do papel do baterista, libertando-o da estrita actividade de marcação de tempo, atribuindo a si próprio e a gerações de outros instrumentistas um papel central ao nível da cor, timbre e textura, muito para além da função métrica que lhes tinha estado reservada em tempos anteriores. Murray, tal como o fizeram os músicos do free jazz em geral, rejeitou o postulado segundo o qual haveria uma maneira “correcta” de tocar bateria e de tocar jazz. Para aí chegar, cruciais foram os cinco anos passados com o pianista Cecil Taylor, e, sobretudo, o período Albert Ayler, com quem gravou uma série de discos históricos e essenciais: Spirits / Prophecy / Spiritual Unity / New York Eye and Ear Control (1964), Bells e Spirit Rejoyce (1965).
O disco agora reeditado constituiu um marco importante no progresso do jazz de meados de 1960, capítulo significativo de uma longa história contada por gente como John Coltrane, John Tchicai, Cecil Taylor, Dave Burell, Archie Sheep, Albert Ayler, Ornette Coleman e Don Cherry. Linhas de força que viriam a explodir em diversas direcções na década seguinte, tendo dado origem às movimentações do Loft Jazz dos anos 70, em Nova Iorque, e às diversas correntes prosseguidas pelos músicos americanos expatriados na Europa, para onde o próprio Sunny Murray partiu logo após a gravação deste disco, pela segunda vez, e de onde retornou aos EUA, em 1971. Liderado pelo baterista, Sunny Murray, gravado em 1966, contou com o trompetista Jacques Coursil, dois saxofonistas alto, Jack Graham e Byard Lancaster, e o contrabaixista Alan Silva. A música, apesar de trepidante, é relativamente serena, brasas incandescentes em vez de fogueira, com Jacques Coursil bastante mais contido que Jack Graham e Byard Lancaster. Aos quatro temas originais (Phase 1.2.3.4.; Hilariously; Angels & Devils; e Giblet) – Douglas McGregor fez maravilhas na restauração do som de 1966 – a reedição acrescenta um bónus de cerca de 30 minutos de entrevistas com Sunny Murray e Bernard Stollman. Music is a form of magic...

Inédito do trompetista norte-americano Don Cherry com os europeus The Musical Monsters, numa gravação ao vivo no festival suíço de Willisau, realizada em Agosto de 1980. Don Cherry (trumpet, vocals), John Tchicai (saxophone), Irène Schweitzer (piano), Leon Francioli (bass), Pierre Favre (drums).
![[IMG_3380.JPG]](http://2.bp.blogspot.com/_5zeRyLslS4c/RrD9EYxmCcI/AAAAAAAAAyE/xsNoEp4tj1g/s1600/IMG_3380.JPG)
VARIABLE GEOMETRY ORCHESTRA
Galeria ZDB, Lisboa. Sábado, 20 de Outubro, às 23h00
Geometrias regulares e irregulares na forma e no conteúdo, fluidez, densidade, respiração, elementos visuais associados à progressão sónica, reinvenção acústica espácio-temporal. Vocabulário e pensamento musical colectivo feitos de linguagens convergentes que brotam duma multitude de fontes. Sinais acústicos instigam acontecimentos, a trip de energia. Cordas, sopros, electrónica, teclas, percussão, pulsão free – tudo revisto e aumentado no que ao potencial de contraste tímbrico e textural diz respeito. Música que a um tempo transporta em si um exercício de memória, repristinação de vários segmentos do passado – do seu próprio passado – e página em branco, o momento anterior à consciência. Tribalismo e tentação afro, drone, sons que nascem e se desvanecem sem se saber de onde nem por onde, interpenetração de motivos, nuance, tensão rítmica, explosão, policromia, climax, som total. Um mundo de sonoridades inquietantes que instauram a perplexidade. (Foto: Rui Portugal)
Pharoah Sanders (saxofone tenor, flauta) em concerto no Antibes Jazz Festival, edição de 1968. Com Lonnie Liston Smith (piano), Sirone (contrabaixo) e Majeed Shabazz (bateria). A pedido de quem andava perdido à procura do caminho para Antibes, Sul de França.

Axel Dörner (trompete), Michael Vorfeld (percussão) e Ernesto Rodrigues (viola)
@ Stralau 68, Berlim 06/09/2007

Michael Maierhof (violoncelo), Lars Scherzberg (sax alto) e Ernesto Rodrigues (viola)
@ Blinzelbar, Hamburgo 08/09/2007
Ernesto Rodrigues (viola), Birgit Ulher (trompete) e Heiner Metzger ("soundtable”)
@ Blinzelbar, Hamburgo 08/09/2007
My heart belongs
to C3R!

Andrew Cyrille, The Loop (Ictus LP, 1978)

PEDRO CARNEIRO e QUARTETO ARDITTI
Centro Cultural de Belém, Lisboa27 OUTUBRO 2007 – SÁBADO - PEQUENO AUDITÓRIO - 21H00
O Quarteto Arditti - aclamado em todo o mundo como um dos mais importantes agrupamentos dedicados à música do nosso tempo, junta-se a Pedro Carneiro, marimbista e um dos mais importantes músicos portugueses da actualidade, para interpretar um programa exclusivamente dedicado a compositores portugueses. Um quinteto que explora as possibilidades expressivas do quarteto de cordas e da marimba. Fascinante perspectiva sobre a recente produção portuguesa, na sua riqueza e variedade.
Rui Penha - Perspective para marimba e quarteto de cordas (estreia mundial)
Patrícia Almeida - Dulce Delirium para quarteto de cordas
João Pedro Oliveira - Espiral de Luz para quarteto de cordas
Pedro Carneiro - Lentement, music boxes floating... (whisper for JS)
(Parte 5.ª, de... ni mots, ni signes...) para violoncelo solo
Pedro Carneiro - ...e todo eu me alevanto e todo eu ardo... (Pt. 1b - Vers. 2)
António Pinho Vargas - Monodia, quasi un requiem para quarteto de cordas
Luís Tinoco - Ends Meet para marimba e quarteto de cordas



Duas novas malhas aportaram à minha caixa de correio. Preparadas para sair oficialmente a 29 de Outubro próximo na Fire Museum Records, editora pela qual nutro uma afeição especial, graças ao trabalho do entusiasta iconoclasta Alan Sondheim. Trata-se de KEIJO – WHOSE DREAM WE LIVE IN? (FM 11) e COMET III – ASTRAL VOYAGER (FM 12). Destes dois já ouvi o segundo com toda a atenção. Curioso, é o mínimo que se pode dizer do trabalho do duo italiano que se revela atrás (e à frente) do nome COMET III. Delfo Catania (guitarras acústicas e eléctricas, flautas, field recordings, fita magnética, cítara, bricolage variado, percussão, etc.) e Carlo Matanza (sintetizadores, Minimoog, órgão, theremin, g2 e mais umas coisas) parecem ter passado muito do seu tempo a olhar o espaço interestelar que se avista nas melhores noites sicilianas, à procura de respostas para as questões que o homem se tem colocado a si próprio desde sempre, sobre o que está para lá do que hoje é possível conhecer com toda a parafernália de sondas, telescópios, satélites, Laikas, macaquinhos, naves tripuladas e não tripuladas. Como não sabem nem podem saber mais do que lhes chega por aquelas vias, só a música lhes permite dar largas à imaginação para construir um veículo espacial que lhes permita desbravar tudo o que o conhecimento científico ainda desconhece. A tripulação do ASTRAL VOYAGER – assim foi baptizado o veículo – reforçada com presença de Shirin Demma (voz espectral, na primeira parte) e Caetano Flirto (sombras de saxofone, na segunda) empreende uma viagem electroacústica com a duração de 50 minutos, navegando por entre nebulosas e planetas em velocidade lenta. O psicadelismo do duo/trio lembra o período psicadélico dos Pink Floyd, com um pouco do chamado rock alemão dos Tangerine Dream à mistura, em versão experimental. Nada que não se tivesse ouvido já antes, é certo, embora o que aqui conte seja a recombinação de elementos sonoros eléctricos e acústicos conhecidos, que passam a estar organizados numa configuração que ainda não havia sido testada aos nossos ouvidos. Os resultados são surpreendentes e susceptíveis de estimular a imaginação do ouvinte e de o transportar para longe, muito longe na galáxia. Parente próximo deste COMET III, tantas são as afinidades que os ligam, ainda que de modo não óbvio, daqui a dias conto dar voltas a WHOSE DREAM WE LIVE IN?, do finlandês KEIJO, homem do under-underground que faz música psicótica daquela que até os cães gostam. É todo um outro universo sonoro expansivo a merecer a atenção de quem se interessa por sons fora e dentro do comum, genuíno e feito com seriedade e bom gosto. A breve trecho falaremos deste que é um caso à parte na música actual. Sun Ra anda por aqui... 

Live at the Metropolitan Art Center (1979), um concerto da Free Music Festival Orchestra, no âmbito do Fourth Annual Free Music Festival, de S. Francisco, Califórnia. A FMCO foi uma orquestra dirigida pelo saxofonista John Gruntfest nos anos que foram de 1979 a 1982. Variou entre os 50 e os 70 elementos, construída a partir de uma base de 40 sopros, com o próprio John Gruntfest em saxofone alto e direcção, 23 saxofones, 4 clarinetes, 5 trombones, 3 trompetes, 2 flautas, oboé e tuba, e inclui 3/4 do ROVA Saxophone Quartet. A música de Live at the Metropolitan Art Center (dedicated to all the great SF free players of the 70s) inspira-se em Ascension, de John Coltrane, e é imensa na massa e intensidade sonora criadas pelos 70 participantes. As quatro faixas do disco são diferentes versões de uma mesma composição, Piece for Forty Horns, três ensaios e a apresentação em público. A cópia que possuo foi-me oferecida por John Gruntfest antes do concerto da Variable Geometry Orchestra na Casa da Música, Porto, em que também participou. Tal como havia acontecido no concerto da Ler Devagar (Fábrica Braço de Prata), em Lisboa. O espírito da VGO, disse, é em parte semelhante ao que havia em S. Francisco nos anos 70, de que a Free Music Festival Orchestra é exemplo, e que entretanto se perdeu, para ressurgir na actualidade, como atestam alguns projectos de idêntica natureza que têm vindo a aparecer na West Coast.
Music Festival. It has been called an "Ascension for the new millenium" and is one of the most, if not the most, intense musical harmonic clusters ever created. Good speakers or good headphones are needed and the volume should be as loud as one can take. This is maximal music. It is not minimal. It has two harmonic sections and the third section is a Venda occarina duet orchestrated for the Free Music Festival Orchestra. This music took the audience right out of their bodies. - Live at the Metropolitan Art Center

John Gruntfest
![[dg2740.gif]](http://2.bp.blogspot.com/_8urIKD5h548/ReyfBSVuAfI/AAAAAAAAAKE/pfs3laPxlA8/s1600/dg2740.gif)
Free Improvisation. Editado pela Deutsche Grammophon em 1974, o disco serviu de amostra representativa da livre-improvisação europeia de meados dos anos 70, através da música de três grupos distintos: o francês New Phonic Art, o britânico Iskra 1903, e o alemão Wired. New Phonic Art, um quarteto, reuniu a nata dos compositores da época, como Michel Portal, Vinko Globokar, o argentino Carlos Roqué Alsina, e Jean-Pierre Drouet. Iskra 1903, trio formado em 1970, foi tendo diferentes line-ups nas décadas subsequentes. Correspondeu ao convite da casa de discos alemã com a sua formação original - Derek Bailey, Barry Guy e Paul Rutherford. Finalmente, Wired, quarteto germânico composto por Mike Ranta, Karl-Heinz Böttner, Mike Lewis e Conny Plank. Três em um de três em pipa.

VARIABLE GEOMETRY ORCHESTRA
ernesto_rodrigues violin, conduction; guilherme_rodrigues cello; albrecht_loops strings, electronics; chiara_picotto voice; ricardo_pinto trumpet; eduardo_chagas trombone; johannes_krieger french horn; gil_gonçalves tuba, euphonium; miguel_bernardo clarinet; bruno_parrinha alto clarinet; jorge_lampreia flute, soprano saxophone; nuno_torres alto saxophone; peter_bastiaan alto saxophone, melodica; john_gruntfest alto saxophone, melodica; megan_bierman tenor saxophone abdul_moimême tenor saxophone; alípio_c_neto soprano & tenor saxophones; joão_martins saxophones; rodrigo_pinheiro piano; armando_ pereira accordion; nuno_rebelo electric guitar; antónio_chaparreiro electric guitar; carlos_santos electronics; damian_stewart electronics; andré_gonçalves electronics; o.blaat electronics; adriana_sá electronics; joão_pinto electronics; travassos electronics; hernâni_faustino double bass; henrique_fernandes double bass; pedro_castello_lopes percussion; gustavo_costa drums, percussion; josé_oliveira drums, percussion. (Foto: Rui Portugal)
Casa da Música, Porto - 12 de Outubro, 23h00
![[Alipio.jpg]](http://4.bp.blogspot.com/_ZFeQWDDNaD8/RwVZXl7q_CI/AAAAAAAAA8E/XYp9jUEur_c/s1600/Alipio.jpg)
Alguns discos (
Whishful Thinking,
Snug as a Gun…) e vários grupos depois (
Wishful Thinking,
IMI Kollektief, e
DIGGIN’), a certa altura percebia-se que devia estar prestes a nascer o
opus magnum da ainda breve carreira discográfica de
Alípio Carvalho Neto. E aí está,
The Perfume Comes Before the Flower, disco de 2007 (
Clean Feed), nascido para o mundo com a força das coisas ingentes e com a urgência de afirmar um som maduro, articulado e processado através de uma linguagem musical moderna e com ideias assertivas, algo que poucos improvisadores, do jazz e de fora dele, podem reclamar para si com inteira propriedade.
The Perfume Comes Before the Flower é fruto de decisões claras (e clarividentes), de muita prática quotidiana, estudo, trabalho e meditação. E talento. Que aqui existe a rodos, visto que para além do saxofonista, participam no quarteto americano de
Alípio C Neto, quatro dos melhores improvisadores da actualidade, de Nova Iorque e de todo o mundo: o trompetista
Herb Robertson, o contrabaixista
Ken Filiano, e o baterista
Michael T. A. Thompson, creditando-se do tubista californiano
Ben Stapp em três das cinco faixas do disco (1.
the perfume comes before - early news; 2.
the will – nissarana; 3.
the flower – aboio; 4.
the pure experience – sertão; 5.
la réalité - dancing cosmologies). Pessoalmente, tive o privilégio de ter escutado este disco ainda em cru, acabado de chegar de Nova Iorque onde tinha sido gravado. De imediato me impressionou a força do quarteto, a concentração expositiva e o bem tricotado das composições, propositadamente flexíveis nas juntas para deixar entrar e sair a torrente da improvisação. Sou de há anos um apreciador do som de saxofone tenor de Alípio. Gosto das suas tonalidades quentes, “tropicais sem serem tropicalistas”, como disse um dia em entrevista, das arestas por limar, do poder do som cru, que se dá tão bem no desenho de uma melodia – e Alípio sabe escrever uma melodia! – como no reforço das complexas estruturas harmónicas, ou nos solos, reveladores de aromas e essências intemporais, património genético onde reconheço vestígios de
Fank Lowe,
Pharoah Sanders ou
John Gilmore. Difícil, se não mesmo impossível, se torna fazer sobressair individualidades do seio da banda, unidade perfeita na diversidade que encerra, que assim se mostra nos tempos de entrada e de saída, fulminante no ataque, sem medo de arriscar tudo na improvisação, na garra com que se atiram à luta, na atitude criativa, solidez, balanço, variação dinâmica, com o à vontade próprio duma
working band muito rodada (que não teve tempo nem propósito de o ser, pois foi chegar, mostrar as composições, trocar uma ideias e gravar), cujos processos criativos flúem com assinalável eficácia e naturalidade. Que dizer, que ainda não tivesse sido dito, sobre o sopro luminoso e coruscante de
Herb Roberston; a fantasia e a precisão de
Ken Filiano, no
pizicatto como no arco; a espessura e a densidade da tuba de
Ben Stapp, o
drumming incomparável de
T. A. Thompson... O
drive colectivo é potente e descontraído, cheio de manha e sabedoria, particularmente assinalável quando os quatro (ou cinco) se lançam declive abaixo, velocidade nas curvas apertadas e nas rampas sinuosas, para, chegados ao fundo, descomprimir e iniciar nova subida até ao cume mais alto, ficando-se sem saber se o perfume chega antes da flor, como o título sugere, ou se é a flor, que viçosa, nasce primeiro e exala esta irresistível fragrância. O que importa é que, chegado o termo da jornada, apetece aspirar de novo e partir para outra aventura nesta fantástica montanha russa de sons, cores e aromas. Melhor que tudo é ouvir e deixar-se maravilhar e comover ante tamanha “oferta”. Dito isto,
The Perfume Comes Before the Flower é um disco muito bom, de intenso prazer físico e emocional.

Wax Poetics #25 -The Photo Issue
Número de Outubro/Novembro da rainha das revistas que abordam as infinitas possibilidades de combinação entre funk, jazz, soul, hip-hop e mais etc, por aí adiante, no que à música negra diz respeito. Miles, Max Roach, Sharon Jones, Numero Group Records, East Bay Funk, The Dragons, Beastie Boys e girls ainda mais besteais. Na capa, Funky Miles himself.

Digamos que, se o som deste boot tornado oficial fosse a little better, estaríamos próximo da perfeição. Ornette Coleman Quartet ao vivo em Berlim, Alemanha, 1971. Ornette Coleman (saxofone alto e trompete) em grande forma, num set curtinho (36') com Dewey Redman (tenor e musette), Charlie Haden (contrabaixo) e Ed Blackwell (bateria). Street Woman, Song For Che, Whom Do You Work For, Rock The Clock e Written Word. Tem interesse histórico e musical. Só ouvir Dewey Redman... Edição da italiana Get Back. Whom Do You Work For? Ahm?

Depois de Cuts; Live at the Glenn Miller Café; e Underground, Montage (Okka Disk, 2006) é o quarto avanço em disco do FME (Free Music Ensemble), plataforma triangular pensada e estruturada por Ken Vandermark (saxofones e clarinetes), com Nate McBride (contrabaixo) e Paal Nilssen-Love (bateria). Desta vez o compositor e improvisador de Chicago elege os realizadores de cinema como musas inspiradoras dos 7 movimentos em que se desenvolve o CD duplo, gravado ao vivo em dias seguidos (22 e 23 de Setembro de 2005), no Artists at Large, em Boston, EUA, e no festival Suoni Per Il Popolo, em Montreal, Canadá. Vandermak homenageia Leone, Eisenstein, Fellini, Kitano, Buster Keaton, Cassavetes, Kubrick, Greenaway, Kurosawa e Welles, partindo de uma mesma base temática, que é reinterpretada módulo a módulo. Ao fim de um certo número de audições sequenciais, a repetição dos módulos de um disco para o outro permite apreender a estimulante tensão dialéctica entre composição e improvisação, a procura de novos modos de dizer a partir da mesma matéria-prima de base, e o modo como, assente nas mesmas coordenadas, se constrói a diferente narrativa de cada "filme".

FME

O panorama do pop/rock continua agora como há um par de anos atrás: sem grande interesse, face à homogeneidade que atacou o género, fatalidade que o alimenta e que dele se aproveita em modo de autofagia. Quanto mais parecidos os projectos, tanto pior para a diversidade, e, aparentemente, tanto melhor para o negócio, porque as pessoas geralmente gostam do que já conhecem, e fugir da padronização é exercício não isento de riscos. É por assim ser que a emergência de um projecto como The Fiery Furnaces acaba por se revelar uma ilha luxuriante num arquipélago de breves dimensões. Cada disco dos manos Eleanor e Matthew Friedberger é como uma campainha de Pavlov, capaz de nos pôr a salivar mal se escutam os primeiros minutos. Que magia existe nesta fórmula? É difícil dizer, mas boa parte dela reside no facto de o duo, passado a trio com a contribuição em bateria de Robert d’Amigo, desenvolver um estilo híbrido de feição progressiva, uma estranha alquimia de genéros e subgéneros, tudo evidências do catalogo pop das últimas décadas, que aqui e ali recupera vagas memórias das bizarras Lene Lovitch e Nina Hagen, menos histéricas, bem entendido (new wave, portanto), rock progressivo, kraut e não só, improvisação japonesa, e mais uns quantos segredos que os Fiery Furnaces sabem gerir e administrar, por cima dos quais se dispõem melodias que captam a atenção e agarram o destinatário por uma ponta. Os arranjos, centrais na música dos FF (bonitas, as sobreposições de órgão e piano, e as guitarradas à Jimmy Page/Led Zeppelin), são tratados como miniaturas refinadas e fazem boa parte da diferença. Outro aspecto que salta à vista são as letras, textos com qualidade literária que Eleanor Friedberger canta com um tom equilibrado, irónico e desenjoativo, a que o mano dá uma mão, sobretudo nos refrões. Música e palavras casam bem e formam uma unidade incindível, o alfobre de ideias que atravessa todo o disco de um modo que – voltando ao princípio – é raro poder ver-se. Tudo isto soa ao mesmo tempo a familiar e a estranho, no modo como a dupla reformula a estrutura da canção pop, mercê das mudanças de tempo e de instrumentação, com predomónio dos teclados, acústicos, eléctricos e electrónicos – que, curiosamente soam a coisa orgânica – mas também das guitarras e percussão. Há aqui uma atmosfera que vem do imaginário infantil e adolescente, filtrada pela imaginação estranha e adulta desta sociedade de irmãos em comandita. Ouvi pouco pop/rock este ano, pelas razões acima assinaladas. Não me foge muito o pezinho para vulgaridade que vai por aí. Mas olhai que este Widow City é tudo menos vulgar e vale mesmo a pena o tempo e o dinheiro dispendidos. Ainda por cima aguenta todas as audições que se lhe quiser dar. Edição da Thrill Jockey, com distribuição em Portugal pela Dwitza. Saiu em CD e também em LP duplo, com capa à antiga. O que cá vai dentro merece esse mimo.

Charles Gayle andou em digressão pelo Reino Unido. Levou consigo o contrabaixista
William Parker e, uma vez chegados a solo britânico, juntaram-se ambos ao baterista britânico
Mark Sanders. No Red Rose, em Finsbury Park, o
Charles Gayle Trio gravou dois sets para a
BBC Radio 3, com Gayle a alternar entre o saxofone alto e o piano. Esta semana, no
Jazz on 3 do costume. Próximo programa: homenagem a
Joe Zawinul.

Artistas, académicos e público, até um máximo de 500 participantes, vão reunir-se em Novembro próximo na Universidade de Massachusetts, em Amherst, para aquela que será a primeira conferência mundial sobre os Grateful Dead: Unbroken Chain: The Grateful Dead in Music, Culture and Memory. Entre 16 e 18 de Novembro, serão apresentadas 50 comunicações em 20 painéis (programa provisório), que abordarão temas que vão da composição e improvisação na música dos Dead, que operaram a síntese mais abrangente da música popular Americana, ao modelo de negócio daquela que, além da banda de rock de S. Francisco, Califórnia, que, entre 1965 e 1995, até à morte de Jerry Garcia, se manteve ininterruptamente em actividade, foi uma entidade complexa, economica
mente organizada como uma cooperativa. Paralelamente, decorrerão concertos, exposições e uma série de outros eventos relacionados com a Dead Experience. A conferência geral decorre no âmbito de um seminário de História intitulado American Beauty: Music, Culture and Society, 1945-95; e um curso denominado How Does the Song Go: The Grateful Dead as a Window into American Culture.
Inscritos para apresentar comunicações estão Carolyn Garcia, mulher de Jerry Garcia; Dennis McNally, autor de Long Strange Trip: The Inside History of the Grateful Dead; Rebecca Adams, autora de Deadhead Social Science: You Ain’t Gonna Learn What You Don’t Wanna Know; David Dodd, que editou The Complete Annotated Grateful Dead Lyrics; Nicholas Bromell, autor de Tomorrow Never Knows: Rock and Psychedelics in the 60s; David Lenson, que, entre outros, escreveu On Drugs; David Gans, realizador do programa Grateful Dead Radio Hour; e Dan Healy, o homem que em 1973 desenhou o famoso “Wall of Sound”, sistema de som inovador que colocou os Dead à frente do que se conhecia ao tempo em termos de potência e qualidade sonoras. Dead Freaks Unite! Pela minha parte, também tenho o meu lado de Dead freak, há que confessá-lo com gosto. Lembro-me que foi em 1975 que o vício entrou, quando me puseram a ouvir Live/Dead, disco que recolhia actuações de 1969. O ano anterior também tinha sido em grande para os Grateful Dead, como confirma o famoso Live at Avalon Ballroom de S. Francisco, a 12 de Outubro daquele ano. Grateful Dead: Jerry Garcia (guitarra e voz); Bob Weir (guitarra e voz); Ron "Pigpen" McKernan (teclados, harmónica, voz e percussão); Phil Lesh (baixo e voz); Bill Kreutzmann e Mickey Hart (bateria).
Set I: Dark Star > St. Stephen > The Eleven > Death Don't Have No Mercy; (intervalo) Set II: Cryptical Envelopment > Drums > Other One > Cryptical Envelopment > New Potato Caboose > Jam > Drums > Jam > Feedback.

Grateful Dead, 1968

¡¡¡Bienvenidos a ORO MOLIDO!!!
Nuestra aportación es pequeña, ínfima, en un mar de tesoros deseables.
Editamos el 20 con una serie de contenidos, como siempre, para que gusten y ayuden a profundizar a personas inquietas musicalmente. En este número rescatamos algunos tesoros que sacamos a la luz con suficiente “oro molido”,... hasta final de año. Aquí van en detalle: Comenzamos con una entrevista a la violonchelista Okkyung Lee cedida por nuestro colaborador Nuno Catarino, cuyas aportaciones se consolidan en nuestro fanzine. Igualmente repite aquí Marc Weidenbaum con un artículo sobre el laptop, basado en una historia (breve) y una selección de músicos especializados. Para mí, es el principal con uno de mis instrumentos preferidos: por cortesía de Clifford Allen conocemos más a fondo al trombonista Paul Rutherford, quien nos dejó en agosto. La entrevista, firmada el año pasado, es posiblemente la última que concediera el músico.
Rogelio Pereira vuelve a escribir para ORO MOLIDO ¡¡¡bienvenido!!! Su aportación para este número es doble: una entrevista con Markus Breuss, y la traducción del texto Ítaca o la abstracción en la música, de Rui Eduardo Paes, también disponible en su website personal www.rep.no.sapo.pt/.Las críticas de algunos de los discos publicados por LJ Records, de Estocolmo, Suecia, de la pluma de Eduardo Chagas, descubiertos en su estupenda bitácora http://jazzearredores.blogspot.com/ aparecen, ya traducidos, en nuestro apartado dedicado al sello discográfico invitado.Las secciones fijas habituales: Escenarios, con las colaboraciones de Rubén Gutiérrez del Castillo, Pachi Tapiz (www.tomajazz.com) y Rui E. Paes, las distintas próximas citas y convocatorias, a las que siempre os remitimos y aconsejamos, cierran nuestro cofre. ¿Interesante, no?Desde aquí mi sincero agradecimiento a los colaboradores, a tod@s los que creemos en la música viva. Saborea la diferencia....
Chema Chacón, 10 de setiembre de 2007.

Aqui, tudo o que luz é ouro... ou oiro.

A1. Once Upon A Time (A Children's Tale); A2. Karintha; A3. Buttermilk Bottom; B1. Introduction; B2. Tokalokaloka Part One; B3. Tokalokaloka Part Two; B4. Tokalokaloka Part Three; B5. Ending.
Quem conhece bem a música de Marion Brown ponha o dedo no ar! Pois é, muito poucos… é natural. Brown gravou para editoras que não valorizaram o seu talento, como era justo e devido. Archie Shepp e John Coltrane conheceram a sua chama, e mesmo assim… Por outro lado, boa parte da sua discografia está esgotada e sem perspectivas de vir a deixar de estar, enquanto Brown vive, é claro, porque uma vez morto, não faltarão as reedições e as comemorações. O costume. Geechee Recollections faz parte de um tríptico que inclui obras como Afternoon of a Georgia Faun e Sweet Earth Flying. É Marion Brown pós-ESP, sempre curioso e interessado nas estéticas próximas das da Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM). Outra onda, outro vibe, mais relaxado e virado para as coisas do espírito. Da grande Escola de Chicago chegam Wadada Leo Smith (trompete) e Steve McCall (bateria e percussão), irmanados com Jumma Santos, William Malone e Bill Hasson, que recita poemas de Jean Toomer. Música para um bom sofá meditativo, ao cair da tarde.
Danadinho, este Adam Lane… sangue fresco na guelra, tensão, calor, músculo, transpiração, carne viva…o som de contrabaixo de Adam Lane é outra coisa. Muitos tocam bem, mas não há outro a soar assim. Em parte, porque transpõe para o jazz o mesmo tipo de energia que se pode encontrar nalgum rock, ele que é omnívoro no gosto e no modo processar musicalmente todas as influências. Outra virtude é a de ser capaz de contagiar e encher de entusiasmo veteranos como Vinny Golia e Paul Smoker, para dar uma ideia do poder de persuasão que a sua música pode ter sobre todos, iniciados e mestres. É caso para parar e ouvir com atenção. A não ser que se tenha um preconceito qualquer que impeça alguém de chegar perto da chama... Mas isso é outro problema. Adam Lane, contrabaixo, composições e arranjos, Vinny Golia, saxofone tenor, soprano e flauta (não creditada), um dos melhores trompetistas improvisadores de sempre, o incrível Paul Smoker, e o habitual Vijay Anderson (bateria), membro da Full Throtle Orchestra de Adam Lane. Além do trabalho com a Full Throtle, a saga da exploração de diferentes combinações pessoais e instrumentais que Lane tem vindo a experimentar de há uns anos a esta parte continua a dar resultados compensadores. Ao trio que deu brado nas duas memoráveis sessões CIMP (Zero Degree Music e Music Degree Zero), por alturas da mesma digressão de 2005, juntou-se Paul Smoker por uma noite, a derradeira da digressão, com o efeito multiplicador que se podia imaginar. Além da marcação energética de Adam Lane e Vijay Anderson, as erupções de Smoker e Golia neste concerto no Soundlab, clube de Buffalo, ao norte do estado de Nova Iorque, ficam para a história. A pequena, que lá se ouviu em directo, e a grande, que se vai escrevendo com discos electrizantes como este Buffalo. Tempo bem empregue. Edição de 2007 da Cadence Jazz Records.

Ahmad Jamal (piano); Jamil Sulieman (contrabaixo); Frank Gant (bateria)
A1. Have You Met Miss Jones (3:40) A2. Poinciana (9:08) A3. Lament (8:03)
B1. Call Me (4:51) B2. Theme From Valley Of The Dolls (4:19) B3. Frank's Tune (5:31) B4. How Insensitive (5:55)

Pete Gershon (à esquerda na foto), director da mui apreciada SIGNAL TO NOISE, fala brevemente a Eric Wilson, do Houstonist, edição online, sobre a melhor revista de música improvisada e experimental que se publica. Já saiu o número 47, Outono de 2007.

Andrew Hill, Animal Collective, Khate, The Terminals, Chicago Drone ...
No topo da pilha de discos que encontrei à minha espera na caixa do correio, figurava a muito aguardada reedição de um clássico moderno do pianista Bud Powell (1924-1966), gravado ao vivo em 1961, no Blue Note Cafe, em Paris. Isto é de ir às lágrimas… Powell, com Pierre Michelot (1928-2005) contrabaixo, e Kenny Clarke (1914-1985) bateria. Neste período, são conhecidas as desventuras mentais de Powell, muito ligadas à rigorosa dieta quer fazia, entremeada de copos e opiáceos, mistura que lhe subiu literalmente à cabeça e o arredou do piano antes e depois da data de Live at the Blue Not
e Café. Nunca mais o pianista acertou o passo com a vida e viria a morrer 5 anos depois. Há quem prefira o Powell inicial, como também há quem goste mais dele bastante usado. Eu prefiro ambos, para dizer a verdade. Nesta altura, em Paris, 1961, Powell aparece enxuto, tanto física e psiquicamente, as mãos voam-lhe sobre o teclado, cheio da verve bop de que foi um dos esteios desde o início do movimento, bem apoiado pela fenomenal secção rítmica formada por Michelot e Clarke, dois maiorais do swing moderno. O disco, reedição do LP Esp-Disk de outrora, em versão revista e aumentada, espraia-se por generosos 69 minutos (There Will Never Be Another You; Thelonious; 'Round Midnight; Night in Tunisia; Lover Man, etc, num total de uma dúzia de temas) e vai beber aos standards do American Song Book, e a Thelonio
us Monk, Dizy Gillespie, Sonny Stitt e Charlie Parker, entre outros. A edição, com som restaurado e notas de Russ Musto, inclui quatro temas além dos que originalmente a compunham. Neles participa o grande saxofonista tenor da West Coast, Zoot Sims (1925-1985), distinto continuador de Lester Young, que se juntou ao trio no Blue Note Café em Janeiro de 1961, meses antes de ocorrer o registo principal. Zoot está aqui como peixe na água. Enriquece a música com o seus característicos lirismo e swing de marca superior. Se tal fosse possível, beijaria as mãos da Esp-Disk, pela ideia luminosa (mais uma) de reeditar Live at the Blue Note Café, Paris 1961, a bem de todos nós. Saiu a 24 de Setembro.

Número de Outubro da All About Jazz New York, 48 páginas... On the Cover: MARTIAL SOLAL - Interview: LARRY RIDLEY - Artist Feature: TED DANIEL - Label Spotlight: ANZIC RECORDS - Club Profile: SPACE GALLERY - Encore: KARIN KROG - Lest We Forget: OSCAR ALEMAN - Megaphone: RUFUS REID - Special Feature: ORRIN KEEPNEWS. E dezenas de críticas de discos, sítios para assistir a concertos, etc.

3 de Outubro, é dia de aniversário do grande Von Freeman (n. 1922). Happy Birthday, Mr. 'Vonski' Freeman!!! Vou ouvir The Great Divide à saúde do Papa de Chicago.

SUBSTRATUM (CIMP 359), apanha Stephen Gauci em trio com Michael Bisio e Jay Rosen, parceiros de outras sessões na CIMP e na Cadence Jazz Records. Bob Rusch, o produtor, procura rentabilizar a presença dos músicos que convida para gravar na sua Spirit Room. E faz muito bem, como se pode perceber através da sequência de sessões em que um mesmo músico pode aparecer, agora como líder, a seguir como sideman. Esta é uma solução que, além de interessar ao negócio do produtor, é vantajosa para os músicos, que assim vêem ampliadas as oportunidades de registar e divulgar o seu trabalho, e ao mesmo tempo interessante para o ouvinte, pois permite abrir novas perspectivas de audição. Foi assim que, na mesma tarde, para o álbum CIMP 360: Circle This, num momento Gauci apareceu a fazer par com o saxofonista Avram Fefer no Michael Bisio Quartet; e, daí a umas horas, Bisio passava à posição de sideman, com Gauci a liderar o mesmo grupo, embora sem Avram Fefer, e a contribuir com onze composições originais, entre tempos lentos e médios, para Substratum. Dois coelhos de uma cajadada, portanto.
Stephen Gauci, ainda mal entrado nos 40, tem um som de tenor robusto, quente e com arestas por limar, capaz de agradar a ouvidos adeptos de sonoridades mainstream, como aos que anseiam por ir mais além, pelo risco da aventura. Antigo aluno de Joe Lovano e George Garzone, Gauci tem tido uma actividade febril nos últimos anos, desdobrando-se em concertos e gravações. Falta-lhe ainda o reconhecimento do seu valor por parte do público e da crítica, o que já está a começar a acontecer. Note-se que, além deste grupo, Gauci, que já andou ao lado de Joe McPhee, Sabir Mateen, Daniel Carter e Tony Malaby – para citar apenas expoentes da mesma disciplina – tem estado a trabalhar no duro com outros trios, um deles inclui Reuben Radding e Todd Capp; outro, Jeremy Carlstedt e Todd Nicholson; e ainda com um quarteto no qual figuram Nate Wooley, Ken Filiano e Lou Grassi.
Ideias não faltam a este saxofonista de Brooklyn, Nova Iorque, assim como uma apurada noção do tempo e do espaço para as pôr em execução. Admiro a sua capacidade de dizer de si, agora com suavidade, a seguir em explosões de energia, síncopes, silêncios, frases curtas e incisivas entrecortadas por outras mais longas, a puxar à introspecção. Bisio e Rosen andam sempre por perto, criam tensão e respondem às inventivas do líder. De swing irresistível, circulam à volta e ao lado do tenor, sem se atravessarem à sua frente. Assinaláveis no som do trio são as inesperadas mudanças de velocidade, a elasticidade no traçado das vias principais e secundárias, a agilidade e a cobertura de toda uma vasta paleta emocional. Estas características, associadas ao apurado sentido de composição e à expressividade de Stephen Gauchi dentro e fora dos limites formais das estruturas, fazem de Substratum outro dos grandes CIMP deste ano.

Arthur Doyle plus 4 - Alabama Feeling

Novas na
NotTwo Records, de
Marek Winiarski, o nosso homem em Cracóvia, Polónia.

O Peter Brötzmann’s Chicago Tentet saiu há pouco tempo com dois volumes das suas American Landscapes (Okka Disk), discos que não desmerecem a atenção do público, tanto dos aficionados da brotzmania, como dos que ainda não descobriram o que de mais parecido há com uma erupção vulcânica, agora que se celebram os 50 anos da dos Capelinhos. O all star de Brötzmann, que está agora a comemorar 10 anos (é verdade, já lá vai quase uma década sobre o triplo The Chicago Octet/Tentet, que a Okka editou em 1998) agrupa improvisadores de ambos os lados do Atlântico (Chicago), com predominância, deste lado, dos nórdicos. Razoavelmente estável, a formação tem sofrido uma ou outra mudança de titularidade. Relativamente aos últimos desenvolvimentos do ensemble, no que diz respeito a American Landscapes, 1 e 2 – duas sessões ao vivo gravadas no escocês Stirling Jazz Festival, em 2006 – entrou o trombonista alemão Johannes Bauer para o lugar que costumava ser de Jeb Bishop, e o baterista Paal Nilssen-Love para o de Hamid Drake. Quanto ao resto do grupo, estão presentes os sopradores Peter Brötzmann, Mats Gustafsson, Ken Vandermark, Joe McPhee (saxofones, trompete e clarinete) e Per-Ake Holmlander (tuba), o violoncelista Fred Lonberg-Holm, o contrabaixista Kent Kessler, e Michael Zerang, na bateria e percussão. As duas Landscapes, de 44’ e 52’, respectivamente, foram executadas sequencialmente no mesmo concerto, dividido em dois sets. São trabalhos orquestrais improvisados de grande fôlego, de tal modo que ouvi-los de seguida é empreendimento que requer algum treino. O ouvinte batido neste tipo de instalações consegue reconhecer quem está a tocar o quê com relativa facilidade. Nada na música do Chicago Tentet é escrito, tudo acontece de modo espontâneo a partir da interactividade que se gera entre os músicos e destes com o público. Não é fácil suportar as descargas do tutti, quando metade do grupo sopra a plenos pulmões e a percussão lembra noites de trovoada a valer. Contudo, nem só de catarse e energia crua vive o Tentet: momentos há de relativa quietude contemplativa, como acontece nos crescendos e decrescendos, nos interlúdios entre secções, variações dinâmicas presentes nos diálogos entre saxofones e entre sopros e cordas, e na preparação de nova investida, até que a mais elevada densidade instrumental se resolve no mais puro refinamento sonoro. Um bom exemplo, entre outros, encontra-se ao minuto 42 de Landscapes 2 – a subida (ou descida) da mais infernal turbulência à delicadeza lírica e quase celestial (é autêntico!) das cordas de Kessler e Lonberg-Holm, autêntico refrigério para a alma, que se compraz em movimentos alternados de dor e de prazer.

Agora, que passou a ter periodicidade irregular, a ex-mensal PARIS TRANSATLANTIC MAGAZINE acaba de sair com um número novo. Em boa hora Dan Warburton e companhia (Clifford Allen, Lawrence English, Massimo Ricci, Nate Dorward, e Guy Livingston) voltaram às lides.

No Avant Garde Project (AGP 69 - flac), Improvisationen, disco de 1968 do sexteto italiano Gruppe Nuova Consonanza: John Heinemann (violoncelo, trombone); Walter Branchi (contrabaixo); Egisto Macchi, Mario Bertoncini (percussão); Franco Evangelisti (piano) e Ennio Morricone (trompete). Cinco temas, originalmente editados em LP pela Deutsche Grammophon. A última faixa da sequência apresentada pelo AGP (cadenza), retirada do Musikrat - Zeitgenossische Musik in der Bundesrepublik Deutschland, é um tema de free jazz alemão dos anos 60. Tocam Manfred Schoof (trompete); Gerd Dudek (saxofone tenor); Jacky Liebezeit (flauta e bateria); Alexander von Schlippenbach (piano); Buschi Niebergall (contrabaixo) e Sven-Ake Johansson (bateria). Manfred Schoof: "‘cadenza’ symbolizes the pre-eminence of playing. Our ability to play becomes a force which imparts form. We have time and a chance to play: this makes a piece possible.In fact, ‘cadenza’ (8'45) is a multi-section jazz process which not only gives the musicians a chance to play solo cadenzas but is also articulated formally by a recurrent complex of motives and a frequently-cited chord sequence”.

Steve Lacy 6, We See - Thelonious Monk Songbook.
Steve Lacy (saxofone soprano), Steve Potts (saxophones alto e soprano), Hans Kennel (trompete e fliscórnio), Sonhando Estwick (vibrafone), Jean-Jacques Avenel (contrabaixo) e John Betsch (bateria). Uma malha bestial de Mr. Lacy, gravada em 1992 e editada pela HatOLOGY 10 anos mais tarde. O permanente regresso à obra de Thelonious Monk, que Lacy levou uma vida inteira a investigar a partir de diferentes ângulos e perspectivas. Desta vez, o veículo é uma formação fora do comum para os padrões lacyanos, que inclui um trompetista e um vibrafonista – a mudança de estratégia e de contexto que Steve Lacy encontrou para reelaborar sobre o material de Monk, de cuja essência está mais próximo que qualquer outro músico. Memórias vão e vêm, de Enrico Rava e Don Cherry, para Hans Kennel; de Milt Jackson para Sonhando Estwick. Tempos e modos diferentes, outras imagens e reflexos de Monk e Lacy. Além dos temas em sexteto (We See, Evidence; Misterioso; Well, You Needn't e Hanky-Panky), menos usual que os solos de saxofone soprano, tantos foram os que Lacy trabalhou na abordagem à composição do pianista (Reflections; Monk’s Mood), é o trio de soprano, contrabaixo e bateria (Shuffle Boil), o dueto de sax soprano e bateria (Thelonious), o solo de contrabaixo (Eronel) e o dueto Lacy-Potts em saxofone soprano (Ruby, My Dear). O programa de We See (Thelonious Monk Songbook) fecha com Hanky-Panky, composição do próprio Steve Lacy, a síntese do olhar de um mestre sobre a obra de outro. Na distribuidora Suiça DiscPlus a edição de 2002, de que foram tirados 3 000 exemplares, custa a módica quantia de € 6,00. A capa do disco mostra uma fotografia de Monk e Lacy ao vivo em Nova Iorque, tirada por Mili Rosenblatt em 1960. Excelente para manhãs frescas, com promessas de chuva.